No More Heroes: Heroes’ Paradise (Sony Playstation 3)

Lançado originalmente para a Nintendo Wii, No More Heroes é um jogo de acção bastante peculiar e bizarro também, como tem sido habitual em practicamente tudo o que o Goichi Suda trabalha (quando tem liberdade criativa para tal). É mais um jogo com uma temática à volta de assassinos, embora muito diferente a nível de jogabilidade (e narrativa) do Killer 7, do qual eu sempre achei que este jogo seria uma espécie de sucessor. Entretanto, alguns anos após o lançamento da versão original da Wii, eis que é lançada uma conversão para a Playstation 3 com algum conteúdo extra, conversão essa que chega ao nosso mercado algures em 2011, já depois da sua sequela ter sido lançada na Wii. O meu exemplar foi comprado numa Game, algures em Janeiro de 2013 por uns 15€.

Jogo com caixa, manual e papelada.

Como devem imaginar, a história é bastante bizarra, mas fiquemo-nos pelo básico: Nós controlamos o jovem Travis Touchdown que esbanja todo o seu dinheiro em videojogos e outros coleccionáveis, tendo o último sido um sabre de luz que o deixou falido. Então decide aceitar a proposta da sedutora Sylvia Christel e assassinar alguém, sendo recompensado por isso. Após essa missão bem sucedida, somos informados que ficamos no 11º primeiro lugar do ranking da United Assassins Association e como uma coisa leva à outra (para além de certos incentivos da própria Sylvia), lá vamos querer matar todos os restantes assassinos para chegar ao topo do ranking.

O objectivo do jogo é chegar ao número 1 da tabela dos assassinos, pelo que teremos de derrotar os restantes.

O jogo foi lançado originalmente para a Nintendo Wii e como a arma do protagonista é uma espada, certamente já estão a antever o que isso representa: motion controls! Essa foi a principal razão pela qual preferi antes jogar este nova versão da PS3 (isso e o facto de ter também alguns extras ou outras melhorias), pelo que os controlos aqui são mais convencionais, embora o jogo também suporte o move, para quem preferir. Os botões faciais servem desferir golpes horizontais ou verticais, bem como distribuir socos e pontapés, que por sua vez poderão quebrar defesas e/ou deixar os inimigos atordoados. Sempre que isso acontece, poderemos pressionar o botão R2 para os agarrar e cumprir alguns quick time events com os analógicos para fazer um de vários suplex e os atirar ao chão. O botão L2 é o botão de lock, permitindo-nos focar num inimigo de cada vez, e esta postura também nos permite defender de golpes/balas inimigas automaticamente. O analógico direito serve também para nos desviarmos, enquanto o L1 é usado para consultar o mapa. Existe muito mais a ter em conta em relação ao combate, como os diferentes bónus que poderemos vencer cada vez que executamos um inimigo de forma violenta, a possibilidade de usar charged attacks, ou os dodge avançados que nos colocam nas costas do inimigo. Mas o mais importante mesmo é o facto da nossa espada perder energia com o seu uso, pelo que ocasionalmente a temos de recarregar. Na Wii tínhamos de abanar o wiimote na vertical (com o movimento a ser replicado pelo Travis no ecrã de uma maneira muito cómica), aqui precisamos de pressionar R1 e uma vez mais abanar o comando. É o único controlo de movimento necessário mesmo se usarmos um dualshock normal e entendo perfeitamente o porquê de o terem incluído. A animação continua bastante cómica! No entanto este conceito da espada precisar de ser recarregada pode-nos causar alguns problemas, particularmente na primeira metade do jogo, pois podemos ficar algo indefesos no meio de algum combate mais exigente.

Sim, o jogo suporta o move. Mas mesmo sem controlos por movimento, a acção de recarregar a espada é a única que nos obriga a abanar o comando

Mas No More Heroes é mais do que um jogo com um sistema de combate interessante e ultraviolento, pois fora das suas missões principais, o jogo tem muito mais para oferecer ao permitir-nos explorar livremente uma cidade com alguns pontos de interesse. Cada missão principal obriga-nos a pagar uma taxa de entrada e como o Travis é pobre, teremos de arranjar alguns empregos em part time. O primeiro emprego que arranjamos consiste em apanhar uns quantos cocos e à medida que vamos avançando na história poderemos participar em várias outras tarefas como cortar relva, apanhar lixo da rua, servir de sinaleiro para barcos no oceano, entre muitos outros empregos estranhos. Atingir uma medalha de prata ou ouro nesses eventos permite-nos desbloquear missões especiais, essas já com combate e objectivos variados (assassinar alguém em específico, matar X pessoas dentro de um tempo limite, etc) sendo que essas missões em particular já nos recompensam com bem mais dinheiro. Eventualmente desbloqueamos também as Free Missions, que nos obrigam a matar todos os inimigos num local, com a penalização de termos apenas um ponto de vida, pelo que ao mínimo de dano sofrido perdemos a missão. O dinheiro que vamos ganhando pode ser também gasto em comprar novas espadas e upgrades (altamente recomendável), treinar no ginásio (também recomendável), ou comprar novas peças de roupa. Para além de tudo isto, temos também uns quantos coleccionáveis para apanhar, mas apenas as bolas Lovikov valem realmente a pena, pois estas servem para nos desbloquear algumas habilidades que se tornam bastante úteis, incluindo a habilidade de correr na cidade.

Em missões como esta que estejam carregadas de inimigos, a performance detiora-se severamente

No entanto, apesar de tanta coisa para fazer, explorar o mundo de No More Heroes é simplesmente aborrecido, pois a cidade está practicamente vazia e é simplesmente desinteressante. Para além disso, não existem grandes possibilidades de fast travelling. Quando queremos trabalhar, o fluxo é o de ir primeiro ao centro de emprego, escolher o trabalho e depois lá temos de viajar até ao local do mesmo. No fim do mini-jogo, se o quisermos jogar novamente para ganhar mais dinheiro não o podemos repetir directamente, obrigando-nos a voltar ao centro de emprego e repetir o processo. Ao menos se seleccionarmos um trabalho que já tenhamos feito antes, aí sim, temos a possibilidade de fazer fast travel para o seu local, o que é uma das novidades desta versão perante o lançamento original. Mas seria muito mais proveitoso se, uma vez aceite um emprego pela primeira vez e viajar até ao seu local, o mesmo ficasse disponível para sempre nesse local do mapa. Reduziria muito tempo desnecessário em viagens numa cidade vazia e aborrecida. As missões especiais seguem o mesmo fluxo também, obrigando-nos primeiro ir a um “centro de emprego” específico para tal. Todavia, para nos ajudar a não morrer de tédio em todo este processo, temos também uma moto à nossa disposição que nos permite deslocar mais rapidamente pelo mapa. O problema é que a moto controla-se de uma forma horrível e se caso pressionarem para cima no analógico esquerdo a mesma salta, o que pode resultar num acidente se colidirmos contra algum edifício ou veículo, e isto é algo que irá acontecer muitas vezes de forma acidental. Eventualmente lá nos habituamos a estas peculiaridades mas há outro problema grave com a moto: esta tem a tendência para ficar presa em postes ou troncos de árvores, o que é um bug muito chato.

Bowling humano enquanto os atropelamos com a nossa moto? Sim, é só mais um part-time em No More Heroes

Visualmente este é um jogo bastante interessante particularmente pelo design das personagens e o interior de certos edifícios, onde em ambos os casos há uma notória influência de filmes e actores mais conhecidos. As personagens são renderizadas num estilo muito próprio e que se assemelha a um cel-shading, mas infelizmente, como já referi acima, a cidade onde o jogo se desenrola é bastante simples e aborrecida. Já num jogo de Wii não seria nada do outro mundo, agora imaginem num jogo de PS3. E infelizmente também, mesmo este jogo correndo numa PS3, o mesmo contém graves problemas de performance, com quebras abruptas e prolongadas de frames a ocorrerem nos momentos onde temos muitos inimigos no ecrã em simultâneo, o que vai acontecer em certas missões. Mas tudo isto é desculpável pelas personagens interessantes e todas as situações de bom humor que o jogo nos vai proporcionando ao longo da aventura. Para terem uma ideia, para gravar o progresso do jogo temos de visitar uma retrete, com o Travis a abaixar as calças e sentar-se numa sanita. De resto, o voice acting achei-o bastante bom, e mesmo não havendo a opção de ouvir o original japonês nesta versão, o que tivemos direito é bastante convincente. A banda sonora foca-se principalmente em músicas mais rock, o que se adequa perfeitamente ao jogo em si.

Se formos eficientes nos empregos, desbloqueamos missões de assassinato e essas sim, dão dinheiro a sério e podem ser rejogadas sempre que quisermos.

De resto, o que traz mais esta versão PS3? Para além de pequenas melhorias de qualidade de vida ao incluírem um sistema de fast travel que só peca por ser rudimentar e ter sido implementado apenas a 30% do desejável, esta versão possui alguns bosses do No More Heroes 2, sendo combatidos em certos momentos da narrativa principal. Também incluíram várias novas missões e coleccionáveis. Existe também um novo modo de jogo (score attack – que não experimentei) bem como uma nova dificuldade desbloqueável após completar o jogo uma vez. As versões ocidentais deste No More Heroes: Heroes Paradise são também completamente não censuradas, algo que aconteceu na versão japonesa e nalgumas versões do original Wii, tendo sido essa também uma das razões pelas quais na altura decidi optar por esta versão. No entanto, a parte norte da cidade foi completamente barrada nesta versão, embora a mesma ainda esteja visível no mapa. Tendo em conta o quão aborrecido é explorar a cidade e a falta de um mecanismo de fast travel eficiente, terem cortado um terço da mesma acabou por não ser uma má decisão. Em 2020 foi lançado um remaster do original da Wii, mas confesso que não sei o que essa versão traz de diferente do original para além de uma notória melhoria na performance.

Bayonetta (Sony Playstation 3)

Tempo de voltar finalmente à PS3 (e virão mais uns quantos artigos desta plataforma muito em breve) para jogar um dos primeiros títulos da Platinum Games, lançado no ano de 2009, alguns meses após o lançamento do seu jogo de estreia, MadWorld e do Infinite Space, um interessante RPG da Nintendo DS que gostaria de arranjar um dia destes. E este Bayonetta é um excelente hack ‘n slash repleto de sequências de acção over the top, uma jogabilidade frenética tal como a série Devil May Cry (o que também não é por acaso, pois ambos têm o Hideki Kamiya como produtor) e com uma personagem principal muito icónica. Já não consigo precisar onde nem quando comprei o meu exemplar, mas foi seguramente barato.

Jogo com caixa, manual e papelada!

O contexto deste jogo passa-se num mundo outrora controlado por duas facções distintas: os Lumen Sages, movimento do lado do bem, e as Umbra Witches, cujo seu poder advinha das forças das trevas. No entanto, apesar dessas forças antagónicas, o mundo estava em equilíbrio. Eventualmente algo acontece e as bruxas são practicamente todas extintas pela facção rival… todas excepto a Bayonetta, protagonista que controlamos, que acorda sem grandes memórias do seu passado e Jeanne, uma outra bruxa rival que aparenta conhecer bastante do passado de Bayonetta. Portanto sim, este é um jogo que nos vai colocar a lutar contra as “forças do bem” onde a maior parte dos inimigos são criaturas angelicais, com halos na cabeça e tudo.

Os controlos não podem ser customizados, mas encontram-se aqui perfeitamente bem explicados

Já a nível de mecânicas, este é, tal como referi acima, um jogo de acção bastante over the top e frenético e que, tal como a série Devil May Cry, mistura o combate corpo-a-corpo com recurso a armas brancas e o de armas de fogo, possuindo uma grande variedade de diferentes combos possíveis, muitos deles bastante estilosos até, mediante as armas e acessórios que tenhamos equipado na altura. Um dos grandes focos está na mecânica de dodge onde, quando nos desviamos de algum golpe inimigo mesmo à última, entramos automaticamente e de forma temporária num modo de câmara lenta (witch time), onde os nossos golpes se tornam bastante mais poderosos. Se sofrermos dano enquanto estamos nesse estado, ele acaba por ser logo interrompido, no entanto. Portanto, como devem imaginar, esta é uma mecânica de jogo importante e que nos obrigará a estudar bem o movimento dos nossos inimigos para causar o máximo de dano possível, até porque a nossa performance vai sendo medida ao longo do jogo e os pontos extra que ganhamos em jogar bem serão igualmente importantes para comprar itens ou outros upgrades. De resto, para além da barra de vida, Bayonetta vai tendo também uma barra de magia, que pode ser utilizada para uma série de outras habilidades especiais, incluindo as técnicas de execução rápida de certos inimigos. No entanto, sempre que somos atingidos perdemos magia também. De resto convém também mencionar que o jogo possui também um simples sistema de crafting onde podemos criar itens que nos regeneram vida, magia, deixam-nos temporariamente mais fortes entre outros, se bem que o jogo nos penaliza na avaliação se os utilizarmos.

Os primeiros combates acabam por servir de um pequeno tutorial que nos vai ensinando o básico

Mas para além da acção frenética que tão bem caracteriza os jogos da Platinum Games, este Bayonetta em particular tem uma estética e direcção artística muito peculiar, a começar precisamente pela sua personagem. É certo que Bayonetta é uma personagem feminina cheia de curvas interessantes, provocadora e sedutora, mas nada disto é propriamente gratuito. As suas poses exageradas e/ou provocadoras durante os combates e cut-scenes são sempre apresentadas com um bocadinho de bom humor, o que acaba por suavizar a coisa para os mais sensíveis. De resto, a restante visão artística deste Bayonetta é também muito interessante pelas influências do estilo barroco, quanto mais não seja por enfrentarmos inúmeras criaturas angelicais, em contraste com uma outra visão mais distópica de ficção científica que também nos é apresentada. O voice acting, que nos é apresentado apenas em inglês, é também bastante bom e a actriz que deu a voz a Bayonetta teve um óptimo papel. A banda sonora é uma interessante e agradável mistura entre temas mais jazz, electrónica ou música mais orquestral, com um toque de música sacra, o que uma vez mais se adequa ao mundo em questão.

A direcção artística deste jogo é muito boa, especialmente no design dos inimigos e bosses

Visualmente é também um jogo muito interessante, embora o meu primeiro impacto não tenha sido nada positivo. Já há algum tempo que não jogava nada desta geração, então quando o comecei a minha impressão foi “uau, isto parece um jogo de PS2” visto que os modelos e texturas são muito mais simples do que o que estamos habituados a ver actualmente, pelo menos logo nos momentos iniciais, que também são acompanhados daqueles tons cinzento e castanho que tanto representaram aquela geração de consolas. Esse trecho inicial ainda me causou grandes motivos de preocupação pois a acção frenética fazia com que a PS3 se arrastasse de forma bem notória e incomodativa e os meus pensamentos foram logo “ok, a internet estava certa, a versão PS3 deste jogo é mesmo má”. Mas à medida que fui jogando tudo isso se dissipou. É verdade que a performance do jogo não é incrível na PS3, mas depois desse segmento inicial nunca tive problemas tão notórios de performance. E os gráficos, assim que começamos a explorar cenários mais abertos e combater criaturas mais variadas, o jogo foi crescendo em mim, muito por culpa também da direcção artística e sequências de acção extrema, características da Platinum Games. Tornou-se óbvio que o jogo é graficamente superior a qualquer coisa da geração anterior, as minhas impressões iniciais não poderiam estar mais erradas e ainda bem!

Referências à Sega são sempre bem-vindas!

Portanto este Bayonetta é um excelente jogo de acção e um marco na Platinum Games. Pena que na altura, enquanto eles tiveram um contrato de publicação com a Sega, muitos dos seus jogos acabaram por serem fracassos de vendas, o que é pena, pois este Bayonetta e o jogo que lhe seguiu, o Vanquish, são ambos clássicos absolutos dessa geração. Pelo menos a série Bayonetta acabou por receber algumas sequelas, após uma parceria com a Nintendo que levou a essas mesmas sequelas acabarem por ser lançamentos exclusivos para sistemas da gigante nipónica nos dias que correm.

Ace Attorney Investigations Collection (Sony Playstation 4)

Por fim, a colectânea que faltava! Lançada no ano passado, esta é também a primeira desta “colectâneas HD” da série Ace Attorney a receber um lançamento físico em território europeu, pelo que pela primeira vez não foi necessário importar, obrigado Capcom! Não sei porque é que apenas a PS4 recebeu o lançamento físico mas tudo bem. Esta colectânea inclui dois títulos lançados originalmente para a Nintendo DS, algures entre 2009 e 2011, com Miles Edgeworth como protagonista principal.

Jogo com caixa. Já nem ao trabalho se dão de incluir um folheto publicitário.

No que diz respeito à jogabilidade, na verdade nada muda assim tanto desde a introdução dos primeiros Ace Attorney. Apesar de Miles Edgeworth ser um procurador (advogado de acusação), vamos na mesma precisar de investigar cenas de homicídio, recolher provas e interrogar uma série de testemunhas, muitas vezes procurando contradições ou inconsistências nos seus testemunhos. Existem outros procuradores e detectives que competem connosco e muitas vezes as pessoas erradas acabam por ser suspeitas, pelo que o nosso trabalho muitas vezes até parece o de um advogado de defesa… de resto, todos os casos aqui retratados representam apenas todo o trabalho de investigação até um suspeito ser encontrado e a sua acusação ser formalizada, não chegando a entrar no processo de julgamento (salvo raras excepções).

Os raciocínios lógicos foram uma das pequenas coisas aqui introduzidas em ambos os jogos.

A outra diferença a nível de mecânicas de jogo é mesmo a maneira como exploramos os cenários. Enquanto nos restantes jogos da série toda a navegação é feita num sistema de menus, e os objectos poderiam ser inspeccionados/interagidos através de um cursor, agora podemos mesmo explorar cada sala livremente. À medida que vamos explorando e falando com pessoas, o Miles Edgeworth ficará também com algumas ideias soltas retidas na sua cabeça, cujas podem depois serem organizadas em linhas de raciocínio lógico para chegar a certas deduções. O segundo jogo desta compilação introduz também o Mind Chess, que é uma espécie de um confronto em modo debate, para obrigar certas testemunhas que estejam inicialmente relutantes em colaborar. Basicamente temos de escolher como reagir ao que o nosso oponente nos diz, dentro de um tempo limite.

O segundo jogo introduz também o Mind Chess, onde tentamos, através de diálogo, desarmar as defesas da pessoa que queremos interrogar

Tanto num jogo como no outro vamos tendo 5 casos de homicídio para resolver e tal como tem sido habitual nos restantes jogos da série Ace Attorney esses casos vão acabar por estar todos relacionados entre si e o segundo jogo acaba por ter também uma relação directa com o anterior, pelo menos no início. Uma das coisas que mais gostei no primeiro Miles Investigations foi o facto de, ao longo dos 5 casos, terem sido repescadas várias testemunhas bastante icónicas de jogos anteriores, como é o caso da velhota Oldbag, o trapalhão Meekins ou o chato do Larry Butz. No segundo jogo algumas personagens icónicas como o Larry ou a repórter Lotta marcam uma vez mais o seu regresso, mas a história continua interessante como um todo e as novas personagens Eustace Winner ou a juíza Verity Gavèlle até que se revelaram bastante interessantes. Temos aqui também uma pequena “viagem no tempo”, onde temporariamente controlamos o pai do Miles Edgeworth. Ambos os jogos desta compilação decorrem entre os primeiros dois jogos da trilogia que tem o Apollo Justice como uma das personagens principais.

Em ambos os jogos exploramos os cenários livremente. Temos também a possibilidade de alternar entre as sprites antigas da versão DS ou as redesenhadas em HD

De resto, a nível audiovisual não há muito a acrescentar aqui. Esta compilação HD tem todos os cenários e personagens redesenhados com um pouco mais de detalhe e resolução, embora confesso que não tenha gostado tanto do trabalho dos artistas envolvidos desta vez. São aqueles sorrisos com as bocas inteiramente brancas… mas é uma pequena coisa. Sendo este um jogo de aventura/visual novel não há muito que se possa esperar daqui, até porque ambos os lançamentos vieram originalmente da Nintendo DS. A banda sonora contém músicas bastante variadas e é agradável, mas nada que seja propriamente memorável. Em suma, tipicamente os jogos da série Ace Attorney sempre foram mais apreciados pelas suas histórias e casos de homicídio algo complexos, sempre com uma boa pitada de humor e estes não são excepção.

À medida que vamos avançando nos jogos, iremos também desbloquear alguma arte adicional

Como tem sido habitual nas restantes compilações HD que têm vindo a ser lançadas desta série, poderemos também desbloquear uma galeria que nos permite ver alguma arte e os modelos 2D das personagens envolvidas, bem como a banda sonora de ambos os jogos.

Alien Soldier (Sega Mega Drive)

Tempo de finalmente voltar para a Mega Drive e ficarmos aqui com um grande jogo da Treasure, que por sua vez já havia produzido uns quantos jogos de acção bastante bons para a consola da Sega, como é o caso dos clássicos Gunstar Heroes ou Dynamite Headdy. Este Alien Soldier tem no entanto uma outra peculiaridade, visto que não chegou a receber nenhum lançamento físico nos Estados Unidos, mas sim apenas através do serviço Sega Channel como um jogo descarregável. O mesmo aconteceu com um certo lançamento do Mega Man… e como este é um excelente jogo de acção da Treasure, naturalmente que é um jogo bastante coleccionável, pelo que as cópias japonesas e também europeias têm vindo a ser alvo de importações massivas por parte de coleccionadores norte-americanos. Ou seja, não é um jogo barato e o meu exemplar também não o foi, embora tenha tido a vantagem de utilizar alguns cupões para atenuar bastante o seu preço final.

Jogo com caixa.

Este é então um run-n-gun shooter tal como no Gunstar Heroes, mas na verdade acaba por ser practicamente um boss rush, pois os segmentos entre bosses são bastante curtos, já os bosses, esses são bastante numerosos (na casa das dezenas), pelo que há que dar algum mérito à Treasure pela variedade de bosses que temos de enfrentar, todos com múltiplos padrões de ataque. As mecânicas de jogo e os controlos são também complexos, pelo que a curva de aprendizagem é algo elevada e tendo em conta que este não é propriamente um jogo fácil (como é habitual na Treasure), vai-nos também obrigar a muita práctica e memorização dos diferentes padrões de ataque que os bosses têm para nos mostrar. Antes de começar o jogo, podemos escolher 4 armas de 6 possíveis para equipar na nossa personagem, estas variam em vários tipos de projécteis, explosivos, raios laser ou lança-chamas, todos com diferentes alcances e trajectórias de fogo. As armas que usamos não têm munição infinita, mas vão-se recarregando com tempo quando não são usadas. No entanto, ao longo do jogo, os power ups que podemos apanhar podem-nos restaurar vida, mas também podemos ver itens com armas, cujas vão alternando com o tempo. Apanhar esse power up substitui a arma que temos equipada no momento, mas caso apanhemos a mesma arma que temos equipada, essa tem as suas munições restabelecidas ou até expandidas!

Antes de o jogo propriamente dito começar teremos de escolher 4 armas distintas para equipar

No que diz respeito aos controlos, o direccional move a personagem, o botão A serve para alternarmos de arma (em conjunto com o direccional e depois pressionar A novamente para confirmar), o botão B dispara e o C salta. Mas existem muitas mais particularidades a ter em conta. Por exemplo, pressionar baixo e A permite-nos alternar entre métodos de disparo: por defeito apenas podemos disparar estando estáticos e usar o direccional para direccionar o fogo, mas podemos alternar e activar um método de disparo na direcção do nosso movimento. O botão B serve para disparar e temos autofire activado por defeito, mas se apenas apertarmos ligeiramente o botão B duas vezes seguidas activamos um escudo capaz de deflectir projécteis inimigos. Por fim, o botão C é o que tem mais que se lhe diga. Por exemplo, a altura que saltamos depende do tempo que tivermos o botão pressionado e se o pressionarmos em conjunto com o direccional para cima permite-nos saltar ainda mais alto. Pressionar o botão C novamente a meio de um salto faz com que o nosso jetpack se active e fiquemos estáticos no ar. Pressionar o botão de salto uma vez mais faz com que saltemos novamente. Durante um salto se tocarmos no tecto a nossa personagem cola-se ao mesmo, podendo-se mover normalmente de cabeça para baixo. Mas a habilidade mais importante de todas é o dodge, que pode ser activado ao pressionar no botão C em simultâneo com o direccional para baixo, com a nossa personagem a teleportar-se para a direcção onde está virada. Somos invencíveis durante a animação do dodge, pelo que será uma habilidade extremamente valiosa ao longo de todo o jogo. Para além disso, se tivermos a barra de vida no máximo quando o fazemos, a nossa personagem é envolta numa bola de fogo, retirando uma grande percentagem de dano aos inimigos em questão. No entanto também perdemos parte da nossa vida sempre que usamos esta habilidade.

Quando saltamos se tocarmos no tecto ficamos lá agarrados, o que também dá algum jeito em certos níveis.

Como podem observar, há muitas nuances nos controlos do Alien Soldier e sim, os bosses vão sendo bastante variados tanto no seu aspecto como habilidades e padrões de ataque, pelo que utilizar todas as habilidades que temos à nossa disposição torna-se crucial, bem como saber que armas utilizar em cada situação. Portanto sim, é um jogo difícil também pela sua curva de aprendizagem, mas por outro lado é também bastante recompensador quando conseguimos derrotar alguns desses mesmos bosses! Temos duas dificuldades: super easy e super hard, mas são ambas difíceis. No modo “fácil” a acção pode ser mais lenta o que nos dá um melhor tempo de reacção mas por outro lado não nos dão temos mais tempo para completar cada nível, pelo que o tempo acaba por ser um inimigo também bastante importante se decidirmos optar por esse caminho.

Visualmente é um jogo muito bem conseguido, em particular na grande variedade de bosses, bem detalhados e animados

A nível audiovisual, uma das coisas que a versão europeia deste Alien Soldier perdeu é a mensagem “VISUALSHOCK! SPEEDSHOCK! SOUNDSHOCK! NOW IS THE TIME TO THE 68000 HEART ON FIRE!” o que tirando os erros de tradução para inglês, nos indica que este é um jogo que tira máximo partido do processador Motorola 68000. E na verdade é um jogo impressionante com as suas sprites grandes, múltiplos efeitos de parallax scrolling, cenários bastante diversificados e bem detalhados e bosses gigantes, muitos deles constituídos por várias sprites articuladas, como tem sido habitual noutros jogos da Treasure. Tudo isto com uma boa performance, sem os abrandamentos comuns na rival da Nintendo. Uma das coisas que mais gostei é a maneira dinâmica pela qual os níveis vão estando divididos, onde um nível acaba, o seguinte começa logo nesse preciso local e os cenários vão lentamente se transformando à medida que progredimos no jogo. São muito poucas as mudanças bruscas de cenários! De resto, nada de especial a apontar ao som. Já a banda sonora, apesar de não ser má, confesso que gostaria de ouvir algo mais próximo de um rock pesado, algo que a Mega Drive sempre fez muito bem e a meu ver até se adequaria bem neste jogo.

A Treasure é muito engraçada. O SuperEasy é na mesma difícil, mas tem um sistema de passwords e permite-nos também controlar a velocidade do jogo.

Portanto este Alien Soldier é então um excelente jogo de acção da Treasure e apesar de não ter sido seu o último lançamento na Mega Drive (essa honra recaiu no Light Crusader) este acaba por ser um jogo bem à imagem do que a Treasure nos havia habituado até então e sim, sabe bem mais a despedida do que o action RPG acima referido. Um jogo de acção absolutamente recomendado que pode ser jogado de forma legítima e mais económica em várias compilações que foram sendo lançadas ao longo dos anos ou em lançamentos do tipo virtual console da Nintendo.

Hotshot Racing (Nintendo Switch / PC)

Ora cá está algo que já não jogava há muito tempo, um jogo de corridas com uma estética e jogabilidade puramente arcade, algo muito bem-vindo numa altura em que simuladores (ou pseudo simuladores) acabaram por ganhar muito mais protagonismo no mercado. Este HotShot Racing é um jogo com uma estética que faz lembrar os primeiros jogos de corrida arcade em 3D da Sega, como é o caso do Virtua Racing ou outros títulos lançados para o sistema Model-1, com um número muito reduzido de polígonos e sem texturas (embora existam algumas texturas mais discretas aqui). A primeira versão deste jogo que me chegou à colecção foi a versão PC (steam) cuja foi oferecida pela loja digital Fanatical, algures em Maio de 2023. Entretanto vi a versão de Switch em promoção na Pressstart por menos de 15€ em Agosto desse ano e acabei por aproveitar.

Jogo com caixa

No que diz respeito à jogabilidade, esta é completamente arcade, onde teremos de memorizar os vários circuitos para ter sucesso e atravessar checkpoints dentro de um tempo limite. Travar ligeiramente antes de cada curva faz com que o nosso carro entre em drift, algo que teremos de dominar para ultrapassar algumas secções mais apertadas. Sempre que fazemos drift, ou aproveitamos túneis de vento deixados pelos carros dos nossos oponentes, vamos enchendo um conjunto de 4 barras de turbo, que podem posteriormente ser utilizados sempre que tal nos convenha. É um jogo bastante divertido de se jogar, sendo apenas frustrante pelo rubber banding da inteligência artificial. Muitas vezes aconteceu eu estar conforavelmente na frente da corrida e de repente antes da meta sou ultrapassado por um carro, ou na última curva, em drift, um carro oponente dar-me um toque na traseira que me faz perder completamente o controlo, com o meu carro a ficar muitas vezes em contra-mão, enquanto o oponente segue a sua vida tranquilamente e do primeiro lugar passo para o último, sem qualquer margem para recuperar. Isto são coisas que acontecem frequentemente e tornam a experiência algo frustrante!

Visualmente é um jogo que presta homenagem aos primórdios dos jogos de corrida em 3D poligonal da Sega e isso é fantástico!

À nossa disposição vamos ter no entanto várias personagens para controlar, cujas têm também acesso a diferentes carros, cada qual com diferentes valores de velocidade de ponta, aceleração, ou drift e sim, nota-se bem a diferença entre conduzir um carro com boa aceleração e velocidade e péssimo drift, ou outro que até pode não atingir uma grande velocidade, mas que faça as curvas muito mais facilmente. À medida que vamos correndo vamos também amealhando algum dinheiro que pode posteriormente ser utilizado para customizar os diferentes carros que vamos tendo acesso. Alguns outros upgrades vão sendo desbloqueados à medida que vamos jogando e tirar partido das mecânicas de drift ou turbo. Já no que diz respeito aos modos de jogo, este Hotshot Racing inclui vários, onde o principal é mesmo o Grand Prix. Aqui o objectivo é o de correr em pequenos campeonatos de 4 circuitos cada um, onde ganhamos um número maior de pontos consoante a nossa posição no final de cada corrida, com o objectivo final de ser o primeiro na classificação de pontos no fim. Fora isso temos também a possibilidade de participar em corridas rápidas, time trial ou várias possibilidades de multiplayer, incluindo o online. Para além de tudo isto, poderemos também participar nalguns modos de jogo muito peculiares como é o caso dos Cops and Robbers, Drive or Explode ou Barrel Barrage, introduzido num DLC gratuíto que também nos traz alguns carros e circuitos extra.

Multiplayer local em split-screen é também possível, embora não o tenha experimentado.

Dentro desses modos de jogo adicionais, o Cops and Robbers é um jogo de perseguições onde, em qualquer um dos circuitos disponíveis, os jogadores dividem-se entre polícias e ladrões. Os ladrões terão de chegar à meta em segurança, já que os seus carros têm uma barra de vida que se vai desgastando com o dano sofrido. Os polícias polícias têm o papel de causar o máximo de dano possível aos ladrões, visto que os seus carros são indestrutíveis. O Drive or Explode é uma analogia aos filmes Speed. Aqui todos os carros têm barras de vida e o objectivo de cada corrida é o de conduzir sempre acima de uma velocidade limite, caso contrário começamos a sofrer dano. À medida que vamos avançando, o limite de velocidade mínima vai aumentando, pelo que vai ser cada vez mais difícil não sofrer dano. Por fim, o Barrel Damage, que são corridas “normais” onde de cada vez que passamos por um checkpoint ganhamos um barril explosivo (podendo acumular um máximo de 2) e cujos podem ser largados na esperança de causar dano a alguém. Naturalmente todos os carros possuem uma barra de vida que, se chegar a zero, coloca-nos de fora da corrida.

As corridas são frenéticas mesmo como manda a lei

Como já referi acima, o propósito deste jogo é fazer uma homenagem aos jogos de corrida arcade da Sega da primeira metade dos anos 90, como é o caso do Virtua Racing ou até do Daytona USA, embora este último já fosse um jogo de Model-2, com modelos poligonais mais detalhados e suporte a texturas. Aqui a parte estética é mesmo para replicar os modelos de baixo polígonos e sem texturas de jogos da Model 1, como o já mencionado Virtua Racing ou Virtua Fighter. No entanto, ocasionalmente vemos neste jogo algumas texturas aqui e ali, mas não tem mal, a imagem passa perfeitamente por um jogo de homenagem à tecnologia do sistema Model-1. E apesar de apenas ter aqui referido certos jogos da Sega dado a proximidade visual ao que o sistema Model-1 fazia, na verdade o que aqui não faltam são referências visuais a imensos clássicos arcade dos anos 90. Logo o primeiro circuito tem uma ponte-pênsil que nos remete para o Virtua Racing, outros têm uma roda gigante, outros túneis em encostas marítimas tal como no Ridge Racer, entre muitas outras referências, como helicópteros a sobrevoar a pista. As pistas em si, apesar de manterem estes visuais propositadamente simplificados, são também bastante variadas entre si no que diz respeito aos cenários e também aos tipos de pavimento, com a performance dos carros a responderem à medida. De resto, confesso que apesar de ter a versão PC há mais tempo, foquei-me, por comodidade, mais na versão switch. E apesar dos seus visuais propositadamente simples, a versão switch possui (muito ocasionalmente) algumas quebras bem notórias de frame rate o que num jogo deste calibre é algo que tem impacto. Por fim, as músicas são também bastante agradáveis e algo variadas entre si, com a electrónica e algum rock a ganharem papel de destaque. Cada piloto vai tendo também uma série de frases próprias que dão outra vida ao jogo (it’s not a bug, it’s a feature!), o que também é um ponto interessante.

Cada personagem tem direito a quatro carros distintos

Portanto este HotShot Racing é um óptimo jogo de corridas para quem está à procura de uma experiência tipicamente arcade. No entanto, o rubber banding da inteligência artificial pode (e irá seguramente) causar algumas frustrações, particularmente na agressividade dos oponentes na recta final das corridas. A versão switch em particular teve alguns problemas ocasionais de performance que num jogo desta fluídez acabam por ser bastante notórios.