Discworld (Sega Saturn)

Sempre ouvi falar maravilhas dos jogos Discworld, principalmente por todo o excelente humor que os acompanham. E de facto, após finalmente ter jogado este primeiro Discworld, percebo perfeitamente o porquê de ser um jogo muito acarinhado pelos fãs das aventuras point and click. O meu exemplar para a Sega Saturn foi comprado a um amigo algures em Outubro de 2018, mas sinceramente já não me recordo quando terá custado. E só para que seja claro, apesar deste artigo ter como destaque a versão Sega Saturn, eu joguei apenas pouco mais de uma hora dessa versão, tendo transitado posteriormente para a versão PC, pela comodidade de usar um rato! Mas, pelo que joguei da versão Saturn, esta fica muito próxima da versão PC, conforme irei descrever mais tarde.

Jogo com caixa

Ora antes dos videojogos Discworld, haviam também uma já longa série de livros escritos por Terry Pratchett, todos repletos de bom humor, e todos assentes no universo de Discworld. E esse é um mundo fantasioso que irá agradar a todos os entusiastas da terra plana, pois aquele planeta é literalmente um disco, sustentado por 4 elefantes gigantes, que por sua vez são sustentados por uma tartaruga gigante que vagueia pelo espaço. Nós aqui encarnamos no jovem (e algo inútil) Rincewind, um aprendiz a feiticeiro da Unseen University, cidade de Ankh-Morpok. O problema a resolver é simples: um culto sinistro invocou um dragão para destruir a cidade e, principalmente, o seu ditador e por força das circunstâncias acabaremos por ter de ser nós a resolver toda essa confusão e, de alguma forma, derrotar o dragão.

Nos diálogos temos diversas opções para tomar, umas mais cómicas que outras

No que diz respeito às mecânicas de jogo, estas até que são bastante simples, onde com o ponteiro do “rato” a servir para todo o tipo de acções: mover, falar, interagir, observar, etc. Tudo dependerá do contexto! Teremos também 2 inventários a ter em conta, o pessoal, que permite carregar com 4 itens ou habilidades, e um inventário maior, que é nada mais nada menos do que uma espécie de animal de estimação de Rinceweed, um baú vivo com 8 patas e que nos segue para todo o lado. No caso da Sega Saturn, infelizmente esta versão não suporta o rato (até porque esse periférico acabou por não ser lançado na Europa), pelo que teremos de usar o d-pad para mover o ponteiro pelo ecrã. E isto pode irritar um pouco, porque o ponteiro mexe-se muito lentamente, mas enquanto mantivermos o direccional pressionado na mesma direcção, o ponteiro vai acelerando o seu movimento. Creio que acaba por ser uma questão de hábito, mas essa foi a principal razão que me levou a optar por jogar a versão PC em seguida. É que apesar dos controlos serem tecnicamente simples, o jogo em si é bastante difícil. Isto porque teremos uma imensidão de locais a explorar, personagens para falar, dezenas de objectos para coleccionar, combinar e usar… Para progredir, teremos de explorar os mesmos cenários vezes sem conta, a ver se descobrimos algo novo que possa ser interagido, ou algum diálogo novo com alguma personagem que até já possamos ter interagido antes. E tendo em conta que temos um mapa gigante da cidade para explorar, com certas localidades a serem desbloqueadas à medida que a história vai avançando… é algo que nos vai dar trabalho.

Os detalhes de quando entra o “explicador” estão deliciosos!

E os “puzzles” que temos de resolver para progedir no jogo também não costumam ser nada óbvios. São hilariantes sem dúvida, mas muito dificilmente chegaria à sua solução sozinho. Por exemplo, a certa altura temo-nos de nos infiltrar na tal sociedade secreta que invocou o dragão e para isso precisamos de umas vestimentas negras. Ora numa esquina está um monge de uma outra religião sinistra, também com vestes negras. Como conseguimos obter essas roupas? Muito simples, temos de apanhar uma borboleta (e para apanhar essa borboleta já foi um filme…), depois viajar no tempo até 12h no passado, colocar a borboleta a voar ao pé um poste para que no presente seja criada uma nuvem que chove precisamente em cima do tal monge. Depois é voltar ao presente, e pegar nas suas roupas que estavam a secar num estendal lá perto. Epá, eu entendo perfeitamente a referência do efeito borboleta, mas acho que não chegava a essa solução sozinho. E exemplos como este, existem muitos, alguns ainda mais rebuscados.

Já a nível audiovisual é, de facto, um jogo excelente, a começar pelo voice acting que é variado, de qualidade, e repleto de bom humor. Aliás, toda a narrativa é muito bem humorada e o jogo está repleto de pormenores muito interessantes, como os inúmeros trocadilhos que vão sendo feitos, os diálogos com a Morte, que surge sempre que Rinceweed faz alguma coisa extremamente perigosa, ou mesmo aqueles interlúdios onde aparece no ecrã um comentador (parecido àqueles dos programas de vida selvagem), explicando algum conceito do mundo de Discworld. Graficamente é um jogo com cenários muito bem detalhados e personagens também com um aspecto muito cartoon e também muito pixel art ainda. A versão Saturn, do que joguei, está idêntica, senão muito próxima, à versão de PC, o que é uma óptima notícia. As músicas são todas em MIDI, tal como na versão PC, mas de certa forma compreende-se, caso contrário não haveria espaço para todos os diálogos que, uma vez mais digo, são absolutamente hilariantes e, para mim, a principal razão para se jogar este Discworld.

Graficamente é um jogo interessante, misturando os cenários muito bem desenhados com personagens ainda com muito pixel art

Portanto este Discworld é para mim um jogo absolutamente recomendado, por todo o bom humor e atenção ao detalhe que possui. É no entanto um jogo bastante complexo no seu progresso, pelo que não se inibam se tiverem de usar um guia, pois tal como referi acima, existem inúmeros locais para explorar, cujos até vão tendo pessoas e/ou objectos diferentes para interagir mediante a altura em que os visitamos. E com as dezenas de objectos que vamos acabar por carregar, descobrir as soluções sozinho irá dar um trabalhão gigante de exploração e tentativa/erro. Pessoalmente até fiquei interessado em ler os livros!

The King of Fighters ’95 (Sega Saturn)

Vamos a mais uma super rapidinha a um grande clássico dos jogos de luta em 2D, o The King of Fighters 95, mais especificamente a sua conversão para a Sega Saturn. E este seria um jogo que merecia um artigo mais extenso, mas já o abordei na compilação The Orochi Saga, pelo que me irei incidir mais nas especifidades desta versão Sega Saturn. O meu exemplar, japonês, foi importado num lote considerável ainda em Abril, mas só me chegou às mãos em Julho… ficou-me a cerca de 5€ por jogo, já contando com portes e custos de desalfandegamento, o que acabou por ser um óptimo negócio, mesmo tendo em conta todo o atraso.

Jogo na sua versão japonesa com caixa exterior de cartão, manual embutido na jewel case e cartucho ROM

Edit: Comprei recentemente um lote de jogos a uns particulares por um bom preço e lá no meio vinha também a versão PAL deste jogo, faltando-lhe unicamente a caixa de cartão que eventualmente arranjarei.

Jogo com caixa, manual e cartucho de expansão de memória

Ora este é então um jogo de luta de equipas de 3 contra 3, onde teremos de enfrentar cada lutador à vez, com a barra de vida a ser ligeiramente restabelecida entre cada ronda, para o lutador vencedor. Poderemos jogar com qualquer uma de equipas pré-definidas, mas também podemos construir à vontade uma equipa ao nosso gosto. Esta versão Sega Saturn traz alguns modos de jogo adicionais, para além do arcade e versus, temos outros modos de jogo onde poderemos entrar em confrontos de 1 contra 1 apenas, tanto em versus, como contra o CPU. Um destes modos de jogo até nos coloca a combater contra todos os outros oponentes!

Estamos perantes uma conversão practicamente arcade perfect, muito por ajuda do ROM cart que acompanha o jogo

A nível técnico, bom, este é um lançamento curioso por vários motivos. Em primeiro lugar, foi produzido pela própria SNK, ao contrário de muitas outras conversões de jogos SNK lançadas em sistemas inferiores. E a SNK queria mesmo fazer uma conversão o mais próximo possível da versão arcade e devo dizer que fizeram um óptimo trabalho. É verdade que a Sega Saturn é um sistema mais capaz em jogos 2D (até porque para renderizar gráficos em 3D poligonal o que a Saturn faz na verdade são manipulações de sprites 2D) e o facto de ter mais memória RAM que a sua concorrente directa, a PS1, fez com que muitos dos jogos de luta em 2D acabassem por ter melhor performance no sistema da Sega. Mas para não deixar mesmo pitada de fora, a SNK decidiu utilizar partido do slot de cartuchos, sendo que este KOF 95 é um dos 2 únicos jogos que requerem um cartucho ROM, que possui parte dos assets lá gravados e vem incluído com o jogo. Isto permitiu não só reduzir tempos de loading, mas também cortar o mínimo de conteúdo e animações. Ainda assim, nos lançamentos seguintes a SNK decidiu por optar antes pela utilização de cartuchos RAM, pois dessa forma não seria necessário incluir um desses cartuchos com cada jogo, podendo utilizar qualquer cartucho RAM oficial (ou não), reduzindo assim os custos, sem comprometer muito a qualidade final.

O single all coloca-nos a enfrentar todos os lutadores de forma sequencial!

Portanto estamos perante uma conversão muito próxima do original, mas também da conversão para os sistemas Neo-Geo AES, onde a diferença mais notória está mesmo no facto de haverem alguns tempos de loading entre cada confronto, que por sua vez não são tão grandes como noutros jogos de luta dessa época devido ao uso do cartucho ROM. Ainda assim, o uso do cartucho ROM obrigou-me a pedir a versão PAL emprestada para experimentar, pois não tenho a Sega Saturn destravada, apenas uso um pseudo saturn kai para esse efeito, que acaba por já usar o slot de cartuchos. A outra hipótese seria mesmo descarregar uma iso alternativa, que um grupo de fãs modificou, eliminando a necessidade do cartucho ROM, tornando o jogo compatível com cartuchos RAM. É mesmo de louvar este tipo de iniciativas!

Formula Karts: Special Edition (Sega Saturn)

Voltando às rapidinhas e agora na Sega Saturn, vamos ficar com um exclusivo europeu, o Formula Karts: Special Edition. Infelizmente não há grande informação na internet sobre as origens deste jogo, pois há aqui algumas coisas que não batem lá muito certo. Em primeiro lugar, para além desta Special Edition existe também o Formula Karts no PC, também publicado pela Sega, lançado no mesmo ano de 1997 e aparentemente o seu conteúdo é similar ao desta versão. Para além disso, mesmo com as versões Saturn e PC terem sido publicadas pela Sega, temos também uma versão para a PS1 lançada também no mesmo ano.

Jogo com caixa e manual

E não se enganem, não há cá nada de Mario Kart e afins neste jogo, pois este é um jogo de corrida que “simula” o desporto real, embora ainda tenha uma pegada muito arcade que me agrada bastante, pela sua jogabilidade bastante rápida! No que diz respeito aos modos de jogo, nos single player podemos optar por uma corrida rápida, uma corrida de treino, ou os modos de campeonato e arcade. O modo campeonato leva-nos a concorrer em todos os circuitos e mediante o lugar em que terminemos cada corrida, mais ou menos pontos nos serão atribuídos. O objectivo é então o de ter mais pontos no final da temporada! O modo arcade já nos obriga constantemente a terminar cada corrida nas primeiras 3 posições de forma a avançar para a corrida seguinte. Para além disso, entre cada corrida vamos tendo a opção de comprar algumas coisas para o nosso kart mediante o dinheiro que vamos amealhando entre cada corrida. Estes podem ser upgrades ao motor, pneus ou reservatório de combustível, mas também power ups como turbos ou “super aderência” temporária.

Por defeito começamos as corridas na primeira pessoa mas podemos alternar para a terceira pessoa ao pressionar o botão C

Como já referi acima, este é um jogo de corridas bastante fluído e rápido, mesmo com um feeling bastante arcade, onde cada oponente luta ferozmente pelas posições de topo. Ainda assim, se quiserem um bocadinho mais de realismo, podem sempre activar o dano nas opções, bem como o número de voltas, que vai desde 6 a 40. Sendo que há muito contacto entre os karts durante as corridas, caso os estragos sejam graves poderemos ter de ir às boxes para eventuais reparações. É também um jogo que nos obriga a fazer bons drifts para tirar o melhor proveito das curvas apertadas e os seus circuitos vão alternando entre piso de asfalto, mas também de terra batida noutros circuitos, e aí nota-se bem que os karts não aderem tão bem à pista!

Ao longo do jogo vamos percorrer circuitos com diversos tipos de pavimento e notam-se diferenças na aderência do carro!

No que diz respeito aos audiovisuais, devo dizer que também fiquei agradavelmente surpreendido. Não é nenhum Gran Turismo a nível de detalhe dos veículos e pistas, mas tendo em conta a dificuldade em desenvolver jogos em 3D poligonal com um bom nível de performance e detalhe na Saturn, o resultado final até que é bastante satisfatório. Os circuitos são bastante diversificados entre si, desde zonas urbanas, rurais e pistas de competição. As texturas são um pouco pobres é verdade, mas a fluidez do jogo e a sua draw distance acaba por ser bastante surpreendente, quando comparado com outros jogos de corrida 3D na mesma consola. Nada a apontar ao som que cumpre bem o seu papel e as músicas são todas numa toada mais electrónica mesmo à anos 90.

Portanto devo dizer que até achei este Formula Karts uma boa surpresa. A sua jogabilidade é desafiante sem dúvida, mas a nível técnico acabou por me surpreender bastante pela positiva também. E para quem gosta de coleccionismo, o facto de ser um exclusivo PAL também tem o seu interesse!

Tenchi Muyou Ryououki Gokuraku (Sega Saturn)

Tempo para mais uma rapidinha, agora para mais um exclusivo japonês da Sega Saturn. Tenchi Muyou é um anime que eu me lembro de ver na TV portuguesa, algures no final da década de 90 / início dos anos 2000, dava na RTP2 no final da tarde / início da noite, se bem me recordo. E este Tenchi Muyou Ryououki Gokuraku é um lançamento de 1995, produzido a pensar apenas nos seus fãs mais acérrimos, pelas razões que irei descrever mais abaixo. O meu exemplar foi comprado a um particular no facebook há uns anos atrás, já não me recordo quanto custou mas foi certamente barato.

Jogo com caixa, papelada, spine card e manual embutido na capa

E porque digo que este é um lançamento para os fãs mais acérrimos da série? Bom, porque é uma espécie de colectânea, que agrega informações dos vários lançamentos da série até à data de publicação deste jogo, algures em 1995. Podemos ver informações dos Laser Disc, VHS, CDs e mesmo outros jogos que tenham sido lançados até essa data, para além de pequenos videoclips dos mesmos. Resumos dos episódios de TV e das suas OVAs também podem ser visto, assim como pequenos clips de vídeo ou som (no caso dos lançamentos audio). Efeitos de som, voice acting ou imagens estáticas também podem ser observadas em diferentes galerias.

Este lançamento é uma autêntica enciclopédia para os fãs, contendo informações sobre os diferentes lançamentos da série Tenchi Muyo, bem como imensos clips de vídeo e som para explorar

Mas para além disso, temos aqui um jogo também. No menu principal podemos navegar através de vários ícones que nos levam ao conteúdo que mencionei acima, mas o ícone principal, no centro do ecrã, leva-nos a um quizz. Aqui temos 4 quizzes diferentes, ou seja concursos de perguntas e respostas, onde nos é mostrado um pequeno vídeo, imagem ou texto e em seguida é-nos feita uma pergunta. Temos 4 hipóteses de resposta, sendo que podemos falhar apenas 2 questões em cada quizz. Acertando na resposta, é também nos mostrado um pequeno vídeo de follow-up, audio, imagem estática ou apenas texto e passamos para a pergunta seguinte. Felizmente encontrei um guia na internet, pelo que consegui passar o jogo todo, mas infelizmente não há qualquer recompensa no fim, o que é pena.

No quizz é-nos feito uma pergunta, tipicamente acompanhada por um pequeno vídeo ou imagem e depois temos de escolher a resposta certa em 4 possíveis

Visualmente é um jogo muito simples, os menus são bastante modestos, os vídeos possuem uma resolução algo baixa e são reproduzidos numa janela consideravelmente pequena. Agora o que me irrita profundamente são mesmo os longos tempos de loading, mesmo a navegar entre menus. Quando é para reproduzir algum vídeo, até compreendo que tenhamos de esperar alguns segundos, mas só o simples facto de navegar entre menus ter quebras de uns 10 segundos para loading torna as coisas bastante aborrecidas, até porque para aceder a todo o conteúdo que aqui temos, precisamos de navegar em imensos menus.

Portanto este Tenchi Muyou é mesmo um lançamento apenas para os fãs mais acérrimos da série. O Japão está repleto destes quizz games e tendo em conta que, de acordo com o Sega Retro, este jogo foi lançado com o preço de 7800yen, o que dá cerca de 60€, foi um lançamento full price! Será mesmo que este tipo de jogos vendem assim tanto para justificar este preço? A título de curiosidade, este jogo tem a indicação de ser para maiores de 18 anos. A razão para isso é que o próprio anime tinha, muito ocasionalmente, algumas cenas de nudez feminina. E tendo em conta que o jogo possui muitas das cenas do anime, lá levou com esta classificação em cima.

Snatcher (PC-Engine CD / Sega Mega CD / Sega Saturn)

O artigo de hoje vai ser uma batota e das grandes pois a versão que joguei não é nenhuma das aqui apresentadas. Snatcher é uma aventura gráfica produzida por Hideo Kojima, antes de ele se ter tornado a “vedeta” que é actualmente (e merecidamente!) após lançar o Metal Gear Solid há uns bons anos atrás. Foi um jogo lançado originalmente em 1988 para alguns computadores japoneses, tendo recebido posteriormente em 1992 uma versão para PC-Engine CD, melhorada a nível audiovisual e também com mais conteúdo. 2 anos depois é lançada também uma versão para a Mega CD que foi desenvolvida com base na versão PC-Engine CD e esta traz ainda mais algum conteúdo extra, mas curiosamente nunca saiu no Japão. Em 1996, versões para a Sega Saturn e Playstation saem também para o mercado japonês. Joguei pela primeira vez este jogo há mais de 15 anos atrás, através de emulação na sua versão Mega CD. E infelizmente, devido aos preços proibitivos que o mesmo atinge no mercado actual, acabei antes por procurar outras versões para manter na colecção, tendo optado por estas versões PC-Engine CD e Sega Saturn, ambas compradas no eBay há uns meses por valores que não ultrapassaram os 20€ cada. E acabei hoje de rejogar esta obra-prima, na sua versão Mega CD, uma vez mais emulada, pois continua a ser a única versão “completa” que existe em inglês (naturalmente não contando com a versão MSX2 ou o SD Snatcher). Portanto este artigo irá ter o jogo da Mega CD por base, sendo que no final irei mencionar alguns detalhes sobre as diferenças entre versões. Se algum dia no futuro vier a ter um exemplar da versão Mega CD, irei certamente actualizar este artigo. Vamos a isso então!

Jogo com caixa e manual, versão Mega CD PAL.

EDIT: e sim, contra todas as minhas expectativas, isso acabou por acontecer. No passado mês de Maio acabei por comprar uma versão Mega CD. Não foi nada barata, mas depois de a ter nas mãos, não desisti.

Jogo com caixa e manual, versão PC-Engine

A influência de Blade Runner é notória nesta aventura. Afinal, este é também um jogo que decorre num futuro pós-apocalíptico e cyberpunk, com um detective como protagonista, e com uma ameaça de andróides como temática central. Encarnamos então no papel de Gillian Seed, um recém recrutado agente da Junkers, uma organização policial de elite com o papel de identificar e eliminar snatchers, robots altamente sofisticados e de origem incerta que roubam a identidade de cidadãos humanos e vivem misturados na sociedade, com objectivos ainda incertos. Gillian e a sua esposa Jamie, da qual agora vive separado, foram encontrados em sono criogénico num bunker algures na Sibéria e sem qualquer memória do seu passado. A aventura decorre algures em meados do século XXI, na cidade fictícia de Neo Kobe, no Japão, cerca de 50 após um evento cataclísmico que se originou na Rússia e que dizimou uma grande parte da população do planeta. Gillian irá então investigar a ameaça dos Snatchers, mas também procurar saber mais do seu passado e o da sua esposa.

Jogo com caixa, manual embutido na capa e alguns stickers, versão Sega Saturn

O jogo em si é uma aventura gráfica, mas com as mecânicas de jogo típicas das aventuras japonesas. Isto é, temos uma janela com os gráficos, tipicamente do cenário do que nos rodeia e ocasionalmente algumas cutscenes com os intervenientes, e em baixo vamos tendo menus onde poderemos seleccionar que acção a executar, que tipicamente são MOVE, TALK, INVESTIGATE, LOOK, entre outras. E é precisamente ao escolher este tipo de acções que vamos viajar para locais diferentes, interagindo com os NPCs e cenários, obtendo pistas que nos vão desvendando parte do mistério. Ocasionalmente teremos algumas sequências de acção, que são pequenas galerias de tiro onde devemos mover a mira numa grelha de 3×3 e disparar nos Snatchers ou outros perigos que nos podem esperar. A versão Mega CD tem a hipótese de usar a Justifier, a light gun da Konami que vinha juntamente com o Lethal Enforcers, para estas sequências de acção.

Quaisquer semelhanças com os Terminators não são mera coincidência

Mas o que torna este Snatcher tão especial? Certamente que é pela sua narrativa, que tem tanto de sério como de cómico, não fosse o ocasional gore causado pelos ataques dos Snatchers, pela narrativa algo dramática em certos eventos chave, mas também no relacionamento de Gillian e Julian. Mas também tem de cómico precisamente pela personalidade bem humorada de Gillian, especialmente quando este tenta a sua sorte com as diferentes mulheres que lhe vão aparecendo à frente. A relação com o seu ajudante robótico, o Metal Gear Mk. 2 também está muito bem conseguida. E Hideo Kojima conseguiu então apresentar uma narrativa muito boa, com um mistério que se vai adensando à medida que vamos progredindo no jogo e deixa-nos sempre presos na envolvência da história e das personagens bastante carismáticas que aqui foram introduzidas. Para um jogo cuja história é originalmente de 1988, está aqui um trabalho fantástico.

O charme de Snatcher está também nos pequenos detalhes. Reparem nos anúncios luminosos.

E o trabalho fantástico está também na atenção ao detalhe e a grande quantidade de conteúdo algo opcional que podemos desvendar, como chamadas telefónicas aos produtores do jogo, ou até mesmo a uma sex-line que nos leva a assistir a um diálogo hilariante entre Gillian e a telefonista. Referências a pop culture não faltam e claro, aos outros trabalhos de Kojima, nomeadamente o primeiro Metal Gear. E essas referências a Metal Gear não se ficam pelo assistente de Gillian, pois Outer Heaven é um local chave que iremos explorar algumas vezes. Referências à Konami e a outros dos seus videojogos como Contra, Castlevania ou Rocket Knight Adventures também podem ser encontradas! Para além disso, o Kojima deu-se ao trabalho de criar muito lore daquele mundo, que pode ser consultado de forma completamente opcional no computador da base dos Junkers. Portanto a atenção ao detalhe é outro dos pontos fortes deste Snatcher.

Gosto bastante dos visuais do jogo e mesmo sendo maioritariamente imagens algo estáticas, a excelente narrativa, banda sonora e voice acting complementam-nos muito bem

A nível audiovisual temos aqui outro ponto muito forte. Tal como é habitual noutros jogos de aventura / visual novel, os gráficos tendem a ser imagens ou estáticas, ou apenas com algum movimento residual. E apesar das imagens serem boas por si, o facto de serem algo estáticas também acontece aqui. Mas sinceramente no fim do dia nada disso importa porque a narrativa absorve toda a nossa atenção e os momentos chave são todos narrados com voice acting. E para um videojogo japonês com uma história tão única e complexa como esta, ter recebido uma localização e voice acting em inglês para uma consola em 1994, é de facto um feito extraordinário. É que o voice acting está de facto muito bom, tornando as personagens ainda mais carismáticas. E todo o som em si também está bem conseguido, desde os pequenos efeitos sonoros que vamos ouvindo, como o barulho de passos, os alertas que Metal Gear vai lançando ou mesmo a banda sonora ecléctica que vamos ouvindo, tudo contribui de forma muito positiva para enriquecer a narrativa e a acção.

O jogo vai tendo também os seus momentos de acção onde teremos de abater alguns inimigos. E a versão Mega CD suporta a light gun Justifier para estas partes!

As primeiras versões deste Snatcher foram lançadas em 1988 para os computadores nipónicos MSX2 e PC-88. Estas versões terminavam a história no final do acto 2, o que é um grande cliffhanger! Em 1992 sai a versão PC-Engine CD, que possui o acto 3 que conclui a história (mas deixando espaço para uma eventual sequela), para além de incluir algumas músicas em formato CD-Audio, voice acting em japonês nos momentos mais importantes e gráficos melhorados no geral, tirando partido da maior palete de cores que a PC-Engine poderia aproveitar. A versão Mega CD, que como referi no início curiosamente nunca chegou a sair no Japão, é baseada na versão de PC-Engine CD, incluindo algumas cenas adicionais. É a única versão que foi oficialmente localizada para o Ocidente, e apesar de ter alguns extras, também perdeu algumas (felizmente muito poucas) coisas nesse processo. Anos mais tarde em 1996 são lançadas as versões Saturn e Playstation que aparentemente são um pouco decepcionantes. Para além de adicionarem uma cutscene em CGI que envelheceu muito mal, muito do gore das versões originais é censurado, especialmente na versão Playstation. Alguns dos gráficos também foram redesenhados, perdendo algum do charme original. É uma pena!

Não há aqui quaisquer pudores em apresentar algum gore, e a versão PC-Engine ainda vai mais longe.

E sendo assim, entende-se perfeitamente o porquê de nenhum fã se ter dado ao trabalho de traduzir as versões PC-Engine, Saturn ou Playstation deste jogo. A sua localização na versão Mega CD já é excelente e a versão da consola de 16bit da Sega, acaba por ser das mais completas e com menos censura, perdendo apenas para a PC-Engine CD num ou noutro detalhe que não justifica de todo o esforço de tradução. Este é então um daqueles jogos que se tornaram caríssimos ao longo do tempo e é fácil de entender o porquê. Snatcher nunca foi um sucesso comercial no ocidente pelo que nunca houve muitas unidades em circulação e para além disso todo o sucesso que Kojima veio a ter com Metal Gear Solid veio atrair uma grande atenção por fãs e coleccionadores a esta pérola da Mega CD. É uma pena que a Konami actualmente não se interessar muito pelo mercado de videojogos, pois um relançamento deste jogo, preferencialmente desta versão, seria excelente, quanto mais não fosse em formato digital! É um excelente jogo que merece ser jogado!