Martha is Dead (Sony Playstation 4)

O artigo de hoje será uma rapidinha de forma inteiramente propositada. Não porque este jogo não mereça um artigo mais extenso, mas sim porque quero revelar o mínimo possível da sua história para que quem o for a experimentar consiga absorver a experiência da melhor forma. O meu exemplar foi comprado na Amazon Espanha algures em Junho, tendo-me custado cerca de 25€.

Jogo com caixa, papelada, autocolantes e um poster

A história leva-nos a Itália em 1944, algures na região da Toscana, altura em que a região se encontrava ocupada pela Alemanha nazi. Encarnamos no papel da jovem Giulia Kapo, filha de um general alemão e mãe italiana, que descobre que a sua irmã gémea, surda-muda e de nome Martha, morreu. Sem querer revelar mais detalhes, digamos apenas que a família Kapo tem/teve os seus problemas e Giulia terá muito com que lidar no seu luto. O jogo aborda vários temas nada agradáveis e coloca-nos em situações altamente desconfortáveis e também com muito gore.

Nesta aventura iremos passar por inúmeros momentos desconcertantes

No que diz respeito às mecânicas de jogo, esta é uma aventura gráfica na primeira pessoa, onde iremos passar todo o tempo a explorar a casa onde vivemos e as suas imediações, como uma floresta e um lago que será também parte central da história. Tal como noutros jogos do género, iremos coleccionar e/ou interagir com vários objectos, alguns diálogos onde poderemos inclusivamente decidir quais as respostas que queremos dar e vários puzzles também para resolver. Uma das mecânicas de jogo recorrentes é o uso de uma máquina fotográfica vintage e todo o processo de revelar fotografias. Não só em certas partes da história seremos mesmo obrigados a fotografar certas situações, o jogo oferece-nos também a liberdade de fotografarmos livremente tudo o que quisermos, existindo ainda toda uma panóplia de diferentes acessórios da câmara fotográfica que podemos coleccionar, como diferentes rolos fotográficos, filtros ou lentes. Eventualmente poderemos também conduzir uma bicicleta, que nos permite viajar um pouco mais rápido, embora não a possamos usar na floresta, que é precisamente onde iremos perder mais tempo a viajar de um lado para o outro. Conduzir a bicicleta é também um grande desafio, infelizmente.

Como qualquer aventura gráfica que se preze, também teremos alguns puzzles para resolver. Já aprenderam código Morse?

Visualmente é um jogo interessante, não só por todo o trauma e terror psicológico que nos oferece, permitindo-lhe então enveredar por certos caminhos mais extravagantes. Tirando isso não há assim tanto de diferente para ver. Vivemos numa casa de campo antiga e de pedra, embora muitas das suas divisões apenas vão ficando acessíveis com o decorrer da história. À nossa volta é floresta, o lago e pouco mais. A qualidade gráfica fica um pouco a desejar na PS4 (joguei numa PS4 normal, não tenho o modelo Pro) e a diferença perante essa versão e a de PC ou de consolas de nova geração é bem considerável. Para além dessa diferença gráfica entre plataformas, esta versão possui também vários bugs, quebras de framerate e um pop-in dos cenários que quase me faz lembrar os primeiros jogos 3D da Saturn. Por exemplo, quando descemos para a cave, entramos numa sala completamente vazia. Um segundo depois e já aparece toda a mobília e elementos decorativos! De resto a nível audio não tenho nada de especial a apontar. A banda sonora é composta maioritariamente por temas calmos, melancólicos ou outros altamente dissonantes, especialmente quando coisas estranhas começam a acontecer. O voice acting por defeito está em italiano e, tendo em conta que o jogo se passa nesse país, decidi optar por essa via. A qualidade das vozes e diálogos parece-me competente, só é pena que algumas vezes, devido a bugs as legendas tenham desaparecido no início das falas, o que me fez perder algumas frases nos diálogos.

A fotografia é também uma parte central da narrativa. Ao longo do jogo iremos mesmo ser obrigados a tirar algumas fotos com o equipamento da época, sempre com a preocupação de centrar bem a imagem, ajustar o foco, luz, etc.

Portanto este Martha is Dead, apesar de tecnicamente ter os seus problemas, pelo menos na versão PS4, é um jogo super bizarro e desconcertante na sua narrativa. E é precisamente por isso que o recomendo vivamente! As versões Playstation foram no entanto ligeiramente censuradas perante as versões PC e Xbox. Basicamente nas versões Playstation as cutscenes mais gore deixaram de ser interactivas e temos sempre a opção de as avançar. Para além disso, foram retiradas algumas menções a masturbação na narrativa. Sinceramente não se perde muita coisa, mas se quiserem jogar uma versão sem quaisquer cortes então recomendo que testem as versões PC ou Xbox.

Life is Strange 2 (Sony Playstation 4)

O primeiro Life is Strange foi um jogo que me surpreendeu bastante pela positiva. É uma aventura gráfica com um setting urbano e juvenil, onde as escolhas que vamos fazendo (tal como nos jogos da Telltale) irão ter algumas repercussões que irão moldar o decorrer da história, mas acima de tudo, a narrativa foi muito bem escrita e todas as personagens foram muito bem construídas. Depois veio o Before the Storm que se afirmou como uma prequela e apesar de também ter qualidade, não me impressionou tanto quanto o primeiro. Este segundo Life is Strange custou-me cerca de 18€, tendo sido comprado na Amazon algures no passado mês de Junho.

Jogo com caixa e papelada

Desta vez, este segundo Life is Strange apresenta-nos uma história completamente nova, onde controlamos Sean Diaz, um adolescente que vive algures em Seattle com o seu pai e Daniel, seu irmão mais novo. Sean prepara-se para festejar o Halloween com os seus amigos da escola e até este ponto, tudo indicava que esta seria mais uma aventura entre colegas de escola do 12º ano. Mas eis que de repente coisas graves acontecem e os dois irmãos vêm-se forçados a abandonar Seattle enquanto são perseguidos pela polícia. Ao longo do jogo iremos percorrer vários estados e regiões norte-americanas, pelo que em cada episódio iremos conhecer novas pessoas, o que de certa forma também nos dá uma maior variedade. E claro, a relação entre Sean e o seu irmão Daniel será o principal ponto do jogo, onde teremos muitas vezes de o proteger, mas também de o educar, com a acções que formos tomando servindo de exemplo para o pequeno Daniel. Por sua vez, e sem querer estragar qualquer surpresa, digamos que o próprio Daniel é também uma pessoa muito especial. Este Life is Strange 2 traz também o The Awesome Adventures of Captain Spirit. Este é um pequeno capítulo adicional que foi lançado de forma gratuíta uns meses antes do lançamento deste Life is Strange 2. Esse pequeno jogo serve-nos para introduzir o jovem Chris que vive sozinho com o seu pai numa remota aldeia no interior Norte-Americano. É apenas um sábado onde teríamos todo o tempo do mundo para nos divertirmos, mas também teremos de lidar com os problemas de alcoolismo do seu pai. Serve para introduzir algumas das novas mecânicas de jogo e iremos reencontrar o pequeno Chris no segundo capítulo do Life is Strange 2.

No The Awesome Adventures of Captain Spirit iremos protagonizar o pequeno Chris, uma criança com uma imaginação muito fértil, mas também com uma relação difícil com o seu pai

No que diz respeito às mecânicas de jogo em si, esta é mais uma aventura gráfica completamente em 3D onde teremos de explorar os cenários, coleccionar alguns objectos e falar com várias pessoas para ir progredindo na história. Uma vez mais, iremos tomar diferentes decisões que irão moldar o decorrer da história, mas também desenvolver a personalidade do pequeno Daniel de diferentes formas. Tal como nos outros Life is Strange, a última decisão é sem dúvida a mais importante e aquela que irá ditar o final que iremos observar. No entanto, mediante como fomos construindo a nossa relação com o Daniel, os finais em si poderão ser bem diferentes, creio que há uns 7 finais distintos que poderemos alcançar. Tudo dependerá da moralidade de Daniel, do quão fortes os laços estão entre ambos os irmãos e claro, da relação que tenhamos mantido com algumas outras personagens chave ao longo do jogo. Outro aspecto que devemos também salientar é o facto de agora haverem bem mais diálogos temporizados, onde teremos um tempo limite para dar a nossa resposta, tal como nos títulos da Telltale.

Enquanto que no primeiro Life is Strange poderíamos tirar fotos opcionais e no Before the Storm eram graffiti, aqui Sean é muito dotado para o desenho, embora também possamos encontrar outros coleccionáveis

Graficamente já é um jogo bem superior aos seus predecessores, particularmente no detalhe gráfico dos cenários à nossa volta. Como estamos a maior parte do jogo em fuga da polícia, iremos principalmente explorar várias localidades mais no interior, onde iremos explorar belíssimas florestas, mas também os áridos desertos dos estados do Nevada e Arizona. As personagens em si possuem óptimas animações faciais, embora não sejam 100% realistas, mantendo um estilo gráfico muito próprio, já herdado do primeiro jogo. A banda sonora é principalmente composta por temas mais acústicos, o que faz todo o sentido, não só pelos muitos momentos de solidão e exploração em plena Natureza que iremos percorrer, mas também pela narrativa mais melancólica que nos irá acompanhando.

O facto de andarmos sempre em fuga permite-nos também ter uma maior variedade de cenários, alguns deles paisagens naturais belíssimas

Portanto devo dizer que até que gostei bastante deste Life is Strange 2. O primeiro episódio, onde iríamos principalmente conhecer Sean, os seus colegas e familiares mais próximos, deixavam-me antever mais uma aventura num ambiente colegial, mas o twist final desse episódio surpreendeu-me bastante. A narrativa está excelente, com um grande foco nos laços que vão sendo estabelecidos entre os dois irmãos em ambientes adversos, mas também muitos outros tópicos importantes da sociedade vão sendo abordados. Tendo em conta que Sean e Daniel são descendentes de um pai mexicano, o racismo será um ponto recorrente, infelizmente. Gostei também de ver uma ou outra referência ao primeiro Life is Strange!

Life is Strange: Before the Storm (Sony Playstation 4)

O primeiro Life is Strange foi um jogo que foi muito bem recebido pela crítica e pelo público principalmente pela sua excelente narrativa e personagens muito ricas em personalidade. E enquanto a Dontnod estava entretida a desenvolver o também surpreendente Vampyr, foi a vez da Deck Nine desenvolver a entrada seguinte na série, que acaba por ser uma prequela do primeiro jogo. E este meu exemplar, tal como o anterior, sinceramente já não me recordo quando o comprei, creio que foi também numa Mediamarkt e por 10€, sendo uma vez mais a edição limitada que inclui alguns extras.

Jogo com caixa exterior de cartão, caixa, papelada, livro de arte e banda sonora

Ora este Life is Strange é mais uma aventura gráfica cuja narrativa está dividida em episódios e, tal como nos jogos da Telltale, ao longo do jogo vamos poder tomar uma série de decisões que irão influenciar um pouco o decorrer da história. E esta decorre cerca de 3 anos antes dos acontecimentos do primeiro jogo, com a Chloe Price como protagonista principal, e a Rachel Amber, a tal rapariga que estava desaparecida no primeiro jogo. Basicamente este é mais um drama onde não só vamos acompanhar um pouco do processo de luto de Chloe pelo falecimento do seu pai, mas também a sua relação com a misteriosa Rachel, que por sua vez também iremos desvendar um pouco do seu passado. Sinceramente, não achei a história tão marcante como a do primeiro Life is Strange, embora continue a ter uma atmosfera muito semelhante por protagonizar principalmente adolescentes e muitos dos seus problemas, tanto em ambiente escolar, como familiar.

Apesar do screenshot ser da versão PC, folgo em ver que a interacção com objectos ou pessoas está um pouco mais intuitiva

As mecânicas de jogo são as de uma aventura gráfica ao estilo das da Telltale, excepto uma vez mais sem segmentos de acção com sequências de QTEs, que sinceramente nem fazem assim tanta falta. Iremos então ter de explorar cenários, observar, interagir ou coleccionar objectos, bem como falar com diversas pessoas para fazer avançar a narrativa. Nos diálogos, temos uma vez mais diferentes opções para escolher, que por sua vez poderão moldar o decorrer da história em si. No entanto, Chloe não tem as mesmas habilidades de controlo do tempo que Maxine tinha no primeiro jogo, pelo que desta vez não podemos voltar atrás e tomar decisões diferentes. A novidade está no entanto na inclusão da funcionalidade de backtalk, ou seja, entrar numa espécie de guerra verbal para tentar levar a nossa vontade avante. Aqui os diálogos já têm um tempo limite para serem escolhidos e caso escolhamos uma opção errada, as coisas podem ficar piores do que no início, obrigando-nos a procurar outra solução para dar a volta ao problema.

Em vez de manipular o tempo, a novidade nas mecânicas de jogo está no backtalk, onde temos tempo limite para escolher quais as respostas que queremos dar

A nível audiovisual, o jogo segue a mesma linha estética do seu antecessor, com gráficos que andam ali numa linha ténue entre o realismo e o aspecto mais de desenho animado. Apesar de o jogo anterior possuir melhores efeitos de luz e sombras, principalmente nas cutscenes, neste Life is Strange nota-se uma ligeira melhoria a nível de detalhe poligonal e texturas também como um todo. O facto de terem mudado de motor gráfico para o Unity e terem apostado em sistemas mais modernos também deve ter ajudado, embora ainda esteja longe do que outros jogos conseguiram fazer no mesmo ano. Mas uma vez mais, o ponto forte do jogo é a sua narrativa e o voice acting está uma vez mais muito bem conseguido. A banda sonora é uma vez mais bastante eclética, oscilando entre o rock, indie rock e outros temas mais acústicos e a maneira como cada música é introduzida no jogo está uma vez mais muito bem pensada.

Esta versão traz também um episódio extra, que mostra os últimos momentos entre Maxine e Chloe antes da sua separação

Portanto este Life is Strange: Before the Storm é mais uma aventura gráfica com uma narrativa muito forte e uma história bem escrita. No entanto, e talvez por o ter jogado logo depois do primeiro Life is Strange, devo dizer que preferi a história do primeiro jogo como um todo, para além de que este é mais curto, contendo apenas 3 episódios. Esta Deluxe Edition no entanto traz um episódio adicional intitulado de farewell, onde controlamos uma vez mais a Maxine quando ela e a Chloe eram ainda mais novas e vamos poder testemunhar os seus últimos momentos juntas antes da sua separação que nos levou ao primeiro Life is Strange.

Streets of Rage 4 (Sony Playstation 4)

Produzido pela dotEmu, Lizardcube (as mesmas mentes responsáveis pelo óptimo remake Wonder Boy The Dragon’s Trap) e Guard Crush Games, este projecto começou por ser uma ideia de ser um remake do primeiríssimo Streets of Rage. No entanto, a ideia evoluiu para uma sequela e quando a apresentaram à Sega, a empresa nipónica, reconhecendo o talento dos estúdios envolvidos, deu luz verde ao projecto. E assim tivemos uma sequela desta série que já estava adormecida há mais de 25 anos! O meu exemplar foi comprado numa Worten, algures por alturas da Black Friday de 2021, tendo-me custado 30€ se bem me recordo.

Jogo com caixa, na sua edição Anniversary que inclui o DLC Mr. X Nightmare em disco.

A história decorre 10 anos após os acontecimentos de Streets of Rage 3, onde das cinzas do império do crime deixado pelo antagonista Mr. X, surge um novo grupo de crime organizado que aterroriza a cidade, aparentemente liderado pelos seus filhos, os gémeos Y. Os detectives Axel Stone e Blaze Fielding, juntando-se a Cherry Hunter (filha de Adam Hunter) e Floyd Iraia (discípulo de Dr. Zan, e igualmente um cyborg) decidem investigar o gangue e o resto é o que se sabe, pancadaria a torto e a direito!

O primeiro nível começa como é habitual: de noite e nas ruas sujas da cidade!

A jogabilidade é então e de um beat ‘em up urbano à antiga, mas também modernizando-o, ao introduzir um novo sistema de combos que nos irá aumentar a pontuação quanto mais dano for infligido aos inimigos, sem sofrer dano pelo meio. As mecânicas de jogo são algo similares às do Streets of Rage II, embora com algumas mudanças. Temos um botão de ataque básico, cujos ataques podem ser encadeados para desencadear alguns combos básicos, outro botão para salto. O círculo é usado para apanhar itens ou armas do chão, bem como atirá-las aos inimigos (se pressionado em conjunto com uma esquerda ou direita), ou simplesmente pode também ser usado para agarrar algum inimigo que nos esteja próximo. Mas temos também uma série de golpes especiais que podem ser usados. Todas as personagens (iniciais) possuem ataques blitz, special e stars. Os primeiros são golpes especiais que podem ser despoletados ao seguir uma certa combinação de botões e sem qualquer penalização. Os specials, que por sua vez podem ser defensivos, ofensivos ou aéreos, são despoletados com o triângulo e fazem-nos perder alguma vida, que pode agora ser recuperada se conseguirmos desferir alguns golpes bem sucedidos em seguida e sem sofrer dano. Os stars são desencadeados ao pressionar os botões círculo e triângulo em simultâneo e podem apenas ser usados se tivermos coleccionado alguma estrela.

O segundo nível desde cedo se torna numa rebaldaria. A polícia não está do nosso lado, desta vez

É portanto um beat ‘em up muito bem feito e também desafiante, com várias secções onde teremos de enfrentar grupos de inimigos numerosos e teremos muitas vezes de jogar um misto entre agressividade e estratégia, ao estudar as habilidades de cada inimigo, as suas animações e atacá-los no melhor momento possível. Aquele último nível então, teve momentos de bradar aos céus! Dependendo da dificuldade escolhida, teremos um certo número de vidas disponíveis para tentar passar cada nível, cujo progresso é posteriormente gravado ao terminá-los. Morrendo resta-nos recomeçar o nível em questão, no entanto o jogo permite-nos alterar a personagem seleccionada se assim o desejarmos, ou activar algumas ajudas, como vidas e/ou estrelas extra, que por sua vez nos penalizarão na pontuação alcançada no final do nível. Pontuação essa que é usada para desbloquear uma série de novos lutadores! O primeiro, Adam Hunter (finalmente de volta à acção!) é desbloqueado automaticamente com o decorrer da história. Os restantes são, nada mais nada menos, que todas as personagens do Streets of Rage 1, 2 e 3 (excepto o Roo, na versão vanilla). Para além de todo esse fan service, essas personagens possuem os golpes das suas versões originais, ou seja, no caso das personagens do SoR1, por exemplo, apenas possuem os especiais star, que por sua vez consistem em chamar um carro da polícia que lança um rocket, causando dano em todos os inimigos à nossa volta. Foi de facto um detalhe delicioso!

O facto de podermos desbloquear as personagens antigas, com o aspecto e jogabilidade original, é um detalhe delicioso

Para além do modo história dispomos de outros modos de jogo adicionais como um modo arcade, onde somos obrigados a terminar o jogo todo de uma só assentada ou um boss rush, que nos leva a enfrentar todos os bosses de forma consecutiva. O battle mode é um modo de jogo multiplayer competitivo, onde podemos andar à batatada uns com os outros. Eventualmente sai também um DLC chamado Mr X. Nightmare, que traz uma série de coisas novas, a começar por um novo modo de jogo, o survival, que nos leva a tentar ultrapassar uma série de desafios específicos, sobrevivendo ao máximo de inimigos possível. Sinceramente não cheguei a perder muito tempo com este modo de jogo, mas sempre que derrotamos uma onda de inimigos, somos levados a escolher um entre dois power ups, que nos darão buffs aleatórios, como causar dano elemental, melhorar a nossa defesa, recuperar vida automaticamente, etc. Ao progredir e passar certos níveis, iremos também desbloquear novos golpes, que por sua vez poderão ser seleccionados no modo história, ao customizar a personagem escolhida. As outras grandes novidades deste DLC, para além de um modo treino com tutoriais, estão mesmo nas novas personagens jogáveis, outrora bosses do modo história, como é o caso da polícia Esteel, ou as caras conhecidas do Max ou Shiva. A personagem Roo do Streets of Rage 3 foi também introduzida neste DLC como personagem jogável, mas terá de ser desbloqueada com recurso a um código, mesmo à antiga!

Entre cada nível vamos tendo cutscenes que avançam na história, mas estas poderiam ser melhores. São practicamente imagens estáticas com texto, sem qualquer voice acting também.

Graficamente é um jogo soberbo. Todas as personagens foram desenhadas e animadas à mão, o que lhe dá um aspecto fantástico e o mesmo pode ser dito dos níveis, que são bem variados e bem detalhados. O primeiro nível começa como habitual à noite e nas ruas sujas O segundo nível passa-se numa esquadra da polícia, onde temos de fugir da prisão e a certa altura a só vemos mesmo a polícia e bandidos à pancada uns com os outros e nós podemos optar por nos manter longe do conflito e esperar que eles se matem uns aos outros, ou podemos dar porrada em todos. Ou o nível do esgoto que culmina na entrada da casa de banho de um bar, onde começa a haver uma rixa entre bandidos e motoqueiras e uma vez mais nós lá no meio. E claro, o Roo a servir de barman! Obviamente que também teremos segmentos com elevadores! As referências aos clássicos são inúmeras, logo no primeiro nível que tem um look muito similar ao primeiro nível do primeiro SoR, até com alguns dos neons das lojas semelhantes, como o Pine Pot. No nível do esgoto temos um graffiti do Joe Musashi (Shinobi) e o barman é nada mais nada menos que o Roo, por exemplo! As personagens extra que desbloqueamos dos jogos antigos possuem as mesmas sprites dos clássicos e poderemos até desbloquear alguns mini-níveis escondidos, onde teremos de defrontar alguns bosses dos clássicos da Mega Drive.

Estes tipos são chatos! Especialmente quando acompanhados daquelas meninas que atiram cocktails molotov que nos paralisam temporariamente.

Já a nível de som este é também um excelente trabalho. A banda sonora é super ecléctica, oscilando entre a música electrónica, o rock, jazz ou até outros tipos de sonoridades mais folclóricas. Apesar da maioria das músicas serem da autoria do compositor francês Olivier Deriviere, o jogo conta com várias faixas de Yuzo Koshiro, Motohiro Kawashima (que colaborou com Koshiro nos Streets of Rage e em muitos títulos), mas também foram buscar compositores que trabalharam em clássicos da Capcom, Tecmo e outros. Ficou um trabalho fantástico. De salientar também a excelente banda sonora do DLC Mr. X’s Nightmare, que foi toda composta pelo “nosso” Tee Lopes e é mais uma vez uma óptima mistura entre o rock, electrónica e outros géneros musicais. De resto convém também referir que, algures nas opções, poderemos activar a banda sonora retro. E esta leva-nos não só a ouvir algumas melodias clássicas dos jogos da Mega Drive, mas também das versões Master System / Game Gear dos Streets of Rage, o que foi uma surpresa que não estava nada à espera!

Portanto eu devo dizer que fiquei muito agradavelmente surpreendido por este Streets of Rage 4. É um beat ‘em up desafiante, moderno, mas ainda assim contém toda a essência da série original. Jogabilidade excelente, um grande número de personagens jogáveis, todas com mecânicas distintas entre si, muitas personagens desbloqueáveis e muitos modos de jogo capazes de nos entreter por largas horas. A nível audiovisual está também um jogo muito apelativo e lá está, mantém todas as raízes dos trabalhos originais. A dotEmu continua de parabéns em continuar a querer publicar jogos deste calibre e as expectativas para o Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge são elevadíssimas!

The Great Ace Attorney Chronicles (Sony Playstation 4)

Vamos agora voltar aos Ace Attorney da Capcom, uma série onde habitualmente representamos um advogado de defesa que terá de defender uma série de clientes (tipicamente inocentes) das suas acusações de homicídio. Já cá trouxe uns quantos jogos dessa série no passado e esta Chronicles é na verdade uma compilação dos The Great Ace Attorney Adventure e The Great Ace Attorney 2: Resolve, ambos lançados originalmente na Nintendo 3DS em 2015 e 2017. Em 2021 foram relançados de forma remasterizada nesta compilação que acabou por receber lançamentos físicos no Japão e Ásia, com a linguagem em Inglês disponível. O meu exemplar foi comprado na Gaming Replay algures em Setembro passado, por cerca de 55€.

Jogo com caixa, pequeno manual e papelada, versão asiática

A história leva-nos a encarnar no jovem japonês e aspirante a advogado de defesa, Ryunosuke Naruhodo, algures no final do século XIX. Inicialmente acusado de cometer um homicídio de um professor Inglês em solo nipónico, teremos de nos defender sozinhos, pelo que este primeiro capítulo serve sempre como uma espécie de tutorial para as mecânicas de jogo que tradicionalmente são adoptadas nesta série, pelo menos na parte dos julgamentos. Ultrapassando esse primeiro capítulo, a restante aventura ao longo dos dois jogos será passada maioritariamente em solo Britânico, onde teremos uma série de homicídios por resolver e provar a inocência dos nossos clientes. O segundo jogo é uma sequela directa do primeiro, pois ainda ficaram algumas pontas soltas por resolver de alguns mistérios mais abrangentes introduzidos ao de leve no primeiro jogo, e que se irão adensando ao longo da segunda aventura.

Fora dos tribunais poderemos explorar diversos cenários, incluindo a cena do crime, e examinar objectos ou falar com pessoas de forma a obter pistas ou provas

No que diz respeito à jogabilidade, convém começar com um disclaimer: esta série Ace Attorney já é bastante longa e o último jogo que tinha jogado foi o Apollo Justice, vulgo quarto jogo da saga. Entre esse e o lançamento do The Great Ace Attorney Adventure original da Nintendo 3DS, já uns quantos outros jogos haviam sido lançados pelo meio. Portanto é possível que algumas das novidades que irei aqui apontar já tenham de facto sido introduzidas noutras sequelas lançadas anteriormente, mas vamos a isso. Ora, tal como os restantes jogos da série que joguei até à data, este é um misto entre uma visual novel e uma aventura gráfica e a jogabilidade divide-se em duas formas distintas. Fora dos tribunais teremos de explorar uma série de locais, examinar os seus cenários (incluindo as cenas de crime) e falar com pessoas em busca de pistas sobre os crimes e que possam posteriormente serem usadas em tribunal para o apuramento da verdade e defender a inocência dos nossos clientes. Uma das novidades chave nessas fases de exploração é a interacção com Sherlock Holmes (aqui apelidado de Herlock Sholmes). Sim, o famoso detective fictício é uma das personagens centrais com as quais vamos interagindo e nestes dois jogos ele tem uma personalidade muito peculiar. Vezes sem conta vamos assistir aos seus momentos de dedução lógica para resolver algum mistério, mas as suas conclusões saem sempre ao lado. Teremos então depois de o acompanhar nas suas deduções e corrigir algumas das suas observações, que tipicamente envolvem observar e apontar alguns objectos suspeitos nas imediações, para que consigamos chegar à conclusão certa.

Barok Van Zieks, o implacável procurador que iremos enfrentar nos tribunais

Já nos tribunais, a jogabilidade básica de pressionar e confrontar testemunhas sempre que queiramos extrair mais informação dos seus depoimentos, ou detectemos alguma contradição com base em provas recolhidas, permanece bem enraizada nestes dois jogos. Uma das novidades é que muitas vezes temos várias testemunhas a prestarem depoimentos conjuntos e por vezes quando uma testemunha mente, uma das que estão ao seu lado reage de alguma forma suspeita, permitindo-nos interpelá-la para obter mais detalhes, o que geralmente acaba sempre por expor alguma mentira ou informação adicional. A outra das novidades é que na maioria dos julgamentos em solo britânico os mesmos são presididos por um juri que, quando convencidos da inocência ou culpa do réu, anunciam o seu voto que, após ser unânime levará o juiz a proferir a sentença final. Naturalmente que em várias situações o juri vai considerar, por unanimidade, o réu como culpado. Mas nem tudo está perdido pois quando isso acontece desencadeamos o processo de “Summation Examination”, que consiste em questionar as razões que levaram a cada membro do juri a considerar o réu culpado. Tal como nos interrogatórios das testemunhas, poderemos procurar inconsistências entre os membros do juri e convencê-los a mudar o seu voto e deixar o julgamento continuar.

Ocasionalmente teremos de corrigir as deduções trapalhonas do Sherlock Holmes

Graficamente é um jogo interessante e uma lufada de ar fresco na série, pois representa tanto o Reino Unido na sua era Victoriana, como o Japão no seu período Meiji e está, como é habitual, repleto de personagens bastante bizarras e carismáticas com as quais iremos interagir. No entanto, apesar de ser um remaster que apresenta visuais mais trabalhados e em melhor resolução, não esperem por gráficos fora de série, pois este não deixa de ser uma visual novel e com as suas origens na modesta Nintendo 3DS. As personagens estão agora representadas em 3D, o que lhes dá mais umas quantas animações, embora ainda tenham um aspecto muito anime, o que para mim não é de todo um problema. Entre cada capítulo temos uma breve cutscene animada e narrada e em certos pontos chave da história, os diálogos são também narrados, mas infelizmente a esmagadora maioria do tempo os diálogos são apenas acompanhados daqueles sons típicos de videojogos mais antigos. Nesta versão podemos no entanto optar por ouvir vozes em inglês ou japonês, com legendas em várias linguas. A banda sonora vai sendo bastante diversificada entre si e acaba por ser uma agradável companhia a todo o desenrolar da narrativa.

Habitualmente teremos mais que uma testemunha para entrevistar em simultâneo, o que nos dá novas formas de cavar a verdade

Portanto esta compilação é mais um lançamento que irá certamente agradar a quem já for fã da série Ace Attorney. A narrativa, apesar de por vezes aparentar ser desnecessariamente longa, vai-nos levar por uma série de diferentes casos policiais, com os últimos casos da sequela a começarem finalmente a unirem algumas pontas soltas e conspirações de maior escala que íamos suspeitando, com uma série de interessantes reviravoltas à mistura. As “novas” mecânicas de jogo foram também adições bem conseguidas e fico muito contente por a Capcom ter relançado estes jogos recentemente e também em formato físico. A razão pela qual eu paguei tanto foi mesmo para mostrar o meu apoio à Capcom e encorajá-los de alguma forma para que tragam também o resto do catálogo, se possível com um lançamento físico. Isto porque alguns dos jogos da DS que não foram relançados começam a ser cada vez mais caros (pelo menos as suas versões ocidentais), já os da 3DS saíram apenas em formato digital no ocidente. Tendo em conta que a eShop irá fechar em breve na Nintendo 3DS e WiiU, seria muito bom que a Capcom assim o fizesse!