Shadow the Hedgehog (Nintendo GameCube)

Ora cá está um jogo que já andava a evitar jogar há anos. O último Sonic em 3D que joguei foi o Sonic Heroes e já foi no longínquo ano de 2013! Recordo-me de ter experimentado pouco tempo depois este Shadow the Hedgehog na sua versão PS2 e, ao fim de 5 minutos de jogo, não o quis jogar mais, de tão má que foi essa experiência inicial. Entretanto os anos foram passando e decidi trocar a versão PS2 pela versão Nintendo GameCube. A versão PS2 tinha problemas de performance horríveis e o jogo teve a consola da Nintendo como sistema-base de desenvolvimento, portanto achei que essa versão seria ligeiramente melhor. Em Abril do ano passado lá me surgiu então uma oportunidade de comprar na CeX do Maiashopping um exemplar para a GC em excelente estado por 15€, pelo que acabei por aproveitar e deixar lá o meu exemplar da PS2 para abater no preço. Entretanto, ainda assim, foi preciso alguém me desafiar, no âmbito da rubrica Backlog Battlers do podcast TheGamesTome, para finalmente o jogar!

A primeira coisa pela qual Shadow the Hedgehog (o jogo) é infame é pelo facto de o ouriço usar armas de fogo. Muito edgy! Shadow sempre foi uma espécie de anti-herói e pronto, naquela altura era moda, pelo menos no entretenimento ocidental, querer tornar tudo mais escuro, “maduro” e violento, o que, no contexto do universo do Sonic the Hedgehog, não foi nada uma boa ideia. Aliás, misturarem o universo do Sonic com mais humanos que não o Dr. Robotnik também foi, a meu ver, uma má ideia que o Sonic Adventure 2 nos trouxe e que aqui foi amplificada, mas é o que temos. A história deste jogo leva-nos portanto a controlar o Shadow, que ainda sofre de amnésia e nada sabe sobre o seu passado. Num certo dia, uma raça de extraterrestres invade o nosso planeta e Black Doom, o seu líder, contacta Shadow e pede-lhe para recolher as sete Esmeraldas do Caos para que este se lembre do seu passado. Por outro lado, Sonic e os seus amigos querem evitar que os aliens destruam o planeta, pelo que tentam convencer também Shadow a ajudá-los.

Jogo com caixa e manual

Shadow the Hedgehog é portanto um jogo com progressão não linear. Cada nível possui dois ou três objectivos (Dark, Neutral e Hero) e completar qualquer um desses objectivos faz o jogo progredir nessa direcção, o que nos levará a percorrer diferentes níveis e alcançar finais distintos mediante as nossas escolhas. Para nos conseguirmos localizar nesse mapa de bifurcações, antes de cada nível começar é-nos mostrado uma espécie de fluxograma dos vários níveis possíveis e o nosso percurso pelos mesmos. Mas, tal como tem vindo a acontecer desde o Sonic Adventure, para conseguirmos desbloquear o verdadeiro nível e boss final teremos de conseguir primeiro alcançar todos os restantes “finais intermédios”. Felizmente não teremos de completar todas as ramificações possíveis, ou seja, completar as missões Dark, Neutral e Hero de todos os níveis, mas alcançar os 5 níveis “finais” distintos. E aí sim, teremos de completar os objectivos Dark e Hero de cada um desses níveis, resultando em 10 finais distintos antes de a verdadeira fase final do jogo ser desbloqueada.

Sim, também podemos conduzir alguns veículos, embora não seja de todo necessário fazê-lo

O maior problema com isto é que estes dez finais distintos exigem-nos dez sessões de jogo do início ao fim, cuidadosamente escolhendo as missões “certas” para completar em cada nível até alcançarmos o final que nos interessa. É que temos, no ecrã principal, uma opção de Mission Select que nos permite rejogar qualquer nível que já tenhamos completado anteriormente, não só em busca de um melhor ranking, mas também para eventualmente completarmos o nível seguindo um alinhamento diferente. O problema é que, quando escolhemos este modo de jogo, apenas podemos rejogar esse nível em específico, não podemos continuar a narrativa a partir desse ponto. Portanto sim, teremos mesmo de rejogar muitos níveis para alcançar todos estes finais, o que acaba por se tornar incrivelmente aborrecido. E isto porque nem todas as missões são fáceis de completar e, infelizmente, as mecânicas de jogo também não são de todo as mais fiáveis.

Fazer uma série de acções más ou boas vai-nos aumentando uma barra de energia respectiva que, uma vez cheia, nos permite, temporariamente, executar algumas habilidades poderosas.

A parte engraçada é que, mal comecei o jogo, lembrei-me uma vez mais porque desisti de o jogar há 13 anos. A jogabilidade dos jogos do Sonic em 3D desta geração sempre me irritou pelo seu mau controlo de câmara e pelos maus saltos, o que, em conjunto com a abundância de abismos sem fundo, leva-nos a frequentes momentos de frustração ao perder vidas e ter de recomeçar em checkpoints antigos. E isso também acontece neste Shadow the Hedgehog. Quando, depois de dois ou três homing attacks, fui lançado para um abismo no primeiro nível e perdi uma vida, todos os traumas passados vieram ao de cima. Curiosamente, as mecânicas de equipar e usar armas, que podem ser de fogo ou de combate corpo-a-corpo, apesar de parecerem verdadeiramente alienígenas ao universo do Sonic, na verdade nem foram propriamente mal implementadas. Não é de todo por aí que o jogo é mau. O Triangle Jump, introduzido pelo Sonic Heroes, também precisa de alguma habituação aqui.

As personagens humanas estão francamente más neste jogo. A Maria então nem se fala.

Já no que toca aos audiovisuais, devo dizer que nos primeiros 5 minutos de jogo também detectei algumas quebras de framerate, embora não tenham sido tão severas quanto as da PS2 que me ficaram na memória ao longo de todos estes anos. O design dos níveis é muito distinto, com vários níveis mais escuros e maduros no seu tom, como cidades destruídas em virtude do ataque alienígena, mas também teremos imensos outros níveis bem mais coloridos e mais de acordo com o que seria esperado num jogo desta série, como é o caso do Circus Park, as típicas ruínas do Glyphic Canyon, ou os surpreendentes níveis mais cibernéticos Digital Circuit ou Mad Matrix. A qualidade dos gráficos em si é muito inconsistente, com alguns níveis consideravelmente bonitos e bem detalhados, outros com texturas muito mais pobres, para além dos ocasionais problemas de performance. O design das personagens humanas é francamente mau. Já no que toca ao som, nada de especial a apontar à narração, que cumpre o seu papel. A banda sonora é muito focada em enérgicos temas mais rock, o que continua a ser um ponto forte na série Sonic.

Portanto, com tudo o que leram até agora devem ter ficado com a sensação de que eu detestei este Shadow the Hedgehog. E, na verdade, Shadow the Hedgehog não é um bom jogo, por todas as razões que já mencionei. No entanto, devo dizer que, mesmo com todos os seus problemas, já tinha saudades de jogar um Sonic em 3D e os poucos momentos bons acabaram por me divertir bastante. Agora, com Shadow the Hedgehog finalmente terminado, seguramente irei voltar a esta série em breve.

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Autor: cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.

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