Chrono Trigger (Nintendo DS)

Foi no final de 1998 que descobri o mundo da emulação e desde essa altura o meu mundo mudou: nunca tive muitos videojogos e consolas desde a minha infância, pelo que a emulação serviu para eu finalmente conseguir jogar à vontade muitos dos títulos para sistemas como a Mega Drive ou Super Nintendo sem ter de os ir jogar a casa de amigos. Poucos anos depois, com a massificação de internet de banda larga, rapidamente comecei a ter acesso a CDs (e mais tarde DVDs) com centenas de ROMs para os mais variadíssimos sistemas. Na altura não gostava de RPGs pelo que quando via um jogo desse género, avançava para a ROM seguinte. Com a febre do Pokémon também na mesma época decidi experimentar o Pokémon Yellow por emulação (saudoso No$GB) e adorei! Quando me apercebi que os RPGs por turnos tinham mecânicas de jogo similares, lá me decidi a experimentar algum RPG mais a sério. Uma pesquisa rápida na internet por melhores RPGs da era 16-bit, 3 nomes vinham constantemente à baila: Chrono Trigger, Final Fantasy VI e Phantasy Star IV. Comecei o CT e PS4 em simultâneo e fiquei agarrado a ambos, mas rapidamente decidi encostar o PS4 para começar a série pelo início, pelo que o Chrono Trigger teve a honra de ser o primeiro jRPG (que não um Pokémon) que alguma vez joguei! O lançamento original da SNES nunca chegou a sair na Europa, sendo também um jogo muito procurado por coleccionadores. Anos mais tarde a Square relança o jogo na PS1, onde uma vez mais os europeus ficaram de fora até que, em 2008/2009 sai também uma versão para a Nintendo DS que já saiu, finalmente, em território europeu. O meu exemplar foi comprado a um particular que se desfez de toda a sua colecção da Nintendo DS, algures em 2017. Ficou-me a um preço bem agradável na altura, creio que algo em torno dos 20€.

Jogo com caixa, manual e papelada

E o que torna este jogo tão especial? Tal começa logo pelas suas origens! Posso estar enganado, mas creio ter sido esta a primeira colaboração entre a Squaresoft e a Enix, pois todo o jogo foi idealizado por 3 nomes importantíssimos na indústria: Hironobu Sakaguchi, um dos criadores de Final Fantasy, Yuji Horii, o mentor por detrás de Dragon Quest e Akira Toriyama, criador de Dragon Ball e que por sua vez sempre foi também o artista por detrás da arte dos Dragon Quest. E o resultado final foi de facto brilhante: Chrono Trigger é um excelente jRPG com uma narrativa muito bem conseguida, personagens carismáticas e um sistema de combate bem apelativo, conforme irei detalhar de seguida.

Logo no início somos questionados se queremos usar o touch screen para os inputs e auto-map, ou uma experiência mais old school. O active time battle pode também ser desactivado.

A história leva-nos a encarnar na personagem de Crono, um jovem habitante da vila de Truce, reino de Guardia. É o ano 1000 e o reino organizou a Millennial Fair, uma festa pomposa, para celebral tal ocasião. Somos acordados pela nossa mãe que nos informa que Lucca, nossa amiga de infância, está prestes a desvendar a sua mais recente invenção na feira (qualquer paralelismo com a Bulma é mera coincidência ou não) e somos convidados a assistir. Assim que lá chegamos acabamos por nos cruzar com Marle, uma jovem rapariga que também por lá se procurava divertir e acaba por nos acompanhar no resto das festividades. Poderemos inclusivamente participar nalguns mini jogos nessa altura, mas eventualmente lá vamos assistir à invenção de Lucca: uma máquina capaz de teletransportar qualquer pessoa do ponto A ao ponto B. Claro que seremos a cobaia para experimentar tal geringonça mas tudo corre bem. Marle entusiasma-se e quer também experimentar, mas no seu caso já não teve tanta sorte. Por algum motivo quando Marle usa a máquina abre-se um portal que a leva para destino desconhecido. Não tendo outra alternativa, vamos atrás dela e vemos que somos no entanto transportados no tempo, mais precisamente para 400 anos no passado, por altura em que o reino de Guardia travava uma feroz guerra contra um exército de monstros liderados por um poderoso feiticeiro. Sem querer revelar muito mais, digamos só que por motivos de força maior iremos ter também de viajar para outros períodos temporais, onde conheceremos mais personagens carismáticas que se juntam a nós e a trama vai-se desenrolando de tal forma que teremos mesmo de salvar o mundo de uma poderosíssima ameaça que vai surgindo.

A história está muito bem contada e faz-nos sempre querer jogar um pouco mais! A nostalgia que esta cena me deu!

Mas não é só a narrativa que é cativante neste jogo: o seu sistema de batalhas também o é. Estas não são aleatórias, os inimigos estão presentes no ecrã e apenas alguns dos confrontos serão forçados, a maioria poderão ser evitados se assim o quisermos. Já dentro das batalhas em si, o jogo utiliza por base o active time battle introduzido pela primeira vez no Final Fantasy IV. Ou seja, apesar de serem batalhas por turnos, estes são bem mais dinâmicos pois a ordem pela qual os intervenientes atacam está directamente relacionada com os seus stats. E para além disso, mesmo quando é o nosso turno e temos de escolher que acções tomar, o “contador” não pára e os inimigos podem-nos atacar! As acções que podemos tomar são as habituais, podemos atacar directamente, usar técnicas especiais onde se incluem magias, usar itens ou tentar fugir do conflito. No final de cada batalha somos recompensados com dinheiro e experiência, mas também tech points, que servem para as personagens que estão na party aprender novas habilidades. A parte interessante destas habilidades é que nem todas são habilidades de uso individual por cada personagem, mas também poderemos aprender combos que requeiram duas ou três personagens em simultâneo! O facto de os inimigos se movimentarem pelo ecrã durante as batalhas também é importante pois muitas destas habilidades podem atingir mais que um inimigo em simultâneo, particularmente as que têm uma área circular de impacto, ou aquelas onde atacamos numa linha.

Os ataques especiais que precisam de mais que uma personagem foi outra das novidades a meu ver bastante originais!

Visualmente é um jogo muito interessante tendo em conta que temos de nos lembrar que o seu lançamento original era de Super Nintendo. E para um jogo de Super Nintendo temos na mesma algumas sprites bem detalhadas e animadas, para não falar da grande diversidade de cenários que iremos explorar, também todos eles muito bem detalhados. Muitos dos golpes especiais que vamos aprendendo têm também bonitos efeitos gráficos que eram impressionantes na época da SNES e não ficaram nada mal no pequeno ecrã da Nintendo DS. Por outro lado, as músicas são também excelentes e teremos também direito a várias cutscenes anime em certos pontos fulcrais da história que haviam sido introduzidas no relançamento da Playstation e felizmente foram mantidas nesta versão da DS.

Tal como na versão PS1, esta versão DS traz também as cutscenes anime do senhor Akira Toriyama

Portanto este é um excelente RPG com personagens carismáticas, uma narrativa fantástica que nos vai querer deixar sempre a jogar um pouco mais para ver o que irá acontecer em seguida e um sistema de combate empolgante e original. Já a versão original de SNES se apresentava como um jogo com uma boa longevidade, quanto mais não fosse pela introdução do New Game Plus e dos diferentes finais distintos que poderíamos alcançar. Esta versão DS inclui ainda mais conteúdo adicional: novas dungeons e sidequests para explorar, um novo final para descobrir e até uma vertente multiplayer com o modo Arena of the Ages. Não cheguei a explorar este modo de jogo, mas aparentemente teríamos a possibilidade de treinar monstros e colocá-los à pancada uns com os outros – quaisquer semelhanças com Pokémon não são mera coincidência.

Life is Strange 2 (Sony Playstation 4)

O primeiro Life is Strange foi um jogo que me surpreendeu bastante pela positiva. É uma aventura gráfica com um setting urbano e juvenil, onde as escolhas que vamos fazendo (tal como nos jogos da Telltale) irão ter algumas repercussões que irão moldar o decorrer da história, mas acima de tudo, a narrativa foi muito bem escrita e todas as personagens foram muito bem construídas. Depois veio o Before the Storm que se afirmou como uma prequela e apesar de também ter qualidade, não me impressionou tanto quanto o primeiro. Este segundo Life is Strange custou-me cerca de 18€, tendo sido comprado na Amazon algures no passado mês de Junho.

Jogo com caixa e papelada

Desta vez, este segundo Life is Strange apresenta-nos uma história completamente nova, onde controlamos Sean Diaz, um adolescente que vive algures em Seattle com o seu pai e Daniel, seu irmão mais novo. Sean prepara-se para festejar o Halloween com os seus amigos da escola e até este ponto, tudo indicava que esta seria mais uma aventura entre colegas de escola do 12º ano. Mas eis que de repente coisas graves acontecem e os dois irmãos vêm-se forçados a abandonar Seattle enquanto são perseguidos pela polícia. Ao longo do jogo iremos percorrer vários estados e regiões norte-americanas, pelo que em cada episódio iremos conhecer novas pessoas, o que de certa forma também nos dá uma maior variedade. E claro, a relação entre Sean e o seu irmão Daniel será o principal ponto do jogo, onde teremos muitas vezes de o proteger, mas também de o educar, com a acções que formos tomando servindo de exemplo para o pequeno Daniel. Por sua vez, e sem querer estragar qualquer surpresa, digamos que o próprio Daniel é também uma pessoa muito especial. Este Life is Strange 2 traz também o The Awesome Adventures of Captain Spirit. Este é um pequeno capítulo adicional que foi lançado de forma gratuíta uns meses antes do lançamento deste Life is Strange 2. Esse pequeno jogo serve-nos para introduzir o jovem Chris que vive sozinho com o seu pai numa remota aldeia no interior Norte-Americano. É apenas um sábado onde teríamos todo o tempo do mundo para nos divertirmos, mas também teremos de lidar com os problemas de alcoolismo do seu pai. Serve para introduzir algumas das novas mecânicas de jogo e iremos reencontrar o pequeno Chris no segundo capítulo do Life is Strange 2.

No The Awesome Adventures of Captain Spirit iremos protagonizar o pequeno Chris, uma criança com uma imaginação muito fértil, mas também com uma relação difícil com o seu pai

No que diz respeito às mecânicas de jogo em si, esta é mais uma aventura gráfica completamente em 3D onde teremos de explorar os cenários, coleccionar alguns objectos e falar com várias pessoas para ir progredindo na história. Uma vez mais, iremos tomar diferentes decisões que irão moldar o decorrer da história, mas também desenvolver a personalidade do pequeno Daniel de diferentes formas. Tal como nos outros Life is Strange, a última decisão é sem dúvida a mais importante e aquela que irá ditar o final que iremos observar. No entanto, mediante como fomos construindo a nossa relação com o Daniel, os finais em si poderão ser bem diferentes, creio que há uns 7 finais distintos que poderemos alcançar. Tudo dependerá da moralidade de Daniel, do quão fortes os laços estão entre ambos os irmãos e claro, da relação que tenhamos mantido com algumas outras personagens chave ao longo do jogo. Outro aspecto que devemos também salientar é o facto de agora haverem bem mais diálogos temporizados, onde teremos um tempo limite para dar a nossa resposta, tal como nos títulos da Telltale.

Enquanto que no primeiro Life is Strange poderíamos tirar fotos opcionais e no Before the Storm eram graffiti, aqui Sean é muito dotado para o desenho, embora também possamos encontrar outros coleccionáveis

Graficamente já é um jogo bem superior aos seus predecessores, particularmente no detalhe gráfico dos cenários à nossa volta. Como estamos a maior parte do jogo em fuga da polícia, iremos principalmente explorar várias localidades mais no interior, onde iremos explorar belíssimas florestas, mas também os áridos desertos dos estados do Nevada e Arizona. As personagens em si possuem óptimas animações faciais, embora não sejam 100% realistas, mantendo um estilo gráfico muito próprio, já herdado do primeiro jogo. A banda sonora é principalmente composta por temas mais acústicos, o que faz todo o sentido, não só pelos muitos momentos de solidão e exploração em plena Natureza que iremos percorrer, mas também pela narrativa mais melancólica que nos irá acompanhando.

O facto de andarmos sempre em fuga permite-nos também ter uma maior variedade de cenários, alguns deles paisagens naturais belíssimas

Portanto devo dizer que até que gostei bastante deste Life is Strange 2. O primeiro episódio, onde iríamos principalmente conhecer Sean, os seus colegas e familiares mais próximos, deixavam-me antever mais uma aventura num ambiente colegial, mas o twist final desse episódio surpreendeu-me bastante. A narrativa está excelente, com um grande foco nos laços que vão sendo estabelecidos entre os dois irmãos em ambientes adversos, mas também muitos outros tópicos importantes da sociedade vão sendo abordados. Tendo em conta que Sean e Daniel são descendentes de um pai mexicano, o racismo será um ponto recorrente, infelizmente. Gostei também de ver uma ou outra referência ao primeiro Life is Strange!

Life is Strange: Before the Storm (Sony Playstation 4)

O primeiro Life is Strange foi um jogo que foi muito bem recebido pela crítica e pelo público principalmente pela sua excelente narrativa e personagens muito ricas em personalidade. E enquanto a Dontnod estava entretida a desenvolver o também surpreendente Vampyr, foi a vez da Deck Nine desenvolver a entrada seguinte na série, que acaba por ser uma prequela do primeiro jogo. E este meu exemplar, tal como o anterior, sinceramente já não me recordo quando o comprei, creio que foi também numa Mediamarkt e por 10€, sendo uma vez mais a edição limitada que inclui alguns extras.

Jogo com caixa exterior de cartão, caixa, papelada, livro de arte e banda sonora

Ora este Life is Strange é mais uma aventura gráfica cuja narrativa está dividida em episódios e, tal como nos jogos da Telltale, ao longo do jogo vamos poder tomar uma série de decisões que irão influenciar um pouco o decorrer da história. E esta decorre cerca de 3 anos antes dos acontecimentos do primeiro jogo, com a Chloe Price como protagonista principal, e a Rachel Amber, a tal rapariga que estava desaparecida no primeiro jogo. Basicamente este é mais um drama onde não só vamos acompanhar um pouco do processo de luto de Chloe pelo falecimento do seu pai, mas também a sua relação com a misteriosa Rachel, que por sua vez também iremos desvendar um pouco do seu passado. Sinceramente, não achei a história tão marcante como a do primeiro Life is Strange, embora continue a ter uma atmosfera muito semelhante por protagonizar principalmente adolescentes e muitos dos seus problemas, tanto em ambiente escolar, como familiar.

Apesar do screenshot ser da versão PC, folgo em ver que a interacção com objectos ou pessoas está um pouco mais intuitiva

As mecânicas de jogo são as de uma aventura gráfica ao estilo das da Telltale, excepto uma vez mais sem segmentos de acção com sequências de QTEs, que sinceramente nem fazem assim tanta falta. Iremos então ter de explorar cenários, observar, interagir ou coleccionar objectos, bem como falar com diversas pessoas para fazer avançar a narrativa. Nos diálogos, temos uma vez mais diferentes opções para escolher, que por sua vez poderão moldar o decorrer da história em si. No entanto, Chloe não tem as mesmas habilidades de controlo do tempo que Maxine tinha no primeiro jogo, pelo que desta vez não podemos voltar atrás e tomar decisões diferentes. A novidade está no entanto na inclusão da funcionalidade de backtalk, ou seja, entrar numa espécie de guerra verbal para tentar levar a nossa vontade avante. Aqui os diálogos já têm um tempo limite para serem escolhidos e caso escolhamos uma opção errada, as coisas podem ficar piores do que no início, obrigando-nos a procurar outra solução para dar a volta ao problema.

Em vez de manipular o tempo, a novidade nas mecânicas de jogo está no backtalk, onde temos tempo limite para escolher quais as respostas que queremos dar

A nível audiovisual, o jogo segue a mesma linha estética do seu antecessor, com gráficos que andam ali numa linha ténue entre o realismo e o aspecto mais de desenho animado. Apesar de o jogo anterior possuir melhores efeitos de luz e sombras, principalmente nas cutscenes, neste Life is Strange nota-se uma ligeira melhoria a nível de detalhe poligonal e texturas também como um todo. O facto de terem mudado de motor gráfico para o Unity e terem apostado em sistemas mais modernos também deve ter ajudado, embora ainda esteja longe do que outros jogos conseguiram fazer no mesmo ano. Mas uma vez mais, o ponto forte do jogo é a sua narrativa e o voice acting está uma vez mais muito bem conseguido. A banda sonora é uma vez mais bastante eclética, oscilando entre o rock, indie rock e outros temas mais acústicos e a maneira como cada música é introduzida no jogo está uma vez mais muito bem pensada.

Esta versão traz também um episódio extra, que mostra os últimos momentos entre Maxine e Chloe antes da sua separação

Portanto este Life is Strange: Before the Storm é mais uma aventura gráfica com uma narrativa muito forte e uma história bem escrita. No entanto, e talvez por o ter jogado logo depois do primeiro Life is Strange, devo dizer que preferi a história do primeiro jogo como um todo, para além de que este é mais curto, contendo apenas 3 episódios. Esta Deluxe Edition no entanto traz um episódio adicional intitulado de farewell, onde controlamos uma vez mais a Maxine quando ela e a Chloe eram ainda mais novas e vamos poder testemunhar os seus últimos momentos juntas antes da sua separação que nos levou ao primeiro Life is Strange.

Life is Strange (PC)

Vamos voltar ao PC, agora para um jogo muito focado na narrativa e que acabou por se revelar uma bela surpresa. Dos mesmos produtores que mais tarde nos trouxeram o Vampyr, este Life is Strange é uma espécie de uma aventura gráfica totalmente em 3D, mas com uma narrativa muito bem escrita e onde, à semelhança dos jogos da Telltale, as nossas escolhas irão influenciar de certa forma o decorrer da história. Sinceramente já não me recordo quando comprei o meu exemplar, mas creio ter vindo de uma Mediamarkt a custar 10€. Bons tempos em que os jogos de PC saíam em formato físico e o seu preço desvalorizava rapidamente!

Jogo com caixa de cartão exterior, caixa, livro de arte, CD com a banda sonora e papelada

A história leva-nos a controlar a jovem e tímida Maxine Caulfield, que viveu a sua infância na pequena localidade costeira de Arcadia Bay, Oregon, mas teve de mudar-se para Seattle, deixando a sua melhor amiga, Chloe, para trás. No seu 12º ano de escolaridade tem a oportunidade de voltar a Arcadia Bay, ao entrar na Blackwell Academy e ter aulas de fotografia com um dos seus ídolos. É precisamente durante uma dessas aulas onde Max tem uma visão de um tornado que surge no mar e destrói por completo a cidade de Arcadia Bay. Quando Maxine volta a si, e ao visitarmos o WC para que a mesma se recomponha, acabamos por testemunhar uma discussão entre Nathan Prescott, um ricaço bully e uma rapariga de cabelos azuis. A discussão fica feia, Nathan saca de uma pistola e mata a rapariga a sangue-frio. Tomada pelo pânico, Max levanta a sua mão direita na esperança vã de tentar impedir que tal tragédia aconteça e quando damos por ela, estamos novamente na mesma aula de fotografia onde começamos o jogo. Maxine apercebe-se que, por algum motivo, conseguiu voltar atrás no tempo e usa essa oportunidade para voltar à casa de banho e evitar que o homicídio acontecesse.

A maneira como chegamos ao ecrã título foi brilhante!

Sem querer revelar muito mais da história, digamos que iremos interagir entre diversos estudantes (e também professores) alguns que sofrem bullying, outros que possuem vários problemas familiares, ou mesmo outros podres que iremos eventualmente desencantar. Todos os estudantes terão algum problema pessoal que poderemos tentar ajudar a ultrapassar, mas também há outros mistérios a ter em conta: uma rapariga que desapareceu há mais de um mês sem deixar qualquer rasto, as visões do mega tornado que se tornam cada vez mais frequentes, a relação entre Max e Chloe que entretanto torna a ser reatada ao fim de 5 anos e claro, a misteriosa habilidade de Max para saltar no tempo.

O rato controla a câmara, as teclas WASD o movimento. Quando nos aproximamos de algum objecto que possa ser interagido ou pessoa com a qual podemos dialogar, o jogo mostra-nos quais as acções possíveis.

A jogabilidade é muito simples. Pensem num jogo da Telltale, tipo o The Walking Dead, mas sem zombies ou cutscenes de acção repletas de quick time events. É uma aventura gráfica totalmente em 3D e na terceira pessoa, onde teremos de explorar cenários, falar com pessoas e coleccionar/interagir com objectos de forma a avançar na história. Ao consultar o diário da Maxine (que vai sendo preenchido à medida que vamos avançando no jogo), temos sempre também uma indicação (na forma de um post it) de qual o objectivo a cumprir em determinado momento. E as habilidades de rewind da Maxine serão usadas muitas vezes e de diferentes formas. Por exemplo, ao falar com alguém geralmente vamos tendo várias opções de diálogos e nem sempre temos acesso às opções correctas para avançar na história. Mas depois de dar uma resposta má, a pessoa com quem estamos a falar geralmente responde-nos torto mas deixa uma dica do que poderíamos antes ter dito. A solução? Voltar atrás no tempo e falar novamente com a mesma pessoa como se fosse a primeira vez. Agora já teremos uma nova opção de diálogo para escolher e que já nos desbloqueia a conversa. Mas mesmo na exploração dos cenários esta habilidade pode ser usada, pois apesar de o tempo voltar para trás quando usamos o rewind, a nossa posição actual mantém-se. Por exemplo, ao explorar uma floresta, uma árvore cai-nos em cima e bloqueia o caminho. Rewind para uns segundos antes, a árvore volta a levantar-se e, estando nós agora no local onde a árvore caiu, temos tempo suficiente para dar uns passos em frente para que, quando a mesma voltar a cair, já não nos atrapalhe. Ou uma rapariga levar com uma bola na cabeça, rewind uns momentos para trás, avisamos a miúda para se desviar e ela fica agradecida. Entre muitas outras situações distintas onde teremos de usar esta habilidade para progredir no jogo e inclusivamente resolver alguns puzzles.

O jogo avisa-nos sempre que tomamos alguma decisão que trará alguma consequência e, a menos que avancemos para o checkpoint seguinte, temos sempre a hipótese de fazer rewind e escolher outra opção.

Como já referi acima, a narrativa está muito bem escrita. É um jogo que me faz lembrar bastante o filme Donnie Darko, quanto mais não seja pelo seu setting escolar, um elenco rico de personagens e claro, as viagens no tempo e todas as consequências que tal possa acarretar. É um jogo que aborda problemas reais, desde o bullying, drogas, problemas familiares, gravidez juvenil, suicídio, abusos sexuais, entre outros. Maxine é uma personagem tímida mas bem intencionada, e eventualmente vamos poder intervir positivamente ou não em todas estas situações, o que resultará em diferentes níveis de amizade e relacionamentos com as diversas personagens e as nossas escolhas moldarão o decorrer da história. O que me leva então a debater um pouco a tal não linearidade introduzida pelo jogo. Tal como nos jogos da Telltale, no final de cada episódio temos direito a um ecrã de estatísticas que mostram as nossas decisões e a percentagem de jogadores que tomaram cada decisão. Eu joguei apenas uma play-through, pelo que não cheguei a explorar escolhas diferentes das minhas, e já agora convém mencionar que, antes de avançar para o checkpoint seguinte, o jogo dá-nos sempre a hipótese de fazer rewind e tomar escolhas diferentes. Mas pelo que vi na internet, as diferentes escolhas levam a que de facto hajam pessoas que podem vir a morrer, outras que não nos gramem e dessa forma não nos ajudem em certas situações, obrigando-nos a procurar por soluções alternativas para certos puzzles. Mas tal como nos jogos da Telltale, independentemente das escolhas tomadas, há uma série de acontecimentos chave que irão acontecer sempre, afunilando dessa forma a narrativa. A última escolha, no entanto, levará a que alcancemos um de dois finais distintos.

O jogo possui um estilo gráfico único, embora por vezes se note que os modelos poligonais são muito simples

No que diz respeito aos gráficos, sinceramente não achei o jogo nada de especial nesse aspecto. Também convém referir que foi um título desenvolvido ainda com as consolas da sétima geração em mente (PS360) apesar de ter sido lançado em 2015, e usa o Unreal Engine 3. O estilo gráfico é um pouco difícil de definir, pois está ali numa fronteira ténue entre o realismo e um aspecto mais de desenho animado, pois aparentemente todas as texturas foram pintadas à mão. É um jogo que tem uma atmosfera visual agradável, mas nota-se perfeitamente que utiliza modelos poligonais com pouco detalhe, mesmo correndo no PC com as definições gráficas todas no máximo. Sinceramente não acho que o facto de os gráficos deixarem um pouco a desejar seja um ponto demasiado negativo, pois tudo o resto está muito bem feito. A já mencionada narrativa, que é acompanhada de um voice acting super competente e claro, a banda sonora que é também bastante eclética, com temas acústicos e algo melancólicos, ou outros mais de rock alternativo e que são sempre introduzidos de uma forma brilhante durante o jogo.

Portanto devo dizer que gostei bastante deste Life is Strange. É uma aventura gráfica por episódios do estilo das da Telltale, até porque à medida que vamos jogando teremos a hipótese de tomar diversas decisões que irão afectar o decorrer da história. Mas a sua narrativa muito bem escrita, associada a um elenco de interessantes personagens, mistérios para resolver e plot twists interessantes, tornam o jogo numa aventura bastante agradável de ser vivida. Irei certamente explorar melhor o restante reportório da Dontnod, a começar pela prequela Life is Strange: Before the Storm, que a jogarei de seguida.

Heroes of Ruin (Nintendo 3DS)

Publicado pela Square Enix, mas desenvolvido pela N-Space (o mesmo estúdio que desenvolveu o Geist da GameCube e trabalhou em inúmeras conversões de títulos ocidentais, muitos deles para a própria Nintendo DS), eis que em 2012 lançam este Heroes of Ruin. Um action RPG muito similar nas suas mecânicas de jogo a títulos como o Diablo, e também possuiu um grande foco numa vertente multiplayer cooperativa, podendo ser jogado com até 4 jogadores em diversas formas, online ou por rede local. Naturalmente que o joguei sozinho, mas já lá vamos. O meu exemplar foi comprado numa CeX na zona do Porto algures em Dezembro de 2017, tendo-me custado cerca de 5€ após ter feito umas trocas.

Jogo com caixa e imensa papelada inútil… era muito melhor um manual.

A história leva-nos ao reino de Nexus, onde o seu guardião, uma esfinge chamada Ataraxis está às portas da morte. Nós somos então contratados pela coroa lá do sítio para tentar encontrar uma cura para a esfinge e à medida que vamos avançando na história vamos encontrando uma conspiração cada vez maior para desvendar. Mas sinceramente não esperem por uma narrativa muito boa. O ponto forte do jogo é mesmo a sua jogabilidade simples, muito loot based, e a possiblidade de atravessar as dungeons de forma cooperativa com outras pessoas.

Cada classe possui diferentes armas e habilidades. Os gunslingers são óptimos para quem prefere atacar à distância

Mas antes disso temos de criar a nossa personagem que poderá recair numa de várias raças distintas que por sua vez correspondem a diferentes classes. Os vindicators são liontaurs e os típicos guerreiros corpulentos que atacam com espada. Os humanos são gunslingers e usam apenas armas de fogo. Os elfos pródigos em usar ataques mágicos e por fim temos os Savages, guerreiros animalescos que lutam apenas com as suas garras para combates ainda mais próximos. Ao longo do jogo iremos atravessar diversos níveis, completar várias quests principais e side quests, encontrar inúmeras peças de equipamento e, tal como nos Diablos, ocasionalmente encontramos portais que nos permitem teletransportar de volta para a cidade de Nexus, que serve de hub central a todas as diferentes áreas de exploração e combate.

No final de cada dungeon temos sempre um boss para enfrentar.

À medida que vamos combatendo ganhamos também pontos de experiência e eventualmente subimos de nível. Quando isso acontece temos sempre alguns stat points que poderemos distribuir entre ataque, vida ou mana/stamina. Para além disso vamos também ganhando skill points que servem precisamente para desbloquear ou evoluir novas habilidades, algumas inclusivamente passivas. Tal como noutros action RPGs, um dos botões faciais serve para os ataques normais, os outros 3 poderão ter skills associadas. O botão L está reservado para interagir com objectos ou NPCs, o R é usado para desviar ou defender e o d-pad é uma maneira rápida de usar poções de vida ou de mana. É um jogo com uma jogabilidade simples mas perfeitamente funcional.

Os Vindicators são liontaurs, um híbrido entre leão e humano. São também autênticos tanques, podendo aguentar com muita pancada

No que diz respeito aos gráficos, é um jogo competente tendo em conta as limitações do sistema. O mundo de Nexus não é assim lá muito interessante, mas ao menos vai havendo alguma variedade, com níveis com temáticas dos oceanos, florestas, montanhas geladas e uma outra dimensão repleta de criaturas infernais. Ocasionalmente temos direito a algumas cutscenes que por sua vez são também bastante simples com vários desenhos estáticos acompanhados com um voice acting competente, mas não necessariamente interessante ou memorável. Nada de especial a apontar às músicas, servem bem para nos envolver na atmosfera do jogo.

Portanto este Heroes of Ruin é um action RPG sólido, mas que não cria nada de novo. Se forem fãs de jogos do género do Diablo ou Torchlight, este Heroes of Ruin acaba por ser uma boa opção dentro do género na Nintendo 3DS. Não é nenhuma obra prima, mas é um jogo perfeitamente capaz de nos entreter. O seu foco numa jogabilidade mais cooperativa era também um dos seus pontos fortes e estou certo que seria bem mais divertido se fosse jogado com amigos.