Tempo de voltar ao PC para um jogo bastante obscuro, lançado originalmente pela MicroProse algures em 1992. O meu exemplar foi comprado ao desbarato numa feira de velharias há já uns valentes anos, mas só agora chegou a vez de o jogar. Durante muito tempo andei completamente iludido com este jogo, achando que seria uma espécie de aventura gráfica, mas não é de todo o caso. The Legacy é, acima de tudo, um RPG na primeira pessoa, ao estilo de dungeon crawlers como Dungeon Master ou Eye of the Beholder. Foi também o último jogo desenvolvido pelo estúdio britânico Magnetic Scrolls, que anteriormente se havia especializado em aventuras de texto.
The Legacy decorre algures no início da década de 90 e permite-nos jogar com uma de várias personagens pré-definidas, cada qual com as suas particularidades, embora também tenhamos liberdade para personalizar os respectivos atributos antes de começar uma nova partida. Independentemente da personagem escolhida, vemo-nos presos numa antiga mansão que rapidamente se revela assombrada. Impossibilitados de a abandonar, apenas nos resta explorar a casa, descobrir os seus segredos e arranjar forma de destruir ou exorcizar todas as divindades demoníacas que por lá andam.

Confesso que já há bastante tempo que não jogava um título deste género e tive algumas dificuldades em habituar-me à interface e às várias mecânicas envolvidas. O manual revelou-se uma ajuda preciosa, até porque, infelizmente, também não existem muitos guias disponíveis na internet. Essencialmente, The Legacy foi pensado para tirar todo o partido de um rato, embora também exista suporte para algumas teclas. Temos, portanto, uma interface inteiramente point and click, sendo que uma das possibilidades que o jogo nos oferece é precisamente a de personalizar o ecrã com toda uma série de janelas. Por defeito, temos no canto superior esquerdo uma representação da nossa personagem e do respectivo inventário. O canto superior direito mostra-nos a área de jogo, enquanto na parte inferior temos o mapa, uma janela de texto e toda uma série de ícones com os diferentes cursores de movimento. O tamanho destas janelas pode ser livremente ajustado.
Comecemos então pela janela da personagem, que serve não só para o combate (temos botões de hit e aim para cada mão), mas também para gerir todo o nosso inventário. Podemos guardar quatro itens directamente na personagem (presumivelmente nos seus bolsos) e arrastar outros para as mãos, tipicamente armas de fogo ou uma mala que funciona como inventário adicional, oferecendo-nos mais 14 espaços para guardar objectos. Qual é o problema? É que os itens têm dimensões distintas e alguns podem ocupar vários espaços de uma só vez. Tendo em conta que o jogo inclui puzzles que nos obrigam a utilizar determinados objectos em locais bastante distantes entre si, a gestão do inventário acaba por se transformar numa constante “dança” entre objectos. Felizmente, também os podemos pousar no chão, ficando a sua localização devidamente guardada. Acabei, por isso, por utilizar várias salas “especiais” como armazéns improvisados, onde deixava objectos para utilizar mais tarde. De resto, a interface é bastante simples de utilizar, bastando arrastar os itens da área de jogo para o inventário e vice-versa. É também nesta janela que podemos consultar as barras de vida, magia e cansaço da personagem, bem como, através de um submenu próprio, todas as suas estatísticas e experiência acumulada. Esta última pode, por sua vez, ser utilizada para melhorar os nossos atributos.
A interface do rato é, aliás, bastante intuitiva. O botão esquerdo serve para interagir, enquanto o direito abre menus adicionais de contexto, sempre que aplicável. Para inspeccionar determinados objectos ou descobrir as acções disponíveis, teremos mesmo de recorrer a estes menus. Por exemplo, iremos encontrar inúmeros documentos e livros espalhados pelo jogo. Os primeiros oferecem-nos pistas sobre a história da mansão e das principais personagens que por lá habitaram, enquanto os livros representam tipicamente diferentes feitiços que poderemos aprender. A interface point and click acaba, portanto, por funcionar bastante bem, excepto num aspecto muito importante: o combate. Tendo em conta que os itens regenerativos, tanto de vida como de magia, são limitados, será bastante frequente passarmos mais tempo a fugir dos inimigos do que propriamente a combatê-los. Iremos encontrar várias armas brancas e de fogo, embora estas últimas necessitem de munições que ocupam espaço precioso no inventário. Para complicar ainda mais as coisas, certos inimigos são mais vulneráveis a determinados tipos de dano. A tentativa e erro, bem como evitar confrontos sempre que possível, acabam por ser boas estratégias. É, no entanto, fortemente recomendável que gravemos o nosso progresso com bastante regularidade.

No que toca aos audiovisuais, The Legacy começa de forma surpreendentemente boa, com uma introdução bastante detalhada e repleta de gráficos pré-renderizados. A movimentação decorre inteiramente na primeira pessoa, com o jogo a recorrer à habitual perspectiva 2.5D de tantos first person shooters da época. Algumas salas são representadas por imagens estáticas, repletas de objectos e detalhes com os quais podemos interagir ou que podemos explorar. Os inimigos são sprites 2D pré-renderizadas (à lá Donkey Kong Country), com animações relativamente simples, embora contem com mais frames do que seria habitual neste tipo de jogos. O problema está no áudio, com músicas praticamente inexistentes e muito poucos ruídos de ambiente. Se a intenção era transmitir uma sensação de desolação e profunda solidão, penso que o resultado teria sido bastante mais eficaz se tivessem investido um pouco mais na componente sonora. A própria narrativa também acaba por deixar bastante a desejar, com os vários vilões que assombram a mansão a terem desfechos algo apressados.
The Legacy é, portanto, um jogo interessante por tudo aquilo que tenta fazer: um RPG dungeon crawler com uma temática de terror, puzzles complexos e dignos de uma aventura gráfica, uma interface bastante interessante (excepto no combate) e uma gestão de inventário particularmente castigadora. É, infelizmente, também um título bastante obscuro, não existindo muita informação disponível na internet para além de alguns mapas e análises. Depois de algumas tentativas frustrantes e tendo em conta que tenho andado com muito pouco tempo disponível para videojogos, acabei por recorrer a um video walkthrough, que me ajudou a terminar o jogo de forma bastante mais rápida. Caso contrário, teria sido facilmente uma aventura para dezenas de horas: os mapas são enormes, os puzzles estão longe de ser óbvios e os inimigos são numerosos. Para piorar as coisas, é possível utilizar ou descartar determinados objectos-chave fora das situações para as quais foram concebidos, pelo que o risco de ficarmos definitivamente bloqueados é bastante real.
Ainda assim, foi muito interessante ter finalmente jogado The Legacy. Não deixa de ser curioso que os fãs de RPGs o considerem um mau RPG e os apreciadores de aventuras gráficas o considerem uma má aventura, mas penso que tanto a MicroProse como a Magnetic Scrolls tentaram fazer aqui algo bastante interessante. Simplesmente, a execução ficou aquém das ambições. Também curiosamente, apesar da sua obscuridade, este jogo foi recentemente relançado nas plataformas digitais GOG e Steam. Poderão encontrá-lo sob o seu nome norte-americano, The Legacy: Realm of Terror, pelo que fica aqui a nota para quem tiver curiosidade em explorá-lo.




