Prince of Persia (Super Nintendo)

Tempo agora de voltar à Super Nintendo para mais uma adaptação do clássico Prince of Persia, que acabou por se destacar das restantes dezenas de conversões, não só pela qualidade da adaptação em si, mas também por todo o conteúdo adicional incluído. Este jogo também me surpreendeu quando descobri que a Konami apenas o publicou no ocidente, nada tendo a ver com o seu desenvolvimento. Esta versão foi, sim, desenvolvida por um estúdio nipónico mais pequeno, a Arsys, que já havia sido responsável por outras versões do jogo para computadores japoneses. O meu exemplar foi comprado recentemente numa loja aqui no Norte do país por cerca de 40€.

Jogo com caixa, manual e papelada

A história e o conceito não mudam desde a versão original. O feiticeiro Jaffar aproveita a ausência do Sultão para tomar o poder e fazer um ultimato à princesa: ou esta casa-se com Jaffar, ou morre dentro de uma hora, com Jaffar a invocar uma ampulheta que, dramaticamente, vai informando a princesa do tempo que lhe resta. Em paralelo, o protagonista do jogo, interesse amoroso da princesa, é capturado e atirado para as masmorras do palácio. O objectivo é claro: procurar uma espada para nos defendermos dos guardas que patrulham as masmorras e ultrapassar toda uma série de obstáculos, armadilhas mortais e corredores labirínticos para salvar a princesa dentro do tempo limite. Tendo em conta todo o conteúdo extra introduzido por esta versão, o tempo disponível para salvar a princesa foi aumentado para duas horas.

O combate mantém as mesmas bases: um botão para atacar, outro para defender

Uma das novidades imediatamente notórias é um novo modo de jogo de treino. Apesar de não termos quaisquer instruções sobre como proceder, este modo é composto por um conjunto de níveis sem qualquer limite de tempo, com novos perigos e mecânicas a serem introduzidos progressivamente. O primeiro destes níveis não tem quaisquer perigos, o segundo já começa a apresentar abismos com altura suficiente para nos causar dano, enquanto o terceiro introduz abismos mortais e outras armadilhas. O quarto nível acrescenta ainda mais perigos diferentes, enquanto o quinto e último nível já inclui também combates. É uma forma bastante interessante de nos familiarizarmos com as exigências do jogo, sobretudo porque Prince of Persia é um daqueles títulos em que dominar os movimentos da personagem é fundamental.

Podemos também encaminhar os inimigos para uma armadilha, algo que fiz muitas vezes!

No que diz respeito ao modo de jogo principal, esta conversão para a Super Nintendo possui, para além de algumas adaptações dos níveis conhecidos, mais uns quantos níveis inteiramente novos, elevando o total para 20. Também por essa razão houve a necessidade de aumentar o tempo limite para duas horas. É que, perto do final, há níveis bastante labirínticos e repletos de interruptores que precisam de ser accionados numa determinada sequência para podermos progredir, algo que nos levará algum tempo a compreender e, sobretudo, a memorizar. Felizmente, entre níveis vão-nos sendo atribuídas passwords para facilitar o progresso. Para além das novas áreas, esta versão inclui também novas armadilhas e inimigos. Desde lâminas de fogo, guerreiras amazonas e soldados fortemente armadurados, até monstros gigantes com seis braços, muitos destes novos confrontos funcionam também como uma espécie de mini-bosses que teremos de derrotar para podermos prosseguir.

Um boss como este confesso que não estava à espera

Já no que toca aos controlos, contem com o mesmo tipo de mecânicas de jogo da versão original. Prince of Persia é um título com um grande foco na precisão dos movimentos. Um passo em falso ou uma corrida iniciada no ponto errado do ecrã podem ser uma sentença de morte antecipada. Isto porque as passadas de corrida e os saltos estão intimamente ligados às animações da personagem. É impossível mudar de direcção depois de pressionarmos o botão de salto e, quando corremos, devemos parar alguns momentos antes de a animação da passada terminar. Existem ainda botões que nos permitem caminhar passo a passo, algo que teremos de utilizar muitas vezes ao longo do jogo. É uma abordagem que pode parecer algo rígida nos dias de hoje, mas que faz parte da identidade de Prince of Persia e exige que aprendamos exactamente como a personagem se movimenta.

Visualmente é uma versão muito interessante pelo detalhe gráfico e conteúdo adicional

Já passando para os audiovisuais, a Arsys esteve muito bem neste campo também. Não só é uma versão visualmente bastante competente, como as novas áreas de jogo estão também bem detalhadas e animadas, com bonitos efeitos de parallax scrolling e alguns cenários inteiramente novos. Tudo isto é acompanhado por belíssimas melodias de inspiração árabe e por algumas cenas ocasionais que, apesar de muito simples, ajudam a fazer avançar a narrativa de uma forma bastante óbvia.

A narrativa vai sendo acompanhada de cenas minimalistas, porém bastante icónicas

Prince of Persia na Super Nintendo é, portanto, maior e melhor do que qualquer versão que o antecedeu e continua a resistir muito bem ao teste do tempo. Continua a ser, nos dias de hoje, uma das melhores, senão mesmo a melhor, formas de jogar este clássico. A Arsys está de parabéns por não só ter construído uma conversão extremamente sólida, mas também por a ter expandido consideravelmente, acrescentando conteúdo suficiente para tornar esta versão particularmente interessante até para quem já tenha jogado as versões originais nos computadores do final dos anos 80.

Athletic Land (MSX)

Continuando pelo MSX vamos ficar agora com um título da Konami, empresa que apostou bastante nesta plataforma particularmente durante a década de 80. Athletic Land é um jogo de plataformas que muito me faz lembrar o clássico PitFall da Activision, por todos os obstáculos que teremos de evitar e a precisão necessária no controlo dos saltos para o conseguir fazer. O meu exemplar foi comprado a um particular algures no passado mês de Março por 15€.

Jogo com caixa, na sua versão europeia. Curioso para encontrar mais lançamentos MSX europeus!

Não há muito a dizer sobre este jogo, na verdade. Aqui controlamos um rapaz que atravessa uma pista de obstáculos no meio da natureza, o que o levará a saltar entre plataformas, balancear-se entre cordas, tudo isto enquanto se desvia de projécteis, bolas de fogo ou até animais como abelhas gigantes ou peixes que teimam em saltar fora de água só para nos atrapalharem a vida. É também um jogo simples nas suas mecânicas visto que o único botão de acção que temos disponível serve para saltar. É no entanto um jogo bastante exigente no que toca à precisão dos saltos e ao mínimo deslize perdemos uma vida. Sempre que ultrapassamos um obstáculo ganhamos pontos e com pontos suficientes vamos ganhando também vidas extra. Cada “nível” está dividido em 10 ecrãs que teremos de atravessar dentro de um tempo limite e quanto mais rápido o conseguirmos fazer, mais pontos amealhamos também. No entanto, tal como muitos outros jogos mais simples desta época, não existe propriamente um fim e o jogo vai-se repetindo com a complexidade dos obstáculos a aumentar progressivamente.

Se este ecrã vos faz lembrar Pitfall eu diria que isso não é por acaso.

Por outro lado, no entanto, há aqui uma boa atenção aos detalhe. Apesar das limitações do sistema, cada ecrã encontra-se consideravelmente bem detalhado nos seus cenários de fundo. A sprite da nossa personagem é bastante grande e com um charme de desenho animado, já as dos inimigos são mais simples, porém funcionais. A música não é muito variada, mas vai sendo agradável, pelo que não foi um problema. Os efeitos sonoros são bastante simples e cumprem o seu papel.

Portanto este Athletic Land é um jogo bastante simples mas exigente na precisão do controlo que precisamos de ter para ter sucesso. Ainda assim, os seus visuais apelativos para um título de 1984 mostram bem que a Konami já dominava bem este sistema.

Contra: Anniversary Edition (Nintendo Switch)

Tempo de voltar à Nintendo Switch, pois chegou a vez de ter gasto umas boas horas nesta interessante compilação de uma das séries mais icónicas dos videojogos de acção, particularmente no final da década de 80 e na primeira metade dos anos 90. Tal como aconteceu com quase todas as outras compilações de Castlevania que tenho trazido cá nos últimos tempos, esta foi também desenvolvida pelos mestres da M2. O meu exemplar não foi comprado na Limited Run Games, mas acabei por adquiri-lo mais tarde, no final de Setembro de 2024, na loja espanhola xtralife, por cerca de 50€, um valor semelhante ao que provavelmente teria pago originalmente devido às despesas de desalfandegamento.

Jogo com caixa e pequeno manual/livro de retrospectiva dos jogos aqui incluídos

Esta compilação foca-se nos sistemas de 8 e 16bit, contendo as versões arcade dos dois primeiros Contra, bem como as respectivas versões NES. Nos restantes sistemas da Nintendo temos o Alien Wars e o primeiro Contra de Game Boy. Está também presente, e assumidamente uma das principais razões para ter comprado esta compilação, o fantástico e estupidamente desafiante Contra Hard Corps da Sega Genesis. O nome Probotector marca igualmente presença, com as versões PAL dos títulos de 16bit. Inicialmente, apenas a versão japonesa do primeiro Contra se encontrava disponível na colectânea, devido às suas notórias diferenças face aos lançamentos ocidentais, mas um patch posterior passou a incluir também as versões japonesas dos restantes jogos da colecção.

À posteriori a Konami e M2 disponibilizaram também as versões japonesas dos restantes jogos presentes na compilação.

Antes de passar pelos jogos individualmente, importa destacar o excelente trabalho da M2. À semelhança das compilações de Castlevania, a emulação é irrepreensível, com suporte para save states, auto fire e várias opções de imagem, incluindo aspect ratio, filtros gráficos e ecrãs de fundo. Como bónus, temos ainda um livro digital de 74 páginas com informações sobre cada jogo, entrevistas com membros das equipas de desenvolvimento e diversos documentos de design. Adoro esse tipo de extras e o jogo ainda nos traz um excerto desse livro na forma de um mini manual físico.

A orientação vertical das versões arcade não é a melhor escolha para os segmentos de scrolling horizontal, mas acaba por resultar bem nestas secções.

A versão arcade do Contra foi onde tudo começou, colocando-nos no controlo de Bill ou Lance, heróis inspirados em figuras do cinema de acção norte-americano, enviados para combater um exército inimigo numa ilha tropical, apenas para se revelar mais tarde uma invasão alienígena. A acção frenética da série está aqui bem representada, seja nos níveis de scrolling horizontal, vertical ou nos segmentos em pseudo-3D. Ainda assim, foi na conversão para a NES que o jogo ganhou novo fôlego. Apesar dos gráficos mais simples, os controlos tornaram-se mais polidos, os níveis mais extensos e a banda sonora absolutamente memorável. A versão japonesa, também incluída, beneficiou de um cartucho de maior capacidade com um chip adicional, apresentando mais detalhe visual e pequenas cenas entre níveis. Já Probotector mantém o conteúdo intacto da versão americana, substituindo apenas as personagens humanas por robots.

A versão japonesa do primeiro Contra na Famicom tem bastante conteúdo adicional, incluindo este pequeno mapa de cada nível, à semelhança da série Ghouls ‘n Ghosts.

Segue-se o Super Contra de arcade, um título ainda mais frenético, por vezes quase excessivo, dada a quantidade de inimigos e projécteis no ecrã. Para além dos níveis de side-scrolling horizontal, surgem aqui também secções com uma perspectiva vista de cima, à la Mercs. É visualmente um jogo muito bem detalhado, embora com uma paleta de cores algo fraca. Possui, no entanto, uma óptima banda sonora e imensos clipes de voz digitalizada. A versão NES, lançada como Super C (ou Probotector II na Europa) é uma adaptação extremamente competente tendo em conta as limitações do sistema, apresentando expandido muito mais o seu conteúdo face à versão arcade. Irei seguramente fazer uma análise mais extensa um dia que consiga arranjar este jogo para a colecção!

Sempre gostei da nitidez em como os jogos de Game Boy têm sido representados nestas compilações!

Relativamente ao Contra de Game Boy e ao Contra III: Alien Wars, não há muito mais a dizer para além do que já mencionei nas minhas análises de ambos. O primeiro é um jogo simples, mas bastante funcional para um sistema portátil, conseguindo capturar a essência da série num hardware bem mais limitado. Já o Alien Wars, ou Rebels, é mais um clássico de acção da Konami e o primeiro da série a tirar verdadeiro partido das capacidades de uma consola de nova geração. A versão europeia, com os seus robots em vez de humanos e um dos finais alternativos censurado, está também aqui presente.

O jogo de Super Nintendo é incrível mas…

Por fim, Contra: Hard Corps, ou Probotector na Mega Drive. Um jogo absolutamente demolidor, cuja velocidade e fluidez exigem reflexos rápidos constantes e memorização de padrões. Apesar de não ser tão colorido quanto o título da Super Nintendo, aposta numa direcção artística diferente, com bosses muito criativos e efeitos gráficos que tiram bom partido do hardware. A versão norte-americana, por correr a 60Hz, é ainda mais intensa, enquanto a versão japonesa funciona quase como um easy mode, graças à barra de vida e continues infinitos. Jogá-lo na Switch foi um exercício constante de save state, mas consigo imaginar facilmente as horas que teria passado agarrado a este jogo em miúdo. Seguramente um título a rever mais atentamente um dia que o consiga arranjar para a colecção.

… o da Mega Drive consegue ser ainda mais frenético!

No fim de contas, considero esta uma compilação imprescindível para quem for fã dos Contra clássicos. Inclui conversões fiéis, várias melhorias de qualidade de vida e a maioria dos jogos da série lançados entre o final da década de 80 e a primeira metade dos anos 90, para além do livro digital, que é sempre um prazer de explorar neste tipo de lançamentos. O ponto negativo, a meu ver, prende-se com o facto de não terem incluído todos os jogos da série lançados nesse período. Contra Force, exclusivo norte-americano da NES lançado em 1991, ficou de fora, teoricamente por não fazer parte oficial da série, tal como a adaptação para Game Boy de Contra III (por cá conhecida como Probotector 2). E falando em Probotector, apesar de ter gostado de ver incluídas as versões de 16bit, creio que não teria custado nada acrescentar também as versões NES para a colectânea ficar ainda mais completa.

Silent Hill 2 (Sony Playstation 2)

Voltando aos jogos de terror, visto estarmos em plena quadra do Halloween, o jogo que vos trago hoje é nada mais nada menos do que o clássico Silent Hill 2, da Konami, lançado originalmente em 2001, ainda consideravelmente cedo no ciclo de vida da PlayStation 2. Na minha colecção disponho de dois exemplares: o original, com sleeve de cartão, postais e um disco de bónus com um documentário de making of, bem como o subsequente lançamento no formato Platinum, a única forma de, no território europeu, ter acesso ao conteúdo extra introduzido pelo Director’s Cut. Já não me recordo quando o meu exemplar original me chegou às mãos, mas terá sido certamente a um preço acessível. Já o Platinum, foi comprado na saudosa Cash da Amadora, algures em Abril de 2016, por 5€.

Edição com caixa de cartão, manual, papelada e disco extra com making of e outros bónus

Silent Hill 2 não é uma sequela directa do primeiro Silent Hill da PS1, já que apresenta um novo protagonista e decorre numa parte distinta da assombrada cidade norte-americana. Aqui tomamos o papel de James Sunderland, que parte para Silent Hill em busca da sua falecida esposa, após receber uma misteriosa carta assinada pela mesma. No entanto, à medida que nos aproximamos da cidade, rapidamente percebemos que ela está longe de ser o que James recordava. Envolta num nevoeiro espesso, a cidade está abandonada, em ruína, e repleta de criaturas grotescas de aparência humanóide. Outras personagens vão sendo encontradas, incluindo Maria, uma mulher em tudo idêntica à falecida esposa de James, Mary, excepto nos seus maneirismos. Revelar mais seria um desperdício, pois, apesar de não ter uma narrativa densa, a história é envolvente e surpreendentemente fora da caixa, pelo que recomendo vivamente que a experienciem por vocês mesmos. A edição Director’s Cut inclui ainda um pequeno capítulo adicional que aprofunda certos eventos relacionados com Mary e que também vale a pena jogar.

Director’s Cut com um capítulo extra centrado na Maria. Infelizmente, na PS2 e fora do Japão, apenas recebemos este conteúdo na edição Platinum

No que diz respeito às mecânicas de jogo, contamos com um survival horror de cariz psicológico, com ângulos de câmara bastante distintos (embora possamos exercer algum controlo sobre eles) e uma jogabilidade que privilegia a sobrevivência face ao combate, já que itens de cura e munições são relativamente escassos e as criaturas regressam ocasionalmente à medida que revisitamos áreas previamente exploradas. Equipar uma lanterna e um rádio (assim que os descobrimos) é essencial, pois não só muitos dos cenários estão envoltos em escuridão, como o rádio serve para detectar a presença de inimigos através de ruído de estática, cada vez mais intenso à medida que se aproximam. No entanto, ter ambos ligados também os atrai, o que exige alguma ponderação.

Silent Hill 2 está repleto de criaturas e cenas grotescas. Excelente direcção artística!

Os controlos são semelhantes aos do primeiro jogo. O movimento de James é feito quer pelo analógico esquerdo quer pelo direccional, recorrendo aos conhecidos tank controls. Os botões L1 e R1 servem para andar lateralmente, L2 para recentrar a câmara e R2 para colocar James em posição de ataque, podendo então atacar com a arma equipada ao pressionar X. Esse mesmo botão é também usado para interagir com o cenário, recolher itens, abrir portas e resolver puzzles. O círculo liga e desliga a lanterna, o triângulo abre o mapa e o quadrado serve para correr ou caminhar, dependendo da opção seleccionada num menu secreto que permite inverter esse comportamento, algo que aconselho vivamente. O Select pausa o jogo e o Start abre o menu onde podemos gerir o inventário, reler notas ou consultar novamente o mapa. Existem outros esquemas de controlo, embora o padrão funcione bastante bem depois de nos voltarmos a habituar à movimentação por tank controls.

Tal como outros survival horror clássicos, ocasionalmente temos também alguns puzzles para resolver, no entanto as soluções são distintas mediante a dificuldade escolhida

Visualmente, o jogo impressiona, sobretudo tendo em conta que foi lançado numa fase ainda inicial da PlayStation 2. Em conjunto com Metal Gear Solid 2, lançado poucos meses depois, Silent Hill 2 demonstrava a competência da Konami em tirar bastante partido do hardware da consola desde cedo. Este título possui excelentes efeitos de luz e nevoeiro que nem as versões Xbox e PC (embora tecnicamente mais potentes) conseguiram reproduzir com o mesmo detalhe, já que foram criados para tirar partido da arquitectura específica da PS2. A direcção artística continua soberba, com ambientes detalhados e um aspecto decrépito e sinistro constante. Os modelos das personagens e inimigos estão também muito bem conseguidos, tanto técnica como artisticamente. Um dos inimigos mais icónicos, o Pyramid Head, as enfermeiras sexy porém deformadas ou as criaturas compostas por pares de pernas femininas são exemplos do design grotesco e simbólico que o jogo apresenta. As cut-scenes em CGI são também impressionantes para os padrões de 2001.

Um detalhe que sempre achei curioso é o James rabiscar o mapa com as passagens bloqueadas ou outros pontos de interesse

A componente sonora é igualmente marcante. O ambiente de Silent Hill 2 é verdadeiramente aterrador, com o ruído estático do rádio a acompanhar a aproximação dos inimigos e sons industriais desconcertantes a ecoarem pelos corredores vazios. Em contraste, algumas melodias tristes e melancólicas pontuam momentos-chave da narrativa. O voice acting é competente, e, em conjunto com a direcção artística, som e imagem formam uma simbiose que resulta numa atmosfera desconcertante e, em vários momentos, francamente assustadora.

Em imagens não se nota muito bem, mas o efeito de nevoeiro ficou muito convincente na PS2

Em suma, não é por acaso que Silent Hill 2 é considerado por muitos o melhor título da série. A sua história é brilhantemente construída, a atmosfera é densa e opressiva, e o simbolismo das criaturas reforça de forma subtil a temática do jogo. Recentemente, Silent Hill 2 recebeu um remake após um hiato de doze anos na série. No momento de escrita deste artigo, essa versão encontra-se disponível apenas na PlayStation 5 e PC, e embora ainda pretenda jogar os títulos seguintes antes de lhe pegar, certamente voltarei um dia à cidade enevoada através desse remake, que veio reavivar o interesse na saga.

Castlevania: Symphony of the Night (Sony Playstation / Playstation 4)

Depois da óptima surpresa que foi jogar o Castlevania Rondo of Blood, chegou a vez de pegar no seu sucessor directo, aquele que mudou radicalmente a estrutura de um Castlevania 2D desde então. Apesar de, de certa forma, já o ter na colecção, visto este ser um desbloqueável no Castlevania Dracula X Chronicles, sempre o quis ter também no seu sistema original. Infelizmente, trata-se de um jogo que tem vindo a encarecer bastante ao longo dos anos, pelo que optei antes por ir atrás das versões norte-americanas. Depois de vencer um leilão no eBay por cerca de 70 dólares que, infelizmente, acabou por ser cancelado pelo vendedor, acabei por ter de pagar o dobro por outro exemplar, alguns meses depois. Trata-se da versão equivalente às nossas edições Platinum, que no mercado americano conseguem ser bem mais feias, mas foi o que se conseguiu arranjar sem estragar (ainda mais) a carteira. Eis que, algures no início de 2022, a Limited Run Games anuncia Castlevania Requiem: uma compilação para a PS4 com conversões tanto do Rondo of Blood (devidamente localizado para inglês), como deste Symphony of the Night. Foi esta a versão que acabei por jogar.

Jogo com caixa e manual embutido com a capa. A arteda versão americana sempre foi feia, mas esta greatest hits consegue ser ainda pior. Ainda assim, foi a opção mais barata para ter um exemplar em inglês, pelo menos até ao Castlevania Requiem.

A história de Symphony of the Night começa por recriar o confronto entre Drácula e Richter (e Maria) no final do Rondo of Blood, embora agora Richter seja uma personagem muito mais ágil do que era originalmente. Após esse confronto, a narrativa avança cinco anos, altura em que Drácula parece ter regressado. Contudo, o protagonista desta nova aventura é uma nova personagem: Alucard, filho de Drácula, introduzido originalmente em Castlevania III para a NES. Ao explorar o castelo, acabamos por encontrar Maria Renard, que procura Richter Belmont, aparentemente desaparecido após ter também visitado o castelo em busca de derrotar Drácula.

Compilação com caixa e póster

Desde cedo se nota a grande mudança de paradigma nos Castlevania 2D com este lançamento. Apesar de já existirem algumas noções de não-linearidade em Castlevania II, ou de caminhos alternativos no Rondo of Blood, é este Symphony of the Night que populariza o termo metroidvania, por ter em jogos como Super Metroid e outros RPGs de acção em 2D sidescroller as suas principais influências. Aqui não temos níveis, mas sim um enorme castelo para explorar livremente. No entanto, cedo nos apercebemos de que há locais inicialmente inacessíveis. Ou seja, tal como em Metroid, teremos de procurar caminhos alternativos e, à medida que ganhamos novas habilidades, esses locais tornam-se acessíveis, o que faz da exploração e do backtracking um dos grandes focos do jogo. Habilidades como o duplo salto, ou a possibilidade de nos transformarmos em lobo, morcego ou neblina, permitir-nos-ão alcançar zonas previamente vedadas. O facto de o castelo estar repleto de segredos e passagens ocultas torna a exploração ainda mais apelativa.

A acção começa com um “recontar” da última batalha do Rondo of Blood, embora Richter seja agora muito mais ágil e poderoso

No que diz respeito ao sistema de combate, temos por um lado as mecânicas clássicas de Castlevania, com várias armas secundárias que podemos equipar, consumindo corações como munição. Tal como em Rondo of Blood, certas combinações de botões permitem desencadear habilidades especiais, muitas das quais consomem também magia (que se regenera naturalmente). Mas estão também aqui presentes fortes mecânicas de RPG, com experiência ganha ao derrotar inimigos e diversos equipamentos – armas, escudos, armaduras e acessórios – que podem ser encontrados e equipados. Existem ainda consumíveis como poções ou comida, que podem ser armazenados mas cuja utilização não é tão imediata quanto seria desejável: é necessário equipá-los numa das mãos de Alucard e, durante o jogo, pressionar o botão correspondente. Alucard atira então o item para o chão e, só depois de o “apanharmos”, é que este é consumido. Um processo pouco optimizado, mas que acaba por ser uma pequena queixa, dada a qualidade de tudo o resto. Também podemos encontrar familiars, pequenas criaturas mágicas que nos acompanham e cujas habilidades nos auxiliam, seja no combate, seja através do uso de poções. Estes familiars ganham igualmente experiência e tornam-se mais poderosos com o tempo.

Symphony of the Night tem também mecânicas RPG. A biblioteca é o único local que possui também uma loja onde poderemos comprar alguns consumíveis ou equipamento especial

Symphony of the Night é ainda um jogo recheado de segredos. O mais famoso é, sem dúvida, a possibilidade de desbloquearmos um castelo invertidom o que terá apanhado muitos jogadores de surpresa. Sem querer revelar demasiado, se virem os créditos depois de derrotarem um certo boss que não é o próprio Drácula, é porque ainda vos falta fazer alguma coisa. Derrotando essa personagem da forma correcta, desbloqueamos um segundo castelo, literalmente invertido e espelhado, para explorar em busca de derrotar Drácula uma vez mais. Apesar de, nesta fase, Alucard já não necessitar de novas habilidades para explorar este novo castelo, o facto de o mesmo estar invertido apresenta maiores desafios no platforming, e os inimigos são também bastante mais poderosos. Uma vez terminado o jogo com o final verdadeiro, Richter pode ser seleccionado como personagem jogável, iniciando uma nova partida com o nome “Richter”. Nesta versão, Richter é uma personagem muito mais ágil e poderosa do que a sua encarnação em Rondo of Blood, sendo uma escolha bastante interessante. Como a versão aqui presente se baseia na versão desbloqueável do Dracula X Chronicles, Maria também pode ser desbloqueada como personagem jogável, embora, confesso, ainda não tenha experimentado jogar com ela.

Apesar de já conhecer muitos destes inimigos nos Castlevania portáteis que lhe seguiram, jogar isto em HD e num ecrã grande foi bastante satisfatório!

A nível audiovisual, este é um jogo bastante interessante. Os seus gráficos são inteiramente em 2D, com personagens muito bem detalhadas e animadas, tirando partido de vários efeitos de transparência que a PlayStation suportava de forma nativa. O design dos inimigos, especialmente os bosses, é particularmente detalhado. É certo que a Konami reaproveitou muitos destes inimigos e bosses nos Castlevania seguintes para Game Boy Advance e Nintendo DS, mas vê-los aqui numa resolução mais elevada é bastante satisfatório. O castelo em si apresenta áreas bem distintas, com salas repletas de detalhes deliciosos e atmosfera gótica. Tudo isto é acompanhado por uma excelente banda sonora, com temas orquestrais e outros mais rock quando a acção o exige. Temos também várias cenas com voice acting, podendo escolher entre a dobragem inglesa e a japonesa.

Os familiars são criaturas que podemos equipar. Estas acompanham-nos e podem-nos ajudar nos combates, descobrir passagens secretas, ou ajudar Alucard a curar-se em certos momentos. Cada familiar possui diferentes habilidades e vão ficando mais fortes com o tempo

Por fim, e algo que deveria ter mencionado na minha análise ao Rondo of Blood, convém referir o que mais oferece esta compilação Castlevania Requiem. Para além do habitual upscale gráfico para resoluções HD, o jogo inclui diversos filtros visuais e imagens de fundo, caso queiramos manter o aspecto 4:3 original. Há também um sistema de troféus e suporte para as colunas embutidas dos comandos PS4/PS5, com efeitos sonoros (como o som de apanhar um item) a saírem directamente do comando. Infelizmente, ao contrário de outras compilações mais recentes da série, esta não inclui save states nem funcionalidades como rewind, que poderiam ter sido úteis em algumas secções mais desafiantes.

Symphony of the Night está também repleto de pequenos detalhes deliciosos. Experimentem sentar-se nos dois lados deste confessionário, por exemplo.

Castlevania: Symphony of the Night é, de facto, um grande clássico da série, misturando de forma quase perfeita os elementos de exploração não-linear de um Metroid com várias mecânicas de RPG que lhe assentam muito bem. O seu grafismo 2D detalhado continua impressionante, e não deixa de ser curioso o facto de este Symphony ter sido originalmente um projecto secundário para a Konami, numa altura em que todos os esforços estavam focados em Castlevania 64, que, para a editora, seria o próximo “grande” título da série. No fim de contas, a saga nunca singrou verdadeiramente no 3D, enquanto esta fórmula metroidvania manteve enorme sucesso nos títulos 2D que se lhe seguiram, tendo influenciado profundamente muitos outros jogos. Com a popularização dos jogos indie, não faltam excelentes metroidvania para descobrir, e muito disso se deve a este incontornável Symphony of the Night.