Spycraft: The Great Game (PC)

Recentemente tive a oportunidade de comprar um lote de vários jogos retro e, lá pelo meio, vinha este jogo de PC de que nunca tinha ouvido falar. Qual não foi então o meu espanto quando descobri que este Spycraft é um jogo de aventura repleto de cenas em full motion video, e com o envolvimento na sua produção, de ex dirigentes tanto da CIA como do KGB. Spycraft apresenta-se assim como um jogo de aventura claramente voltado para um público adulto e com um grande foco em trabalho de investigação, apesar de ter algumas cenas de acção pelo meio.

Jogo com caixa jewel case, três discos e manual embutido com a capa

A trama é simples: nós controlamos Thorn, um agente novato na CIA com uma importante missão entre mãos. Os Estados Unidos estão prestes a assinar um importante acordo de cooperação com a Federação Russa, um estado ainda muito jovem após a queda do bloco soviético, que levará igualmente à assinatura de um importante acordo de não proliferação e desmantelamento de arsenal nuclear. Acontece que a CIA recebe uma denúncia anónima avisando do possível assassinato o candidato favorito às eleições presidenciais russas (e aparentemente próximo do Ocidente), bem como o assassinato do próprio Presidente norte-americano durante a sua visita oficial à Rússia para assinar tal acordo. A CIA não deu importância a essa denúncia, até ao momento em que o candidato russo é de facto assassinado em pleno comício eleitoral. Com a viagem do Presidente norte-americano prestes a realizar-se, será imperativo descobrir quem está por detrás desta conspiração o mais rapidamente possível.

Relativamente cedo no jogo, teremos de utilizar um complexo simulador para encontrar a posição, e mais tarde a identidade, do assassino do candidato à presidência russa.

E desde cedo que nos apercebemos que este não é um jogo de aventura normal, pois para além de termos de contactar regularmente os nossos superiores e colegas em busca de pistas, teremos também acesso a todo um acervo de várias ferramentas informáticas e bases de dados de inteligência, não só da CIA, mas também de outras organizações de inteligência aliadas dos norte-americanos. Logo para descobrir a identidade do atirador que assassinou o candidato russo teremos de manipular um complexo software de simulação e calcular o ângulo de disparo, a distância e identificar a janela onde o atirador estaria posicionado, para depois recolher imagens de satélite do evento e obter, quase milagrosamente, uma fotografia do assassino. Essa fotografia teria depois de ser analisada em maior detalhe, a sua qualidade melhorada e, assim que tivermos uma imagem nítida da cara do atirador, utilizá-la numa pesquisa nas bases de dados do governo norte-americano, só para descobrir que o atirador não é mais nem menos que um ex-agente da CIA. A trama adensa-se!

E sim, SpyCraft está também repleto de vídeos em FMV, mas numa resolução ainda baixa para o PC.

Este é só um exemplo. Ao longo do jogo teremos de utilizar inúmeras outras ferramentas como manipuladores de imagem, editores de áudio para identificar ruídos de fundo e, dessa forma, inferir localizações aproximadas, aceder a inúmeros relatórios de inteligência, assim como os registos de auditoria desses acessos, para encontrar eventuais toupeiras. Ocasionalmente lá teremos também alguns momentos de acção onde, tal como é habitual em jogos de aventura point and click, não são tão agradáveis quanto isso. Na prática, estes segmentos funcionam como uma galeria de tiro, teremos não só de disparar sobre os inimigos, como clicar numa série de setas nas extremidades do ecrã para nos irmos movimentando pelo mapa. Temos de ter em atenção o posicionamento das forças inimigas, que surgem assinalados num radar na parte inferior do ecrã e deslocarmo-nos para posições seguras sempre que possível.

Analisar áudios para identificar outras fontes de som e assim inferir a localização do interlocutor? Sim, teremos de o fazer mais que uma vez.

Também iremos travando diversos diálogos com outros NPCs que ocasionalmente nos colocam certas escolhas que podem influenciar ligeiramente o decorrer da narrativa, mas é mesmo na recta final onde as nossas escolhas determinarão qual dos vários finais iremos obter. De resto, este SpyCraft é portanto uma aventura gráfica muito diferente e com puzzles altamente complexos, que nos obrigarão a uma leitura muito atenta de todas as informações que vamos recolhendo, correlacionar eventos, e aprender a utilizar todas as ferramentas que o jogo nos vai oferecendo. É, portanto um título com uma dificuldade bastante acima da média, pelo que não se acanhem de utilizar guias caso precisem.

Os segmentos de acção é que são, infelizmente, sofríveis.

Visualmente é igualmente um título com um aspecto muito distinto. Grande parte da interface foi desenvolvida em HTML, pelo que navegar em muitos dos menus, particularmente quando exploramos o PDA do Agente Thorn, parece mesmo que estamos a navegar em menus de um browser da época. O jogo tem ainda, portanto, toda uma interface muito parecida à do próprio Windows 95. A narração é séria, contando com uma série de actores norte-americanos, mas não só, incluindo os próprios William Colby e Oleg Kalugin, ambos antigos altos responsáveis da CIA e do KGB, respectivamente.

Ler documentos e correlacionar eventos é algo que teremos de ter sempre em conta neste Spycraft

Portanto, SpyCraft foi de facto uma óptima surpresa, apesar da sua curva de aprendizagem bastante exigente. De notar que o final do jogo antecipa uma sequela que infelizmente nunca se chegou a materializar, no entanto acredito que tenha sido um jogo que tenha deixado a sua marca graças à sua ambição, tanto que a Polygon lançou, algures em 2024, um documentário de mais de uma hora dedicado ao seu desenvolvimento. Irei assistir muito em breve.

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Autor: cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.

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