Record of Lodoss War Deedlit in Wonder Labyrinth (Sony Playstation 4)

Tempo de voltar à PlayStation 4 para um jogo curto, mas que me agradou bastante. Record of Lodoss War nasceu originalmente de replays de sessões de RPG de mesa, tendo posteriormente evoluído para uma série de romances de fantasia, RPGs de tabuleiro, anime, manga e videojogos. É uma série com muito pouca presença fora do Japão, pelo menos no que toca a videojogos. Isto porque, até à data, apenas dois foram lançados oficialmente em inglês, sendo este Deedlit in Wonder Labyrinth um desses casos. Felizmente que, algures em 2021, a editora europeia Red Art Games anunciou o seu lançamento em formato físico, tendo o meu exemplar chegado às mãos apenas no ano seguinte. Custou-me pouco mais de 35€ e ainda tive a sorte de conseguir receber alguns bónus de pré-reserva, como o CD com a banda sonora e um bonito livro, não só com arte do jogo, mas também com muita informação relevante sobre o universo Record of Lodoss War.

Jogo com caixa. Livro de arte e CD com a banda sonora (ainda selado) foram ofertas de bónus de pré-reserva.

A história leva-nos a controlar a elfo Deedlit, que acorda sem quaisquer memórias do seu passado e ainda por cima num misterioso labirinto completamente desconhecido para si. Ao explorá-lo, irá encontrar várias figuras do seu passado, sejam amigos ou inimigos, e a mais importante é seguramente o cavaleiro Parn, o seu amor de longa data que já não deveria estar vivo, a chamar Deedlit para as profundezas do labirinto.

Infelizmente as cenas narrativas não mostram muito mais que isto

No que toca às mecânicas de jogo, este é um metroidvania muito inspirado em Castlevania: Symphony of the Night, não só pela natureza não linear da exploração e pelas mecânicas de RPG de acção, mas também pelos visuais serem muito similares: em ambos os títulos temos elementos de fantasia mais sinistra e todo o mapa passa-se, aparentemente, num enorme castelo. A outra grande influência é, por incrível que pareça, Ikaruga. Isto porque desde cedo que iremos desbloquear dois espíritos que nos acompanharão na aventura: Sylph, espírito do vento, e Salamander, espírito do fogo. Ambos os espíritos possuem diferentes características e o jogo permite-nos alternar entre ambos com um simples pressionar de um botão. Sylph permite-nos temporariamente levitar no ar, dando-nos um maior controlo e precisão em saltos mais exigentes, enquanto Salamander permite-nos deslizar pelo solo como uma bola de fogo invencível.

Para além da arma branca principal, vamos poder também usar um arco e flecha, útil não só no combate, mas também para ultrapassar alguns puzzles

A comparação com Ikaruga está no facto de cada espírito ser imune ao dano elemental do seu próprio elemento, assim como apenas causar dano desse elemento em específico, algo que também se replica em muitos dos inimigos. Ou seja, vão existir alturas, tipicamente durante os bosses, em que teremos de alternar repetidamente entre o espírito seleccionado, não só para absorver o dano inimigo, mas também para conseguir causar dano. Absorver dano do mesmo elemento possui ainda outra particularidade: ajuda-nos a regenerar a nossa barra de magia, o que, por sua vez, nos dá liberdade para usar magias mais frequentemente. Devo dizer que usei e abusei destas mecânicas para conseguir derrotar alguns dos bosses. Um outro detalhe interessante prende-se com a maneira como fazemos upgrade a estes espíritos. Cada vez que causamos dano a um inimigo, o nível do espírito não equipado vai subindo progressivamente do nível 1 ao nível 3, um patamar crítico que concede a Deedlit a capacidade passiva de regenerar a sua própria vida. Contudo, o jogo exige uma execução precisa, pois sofrer qualquer dano faz com que o nível do espírito activo desça imediatamente, penalizando o jogador e interrompendo a cura.

Visualmente é um jogo com detalhes muito bonitos!

No que toca aos audiovisuais, este Deedlit in Wonder Labyrinth mantém um estilo visual 2D pixel art muito bem conseguido e como eu gosto: sprites bonitas, bem detalhadas e animadas, assim como cenários consideravelmente variados entre si e também com um óptimo nível de detalhe. Logo a primeira batalha contra um boss, um dragão gigante, foi suficiente para me deixar com um sorriso de orelha a orelha! Já no que toca ao som, a banda sonora é bastante agradável, consistindo numa mistura entre temas orquestrais e outros com influências de jazz, folk, música electrónica ou rock. Pena que não exista voice acting e que as cenas narrativas sejam tão simples.

Este pilar de energia é um exemplo de algo que nos causa dano se tivermos a Sylph equipada, mas que Salamanderé capaz de absorver. Mas neste caso precisamos dos poderes de levitação de Sylph para ultrapassar o obstáculo.

Posto isto, devo reafirmar que gostei bastante deste jogo. Já sou um fã de metroidvanias por defeito, então um com pixel art tão bom quanto este e uma jogabilidade sólida, tanto melhor! É, no entanto, um jogo algo curto e nota-se perfeitamente que foi uma produção de baixo orçamento, com certos pequenos detalhes na apresentação a beneficiarem de um maior tempo de aperfeiçoamento. Ainda assim, devo dizer que fiquei com esta Team Ladybug no radar, pois já desenvolveram outros metroidvanias no passado, como foi o caso de Shin Megami Tensei: Synchronicity Prologue ou Touhou Luna Nights.

The Dark Pictures Anthology: House of Ashes (Sony Playstation 4)

Tempo de voltarmos à série The Dark Pictures Anthology da Supermassive Games, agora para o terceiro título da quadrologia: House of Ashes, lançado originalmente já no último trimestre de 2021. Tal como os seus predecessores, este é um jogo de aventura onde as nossas escolhas nos diálogos e a nossa performance nas sequências de acção, pautadas por quick time events, têm peso e consequências. O meu exemplar veio numa compilação com este e The Devil in Me, o último título da saga original, que aproveitei para comprar numa promoção de Leve 3, Pague 2 da Worten algures em Outubro de 2023, tendo-me custado cerca de 22€ no final de contas.

Compilação com caixa, sleeve exterior de cartão, dois discos, poster, papelada diversa, pins e um baralho de cartas.

Todos os jogos desta série têm-nos trazido narrativas completamente distintas entre si. A história por detrás deste House of Ashes leva-nos ao Iraque, durante a invasão norte-americana de 2003, numa altura em que as forças da coligação procuravam as infames “armas de destruição maciça” que o regime de Saddam Hussein supostamente teria. E nós iremos acompanhar o destino de um pequeno esquadrão de marines, liderados pelo Tenente-Coronel Eric King, numa missão secreta a um local que se acreditava ser a porta de entrada para os silos de tais mísseis. Bom, os marines de facto encontram alguma coisa nos subterrâneos, mas está longe de ser aquilo que esperavam. Em vez de bunkers repletos de arsenais destrutivos, encontram as ruínas de um templo sumério que rapidamente se vem a descobrir esconder uma ameaça muito pior do que meros mísseis.

As escolhas que vamos tomando vão influenciar as relações entre personagens, que poderá ter consequências para o desenrolar da narrativa.

No que toca às mecânicas de jogo, estas são muito semelhantes às introduzidas pelos seus antecessores, na medida em que vamos acompanhar uma narrativa que, mediante as respostas que vamos dando (não responder é também uma resposta válida), não só irá influenciar as relações entre as diferentes personagens, como o próprio decorrer da narrativa. Personagens que não se dêem bem muito provavelmente não se irão ajudar em momentos de aperto, o que poderá ter consequências. Esses momentos são geralmente pautados por quick time events, cuja falha poderá também ser fatal para uma ou mais personagens envolvidas. Regra geral, falhar um QTE isolado costuma ser inconsequente, mas falhar vários poderá ser fatal.

O primeiro capítulo decorre na altura da civilização Suméria, e lança o tema do que os Marines viriam a encontrar muitos anos mais tarde

No que toca aos modos de jogo, House of Ashes não nos traz nenhuma novidade. Tal como fiz no Little Hope, comecei por jogar com a minha namorada uma sessão de multiplayer local no modo Movie Night. Aqui, cada jogador presente na sala pode controlar uma ou mais personagens, sendo a ideia passar o comando de jogador para jogador sempre que o jogo nos avisa de que determinada personagem irá entrar em cena. Depois fui jogando sozinho no modo normal, de forma a apanhar todos os coleccionáveis e explorar outros finais possíveis. Outros modos de jogo incluem o Shared Story, um modo de multiplayer online onde dois jogadores jogam em simultâneo, cada um controlando personagens distintas. Jogando sozinhos temos também o Curator’s Cut, que nos oferece cenas e perspectivas alternativas relativamente à campanha principal (analogamente ao que o segundo jogador veria numa shared story).

A componente de aventura, onde poderemos explorar os cenários livremente em busca de pistas, sempre foi um dos pontos que mais gostei nesta série

Já no que toca aos audiovisuais, House of Ashes é o primeiro jogo da série lançado já durante a transição para a geração actual de consolas. Mesmo tendo comprado a versão PS4, este é mais um daqueles casos onde podemos fazer upgrade para a versão PS5 sem custos adicionais, algo que acabei por fazer. E aqui vemos uma notável melhoria na qualidade gráfica, particularmente nos efeitos de luz e nos modelos das personagens, com especial destaque para as suas animações faciais. Ainda assim, ocasionalmente encontramos algumas expressões faciais não tão bem conseguidas. A componente de voice acting continua óptima, tanto que o jogo conta com um elenco de actores reais, desta vez com o destaque a recair na actriz Ashley Tisdale, talvez mais conhecida pelas suas participações nos filmes High School Musical.

Portanto, House of Ashes deixa-me com sentimentos mistos. Por um lado, devo dizer que gostei genuinamente do conceito desta narrativa e de várias das personagens aqui criadas, com o soldado iraquiano a ser, de longe, a minha personagem preferida do jogo. Isto porque não só o Salim é a personagem mais equilibrada, como se mostra como um soldado relutante, farto de uma guerra que não pediu e que só quer voltar para casa e reaver o seu filho. Acaba assim por ser uma personagem que nos apresenta uma perspectiva mais humana e pessoal do conflito, para lá da habitual dicotomia entre os dois lados envolvidos. Por outro lado, a narrativa de House of Ashes também nos leva muito rapidamente para um maior foco na acção, enquanto nos títulos anteriores a série tinha conseguido construir um suspense em crescendo muito bem conseguido. Até o misterioso Curador da biblioteca, que nos introduz à história e vai fazendo algumas intervenções ocasionais, está bem mais contido neste título.

Judgment (Sony Playstation 4)

Está na altura de voltar à série Yakuza para mais um dos vários spinoffs que recebeu ao longo dos anos. Lançado originalmente em 2018, Judgment leva-nos novamente para as ruas de Kamurocho, agora pelos olhos de um novo (e algo peculiar) protagonista. O meu exemplar foi comprado algures em Junho de 2021 por cerca de 30€ na Amazon. Seguramente poderia ter esperado mais algum tempo e tê-lo comprado a um preço bem mais convidativo, mas é o que é.

Jogo com caixa, autocolante e um livrete que tem tudo menos instruções.

Judgment leva-nos a controlar Takayuki Yagami, outrora um advogado de defesa, que caiu em desgraça após o desfecho trágico do último caso que defendeu em tribunal. Desde então decide mudar de profissão, sendo agora um detective privado, algo que não lhe corre tão bem quanto gostaria, que o diga a sua senhoria, com todas as rendas em atraso por receber. A certa altura recebe o convite para regressar ao antigo escritório de advocacia onde trabalhou, desta vez para auxiliar na investigação que sustentará a defesa de um notório mafioso, acusado de assassinar brutalmente um membro de um clã rival. Como é habitual nesta série, nem tudo é o que parece e rapidamente vemo-nos envolvidos numa teia conspiratória cada vez maior e, nesse aspecto, Judgment continua tão bom quanto os demais títulos da série.

A acompanhar-nos na aventura temos Kaito, nosso colega e ex-Yakuza, expulso da família que se vê envolvida numa embrulhada.

No que toca às mecânicas de jogo, pensem num Yakuza clássico, com uma exploração mais contida, pois apenas exploramos Kamurocho, funcionando como um híbrido entre um beat ‘em up e um RPG. Cada combate recompensa-nos com experiência, que pode ser utilizada para aprender toda uma série de novas habilidades, tanto de combate como para nos tornar mais eficientes noutras vertentes e mini-jogos. É também um jogo repleto de conteúdo opcional, como inúmeras missões secundárias, uma vasta colecção de mini-jogos com os quais nos podemos distrair, restaurantes ou bares para visitar e toda uma série de outras actividades, como participar em corridas de drones, fazer amizades com pessoas aleatórias ou procurar namoradas.

O menu de pausa é um ecrã do nosso telemóvel, com cada aplicação a ser uma funcionalidade distinta do jogo.

O que este Judgment traz de novo, para além de um sistema de combate com algumas nuances que o distinguem, são mesmo as mecânicas inerentes a um detective. Em muitos momentos teremos de perseguir suspeitos pelas ruas, aproveitando certos obstáculos, como contentores do lixo, carros estacionados ou pilares de estruturas, para nos escondermos dos olhares desconfiados de quem procuramos. Ocasionalmente teremos também de vestir disfarces para passar despercebidos em certos pontos, tirar fotografias a suspeitos ou usar um drone para os espiar dentro de edifícios. Mas Yagami também foi advogado, pelo que Judgment vai igualmente buscar algumas influências a séries como Ace Attorney. Muitas vezes precisamos de investigar cenas de crime em busca de pistas, assim como, em determinados diálogos, teremos de escolher as respostas certas, seguidas das evidências que suportam as nossas conclusões, recolhidas anteriormente durante essas fases de investigação. É de facto uma lufada de ar fresco para a série, embora confesse que nem sempre tenha achado essas secções especialmente empolgantes. Particularmente as perseguições, que rapidamente se tornavam aborrecidas.

Sim, em 2018 já a moda das selfies estava aí em força.

No que toca ao combate, Yagami é uma personagem bem mais ágil do que Kazuma Kiryu, mas consideravelmente diferente de outros “pesos leves” que a série foi introduzindo ao longo do tempo, como Shun Akiyama ou Masayoshi Tanimura. A começar pelo facto de Yagami não carregar equipamento nem armas, embora possa utilizar os objectos espalhados pelos cenários ou armas largadas pelos inimigos. Podemos, no entanto, equipar uma série de itens num menu de atalhos, que podem ser activados ao pressionar o botão direccional correspondente. Por outro lado, pressionando para baixo no direccional, alternamos entre estilos de combate. O Crane, envolto numa aura azul, é ideal para combater grupos, tirando partido de pontapés largos capazes de atingir mais do que um inimigo em simultâneo. Já o Tiger é um estilo de combate mais robusto, focado em dano concentrado, sendo adequado para bosses ou inimigos mais poderosos. Yagami pode também utilizar as paredes para saltar e executar golpes poderosos desferidos pelo ar. Por fim, outro detalhe importante a mencionar é o dano permanente. O dano sofrido por armas de fogo ou por certos golpes especiais dos inimigos não pode ser regenerado pelos meios normais, obrigando-nos a visitar um certo médico para o recuperar, ou recorrendo aos medkits que o mesmo nos pode vender.

O que não falta aqui é conteúdo opcional, incluindo um jogo de tabuleiro em realidade virtual, que na verdade é uma óptima maneira de se fazer dinheiro!

Já sobre os mini-jogos, temos as habituais arcades da Sega, que desta vez nos presenteiam com Fantasy Zone, Space Harrier, Fighting Vipers ou uma versão do Virtua Fighter 5, para além dos já habituais UFO Catchers com os seus peluches coleccionáveis. Também temos, pela primeira vez, um lançamento para a Sega Model 2 que nunca tinha ouvido falar, um jogo de corridas futurista chamado Motor Raid, assim como uma versão moderna do sempre viciante Puyo Puyo. Feito de raiz para aqui temos também um light gun shooter baseado em Yakuza Dead Souls, muito ao estilo da série The House of the Dead. A versão remastered, lançada mais tarde para a PS5, substitui alguns destes jogos por versões de Out Run e Virtua Fighter 2. Jogos de casino, tanto ocidentais como orientais, assim como algumas variantes de shogi e mahjong, estão também disponíveis. Os desafios do Batting Center, corridas de drones ou até uma máquina de pinball no próprio apartamento de Yagami são mais algumas das distracções que Judgment nos oferece.

Também é possível tentar conquistar namoradas, com quatro potenciais interessadas. Conversas, encontros e andar à batatada com outros pretendentes.

Visualmente é um jogo competente, utilizando o Dragon Engine, introduzido pela primeira vez em Yakuza 6, que por sua vez representou um salto gráfico bastante considerável quando comparado com os lançamentos anteriores. O distrito de Kamurocho mantém-se muito bem representado, com todas as suas ruas e locais de relevo familiares. Ainda assim, devo dizer que gostei mais dos efeitos de iluminação em Yakuza 6, particularmente durante a noite. No que toca à narração, esta continua a soar-me bastante competente, tendo preferido, naturalmente, ouvir as vozes originais em japonês. A banda sonora é mais ecléctica do que o habitual, consistindo em músicas com um feeling mais jazz, adequado a uma atmosfera de thriller noir, mas também com as habituais faixas mais enérgicas de rock ou electrónica, particularmente durante os combates.

Portanto, este Judgment foi para mim mais um jogo bastante sólido da Ryu Ga Gotoku Studio, embora admita que a toada mais de detective e/ou de advogado não tenha resultado particularmente bem. As secções de investigação ou interrogatórios não são especialmente bem conseguidas e as perseguições, apesar de interessantes nas primeiras vezes, rapidamente se tornam repetitivas. O conteúdo opcional é uma vez mais massivo, pelo que quem gostar de explorar Kamurocho a fundo e completar todos os seus desafios terá aqui mesmo muito por onde jogar. A PlayStation diz-me que passei cerca de 68 horas em Judgment e ainda ficou muito por fazer!

Zero Escape: Zero Time Dilemma (Sony Playstation 4)

Tempo de voltar às visual novels para finalmente abordar o terceiro capítulo da saga Zero Escape, introduzida originalmente em 2009 no Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors, com uma sequela a chegar três anos depois sob a forma de Virtue’s Last Reward. Zero Time Dilemma, lançado originalmente em 2016, é o jogo que encerra a trilogia, sendo que o meu exemplar chegou-me às mãos algures no início de 2024, através de um negócio na Vinted.

Jogo com caixa

Falar sobre este jogo sem estragar a experiência proporcionada pelos seus antecessores directos é uma tarefa ingrata. Ainda assim, podemos resumir a premissa a mais um grupo de pessoas atiradas para um bunker, onde, para conseguirem escapar, terão de resolver uma série de desafios, muitas vezes macabros, e tomar difíceis decisões morais sobre “quem vive e quem morre”, algo fundamental para a sobrevivência. Isto porque a única saída disponível apenas se abre quando pelo menos seis dos nove participantes morrem.

Em Zero Time Dilemma, a narrativa está muito mais fragmentada e desordenada, o que nos levará a alguma confusão inicial.

Uma das principais diferenças face aos jogos anteriores prende-se com a divisão dos nove participantes em equipas fixas de três elementos, sem qualquer contacto entre si. Cada capítulo jogável representa períodos de 90 minutos, contendo tipicamente longas secções de diálogo, uma sala para explorar exaustivamente e resolver os respectivos puzzles, e uma decisão difícil a tomar no final. No entanto, a forma como estes capítulos são apresentados ao jogador é bastante distinta do habitual. Em vez de seguirmos uma progressão linear, ou mesmo uma árvore narrativa claramente estruturada como em Virtue’s Last Reward, aqui a história surge fragmentada em múltiplos segmentos dispersos.

Visualmente, não é um jogo incrível. Os modelos poligonais são fracos, seria mais vantajoso ser um jogo inteiramente em 2D.

Após a conclusão de um capítulo, somos encaminhados novamente para um ecrã de selecção de equipas, podendo revisitar fragmentos já explorados para tomar decisões diferentes ou optar por segmentos inteiramente novos. Estas escolhas desbloqueiam diferentes ramificações da narrativa, sendo necessário explorar múltiplos caminhos para alcançar o desfecho verdadeiro. Esta estrutura resulta numa narrativa deliberadamente desordenada, onde os acontecimentos são apresentados fora de sequência e com pouca contextualização inicial. Numa fase inicial, esta abordagem pode revelar-se confusa, sobretudo pela dificuldade em perceber a ordem cronológica dos eventos e a forma como os diferentes fragmentos se interligam. No entanto, à medida que o jogador vai interiorizando os conceitos centrais da série, esta fragmentação começa a fazer mais sentido, tornando-se parte integrante do próprio processo de descoberta. Sem entrar em detalhes, o jogo continua a explorar temas como realidades alternativas e deslocações no tempo ou entre diferentes linhas temporais.

Fora as secções de narrativa pura, vamos tendo algumas salas para explorar e resolver puzzles de forma a escapar.

Os puzzles continuam a ser a componente mais interessante e interactiva do jogo, embora nem todos os capítulos disponíveis os incluam. Nessas secções, o jogo aproxima-se de uma aventura gráfica, recorrendo a um cursor para interagir com o cenário, recolher pistas e objectos, e resolver uma série de desafios que permitem desbloquear a saída. Fora desses momentos, a experiência assume a forma de uma visual novel, e aqui confesso que gostaria de ter mais controlo. Jogar à noite, num sofá confortável, revelou-se problemático, pois ocasionalmente adormecia de comando na mão e era frequente ter de reiniciar segmentos inteiros. Isto acontece porque, ao contrário de muitas outras VNs, o texto avança de forma contínua, sem aguardar pela intervenção do jogador. O único controlo disponível é o de acelerar o diálogo, que por sua vez se revela demasiado sensível, levando frequentemente a avançar mais texto do que o pretendido. Refira-se que joguei a versão PS4, pelo que desconheço se este comportamento se mantém noutras plataformas.

É nessas secções onde o jogo ganha mecânicas de uma aventura gráfica, com direito a inventário de itens e pistas.

No que diz respeito aos audiovisuais, Zero Time Dilemma segue a mesma linha de Virtue’s Last Reward. Ambos foram desenvolvidos com a Nintendo 3DS e a PlayStation Vita em mente, e isso reflecte-se na apresentação. A narrativa é transmitida através de cenas com personagens modeladas em 3D, mas com um aspecto bastante rudimentar, marcado por modelos poligonais simples e animações pouco convincentes. Se em ecrãs mais pequenos estas limitações acabam por ser disfarçadas, numa televisão de maiores dimensões, como no caso da versão PS4, tornam-se bem mais evidentes. Ainda assim, a componente sonora acaba por compensar parcialmente estas falhas, com um voice acting competente tanto em inglês como em japonês, tendo eu optado maioritariamente pela dobragem nipónica.

Apesar dos seus problemas, foi interessante regressar a este peculiar universo de Zero Escape. Zero Time Dilemma é, talvez mais do que os seus antecessores, uma experiência que exige alguma paciência por parte do jogador, não só pela forma como apresenta a sua narrativa de forma fragmentada, mas também pelas limitações na forma como nos deixa interagir com ela. Ainda assim, para quem já esteja familiarizado com os conceitos introduzidos em Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors e Virtue’s Last Reward, este capítulo final acaba por recompensar esse investimento, oferecendo um encerramento que, apesar de por vezes confuso, se mantém fiel à identidade da série. Não será, no entanto, o melhor ponto de entrada para novos jogadores. A sua estrutura, personagens e conceitos dependem fortemente do contexto dos jogos anteriores, sendo por isso altamente recomendável jogar a trilogia pela ordem original.

Broken Sword 5: The Serpent’s Curse (Sony Playstation 4)

Depois de vários anos e algumas tentativas menos conseguidas, a série Broken Sword regressou finalmente às suas raízes com este quinto capítulo, naquela que é, para já, a última aventura da dupla George e Nico, não contando com os vários remakes que as duas primeiras aventuras foram recebendo ao longo dos anos. Os seus antecessores, Broken Sword: The Sleeping Dragon e Angel of Death, não foram financeiramente muito viáveis para a Revolution, visto que os contratos que o estúdio assinou com as respectivas publishers não terão sido os mais vantajosos para a empresa. A isto juntou-se também o facto de o género das aventuras gráficas tradicionais ter perdido bastante popularidade com a viragem do milénio. No entanto, o surgimento e a crescente popularidade de plataformas digitais como Steam ou GOG, que ofereciam condições mais favoráveis a estúdios pequenos e independentes, permitiram à Revolution trabalhar de forma mais autónoma e relançar versões modernizadas dos seus dois primeiros jogos. Os lucros obtidos com esses relançamentos acabaram por colocar a empresa numa posição financeira mais estável. Ainda assim, para financiar o desenvolvimento deste quinto Broken Sword, o estúdio britânico recorreu também a uma campanha de Kickstarter, que rapidamente atingiu as suas metas. O jogo sofreu no entanto alguns atrasos e foi mesmo dividido em duas metades lançadas entre 2013 e 2014 para vários sistemas. Um lançamento físico acabaria por surgir apenas em 2015 para a PS4 e Xbox One, com uma outra versão para a Nintendo Switch a chegar apenas em 2018. Já o meu exemplar foi comprado numa CeX algures no ano passado e creio que me custou menos de 15€.

Jogo com caixa, folheto e um pequeno livro de banda desenhada que introduz a aventura aqui narrada.

A narrativa leva-nos uma vez mais a controlar a dupla George Stobbart e Nico Collard. George é agora um mediador de seguros e vê-se obrigado a viajar até Paris para acompanhar a abertura de uma nova exposição numa galeria de arte local, cujas obras foram asseguradas pela sua empresa. Já Nico planeia cobrir o evento para o seu jornal, pelo que os amigos de longa data acabam por se reencontrar. No entanto, a dupla vê-se uma vez mais envolvida num crime: durante a cerimónia de abertura, um homem de rosto tapado assalta a galeria, rouba um quadro em específico e acaba por assassinar o dono do espaço. Numa primeira análise, todo o assalto parece algo estranho. O sistema de alarme tinha sido sabotado precisamente nesse quadro e, ainda mais estranho, essa peça nem sequer era a mais valiosa da exposição. George, como parte interessada visto ter sido a sua empresa a assegurar a obra roubada, decide investigar o crime com a ajuda de Nico. Sem querer revelar mais detalhes da narrativa, digamos apenas que a primeira metade do jogo tem muito o tom de um drama policial, enquanto a segunda parte evolui gradualmente para uma aventura mais ao estilo de Indiana Jones, com o roubo do quadro a revelar-se apenas a ponta do icebergue de uma conspiração bem mais antiga.

Uma vez mais, Paris não traz boas recordações para George.

Mas mais importante do que a premissa narrativa é perceber de que forma este novo capítulo recupera as mecânicas clássicas da série. Estas são as de um point and click tradicional, com uma interface simples e bastante intuitiva. Com o analógico esquerdo controlamos um cursor cuja forma muda consoante o contexto. Quando vemos um ícone normal, ao pressionar o botão X fazemos com que George ou Nico se desloquem até essa posição. Já quando passamos o cursor sobre um ponto de interesse, seja um objecto coleccionável, uma parte interactiva do cenário ou outra personagem, o ícone muda para diferentes formas que ilustram a acção correspondente. Por exemplo, rodas dentadas assinalam pontos interactivos, uma lupa indica que poderemos observar aquela zona mais atentamente, ou uma boca permite iniciar diálogo com alguém. O botão quadrado está sempre associado à acção de observar, o círculo serve para cancelar acções e o triângulo abre o inventário, onde poderemos seleccionar itens para os combinar entre si ou utilizá-los com personagens e objectos presentes nos cenários.

Tal como na aventura anterior, podemos escolher vários tópicos de conversação representados por ícones.

O jogo conta também com vários puzzles e algumas escolhas durante os diálogos, embora estas últimas acabem por ter pouco impacto no desenrolar da narrativa. Os puzzles, por sua vez, tornam-se progressivamente mais interessantes, sobretudo na segunda metade do jogo, onde teremos de desencriptar mensagens secretas através de algoritmos de substituição de letras ou até interpretar caracteres pertencentes a civilizações muito antigas. Infelizmente, pelo menos nesta versão para PS4 que joguei, deparei-me com vários bugs que ocasionalmente podem tornar certos objectos interactivos completamente invisíveis nos cenários. A certa altura, por exemplo, teremos de investigar a mansão de um milionário suspeito em Londres em busca de provas que o incriminem. A sua secretária possui um compartimento secreto que se abre ao pressionar uma série de símbolos inscritos na madeira, mas em várias tentativas esses símbolos nunca surgiram visíveis no ecrã, o que me obrigou a recorrer a um guia para ultrapassar esse puzzle específico. Não foi, no entanto, caso único, embora noutras situações um simples reload tenha sido suficiente para resolver o problema.

Ocasionalmente temos também alguns puzzles mais “a sério” para resolver

No que toca aos gráficos e som, a boa notícia é que a Revolution regressou ao 2D, algo que neste tipo de aventuras gráficas continua a resultar particularmente bem. O estúdio optou por utilizar personagens modeladas em 3D com cel-shading, conferindo-lhes um aspecto mais cartoonesco, que depois se movimentam sobre cenários desenhados em 2D. Se por um lado concordo que as personagens apresentem um bom nível de detalhe, por outro lado a direcção artística escolhida não me agradou particularmente e as animações também não são das mais naturais ou fluídas. Já os cenários são claramente o ponto forte do jogo, com ambientes bem ilustrados e ricos em detalhe, particularmente nas localizações parisienses que ficaram, a meu ver, muito bem conseguidas. O voice acting continua bastante competente, enquanto a banda sonora me deixou com sentimentos algo mistos por ser um pouco inconsistente. Ainda assim, destaque para as faixas Jasmine e Strange Girl, que evocam um rock característico dos anos 70 e foram compostas pelo conceituado músico Miles Gilderdale.

Esta entrada na série é um claro piscar de olho aos fãs de longa data, devido ao aparecimento de várias personagens icónicas

Portanto, e no fim de contas, este Broken Sword 5 deixou-me com sentimentos algo mistos. Por um lado, é excelente ver a Revolution regressar às suas raízes e trazer-nos novamente uma aventura gráfica point and click em 2D, com cenários ricos em detalhe e uma narrativa que continua a escalar progressivamente para uma conspiração cada vez maior, algo já habitual na série. Apesar de o humor de George não ser tão mordaz e sarcástico como noutras entradas, destaca-se também o ressurgimento de várias personagens icónicas das aventuras passadas, um claro piscar de olho aos fãs que contribuíram para o financiamento do jogo através do Kickstarter. Ainda assim, não consigo deixar de ficar algo decepcionado com os vários bugs gráficos, e não só, que o jogo foi apresentando, pelo menos nesta versão para PS4.