Em Maio fui desafiado pelos meus colegas do podcast TheGamesTome para jogar este Soul Reaver, no âmbito da nossa rubrica Backlog Battlers, uma espécie de “clube de leitura” onde nos desafiamos uns aos outros a jogar títulos que temos em fila de espera nas nossas colecções. Como é habitual quando cá trago um jogo desse género, deixo-vos abaixo o link para o vídeo do YouTube onde me poderão ouvir falar sobre ele. Já o meu exemplar, sinceramente, não me recordo quando ou onde o comprei, muito menos quanto terá custado, pois já o tenho na colecção há muitos anos. Diria que veio de uma feira de velharias ao desbarato, como tantos outros, mas não o posso afirmar com certeza.
Enquanto Blood Omen (que curiosamente também joguei através de um desafio do Backlog Battlers) foi desenvolvido pela Silicon Knights e publicado pela Crystal Dynamics, este Soul Reaver (assim como os restantes jogos da série) foi desenvolvido pela Crystal Dynamics e publicado pela Eidos. Esta situação acabou por levar a Silicon Knights a processar a Crystal Dynamics por alegadamente ter utilizado parte do seu trabalho numa sequela que estaria inicialmente a ser produzida por eles. Independentemente dos problemas que surgiram durante o desenvolvimento, a verdade é que a Crystal Dynamics conseguiu produzir um jogo muito interessante e com mecânicas bastante distintas das de Blood Omen, mantendo uma narrativa forte e uma identidade visual marcante. Foi uma excelente surpresa para mim, até porque adorei Blood Omen precisamente pelas mesmas razões.
A narrativa de Soul Reaver decorre muitos anos após os acontecimentos de Blood Omen. Kain, sedento de poder, criou um autêntico império em Nosgoth, onde os vampiros escravizaram a raça humana. Raziel, o protagonista deste jogo, é um dos seus principais tenentes, pelo menos até ao momento em que desenvolve um novo traço evolutivo: um par de asas que lhe permite planar. Kain interpreta esse acontecimento como uma afronta à sua autoridade e condena Raziel a uma eternidade de sofrimento. Séculos mais tarde, Raziel desperta profundamente transformado e é abordado por uma antiga entidade divina de Nosgoth, que o desafia a procurar vingança: Kain foi longe demais e o equilíbrio do mundo precisa de ser restaurado.
Soul Reaver é agora um jogo de acção e aventura em 3D, muito ao género do que títulos como Tomb Raider nos haviam habituado. Ao contrário dessa série, no entanto, o mundo de Nosgoth encontra-se totalmente interligado, permitindo uma progressão mais livre e assente na exploração, em vez de níveis isolados. À medida que avançamos e derrotamos os vários bosses, Raziel adquire novas habilidades que lhe permitem ultrapassar obstáculos anteriormente inacessíveis. O jogo incentiva também a revisitar áreas já exploradas para descobrir novos itens e power-ups que anteriormente não podíamos alcançar. É praticamente um metroidvania em 3D.

Soul Reaver é também notável pela forma como implementa dois mundos distintos: o mundo material e o mundo espectral. Embora a maior parte da aventura decorra no mundo material, onde podemos interagir com o cenário e resolver os inúmeros puzzles, existem várias situações em que teremos obrigatoriamente de visitar o reino espectral para prosseguir. Certas plataformas apresentam comportamentos ou disposições diferentes entre ambas as dimensões, por exemplo. Existem ainda outras mecânicas importantes a considerar: enquanto Raziel permanece no mundo material, a sua barra de vida vai diminuindo gradualmente, obrigando-nos a combater inimigos e absorver as suas almas para recuperar energia. Se a barra de vida se esgotar por completo, somos imediatamente transportados para o mundo espectral, onde as almas abundam. Para regressar ao mundo material teremos de recuperar a energia máxima e encontrar um portal apropriado, felizmente bastante comum. Já a transição para o mundo espectral pode ser feita a qualquer momento através de uma habilidade própria.

O combate é talvez um dos aspectos que menos bem envelheceu com o passar do tempo. Utilizamos o botão quadrado para atacar até deixar os inimigos atordoados, sendo depois necessário finalizá-los de formas específicas. Se estivermos equipados com uma arma como uma lança, podemos impalar imediatamente os vampiros através do botão triângulo. Caso contrário, teremos primeiro de os agarrar e depois arremessá-los contra uma fogueira, uma superfície aquática, uma zona exposta à luz solar ou algum objecto pontiagudo do cenário. Nem sempre é fácil executar estas manobras, pelo que encontrar uma lança acaba por simplificar bastante os combates. Depois de eliminar um vampiro é ainda necessário absorver rapidamente a sua alma, caso contrário ele acabará por regressar à vida. Mais tarde desbloqueamos a Soul Reaver, uma poderosa espada de energia que não só facilita os combates, como também impede que a nossa energia diminua enquanto exploramos o mundo material. No entanto, a arma desaparece assim que sofremos dano.

Outro detalhe importante são os inimigos humanos, incluindo vários caçadores de vampiros. É aconselhável deixá-los em paz, mesmo quando nos atacam. Isto porque mais tarde teremos de visitar uma cidade humana e, caso não tenhamos morto humanos até então, conseguiremos atravessá-la sem encontrar resistência. Soul Reaver possui também um sistema de magias que pode ser acedido através de um menu próprio ao pressionar o botão Select. Inicialmente dispomos apenas do Shift Glyph, que nos permite transitar entre dimensões, mas ao longo da aventura podemos descobrir vários outros feitiços elementais capazes de causar dano aos inimigos nas proximidades. Estes poderes consomem magia e, tal como acontece com a barra de vida, também é possível aumentar a nossa reserva máxima através de extensões escondidas pelos cenários.
Visualmente, Soul Reaver é um jogo bastante interessante. A Crystal Dynamics conseguiu traduzir para o 3D uma estética gótica decadente, marcada por ruínas monumentais, catedrais, fortalezas e estruturas de inspiração medieval que evidenciam séculos de degradação. As texturas apresentam um bom nível de detalhe e contribuem para a criação de cenários bastante memoráveis. As estátuas que nos atribuem novos poderes mágicos são um dos exemplos de modelos poligonais que mais me impressionaram, tal como os próprios bosses, que reflectem fisicamente a decadência provocada pela evolução distorcida dos vampiros. Naturalmente, tendo em conta a dimensão dos cenários, está presente o habitual efeito de nevoeiro utilizado para ocultar o pop-in dos polígonos. No entanto, num jogo com esta direcção artística, esse efeito acaba por funcionar bastante bem. Ainda assim, apesar da qualidade artística e técnica da representação de Nosgoth, os níveis podem tornar-se algo confusos devido à sua complexidade e a ausência de um mapa faz-se sentir, sobretudo quando precisamos de navegar entre regiões. Existe um sistema de teletransporte, mas o facto de os destinos serem identificados apenas por ícones nem sempre ajuda na orientação.

Já no que toca ao som, esse é outro dos pontos fortes de Soul Reaver. A narrativa está muito bem conseguida, o lore é rico em detalhe e o voice acting impressiona pela sua qualidade, especialmente tendo em conta tratar-se de um jogo de 1999. A banda sonora adopta uma abordagem mais minimalista e ambiental, reforçando eficazmente a atmosfera gótica e decadente que caracteriza toda a aventura.
Em suma, devo dizer que gostei bastante deste Soul Reaver, apesar de algumas arestas por limar. A forma como a Crystal Dynamics reimaginou Nosgoth em 3D está muito bem conseguida, particularmente tendo em conta as limitações da PlayStation. Certas mecânicas, especialmente ao nível do combate e da navegação, ainda tinham margem para evoluir, pelo que fiquei bastante curioso para descobrir de que forma a série evoluiu nas consolas da geração seguinte. Fica também a nota de que, recentemente, Soul Reaver e a sua sequela receberam uma colectânea remasterizada para sistemas modernos, pelo que essas serão provavelmente as versões mais recomendáveis actualmente.

























