Rule of Rose (Sony Playstation 2)

Há uns meses atrás fui desafiado pelos meus colegas do podcast The Games Tome na nossa rubrica Backlog Battlers para jogar o Rule of Rose, um survival horror da PS2 que ficou infame pelas alegações de conter conteúdo de violência e erotismo infantil, o que fez soar toda uma série de alarmes antes do seu lançamento, levando a que o jogo acabasse mesmo por ser banido no Reino Unido pouco depois do seu lançamento. Isso tornou as versões britânicas do jogo bastante raras e toda essa infame história acaba também por se alastrar às restantes versões europeias do jogo, cujo preço também tem vindo a subir em flecha nos anos seguintes. A minha versão (francesa) foi comprada na vinted algures em Maio deste ano. Ficou-me por cerca de 50€, depois de ter lá vendido umas quantas coisas repetidas. Poderão assistir ao vídeo onde falo um pouco deste jogo aqui:

Bom, é difícil escrever sobre a história deste jogo visto ser tão única e por vezes algo desconcertante, mas digamos que anda à volta da jovem Jennifer e dos sádicos colegas do orfanato onde cresceu. Estes formaram um clube aristrocático com vários rankings sociais onde practicamente toda a gente é nobreza excepto a Amanda por ser gordinha e claro, a Jennifer, que está no fundo da escada social e é frequentemente vítima de bullying e humilhações por parte dos seus colegas. O clube aristrocático tem também uma série de regras, onde uma vez por mês os seus membros devem procurar um certo objecto para oferecer ao clube e a primeira vez que temos de o fazer é uma borboleta. Bom, digamos então que o jogo irá estar dividido ao longo de vários capítulos que decorrem ao longo de vários meses do ano de 1930 e é frequente a narrativa andar para trás e para a frente no tempo. Cada capítulo tem um certo tema, muitos deles inspirados nos contos clássicos dos irmãos Grimm e à medida que vamos jogando vamos descortinando um pouco mais do que se passa naquela sociedade insana e o passado de Jennifer.

Jogo com caixa e manual

Curiosamente achava que o jogo se passaria todo no orfanato, mas a maior parte da história é mesmo passada a bordo de um grande dirigível, onde o orfanato foi convidado a fazer parte da sua viagem inaugural. A jogabilidade é então a típica de um survival horror desta geração, onde teremos de explorar muito bem os cenários à nossa volta, encontrar chaves que nos desbloqueiem certas zonas, interagir ocasionalmente com outras personagens e claro, combater criaturas macabras. A parte da exploração é toda ela enriquecida com o facto de desde cedo encontrarmos o Brown, um cão da raça labrador que nos irá acompanhar ao longo de practicamente todo o jogo e a sua ajuda será precisosa. Isto porque os cães têm um excelente sentido de faro e para resolver muitos dos puzzles que envolvam tarefas do género “encontra a pessoa X ou o objecto Y” teremos de obrigar o cão a farejar um objecto que lhes esteja relacionado e depois apenas temos de o seguir pelos cenários até que este encontre o seu alvo. Estas mecânicas de jogo podem também serem utilizadas para encontrar toda uma série de objectos secretos, desde comida que nos regenere vida, coleccionáveis e muitos outros itens que poderão posteriormente serem trocados na sede do clube e que nos desbloquearão algum conteúdo extra, como armas poderosas ou roupas alternativas.

O pior deste jogo é mesmo o combate que não é nada bom. Felizmente são poucos os momentos onde somos mesmo obrigados a fazê-lo!

Infelizmente no entanto o combate não é o melhor. Também tal como muitos survival horrors desta época para atacar é necessário entrarmos numa postura de ataque (R1), para depois pressionar o botão de acção para atacar (X). Infelizmente no entanto, Jennifer é uma jovem rapariga, pelo que os seus ataques não são lá muito fortes. Mas o pior é mesmo quando entramos num postura de ataque ficamos completamente trancados no movimento, sendo impossível corrigir a nossa direcção (caso os ataques falhem o alvo) a menos que entremos novamente na postura normal, corrigir posição e activar a postura de ataque novamente. Ora enquanto fazemos isto seguramente já sofremos dano e como devem calcular os itens regenerativos não são tão abundantes assim (na verdade até podem ser se utilizarmos o Brown para os procurar regularmente). Para além disso, o próprio Brown nos pode ajudar no combate. Não podemos ordená-lo para atacar algum inimigo (como acontece no Haunting Ground por exemplo), mas o cão poderá morder e segurar temporariamente algum inimigo para nos dar mais algum espaço. Mas o cão não é invencível e se sofrer demasiado dano fica inanimado, onde teremos de lhe dar algum item regenerativo também (comida de cão) e esses sim, são mais raros. Ora tudo isto resultou no seguinte: apenas lutei quando a isso era mesmo obrigado, até porque quando não somos, os inimigos tipicamente fazem respawn constante, então acaba por ser bem mais proveitoso fugir.

O nosso companheiro Brown pode ser usado para procurar itens escondidos ao longo do jogo, muitos deles que nos darão acesso a alguns extras

A nível audiovisual este é no entanto um jogo muito interessante. Apesar da originalidade de grande parte do jogo se passar a bordo de um dirigível, também peca por os cenários aí não serem tão variados quanto isso. As criaturas estranhas que nos atacam não são propriamente assustadoras, mas todo o jogo tem uma atmosfera pesada, com cenários escuros acompanhados de uma música ambiental repleta de suaves, porém bastante melancólicas e por vezes sinistras, melodias de piano e/ou violino, o que acaba por resultar muito bem até tendo em conta que o jogo se passa em 1930. A acompanhar tudo isto vamos ter também algumas cut-scenes CGI muito boas para a época e repletas de cenas algo perturbadoras!

Foi por cenas como esta que o jogo acabou por ser banido nalguns locais

Portanto este Rule of Rose acaba por ser um jogo bastante interessante, com uma componente visual forte e muito bem definida pela Punchline que, com um catálogo de jogos bem reduzido antes de produzirem este Rule of Rose, conseguiram criar um jogo bem interessante, apesar dos seus defeitos. O maior defeito para mim é o sistema de combate e se calhar fiquei também um pouco decepcionado por todo o hype que se gerou em volta do jogo e do seu cancelamento no Reino Unido. Consigo entender bem o porquê de alguns alarmes terem soado na Europa em 2006, mas apesar de perturbador, o jogo não tem nada que seja verdadeiramente escandaloso e que justificasse o seu banimento no UK.

L’Integrale Sherlock Holmes (PC)

Tenho um carinho especial pela série Sherlock Holmes do estúdio Ucraniano Frogwares, particularmente pelos seus jogos de aventura. Apesar dos primeiros títulos não serem particularmente impressionantes a nível audiovisual, o setting victoriano e todas as mecânicas de jogo de detective que incluiram nos mesmos, desde análise forense a raciocínios de dedução para encontrar os culpados sempre foram aspectos que me agradaram. Então lá procurei arranjar forma de ter os jogos em formato físico na colecção. Comprar cada título separadamente era uma opção bastante válida, mas decidi antes arranjar uma compilação que incluísse o máximo de lançamentos possível. E uma das coisas que me surpreendeu foi o facto de existirem imensas compilações, todas elas lançadas quer pela Focus Interactive, Mastertronic ou Daedalic Entertainment, dependendo do país e com um número variável de jogos. Apostar numa compilação em inglês seria o ideal, o que é o caso das lançadas pela Mastertronic, mas depois de apanhar esta “L’Integrale Sherlock Holmes” a 3€ na vinted não houve grande margem para dúvidas. Visto que tenho todos estes jogos no steam, não cheguei a jogá-los por aqui, mas suspeito que os mesmos estejam todos em francês.

Compilação com sleeve exterior de cartão, caixa, manual, papelada e 3 discos!

Esta compilação em particular traz todos os Sherlock Holmes de aventura até ao Versus Jack the Ripper de 2009, excluindo portanto os jogos de hidden object (que estão incluídos noutras compilações mais completas). Podem então contar com os seguintes jogos nesta compilação: Sherlock Holmes: The Mystery of the Mummy, que possui algumas limitações técnicas que o inibiam de correr em condições em sistemas operativos recentes, Sherlock Holmes: The Case of the Silver Earring, Sherlock Holmes: The Awakened (que não sei se está aqui presente na sua versão remastered lançada um ano após o lançamento original), Sherlock Holmes Versus Arsène Lupin (também conhecido como Nemesis) e finalmente o Sherlock Holmes Versus Jack the Ripper.

Paperboy (Sega Mega Drive)

Já há algum tempo que não escrevo nada para o blogue (faria amanhã uma semana) mas eu não tenho estado parado. Depois de ter finalmente terminado o Shining Wisdom e rejogado o Super Mario RPG, comecei entretanto mais um jogo consideravelmente longo que espero terminar algures nesta ou na próxima semana. Entretanto, com as festividades da passagem de ano não joguei muito nos últimos dias, confesso. Pelo que aproveito para publicar agora uma super rapidinha à versão Mega Drive do Paperboy, cuja versão Master System já cá trouxe no passado. O meu exemplar veio num lote considerável de jogos e consolas que comprei recentemente a um particular.

Jogo com caixa

Bom, este é na sua essência o mesmo jogo que já cá trouxe no passado para a Master System. Controlamos um jovem rapaz que entrega jornais em “pacatos” bairros residenciais, ao percorrer as suas ruas de bicicleta. A ideia é atirar os jornais para as casas dos subscritores (paredes coloridas), com pontos extra a serem atribuídos se o jornal for atirado directamente para a sua caixa do correio ou tapete de entrada. Se falharmos uma entrega ou partirmos uma janela, esse residente cancela a sua subscrição. As casas escuras são de não subscritores e aí teremos de fazer precisamente o contrário: acertar com jornais nas suas janelas para que estes assinem o jornal! A lógica do videojogo deve ser que é mais barato manter uma subscrição do jornal do que estar constantemente a substituir vidros de janelas…

Antes de começar o jogo podemos escolher o nível de dificuldade

Tal como a versão Master System (e presumo que o original arcade seja idêntico) poderemos optar por distribuir o jornal numa de 3 ruas: Easy Street, Middle Road e Hard Way, sendo que cada uma possui um grau de dificuldade diferente. Independentemente da escolha, iremos encarar inúmeros perigos que nos devemos desviar sob o risco de perder uma vida. Desde miúdos a andar de triciclo, motoqueiros, homens a fazer obras na estrada, outros carros ou até a morte são apenas alguns dos obstáculos que teremos pela frente e cujos surgem no ecrã com padrões de movimento algo difíceis. Podemos no entanto atrasá-los ao mandar-lhes com um jornal para as fuças! Temos é de ter em atenção o número de jornais que temos disponíveis para atirar, visto que os seus números são limitados, se bem que poderemos apanhar mais durante os níveis. No fim do percurso temos uma espécie de pista de obstáculos onde poderemos ainda ganhar mais pontos. De resto esta versão MD tem um modo para dois jogadores onda cada um joga à vez.

O que não faltam aqui são obstáculos para nos desviarmos!

Visualmente esta é provavelmente das melhores versões deste jogo, o que não quer dizer muito visto este Paperboy ser um título originalmente lançado nas arcades em 1984. As casas, inimigos e obstáculos estão bem detalhados, pelo menos considerando a versão original. A música e efeitos sonoros sinceramente não os acho nada de especial, embora esta versão da Mega Drive possua também algumas vozes digitalizadas, mas que infelizmente também soam algo abafadas nesta versão.

No fim de cada nível temos um trilho de obstáculos onde, com jornais ilimitados, poderemos ganhar muitos mais pontos

Portanto esta versão do Paperboy acaba por ser bastante sólida (e desafiante!) para quem gostar do lançamento original. Confesso que apesar do desafio e de ter alguns momentos bem humorados como a morte à espreita ou o facto de podermos impedir que ladrões assaltem casas ao atirar-lhes com um jornal, este não é propriamente um jogo que me tenha fascinado.

Super Mario RPG (Nintendo Switch)

Em jeito de terminar o ano de 2023, decidi jogar mais um título deste ano, desta vez algo bastante melhor que o Gollum com o qual estreei a minha Xbox Series X. Mas apesar de o lançamento da Switch ser deste ano, na verdade este é o remake de um dos muitos RPGs da Super Nintendo, tendo sido desenvolvido originalmente pela própria Square Soft em cooperação com gigante nipónica. Lançado originalmente em 1996, infelizmente é um jogo que nunca chegou a ser lançado em solo europeu, pelo que quando a Nintendo anunciou este remake algures neste ano, fiquei muito contente pois finalmente o poderia adicionar à colecção. E que prazer me deu voltar a jogar esta aventura, visto que já tinha terminado o original, através de emulação há mais de 20 anos atrás! Este remake ficou a cargo da Artepiazza, estúdio japonês também responsável por várias conversões e remakes de títulos de séries como Dragon Quest ou Romancing SaGa. O meu exemplar foi comprado nas campanhas de leve 3 pague 2 da Worten na última black friday. Comprei-o ainda com o preço de pré-reserva, pelo que o jogo me ficou a cerca de 35€.

Jogo com caixa

A história leva-nos uma vez mais ao Mushroom Kingdom, onde a princesa Peach foi raptada por Bowser e Mario, já no castelo do vilão, combate Bowser uma vez mais para a resgatar. Este segmento de jogo serve como uma espécie de tutorial para nos habituarmos ao sistema de combate e estas primeiras lutas são bastante simples. Bowser é uma vez mais derrotado mas, quando estávamos prestes a salvar a Peach, eis que o castelo é invadido por uma espada gigante que o atravessa de uma ponta à outra, com Mario, Bowser e Peach a serem disparados pelo ar em direcções distintas. Lá teremos de procurar a princesa novamente e descobrir o que raio se passou ali. Eventualmente vamos saber que o mundo de Mario foi invadido pelo gangue dos Smithy’s, inimigos na forma de armas e teremos de os derrotar, assim como coleccionar 7 estrelas que estão por aquele mundo espalhadas.

Esta primeira luta contra o Bowser é um clássico!

E este é então um RPG por turnos à moda antiga, mas com toda uma série de particularidades que o destacavam dos demais. Os inimigos estão presentes no ecrã, pelo que os combates apenas são despoletados quando entramos em contacto com os mesmos. Começamos inicialmente com Mario, mas iremos entretanto fazer mais alguns amigos que irão acabar por entrar na nossa party, sendo alguns caras novas, outros bem conhecidas (mas nenhum é o pobre Luigi). Durante os combates poderemos atacar, usar habilidades especiais, usar itens ou outras acções como defender ou tentar fugir de alguma batalha. Um detalhe interessante é que o jogo utiliza algumas das mesmas mecânicas que viriam mais tarde a serem reaproveitadas na série Mario & Luigi, onde para causar mais dano teremos de pressionar o botão A no momento certo, sendo também possível anular o dano sofrido por alguns ataques inimigos da mesma forma. As técnicas especiais/magias requerem também que pressionemos alguns botões adicionais para surtirem mais efeito! De resto, ainda relativo ao sistema de batalha, só de referir que a nossa party activa é constituída por 3 elementos, sendo que o Mario tem de estar sempre presente. Ora como vamos ter 5 elementos no total, o jogo permite-nos, sem qualquer penalização, que troquemos de membros em plena batalha!

Os vilões desta aventura são os Smithys, inimigos na forma de armas como espadas, machados ou arcos

Outras mecânicas do mundo Mario não foram esquecidas, como os diversos itens familiares ou a exploração, com alguns elementos muito ligeiros de platforming. No primeiro caso, itens como cogumelos ou flores são recorrentes e os primeiros servem para recuperar pontos de vida, enquanto as flores recuperam os MP – que por sua vez são partilhados entre todos. Tal como nos jogos de plataforma, vamos poder encontrar vários blocos com pontos de interrogação que contêm moedas ou itens e muitos destes podem até ser secretos e invisíveis! Um item que também podemos apanhar enquanto exploramos são as estrelas que nos conferem invencibilidade temporária. Enquanto o efeito da invencibilidade estiver activo, todos os inimigos com os quais entramos em contacto são imediatamente derrotados e os seus pontos de experiência atribuídos!

Uma das melhorias de qualidade de vida deste remake é a possibilidade de nos tele-transportarmos para várias áreas previamente visitadas

Portanto este é um RPG algo simples nas suas mecânicas, ideal para principiantes! O facto de a pool de mana ser partilhada entre todas as personagens, a possibilidade de trocarmos de personagem a qualquer momento por alguma suplente ou mesmo o facto de os pontos de experiência serem partilhados entre todas as personagens, mesmo as que não estejam activas, são mecânicas que simplificam as coisas consideravelmente. A narrativa é também bastante ligeira e repleta de algum bom humor, algo que transitou também para as restantes séries RPG do universo Mario, como Paper Mario ou Mario & Luigi. À medida que vamos explorando, iremos ter também acesso toda uma série de minijogos ou sidequests opcionais que podem ser revisitados a fim de obter melhores recompensas! A Nintendo incluiu algumas novidades neste remake como por exemplo a inclusão de novos golpes poderosíssimos e que utilizam as 3 personagens activas em simultâneo, um bestiário, um modo de dificuldade ainda mais generoso ou algum conteúdo post-game, como a inclusão de vários bosses novos e bem mais desafiantes.

O contador do canto inferior esquerdo vai incrementando à medida em que vamos causando dano extra (ou negar dano sofrido) com os inputs adicionais nos combates. Quando chegar a 100% poderemos desbloquear um poderoso ataque a 3.

No que diz respeito aos audiovisuais, a primeira coisa que salta à vista é a perspectiva isométrica com que o jogo se apresenta, tal como no original da Super Nintendo. Em jogos que não tenham uma componente de plataformas muito forte, a perspectiva isométrica é uma boa alternativa de representar mundos numa perspectiva tridimensional e que na Super Nintendo funcionava muito bem. Existem no entanto alguns (felizmente poucos) segmentos com platforming mais exigente e aí a perspectiva isométrica já nos complica um pouco as coisas. Para a Switch, os gráficos foram todos refeitos mantendo toda a identidade dos originais e o jogo apresenta-nos um mundo muito charmoso e com cenários bastante variados entre si. Seria interessante, tal como em vários outros remakes de jogos retro disponíveis no mercado, transitar entre os gráficos originais e os do remake, mas infelizmente isso não existe. Temos no entanto a possibilidade de, nas opções, escolher entre a banda sonora original e a nova, sendo que ambas são bastante agradáveis.

Visualmente o jogo está muito bonito e sendo tudo numa perspectiva isométrica a Switch aguenta bem.

Portanto este Super Mario RPG é um excelente jogo, sendo um RPG algo simples nas suas mecânicas e ideal para iniciantes no género. Mas mesmo para quem for mais experiente, não deixa de ser uma aventura a jogar, pois o jogo tem todo aquele charme do universo Mario e isso foi trazido para um RPG de uma forma brilhante. O este remake foi uma surpresa que a Nintendo anunciou ainda em Junho deste ano e que me apanhou completamente desprevenido. Visto que o lançamento original da SNES nunca chegou a ser lançado oficialmente cá (foi uma das razões pela qual comprei uma Super Nintendo Mini), o original de SNES era um jogo muito cobiçado e mesmo no próprio mercado norte-americano os exemplares que existem têm vindo a subir bastante de preço, pelo que fiquei bastante contente com este lançamento. Venha o Earthbound!

Shining Wisdom (Sega Saturn)

Vamos voltar agora à Sega Saturn para aquele que foi o seu primeiro jogo da série Shining. Lançado em 1995 no Japão e no ano seguinte no Ocidente, este Shining Wisdom, ao contrário do primeiro jogo da série (Shining in the Darkness) que é um dungeon crawler na primeira pessoa e de todos os Shining Force que haviam saído até ao momento (RPG estratégicos) este Shining Wisdom é um jogo de acção/aventura com muitas semelhanças aos Zelda clássicos. Infelizmente não o achei muito bom, mas já lá vamos. O meu exemplar foi comprado no ebay há uns anos por cerca de 70 libras, estando completo e em bom estado.

Jogo com caixa e papelada

A história decorre alguns anos após os acontecimentos do Shining Force II, mas num outro continente completamente distinto, a terra de Palacia. Nós controlamos Mars, descendente de um herói que outrora defendeu o reino de Odegan das investidas de um poderoso dragão. Mars é também um ágil guerreiro que está prestes a começar o seu novo trabalho de guarda real lá do palácio. E justamente no seu primeiro dia de trabalho, o palácio é invadido pelas forças de Pazort, um elfo das trevas que rapta a princesa Satera. Naturalmente que a missão de resgatar a princesa cairá sobre nós, mas rapidamente nos apercebemos que algo pior há-de surgir e Pazort não raptou a princesa por acaso.

A cutscene de abertura é de um CGI ainda muito primitivo, mas ao menos o jogo começa como qualquer Shining clássico, com o jogador a ser recebido por alguém que nos prepara para a aventura

Na sua essência este é uma espécie de clone de Zelda na medida em que temos um mapa considerável para explorar, repleto de dungeons com um boss no final e, tal como na popular série da Nintendo, iremos encontrar ao longo da aventura toda uma série de itens e equipamento que nos darão habilidades distintas, habilidades essas que serão necessárias para conseguir atravessar as ditas dungeons, alcançar novos locais e descobrir muitos dos segredos que o jogo tem escondidos. O maior problema aqui está nos controlos e a maneira como estes estão implementados faz-me suspeitar que este Shining Wisdom terá sido inicialmente preparado para ser um lançamento de Mega Drive ou Mega CD, tendo posteriormente transitado para a Sega Saturn. Isto porque apenas 3 dos 6 botões faciais do comando da Saturn são utilizados e os botões de cabeceira apenas são usados nos ecrãs de opções. Então, o botão A serve para mapear toda uma série de itens utilitários que venhamos a encontrar/comprar ao longo do jogo, como é o caso das ervas que nos restaurem energia ou as típicas angel wings que nos transportam de volta para o início da dungeon onde estamos. Uma vez tendo um desses itens mapeados, basta pressionar o A durante o jogo para o consumir. O botão C tem uma funcionalidade similar mas para o equipamento. Inicialmente este botão está assignado para ser usado com a espada, mas à medida que vamos avançando no jogo iremos encontrar muitas mais peças de equipamento que poderão ser mapeadas para o mesmo botão, como é o caso de botas que nos deixem deslizar por passagens estreitas, outras que nos permitem saltar, outras com a habilidade de criar ondas de choque capazes de destruir blocos frágeis, entre muitas outras possibilidades.

Isto não é um jogo de corridas. A transmissão é a forma como podemos fazer com que Mars acelere e mantenha a sua velocidade.

Então e o B? O B é usado para aumentar a nossa velocidade. Por defeito Mars caminha muito lentamente, então a Camelot achou boa ideia implementar esta mecânica onde teremos de pressionar o botão B várias vezes para que Mars se torne mais ágil (vemos a velocidade actual mesmo abaixo da nossa barra de vida) e uma vez com a velocidade desejada, teremos de manter o botão B constantemente pressionado para manter essa velocidade de cruzeiro. O problema? Basta sofrer dano para perdermos a velocidade que tínhamos e tendo em conta que os inimigos são bastante numerosos e a nossa espada tem um alcance ridiculamente curto, isto vai acontecer várias vezes. O Mars até pode dar encontrões nos inimigos para os matar e isso é uma técnica que aprendemos logo no início de jogo, mas tal também faz com que soframos dano, para além da habitual perda de velocidade. Os botões X, Y e Z têm também a mesma função do botão B. Ora este esquema da velocidade é então uma grande dor de cabeça e para além disso, termos todos os outros botões por usar é um crime. Por exemplo, ter de alternar constantemente entre a espada e um outro item que pode não ter propriedades de combate é uma chatice!

Os visuais 2D quase que evidenciam que o jogo outrora esteve a ser desenvolvido para a Mega Drive ou Mega CD, mas sinceramente eu gosto de pixel art.

Mas uma das razões pela qual os outros botões não têm melhor uso provavelmente prende-se ao sistema de magia. Também à medida que vamos explorando iremos encontrar uma série de medalhões mágicos e que nos conferem vários tipos de habilidades como dano elemental (fogo, gelo, electricidade) ou outros. A maneira como o sistema de magias está implementado é no entanto algo interessante. É que assignamos a magia ao botão B e, dependendo do equipamento que tivermos assignado ao botão C e também da velocidade a que nos movimentamos actualmente, o efeito mágico que resulta dali pode ser completamente diferente. Por exemplo, usando a magia do gelo em conjunto com as botas que destroem blocos frágeis atira fragmentos de gelo para todos os lados, capazes de congelar objectos ou zonas com água, permitindo assim que estas possam ser atravessadas livremente. Mas se utilizarmos a mesma magia com a espada, iremos então disparar projécteis de gelo. A velocidade com que nos estamos a movimentar no momento em que apertarmos o botão C define também a intensidade da magia. É portanto um sistema algo interessante por ser muito diferente do habitual, mas sinceramente também é desnecessariamente complicado.

A cidade é o “centro do mundo”, onde poderemos comprar provisões e gravar o nosso progresso no jogo, existindo no entanto algumas lojas secretas noutros locais e itens que nos permitam gravar o progresso em certas alturas.

A nível visual este até que é um jogo curioso, pois é todo ele em 2D, embora com um nível de cor e detalhe que seria muito difícil de reproduzir numa Mega Drive. As personagens têm todas aquele aspecto “super deformed” que os japoneses tanto gostam, ou seja, corpos pequenos e cabeças grandes, o que acaba por nem resultar assim tão mal quanto isso, dando sempre um aspecto cartoon ao jogo que acaba por se relacionar bem com a atmosfera do mesmo. Nada de especial a apontar aos efeitos sonoros e não existe qualquer voice acting. No entanto a banda sonora é muito boa, particularmente os temas que tocam nas florestas nas imediações da capital. Um detalhe interessante a referir é que a Sega of America não quis lançar o Shining Wisdom nos Estados Unidos, pelo que este acaba antes por sair lá pelas mãos da Working Designs, que já havia traduzido muitos RPGs para a Mega CD e Turbo CD e viria a traduzir mais uns quantos para a Saturn e PS1, embora nenhum dos seus lançamentos vieram a ser lançados cá, e este Shining Wisdom não é excepção. É que a parte curiosa é que esta versão europeia foi lançada pela Sega em território europei, não tendo nada a ver com a americana da Working Designs. A versão da Working Designs foi traduzida pelos próprios enquanto que a nossa foi traduzida pela Sega, sendo supostamente mais fiel ao script original.

Ao menos os diálogos mantêm todo o espírito desta série!

Portanto este Shining Wisdom confesso que foi um jogo que me desiludiu. Acho que seria um clone de Zelda bem competente se não tivessem havido algumas decisões de game design questionáveis, como a mecânica inútil de controlar a velocidade de Mars, a impossibilidade de equipar múltiplos equipamentos em botões que acabaram por não ter uso ou o sistema de magia que apesar de original é desnecessariamente complexo. Para além disso o próprio combate não é assim tão satisfatório quanto isso. Mas a Sonic! Software Planning ainda estava longe de atirar a toalha ao chão com esta série na Sega Saturn e tenho elevadas esperanças para os títulos que lhe sucederam.