The King of Fighters R-1 (Neo Geo Pocket)

Tempo de estrear uma nova plataforma aqui no blogue: a portátil Neo Geo Pocket da SNK, lançada originalmente no Japão no Outono de 1998, tendo chegado no ano seguinte ao restante mundo, já na sua versão a cores. Tanto este sistema como a Wonderswan da Bandai (que infelizmente ficou exclusiva ao mercado nipónico) são marcos importantes na indústria dos videojogos. Isto porque a Nintendo Game Boy já há muito que dominava o mercado mesmo depois de sistemas tecnologicamente mais capazes não a terem conseguido destronar. A chave para o sucesso no mercado das portáteis estava, para além de software cativante, no preço baixo e longevidade das suas baterias, algo que só estes novos sistemas da SNK e Bandai conseguiram igualar. E pela primeira vez a Nintendo sentiu que a ameaça ao seu domínio era real, pelo que lançou o Game Boy Color justamente em resposta a estes novos sistemas. Tanto a SNK como a própria Bandai acabariam também por lançar versões a cores das suas portáteis em seguida.

Jogo com caixa e manual. Curiosamente o território europeu chegou a receber estes títulos monocromáticos, ao contrário do americano que apenas comercializaram os jogos a cores.

Há muito que tinha interesse em adquirir uma Neo Geo Pocket, pois recordo-me bem de as ver à venda em Portugal, algures entre 1999 e 2000, mas apenas na já extinta cadeia de lojas GameStage. Presumo que muito poucas unidades terão sido vendidas por cá, pois nunca mais voltei a ver alguma à venda nem os seus jogos, nos mercados paralelos de usados ou feiras de velharias. E já vi vários sistemas “exóticos” para o nosso mercado, mas nunca mais voltei a cruzar-me com outra. A CeX do Reino Unido já há muito tempo que as vende, mas nunca nenhuma loja, perto de amigos meus que viajam frequentemente para o Reino Unido, as tinha em stock. Já na vinted europeia, os preços são consideravelmente mais caros, pelo que fui deixando a sua compra passar. Até que há uns meses atrás entrou uma à venda numa Cash Converters, modelo espanhol a julgar pela língua de todos os manuais e folhetos e a um preço equivalente ao praticado nas CeX britânicas, pelo que finalmente mordi o isco e comprei uma. O desafio seguinte está em arranjar jogos, pois estes infelizmente também encareceram demasiado nos últimos anos. Com muito esforço, e depois de acumular algum saldo na Wallapop, lá comprei este King of Fighters R-1, um jogo de primeira geração deste sistema por ser totalmente monocromático.

Em baixo vemos o medidor do special, cuja barra pode ser diferente mediante o estilo de jogo escolhido

Se há algo em que a SNK era de facto talentosa, era nos seus jogos arcade, principalmente os de luta em 2D, género onde foi nitidamente mais prolífera. Também não era a primeira vez que a série The King of Fighters recebia adaptações para portáteis, no entanto, a Game Boy original não era, de longe, o sistema mais adequado para jogos de luta desta envergadura. E a primeira surpresa desta adaptação é precisamente a jogabilidade, que está muito boa e mostra que a SNK sabia bem o que estava a fazer aqui. Este KoF é na verdade uma adaptação modesta do The King of Fighters 97, herdando a sua história (o epítome da trilogia Orochi original), mas com um elenco de personagens jogáveis bem mais reduzido.

No que toca à jogabilidade, a Neo Geo original possui um esquema fixo de quatro botões faciais pelo que, ao traduzir para um esquema de dois botões apenas, concessões tiveram de ser feitas, mas que fazem sentido no final de contas. Pressionar momentaneamente os botões faciais serve para executar socos ou pontapés fracos, enquanto que, ao mantê-los pressionados durante mais tempo, os golpes são mais fortes (o que corresponderia aos botões C e D da Neo Geo original). O direccional da Neo Geo Pocket foi concebido de forma a facilitar bastante a execução das diagonais, algo que também contribui positivamente para a jogabilidade. E de facto, esta é uma vertente muito bem conseguida num sistema mais modesto: temos a possibilidade de usar os mesmos esquemas de controlo Extra e Advanced, bem como toda uma série de golpes especiais para cada personagem. O resultado é uma jogabilidade muito fluída e responsiva, algo que ajuda a esquecer rapidamente as inevitáveis concessões técnicas desta conversão. O jogo permite-nos também customizar a experiência caso prefiramos manter o esquema de equipas de três, ou combates puramente de um contra um.

O elenco de personagens é, infelizmente, bastante reduzido nesta versão.

É difícil traduzir um jogo de luta visualmente tão detalhado para uma portátil com uma fracção do poderio do sistema Neo Geo. A SNK procurou representar o melhor possível os cenários detalhados do original numa paleta de tons de cinzento e na verdade acho que até fizeram um bom trabalho nesse campo. Já as personagens, estas foram todas redesenhadas, perdendo o aspecto “adulto” e incrivelmente detalhado do lançamento original para um aspecto mais cartoon, no estilo super deformed com cabeças gigantes que a indústria nipónica muitas vezes acaba por utilizar. Esta foi naturalmente uma concessão necessária, até porque desta forma não só as personagens tornam-se melhor visíveis num ecrã pequeno mas também, com este estilo mais cartoon, a equipa da SNK conseguiu na mesma capturar todas as particularidades e charme das personagens nas suas animações. Já no que toca ao som, bom, aqui de facto não há muitos milagres, pois as capacidades de som da Neo Geo Pocket são muito mais limitadas. Para terem uma noção, esta consola contém um chip de som derivado do velhinho SN76489 da Texas Instruments, o mesmo que deu som a vários sistemas da década de 80, incluindo a Master System. Daí ter achado o som bastante familiar! No entanto, para além dos canais PSG, possui também canais próprios para reprodução de samples, o que não me pareceu acontecer neste jogo. Tenho de redescobrir a biblioteca da Neo Geo Pocket para ter uma melhor noção das suas capacidades, mas o que importa reter aqui é que as músicas são agradáveis, embora ainda soem demasiado “8bit“.

Apesar do seu aspecto mais cartoon, mantem todo um charme muito próprio e acima de tudo continua a ser uma experiência bastante fluída

Portanto este primeiro King of Fighters na Neo Geo Pocket é um título de lançamento muito interessante pela fórmula compacta, porém bastante competente, que a SNK conseguiu encontrar para adaptar conversões dos seus jogos de luta para este sistema. Segue-se então o The King of Fighters R-2, agora a cores, que planeio um dia destes arranjar para a colecção, assim que o encontrar a um preço convidativo.

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Autor: cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.

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