Havoc (Sega Mega Drive)

Tempo de voltar a uma das minhas consolas preferidas para jogar um título que há muito tinha curiosidade. Desenvolvido pela Data East, Havoc é um produto da primeira metade dos anos 90, período em que o tremendo sucesso de Sonic the Hedgehog despoletou toda uma febre de jogos de plataforma em 2D baseados em mascotes. E enquanto que na maior parte dos jogos que a Data East desenvolveu para sistemas da Sega foram publicados pela própria Sega em território europeu, Havoc é uma excepção a essa regra, tendo sido a Codemasters a fazê-lo. Tal como os outros jogos da Codemasters da época, vem num cartucho de formato proprietário, o que me fez acreditar, durante anos, que Havoc era um jogo da própria empresa britânica! Entretanto, muito recentemente consegui comprar um exemplar completo numa CeX aqui perto de casa, pelo que chegou finalmente a vez de o experimentar.

Jogo com caixa, manual e papelada

Havoc é um jogo com uma forte temática de piratas e, tal como em muitos outros jogos de plataforma da época, controlamos uma mascote, desta vez uma foca pirata como protagonista. A história anda à volta do próprio Havoc, que procura resgatar os seus amigos Bridget e Tide das garras de um outro pirata, enquanto tenta também descobrir o paradeiro de Emeralda, uma esmeralda com poderes mágicos. Quaisquer semelhanças com as Esmeraldas Caóticas do universo de Sonic serão então mera coincidência, claro!

No que toca à jogabilidade, os controlos são simples e, tal como em Sonic, todos os botões faciais do comando da Mega Drive servem para saltar. Para atacar a maioria dos inimigos basta saltar-lhes em cima. Se pressionarmos novamente o botão de salto em pleno ar, no entanto, Havoc desfere um pontapé, um golpe necessário para causar dano nos bosses e certos inimigos que possuem protecções nas suas cabeças ou costas. Pressionando baixo e um dos botões faciais, Havoc rebola na direcção para onde está virado, um movimento incapaz de causar dano (ao contrário de Sonic), mas que pode ser utilizado para nos desviarmos de algum perigo.

O jogo abre com uma cena que nos conta a história. Temos é de ser rápidos a ler!

Os níveis vão sendo bastante variados entre si, onde vamos atravessar barcos piratas, montanhas com neve, cidades a arder, cavernas repletas de perigos, entre muitos outros locais. Alguns níveis possuem mecânicas de jogo distintas, como acontece nos Burning Hamlet. Aqui teremos alguns objectos que funcionam como extintores e que teremos de utilizar para apagar determinadas chamas. Ou o Frozen Palace, um conjunto de níveis repletos de maquinaria que congela e descongela corpos de água, onde precisaremos de utilizar esse gelo como plataforma para progredir. Os últimos níveis já são bem mais desafiantes: as cavernas de Fort Bernardo estão repletas de abismos sem fundo, plataformas minúsculas e inimigos posicionados em locais-chave apenas para nos causarem problemas. O último nível possui inimigos e projécteis a surgirem constantemente de todas as direcções, pelo que terá também de ser atravessado com a máxima atenção.

Cape Sealph, o verdadeiro primeiro nível que nos foi cortado nesta versão.

No que toca a itens e power-ups, iremos ver inúmeros diamantes espalhados pelos níveis para coleccionar. Tal como em Sonic the Hedgehog e em muitos outros jogos de plataforma da época, sempre que coleccionarmos 100 desses diamantes ganhamos uma vida extra. Também espalhados pelos níveis vamos ver vários baús de tesouro, que podem ser abertos ao saltar-lhes em cima. Esses baús podem albergar tesouros, comida que nos regenera a barra de vida, uns sapatos que nos permitem andar mais rápido ou mesmo vidas extra.

Alguns níveis possuem mecânicas de jogo próprias, como este extintor necessário para apagar as chamas à sua frente

Visualmente é um jogo bastante competente, os níveis estão bem detalhados nos seus cenários e repletos de efeitos de parallax scrolling. Os inimigos também surgem de várias formas e tamanhos, com as sprites maiores a não estarem sempre reservadas para os bosses. A banda sonora é igualmente bem trabalhada e com músicas muito agradáveis. Um detalhe muito interessante é a opção “Orchestra”, que podemos seleccionar no menu inicial. Trata-se do típico sound test onde podemos ouvir todas as músicas do jogo, mas no ecrã vemos Havoc como um maestro munido de uma batuta e toda uma orquestra de outros animais a tocar instrumentos. É um detalhe muito interessante. O que já não é muito interessante é o facto de nós, meros europeus, termos recebido um jogo demasiado adulterado. Para além de todas as referências à Codemasters que foram inseridas, por algum motivo o primeiro nível, Cape Sealph, foi removido do jogo. É uma pena, pois é um nível bonitinho. E a pior parte é que o nível até está na ROM do cartucho, mas completamente inacessível a não ser que recorramos a um Game Genie.

O sound test é um ecrã próprio muito bem elaborado. Belo detalhe!

Portanto, este Havoc até se revelou uma boa surpresa. É verdade que é mais um dos muitos jogos de plataforma 2D com mascotes que recebemos na primeira metade dos anos 90, mas é um jogo mecanicamente sólido, com uma curva de dificuldade em crescendo e tecnicamente bem feito. É pena que a versão PAL tenha perdido um nível pelo caminho. Gostava mesmo de saber o que levou a Codemasters a fazê-lo!

The Ottifants (Sega Mega Drive)

Continuando pelas rapidinhas, vamos ficar agora com mais um exclusivo europeu para as consolas da Sega. Já cá trouxe no passado a sua incarnação para a Master System, um videojogo baseado numa obscura série animada germânica, por sua vez de autoria de um comediante alemão igualmente pouco conhecido fora do seu país. Tal como a versão Master System, este meu exemplar foi comprado na Alemanha, território onde o jogo é bastante comum, num flea market que visitei há pouco mais de uma semana atrás.

Jogo com caixa e manual

A versão Mega Drive é em tudo similar às versões 8bit no que toca às suas mecânicas de jogo, sendo essa a razão pela qual não me vou alongar muito neste artigo. The Ottifants é então um jogo de plataformas em 2D de cariz bastante europeu, pois controlamos um elefante onde o objectivo é o de explorar afincadamente cada nível, coleccionando gomas coloridas até desbloquear a sua saída. Mediante a dificuldade escolhida, somos obrigados a coleccionar entre 25 a 75% de todas as que estão espalhadas pelos níveis. Para além das gomas, poderemos também encontrar gelados coloridos onde, uma vez coleccionando 3, podem resultar em efeitos temporários distintos, mediante as cores coleccionadas. Invincibilidade, maior rapidez, a capacidade de voar ou saltar infinitamente serão apenas alguns dos efeitos possíveis. Uma diferença desta versão para as de 8bit é a falta dos biberões de leite, que nas versões 8bit faz com que Bruno recupere um pouco de vida.

Coleccionar 3 gelados coloridos podem resultar em diferentes efeitos temporários, incluindo voar

Os controlos não poderiam ser mais simples, com um botão para saltar e outro para atacar, onde Bruno (o elefante protagonista) dispara doces da sua tromba. No entanto, se mantivermos o botão de ataque pressionado, Bruno suga ar com a sua tromba, podendo assim atrair certas plataformas móveis para si, ou mesmo aspirar objectos e atirá-los para que sirvam de plataforma extra e nos ajudem a ultrapassar certos obstáculos. No entanto, estas mecânicas de jogo nunca são exploradas da melhor forma, ficando muito potencial por realizar.

The Garden – Um conjunto de níveis não disponível nas versões 8bit

Uma curiosidade que me deparei quando estava a investigar as origens deste jogo é que o mesmo foi desenvolvido pela Graftgold, um estúdio britânico que já havia trabalhado em vários jogos para sistemas da Sega, incluindo várias versões do Global Gladiators. E foi aí que reparei na similaridade de muitas das suas mecânicas: o foco em coleccionar itens e o facto de Bruno disparar projécteis em arco, cuja trajectória pode também ser afinada com o direccional, algo que também acontecia no Global Gladiators. Felizmente, no entanto, o efeito de coice não existe aqui.

Ocasionalmente teremos também interruptores que, ao serem pressionados, activam plataformas adicionais

A diferença mais notável desta versão perante as versões 8bit é no entanto, como seria de esperar, os audiovisuais. Aqui os níveis são bem mais detalhados graficamente e a versão Mega Drive possui um conjunto de níveis completamente ausente nas versões 8bit (o mundo do jardim). No entanto, apesar do maior detalhe gráfico quando comparado às restantes versões, não quer dizer que os níveis sejam super apelativos, nem sempre é o caso. As músicas são também, naturalmente melhores e mais trabalhadas em virtude de um chip de som com melhores capacidades. No entanto, uma vez mais, não esperem aqui uma obra prima sonora, bem pelo contrário: as melodias são bastante simples e repetitivas.

Portanto, a versão Mega Drive do The Ottifants, apesar de visualmente ser um pouco mais apelativa que as restantes versões, não deixa de ser um jogo de plataformas algo aborrecido e repetitivo, precisamente pela sua natureza de “collect-a-ton”, algo que desde muito cedo caracterizou os platformers europeus. Não deixa no entanto de ser um título curioso dada a sua exclusividade regional.

Undead Line (Sega Mega Drive)

Vamos agora regressar à Mega Drive para acompanhar mais um dos relançamentos da Retro-Bit, que me chegou finalmente às mãos algures durante o mês de Março, após vários meses de espera e adiamentos. Undead Line é um shmup desenvolvido originalmente pela T&E Soft para o MSX2, lançado em 1989. Ao longo dos dois anos seguintes surgiram conversões para outros sistemas, nomeadamente o mítico computador X68000 e a Mega Drive. Todas estas versões se mantiveram exclusivas do mercado nipónico e a versão Mega Drive tem vindo a atingir preços bastante proibitivos no mundo do coleccionismo, pelo que este relançamento da Retro-Bit foi mais que bem-vindo.

Jogo com capa reversiva, sleeve exterior de cartão, manual e extras diversos.

Undead Line é um jogo que me faz lembrar bastante o Elemental Master, não só pela sua temática de dark fantasy, mas sobretudo por se tratar de um ground based shooter. Não há aqui naves espaciais nem dragões, somos apenas um guerreiro contra um autêntico exército de criaturas diabólicas que teremos de destruir. Ainda assim, e ao contrário de outros hack and slash da época, a acção desenrola-se através do disparo constante de projécteis, como num shmup tradicional.

As mecânicas de jogo são simples na sua essência. O botão B serve para disparar (recomendo vivamente activar o rapid fire nas opções), o botão A activa o ataque especial, neste caso uma bola metálica com espinhos que orbita a personagem, oferecendo alguma protecção temporária contra dano inimigo. Já o botão C permite envergar o escudo, bloqueando ataques vindos da frente. Existe, no entanto, um trade-off importante, pois ao utilizar o escudo ficamos impossibilitados de atacar. Ainda assim, trata-se de uma habilidade preciosa quando usada de forma criteriosa, tal é o nível de desafio que o jogo apresenta.

Tal como acontece nos Thunder Force, os primeiros níveis podem ser jogados em qualquer ordem.

Como seria de esperar num shmup, não faltam coleccionáveis com efeitos variados. Existem itens que alteram a arma e os seus padrões de fogo, outros que regeneram parcialmente a barra de vida, concedem vidas extra, invencibilidade temporária, escudos ou até os já tradicionais satélites que disparam ao nosso lado. As armas podem também ser melhoradas ao recolhermos ícones idênticos ao da arma equipada. No entanto, à semelhança de jogos como TwinBee, disparar sobre um item faz com que este mude de tipo, o que pode tornar-se problemático. Por um lado, ao recolhermos uma arma diferente perdemos imediatamente os níveis de evolução da arma anterior, regressando ao nível mais baixo na nova arma. Por outro, existem também itens com efeitos negativos, como redução de velocidade, perda de vida ou mesmo downgrades à arma.

Para quem jogar o original: activem o rensha nas opções – é o auto fire!

Este sistema é particularmente relevante porque Undead Line é um jogo bastante exigente. Os inimigos são rápidos, os padrões de ataque agressivos, e passamos grande parte do tempo a desviar-nos de projécteis enquanto tentamos responder na mesma moeda. Nesse contexto, é extremamente fácil apanhar inadvertidamente um item indesejado. A conjugação da dificuldade elevada com este sistema de power-ups “rotativos” contribui para tornar o jogo especialmente desafiante. Experimentem jogar o primeiro nível na dificuldade máxima (Crazy), é de facto um outro mundo de dor e sofrimento!

Esta é o tipo de dificuldade que nos espera: muitos inimigos, projécteis e tudo num ritmo estonteante!

Importa também referir uma outra mecânica interessante: ao longo dos níveis podemos encontrar até três fadas escondidas. Cada uma corresponde a um ponto de experiência que, no final de cada nível, pode ser distribuído por quatro atributos distintos, ST, MP, DX e AG, presumivelmente força, magia, destreza e agilidade. Investir em AG aumenta a velocidade de movimento, algo absolutamente crucial face à rapidez dos inimigos. Os restantes atributos melhoram o poder ofensivo das diferentes armas disponíveis.

Visualmente os bosses estão bem conseguidos!

No que diz respeito ao aspecto audiovisual, Undead Line é competente, embora não figure entre os shmups mais impressionantes da Mega Drive. Ainda assim, aprecio bastante a sua estética de dark fantasy e os pequenos detalhes presentes nos níveis. Num dos cenários, por exemplo, exploramos um cemitério onde destruir campas faz surgir fantasmas prontos a atacar. Outros níveis introduzem obstáculos adicionais, como paredes móveis ou jactos de lava, que acrescentam variedade ao desafio. Os inimigos seguem uma linha estética coerente e os bosses são, regra geral, grandes e bem detalhados. Já a banda sonora destaca-se pela positiva, com composições de forte influência rock, algo muito característico de jogos do mesmo género na Mega Drive e que me agrada particularmente.

Alguém chamou o tipo do Splatterhouse?

Em suma, Undead Line é um shmup interessante e bastante gratificante, ainda que marcado por uma dificuldade acima da média. A sua estética de fantasia sombria distingue-o dentro do género e, tendo em conta os preços elevados da versão original no mercado de segunda mão, este relançamento da Retro-Bit é claramente bem-vindo, a acrescentar também que o jogo foi devidamente localizado para inglês, Fica a esperança de que, no futuro, outros clássicos recebam o mesmo tratamento, como M.U.S.H.A..

Spider-Man – Venom: Maximum Carnage (Sega Mega Drive)

Tempo de voltar à Mega Drive para visitar um jogo que finalmente, ao fim de vários anos à procura, lá apareceu na minha colecção. A sua sequela directa já cá mora há bastante tempo e, por altura em que escrevi a minha análise de Separation Anxiety, tinha comentado que preferia primeiro escrever sobre este Maximum Carnage para melhor enquadrar a sequela. No entanto, os preços proibitivos que a versão PAL deste jogo tem vindo a atingir ao longo dos anos tornaram esse “sonho” mais difícil de alcançar. Resolvi então apontar baterias à versão norte-americana e, depois de encontrar um exemplar na Vinted com um preço consideravelmente abaixo dos três dígitos, não resisti. E cá está ele finalmente na colecção!

Jogo com caixa e manual, versão norte-americana

Numa altura em que beat ’em ups como Streets of Rage, Final Fight ou Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time eram um enorme sucesso, não tardaram a surgir mais jogos do mesmo género com personagens de banda desenhada como protagonistas. Publicado pela Acclaim Entertainment, Maximum Carnage aparece numa fase muito interessante do universo do Homem-Aranha, pelo menos para quem, como eu, seguia religiosamente a sua série animada na televisão. A introdução do symbiote, um organismo extra-terrestre parasita, que depois de passar pelo corpo do aracnídeo mais famoso da banda desenhada e assimilar os seus poderes, deu origem a vilões como Venom e Carnage, marcou profundamente essa fase. O jogo inspira-se directamente numa saga de banda desenhada da Marvel e coloca-nos perante uma aliança improvável: Spider-Man une forças com Venom para travar Carnage, que entretanto se juntou a outros vilões como Doppelganger, Shriek ou Demogoblin, espalhando o caos por Nova Iorque.

Sempre achei piada a estas onomatopeias típicas de banda desenhada!

Estamos então perante um beat ’em up de progressão lateral com movimentação em três dimensões, à semelhança de Final Fight, e para tirar o melhor partido das suas mecânicas é altamente recomendável utilizar um comando de seis botões. O direccional movimenta a personagem, o botão A ataca, o B salta e o C dispara teias. Certas combinações despoletam acções distintas: ao pressionar C sem qualquer direcção é disparada uma teia que paralisa temporariamente um inimigo; mantendo o botão pressionado, geramos antes um escudo defensivo. Se pressionarmos C em conjunto com uma direcção, lançamos uma teia para arrastar um inimigo até nós e continuar a ofensiva. Também é possível escalar paredes, pressionando cima e B em simultâneo. Com o comando de seis botões, algumas destas acções tornam-se mais intuitivas. O botão Y permite disparar uma teia para o ar e balançar pelo cenário, enquanto os botões X e Z simplificam uma outra mecânica importante.

Para além dos habituais power ups que restauram energia ou concedem vidas e continues adicionais, vamos também recolhendo ícones de outros super-heróis como Black Cat, Captain America, Morbius, Firestar, entre outros do universo Marvel, alguns dos quais desconhecia por completo. Estes ícones representam assists que podemos invocar a qualquer momento: soa na televisão um jingle alusivo ao herói, este entra em cena, causa dano em todos os inimigos presentes e abandona o ecrã de seguida. Num comando de seis botões, basta pressionar X para activar o assist, enquanto Z permite seleccionar qual o herói a chamar, desde que já tenhamos recolhido o respectivo ícone. A minha recomendação é clara: amealhar o máximo possível destes apoios e reservá-los para o último terço do jogo, onde a dificuldade sobe consideravelmente, com inimigos mais resistentes e agressivos.

Ora cá está algo que vamos ver muitas vezes em lutas contra bosses: o nosso protagonista no chão.

No que diz respeito ao combate propriamente dito, confesso que o achei bastante interessante. Existe uma boa variedade de golpes e movimentos à nossa disposição, o que ajuda a evitar que a experiência se torne demasiado repetitiva. No entanto, o equilíbrio está longe de ser o melhor. Os bosses, em particular, revelam-se frequentemente frustrantes. São autênticas esponjas de dano, bastante rápidos e agressivos, com destaque para o próprio Carnage, cujo confronto final pode facilmente testar a paciência de qualquer jogador. Os inimigos regulares começam também a tornar-se mais exigentes no último terço do jogo, mas nada se compara ao pico de dificuldade imposto pelos confrontos contra os bosses, muitas vezes enfrentados em simultâneo. Não considero que o jogo seja propriamente longo; é sobretudo a sua dificuldade que acaba por inflacionar a longevidade. E no sistema original essa exigência torna-se ainda mais pesada, já que não existe qualquer sistema de save ou passwords. Felizmente, as “magias” da emulação e dos save states tornam hoje a experiência mais gerível.

Uma das coisas que sempre gostei neste jogo é a sua abundância de cenas entre níveis!

Visualmente, é um jogo que sempre me agradou, apesar de nunca ter achado muita piada ao detalhe algo inconsistente de muitas das sprites secundárias, mas as de Spider-Man, Venom e de vários vilões estão muito bem animadas e detalhadas. Há uma boa variedade de inimigos e cenários, algo que curiosamente não acontece na sequela, e estes últimos apresentam um estilo visual muito próximo da banda desenhada, incluindo as onomatopeias que surgem no ecrã sempre que a pancadaria aperta. As cut-scenes em formato de banda desenhada são também abundantes, outro ponto bastante positivo e novamente algo que Separation Anxiety não conseguiu replicar. O som é competente e a banda sonora, com uma toada rock bem vincada, adequa-se perfeitamente ao tom mais agressivo da narrativa.

Em suma, Maximum Carnage é, para mim, um jogo de acção bastante sólido e um dos melhores títulos do universo Spider-Man na era dos 16 bits. Tirando o pico de dificuldade mais agressivo no último terço, que acaba por prolongar artificialmente a experiência, diria que apenas ficou a faltar um modo cooperativo. O jogo permite escolher entre Spider-Man e Venom antes de cada nível, mas nunca em simultâneo e que jeito teria dado um segundo jogador! Separation Anxiety, lançado no ano seguinte, viria a introduzir esta funcionalidade e a adoptar um grau de dificuldade mais generoso, mas infelizmente piora em praticamente todos os outros aspectos.

Fushigi no Umi no Nadia (Sega Mega Drive)

Tempo de voltar à Sega Mega Drive para um título muito curioso do seu catálogo, exclusivo do território japonês. Produzido pela Namco em 1991, este é um jogo baseado no anime de mesmo nome, conhecido no Ocidente por Nadia: The Secret of Blue Water. A série foi produzida pela Gainax, o mesmo estúdio que mais tarde nos trouxe o aclamado Neon Genesis Evangelion, e, ainda na primeira metade dos anos 90, foram lançadas várias adaptações do anime para videojogos, todas elas bastante distintas entre si e desenvolvidas para diferentes plataformas. A Gainax esteve por detrás dos lançamentos para computadores japoneses, enquanto outras empresas, como foi o caso da Namco, ficaram responsáveis pelas versões para consolas. O meu exemplar foi comprado no início de 2024, na loja francesa Gameswave, durante uma campanha de Inverno que decorreu nessa altura. Custou-me cerca de 30€.

Jogo com caixa, manual e papelada

Não conhecia o conceito do anime antes de ter jogado este título. O jogo leva-nos a controlar Jean, um jovem inventor francês que, em conjunto com o seu tio, se preparava para mostrar ao mundo o seu avião. A aventura começa precisamente em Paris, durante a célebre exposição que ficaria marcada pela inauguração do seu monumento mais emblemático, a Torre Eiffel. É durante esses preparativos que Jean conhece a exótica Nadia, artista de um circo que estava de passagem pela cidade. Nesse mesmo momento, Nadia vê-se perseguida por um grupo de bandidos que a tenta raptar, levando Jean a intervir prontamente para a ajudar. A fuga acaba por levá-los para fora de Paris, mas o avião despenha-se numa ilha remota a meio do oceano. É a partir daí que a trama começa a adensar-se e as influências do escritor Júlio Verne se tornam cada vez mais evidentes na narrativa.

Não é por acaso que o jogo seja ocasionalmente confundido com um RPG, pois utiliza a mesma perspectiva tradicionalmente utilizada por jogos desse género nesta geração

Estamos, portanto, perante um jogo de aventura com um grafismo e uma interface muito semelhantes aos que os JRPGs da época nos habituaram. O mundo é apresentado numa perspectiva vista de cima e existe também um sistema de menus que facilmente poderia ser confundido com o de um RPG. No entanto, de RPG o jogo não tem nada. Trata-se de um jogo de aventura puro, onde teremos de explorar cenários, falar com personagens, recolher e interagir com objectos de forma a progredir na história. O botão A serve para iniciar diálogos ou interagir com os cenários, enquanto o botão C abre um menu que nos permite utilizar itens que as nossas personagens transportam consigo, falar com os colegas de equipa ou, em alguns casos, deslocar-nos rapidamente entre áreas já visitadas.

Ocasionalmente temos direito a certas cenas com imagens mais trabalhadas, que acredito terem sido retiradas directamente do anime

É um jogo muito simples nas suas mecânicas, mas que acaba por prolongar artificialmente a sua longevidade pelas piores razões. A repetitividade de algumas tarefas e a organização bastante labiríntica de certos cenários obrigam-nos a explorá-los exaustivamente para resolver alguns puzzles. Um bom exemplo disso surge numa secção em que nos encontramos a bordo de um submarino atacado por forças inimigas. Jean, sendo um inventor com um gosto especial por mecânica, é chamado a auxiliar os engenheiros da embarcação a reparar o motor. O mecânico-chefe pede-nos então que subamos vários andares para procurar uma peça específica, apenas para nos dizer, no regresso, que afinal não era a correcta e que será necessária outra diferente. Como se isso não bastasse, esta mesma tarefa terá ainda de ser repetida mais duas vezes. Tendo em conta que o jogo não possui qualquer sistema de gravação de progresso, recorrendo apenas a passwords atribuídas em pontos específicos da história, a recta final torna-se particularmente penosa de completar numa só assentada. Ainda bem que joguei por emulação e pude recorrer aos save states!

Sinceramente até achei a narrativa bastante interessante e fiquei com vontade de ver o anime!

No que toca aos audiovisuais, estamos perante um jogo competente, mas modesto. Os cenários não são tão detalhados quanto os de outros RPGs da Mega Drive que partilham uma abordagem visual semelhante, embora se destaquem pela variedade dos locais que iremos visitar. O jogo apresenta ainda algumas sequências com animações simples, que tudo indica terem sido influenciadas pelo próprio anime em que se baseia. As músicas são agradáveis e os efeitos sonoros simples, mas eficazes, cumprindo bem o seu papel.

No fim de contas, e salvaguardando os pontos negativos já mencionados, devo dizer que gostei bastante da experiência como um todo. A narrativa revelou-se interessante e deixou-me com vontade de conhecer o anime um dia destes. Depois de saber que a Gainax reutilizou ideias e conceitos originalmente pensados para um projecto inacabado relacionado com Nadia em Neon Genesis Evangelion, essa curiosidade aumentou ainda mais. Convém também recordar que o anime recebeu várias adaptações para videojogos ao longo dos anos. Até ao momento, apenas a versão da Mega Drive e a da NES, esta última mais próxima de um RPG, receberam patches de tradução feitos por fãs. Ainda assim, estou especialmente curioso com a versão PC Engine CD, produzida pela Hudson, e espero que um dia venha também a receber um patch de tradução, já que gostei bastante do que vi.