Tempo de me estrear oficialmente na Xbox 360, apesar de já cá ter jogado alguns dos seus outrora exclusivos em relançamentos mais recentes, como foi o caso de vários jogos da série Halo na compilação Master Chief Collection, ou da versão remasterizada de Alan Wake. Too Human é então o primeiro jogo 100% Xbox 360 que cá trago, sendo inclusivamente um dos exclusivos do sistema. É também um jogo que já me despertava curiosidade há bastante tempo, até porque teve um ciclo de desenvolvimento bastante longo e, algures no tempo, chegou a estar em produção para a Nintendo GameCube, por alturas da parceria estratégica entre a Nintendo e a Silicon Knights. No entanto, a certa altura foi a Microsoft quem estabeleceu uma nova parceria com a Silicon Knights, trazendo Too Human para o espólio de exclusivos da sua nova consola, a Xbox 360. O meu exemplar foi comprado há uns meses na Wallapop por cerca de 2€.
Too Human é um jogo muito estranho no seu conceito. Imaginem uma reinterpretação de toda a mitologia nórdica, com os seus deuses e restantes entidades, mas inserida num contexto de ficção científica e cyberpunk. Nós controlamos Baldur, filho de Odin, que, juntamente com os restantes deuses de Aesir, procura proteger a população humana dos ataques das forças robóticas de Loki.
Na sua essência, Too Human é um jogo de acção na terceira pessoa com ligeiras mecânicas de RPG, na medida em que a nossa personagem pode escolher entre várias classes, cada uma com acesso a habilidades distintas e inclusivamente diferentes especializações, mediante as skills que decidirmos evoluir. Tal como outros RPGs de acção ocidentais, existe também um certo foco no equipamento. À medida que exploramos e combatemos, vamos encontrando inúmeras armas, armaduras e acessórios com diferentes níveis de raridade, muitos deles ainda passíveis de serem customizados com runas capazes de melhorar vários atributos.
Os controlos infelizmente não me convenceram. Este é um jogo onde o analógico direito é utilizado para os combates corpo a corpo, o que significa que não existe qualquer controlo manual da câmara, para além de alguns ajustes em ângulos pré-definidos através do botão direccional, bem como o botão LB, que faz reset da câmara para as costas da personagem. E isso acaba por ser problemático, pois o jogo frequentemente coloca-nos em ângulos pouco favoráveis, obrigando-nos constantemente a carregar no botão de reset para nos conseguirmos orientar melhor (e mesmo assim, nem sempre funciona como deveria). De resto, os gatilhos servem para disparar as armas de fogo, cujos alvos são automaticamente seleccionados pelo jogo. Mas infelizmente, uma vez mais, o sistema de lock-on nem sempre funciona de forma fiável. Os restantes botões faciais são utilizados para saltar ou activar certas habilidades importantes. O botão Y, no caso da minha personagem, fazia com que lançasse uma aranha robótica que disparava longas rajadas de metralhadora durante vários segundos, algo extremamente útil para lidar com hordas de inimigos. O botão RB serve também para despoletar um poderoso ataque que afecta todos os inimigos próximos de nós, uma vez mais bastante útil nos momentos de maior aperto.
Todas estas mecânicas permitiriam, à partida, criar um sistema de combate complexo, combinando ataques corpo a corpo com armas de fogo. É satisfatório atirar um inimigo ao ar e depois enchê-lo de balas enquanto permanece suspenso, ou, no caso dos inimigos maiores, saltar e ficar também suspenso durante alguns segundos enquanto desferimos vários golpes consecutivos. No entanto, nem sempre tudo funciona de forma convincente e, particularmente nas secções mais avançadas da história, vamos acabar por morrer com alguma frequência. O que me leva à mecânica mais irritante de Too Human: sempre que morremos, surge do céu uma valquíria cibernética que pega no nosso corpo e o transporta para Valhalla, apenas para renascermos segundos depois no último checkpoint. O problema é que não é possível fazer skip destas cenas, o que acaba por quebrar constantemente o ritmo da experiência. Felizmente, essas sequências intermináveis acabam por ser o maior castigo. Quando renascemos, reencontramos a batalha exactamente como a deixámos, o que facilita bastante a progressão. O único outro castigo é o facto de o equipamento sofrer danos sempre que morremos, podendo depois ser reparado quando visitamos a cidade dos deuses entre níveis.

Visualmente, Too Human é um jogo que sinceramente não envelheceu muito bem, apesar de ainda achar alguma piada ao design de certas personagens e inimigos. Apesar de ter sido lançado já na segunda metade de 2008, numa altura em que as consolas da sétima geração estavam plenamente estabelecidas no mercado, é um jogo que dificilmente impressiona do ponto de vista técnico. Talvez o facto de o ter jogado na Xbox Series X, em resoluções mais elevadas, também não tenha ajudado. Ainda assim, uma das coisas que muitos críticos elogiaram na época foi a banda sonora e o voice acting. Este último é competente, sim, mas já quanto à banda sonora não consigo partilhar exactamente da mesma opinião. Ainda assim, dou o benefício da dúvida pelo facto de o ter jogado na Xbox Series X, onde o conteúdo de Xbox 360 é executado por emulação. A minha experiência foi marcada por constantes falhas de som, com a música a desaparecer frequentemente, algo que ocasionalmente também afectava certos efeitos sonoros. As vozes, no entanto, pareceram-me imunes a esses problemas.
Too Human acaba por ser um interessante jogo de acção no papel, ao pegar na mitologia nórdica e transpô-la para um contexto futurista e algo apocalíptico. No entanto, a sua execução deixou bastante a desejar. Não só as mecânicas de combate e o controlo de câmara deveriam ser mais refinados, como os problemas técnicos também não ajudam à experiência. Quando Too Human foi lançado para a Xbox 360, existiam planos para que fosse o primeiro capítulo de uma trilogia, mas tal nunca se concretizou. A Silicon Knights acabou por entrar numa disputa legal com a Epic Games devido aos problemas de desempenho do motor gráfico Unreal Engine 3 e a situação terminou da pior forma possível para o estúdio. A Silicon Knights não só perdeu essa disputa, como perdeu também um segundo processo movido pela própria Epic, resultando em milhões de dólares em prejuízo e numa ordem judicial para recolher todas as cópias de Too Human das lojas. O estúdio não sobreviveu a tudo isto, infelizmente. Ainda assim, para minha surpresa, a Microsoft relançou Too Human em 2019, disponibilizando-o gratuitamente na sua loja digital.



























