Guardian Heroes (Sega Saturn)

A Treasure, empresa formada por ex-funcionários da Konami, foi responsável pelo desenvolvimento de alguns dos jogos de acção mais fascinantes da geração 16-bit, com títulos como Gunstar Heroes, Dynamite Headdy ou Alien Soldier a serem sólidos exemplos de excelência em mecânicas de jogo, performance e habilidade técnica. Guardian Heroes é o primeiro título da Treasure para uma consola de 32-bit, pelo que as expectativas dos fãs estavam elevadas. E felizmente não desilude, sendo um jogo bastante diferente de tudo o que a Treasure havia lançado até então.

Jogo com caixa e manuais

Guardian Heroes é, acima de tudo, um beat’em up, embora tenha alguns ligeiros elementos de RPG e um sistema de escolhas que nos poderá levar a atravessar diferentes níveis em cada sessão de jogo, inclusivamente alcançar um de vários finais possíveis. A história é um pouco obtusa, mas o essencial a reter é que estamos perante um jogo com uma temática de fantasia medieval, onde controlamos uma personagem de um pequeno grupo de rebeldes que luta contra a tirania da família real local. Entretanto, vamos percebendo que existe uma conspiração muito maior por detrás de tudo isto, envolvendo guerreiros contra feiticeiros e até anjos contra demónios, aqui representados pelos Sky e Earth Spirits, respectivamente.

No fim de cada nível tipicamente temos uma escolha para fazer que nos levará a caminhos (e finais) distintos

O modo história conta inicialmente com quatro personagens jogáveis, com uma quinta desbloqueável, sendo que cada personagem possui um estilo de luta diferente. Samuel Han é o tanque habitual, um espadachim bastante resistente, mas com poucos poderes mágicos. Já Randy é o oposto: um feiticeiro fisicamente fraquinho, mas de longe com as melhores magias. Ginjirou é um ninja, ataca sem quaisquer armas, possui combos mais complexos e longos e tem boas magias também. Nicole é a healer tradicional. Não tem um ataque físico incrível e as suas magias são mais defensivas ou restaurativas. Por fim, temos Serena, uma cavaleira bastante poderosa e a tal personagem desbloqueável depois de conseguirmos chegar ao final do jogo pelo menos uma vez. A acompanhar-nos no jogo teremos também uma espécie de guerreiro zombie, o Undead Warrior, que nos poderá ajudar em combate. Podemos inclusivamente dar-lhe ordens para atacar, defender-nos, seguir-nos, ficar parado ou simplesmente entrar em modo de ataque desenfreado.

A capa de Nicole é a prova viva que transparências reais são possíveis no hardware da Sega Saturn. O problema é que nem sempre é possível renderizá-las devido às diferenças dos dois chips gráficos que a Saturn possui

Apesar de Guardian Heroes ser um beat ‘em up, de certa forma controla-se como se de um jogo de luta 2D tradicional se tratasse, na medida em que o botão de cima salta e o de baixo agacha. O jogo não nos permite, portanto, navegar livremente por um plano tridimensional, mas cada nível possui, digamos, diversas camadas ou planos de movimento, e os botões L e R servem para alternar entre elas. O botão Y também permite mudar de plano, inclusivamente saltando directamente entre o mais afastado e o mais próximo. Os botões faciais Os botões faciais A, B e C servem para bloquear e desferir ataques fracos ou fortes. Já os botões X, Y e Z servem, respectivamente, para dar ordens ao guerreiro zombie, alternar entre planos de movimento ou usar magias. Cada personagem possui golpes e magias especiais que, tal como num jogo de luta tradicional, nos obrigam a executar uma série de combinações de botões. As mecânicas de RPG existem na medida em que cada ataque bem sucedido corresponde a pontos de experiência que eventualmente nos fazem subir de nível. No final de cada nível, lá temos direito a uma janela onde, por cada nível subido, somos recompensados com skill points que poderão ser distribuídos livremente entre força, vitalidade, inteligência, mental protection, agilidade ou sorte, o que nos permite customizar a nossa personagem de forma bastante mais livre.

Este guerreiro zombie vai dar um jeitaço incrível. Mas por outro lado, quandos mais inimigos ele derrotar, menos experiência ganhamos, o que é mau a longo prazo.

Tudo isto resulta num jogo de acção frenética como a Treasure bem nos habituou, com inúmeros inimigos a surgirem no ecrã vindos de todas as direcções, bosses desafiantes e uma jogabilidade simplesmente empolgante. Colocar o guerreiro zombie a atacar vertiginosamente, apesar de bastante útil para nos ajudar em momentos de maior aflição, também terá as suas desvantagens, pois qualquer dano causado por ele é experiência que nós não vamos ganhar. Se abusarmos desta mecânica, poderemos chegar às fases finais do jogo demasiado fracos, algo que não queremos que aconteça. Mas mais importante que tudo isto é mesmo o modo multiplayer. Mas mais importante que tudo isto são mesmo os modos multiplayer. Não os cheguei a experimentar, mas podemos jogar o modo de história com dois jogadores, o que presumo que nos retira o tal guerreiro zombie que nos acompanha. Mais interessante que isso é mesmo o modo versus. Para além de, recorrendo a um multitap, nos permitir jogar partidas com até 6 jogadores, teremos um máximo de 45 personagens jogáveis neste modo de jogo. Basicamente, todas as personagens normais, inimigos e bosses que vamos derrotando serão desbloqueáveis neste modo de jogo adicional. Seis pessoas à batatada deve ter sido realmente algo de luxo para se ver!

No final de cada nível podemos distribuir os skill points que juntamos ao longo do nível.

Já no que toca aos audiovisuais, Guardian Heroes é um jogo bastante competente nesse campo. Apesar de a geração 32-bit ter ficado marcada pela “revolução poligonal”, ao trazer ao consumidor comum máquinas acessíveis com capacidade para renderizar de forma nativa gráficos em 3D, a Treasure ainda demorou a adoptar essas novas tecnologias. E ainda bem, pois a Sega Saturn é uma máquina com excelentes capacidades para gráficos em 2D e isso é aqui bem visível, com imensas sprites no ecrã ao mesmo tempo, todas elas bem animadas, com efeitos de rotação e ampliação e ecrãs de fundo bastante diversificados entre si. Tudo isto com uma óptima performance! A banda sonora está repleta de temas mais jazz ou rock, mas confesso que se sente a falta de algumas vozes a acompanhar os diálogos que vão ocorrendo recorrentemente entre níveis. Temos, naturalmente, os habituais gritos e efeitos sonoros das personagens durante os combates, mas teria sido interessante existir algum trabalho de voz nos diálogos.

O jogo está repleto de momentos de puro caos! Super divertido!

Portanto, devo dizer que fiquei agradavelmente surpreendido por este Guardian Heroes. É um jogo bastante frenético, com uma jogabilidade bem afinada e personagens consideravelmente distintas entre si, que nos levam a explorar diferentes estratégias de jogo. Apesar de não ter tido a oportunidade de o experimentar, o modo versus, com capacidade para até 6 jogadores em simultâneo e 45 personagens desbloqueáveis, é também algo que facilmente chamaria a atenção em 1996. E depois há ainda toda a questão dos caminhos alternativos e dos vários finais, que dão uma longevidade bastante interessante ao modo história. Uma primeira passagem pelo jogo está longe de revelar tudo o que Guardian Heroes tem para oferecer, já que as nossas escolhas podem levar-nos por níveis diferentes e, consequentemente, a situações e finais distintos.

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Autor: cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.

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