Tempo de voltar às visual novels para finalmente abordar o terceiro capítulo da saga Zero Escape, introduzida originalmente em 2009 no Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors, com uma sequela a chegar três anos depois sob a forma de Virtue’s Last Reward. Zero Time Dilemma, lançado originalmente em 2016, é o jogo que encerra a trilogia, sendo que o meu exemplar chegou-me às mãos algures no início de 2024, através de um negócio na Vinted.
Falar sobre este jogo sem estragar a experiência proporcionada pelos seus antecessores directos é uma tarefa ingrata. Ainda assim, podemos resumir a premissa a mais um grupo de pessoas atiradas para um bunker, onde, para conseguirem escapar, terão de resolver uma série de desafios, muitas vezes macabros, e tomar difíceis decisões morais sobre “quem vive e quem morre”, algo fundamental para a sobrevivência. Isto porque a única saída disponível apenas se abre quando pelo menos seis dos nove participantes morrem.

Uma das principais diferenças face aos jogos anteriores prende-se com a divisão dos nove participantes em equipas fixas de três elementos, sem qualquer contacto entre si. Cada capítulo jogável representa períodos de 90 minutos, contendo tipicamente longas secções de diálogo, uma sala para explorar exaustivamente e resolver os respectivos puzzles, e uma decisão difícil a tomar no final. No entanto, a forma como estes capítulos são apresentados ao jogador é bastante distinta do habitual. Em vez de seguirmos uma progressão linear, ou mesmo uma árvore narrativa claramente estruturada como em Virtue’s Last Reward, aqui a história surge fragmentada em múltiplos segmentos dispersos.

Após a conclusão de um capítulo, somos encaminhados novamente para um ecrã de selecção de equipas, podendo revisitar fragmentos já explorados para tomar decisões diferentes ou optar por segmentos inteiramente novos. Estas escolhas desbloqueiam diferentes ramificações da narrativa, sendo necessário explorar múltiplos caminhos para alcançar o desfecho verdadeiro. Esta estrutura resulta numa narrativa deliberadamente desordenada, onde os acontecimentos são apresentados fora de sequência e com pouca contextualização inicial. Numa fase inicial, esta abordagem pode revelar-se confusa, sobretudo pela dificuldade em perceber a ordem cronológica dos eventos e a forma como os diferentes fragmentos se interligam. No entanto, à medida que o jogador vai interiorizando os conceitos centrais da série, esta fragmentação começa a fazer mais sentido, tornando-se parte integrante do próprio processo de descoberta. Sem entrar em detalhes, o jogo continua a explorar temas como realidades alternativas e deslocações no tempo ou entre diferentes linhas temporais.

Os puzzles continuam a ser a componente mais interessante e interactiva do jogo, embora nem todos os capítulos disponíveis os incluam. Nessas secções, o jogo aproxima-se de uma aventura gráfica, recorrendo a um cursor para interagir com o cenário, recolher pistas e objectos, e resolver uma série de desafios que permitem desbloquear a saída. Fora desses momentos, a experiência assume a forma de uma visual novel, e aqui confesso que gostaria de ter mais controlo. Jogar à noite, num sofá confortável, revelou-se problemático, pois ocasionalmente adormecia de comando na mão e era frequente ter de reiniciar segmentos inteiros. Isto acontece porque, ao contrário de muitas outras VNs, o texto avança de forma contínua, sem aguardar pela intervenção do jogador. O único controlo disponível é o de acelerar o diálogo, que por sua vez se revela demasiado sensível, levando frequentemente a avançar mais texto do que o pretendido. Refira-se que joguei a versão PS4, pelo que desconheço se este comportamento se mantém noutras plataformas.

No que diz respeito aos audiovisuais, Zero Time Dilemma segue a mesma linha de Virtue’s Last Reward. Ambos foram desenvolvidos com a Nintendo 3DS e a PlayStation Vita em mente, e isso reflecte-se na apresentação. A narrativa é transmitida através de cenas com personagens modeladas em 3D, mas com um aspecto bastante rudimentar, marcado por modelos poligonais simples e animações pouco convincentes. Se em ecrãs mais pequenos estas limitações acabam por ser disfarçadas, numa televisão de maiores dimensões, como no caso da versão PS4, tornam-se bem mais evidentes. Ainda assim, a componente sonora acaba por compensar parcialmente estas falhas, com um voice acting competente tanto em inglês como em japonês, tendo eu optado maioritariamente pela dobragem nipónica.
Apesar dos seus problemas, foi interessante regressar a este peculiar universo de Zero Escape. Zero Time Dilemma é, talvez mais do que os seus antecessores, uma experiência que exige alguma paciência por parte do jogador, não só pela forma como apresenta a sua narrativa de forma fragmentada, mas também pelas limitações na forma como nos deixa interagir com ela. Ainda assim, para quem já esteja familiarizado com os conceitos introduzidos em Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors e Virtue’s Last Reward, este capítulo final acaba por recompensar esse investimento, oferecendo um encerramento que, apesar de por vezes confuso, se mantém fiel à identidade da série. Não será, no entanto, o melhor ponto de entrada para novos jogadores. A sua estrutura, personagens e conceitos dependem fortemente do contexto dos jogos anteriores, sendo por isso altamente recomendável jogar a trilogia pela ordem original.

