Snatcher (PC-Engine CD / Sega Saturn)

O artigo de hoje vai ser uma batota e das grandes pois a versão que joguei não é nenhuma das aqui apresentadas. Snatcher é uma aventura gráfica produzida por Hideo Kojima, antes de ele se ter tornado a “vedeta” que é actualmente (e merecidamente!) após lançar o Metal Gear Solid há uns bons anos atrás. Foi um jogo lançado originalmente em 1988 para alguns computadores japoneses, tendo recebido posteriormente em 1992 uma versão para PC-Engine CD, melhorada a nível audiovisual e também com mais conteúdo. 2 anos depois é lançada também uma versão para a Mega CD que foi desenvolvida com base na versão PC-Engine CD e esta traz ainda mais algum conteúdo extra, mas curiosamente nunca saiu no Japão. Em 1996, versões para a Sega Saturn e Playstation saem também para o mercado japonês. Joguei pela primeira vez este jogo há mais de 15 anos atrás, através de emulação na sua versão Mega CD. E infelizmente, devido aos preços proibitivos que o mesmo atinge no mercado actual, acabei antes por procurar outras versões para manter na colecção, tendo optado por estas versões PC-Engine CD e Sega Saturn, ambas compradas no eBay há uns meses por valores que não ultrapassaram os 20€ cada. E acabei hoje de rejogar esta obra-prima, na sua versão Mega CD, uma vez mais emulada, pois continua a ser a única versão “completa” que existe em inglês (naturalmente não contando com a versão MSX2 ou o SD Snatcher). Portanto este artigo irá ter o jogo da Mega CD por base, sendo que no final irei mencionar alguns detalhes sobre as diferenças entre versões. Se algum dia no futuro vier a ter um exemplar da versão Mega CD, irei certamente actualizar este artigo. Vamos a isso então!

Jogo com caixa e manual, versão PC-Engine

A influência de Blade Runner é notória nesta aventura. Afinal, este é também um jogo que decorre num futuro pós-apocalíptico e cyberpunk, com um detective como protagonista, e com uma ameaça de andróides como temática central. Encarnamos então no papel de Gillian Seed, um recém recrutado agente da Junkers, uma organização policial de elite com o papel de identificar e eliminar snatchers, robots altamente sofisticados e de origem incerta que roubam a identidade de cidadãos humanos e vivem misturados na sociedade, com objectivos ainda incertos. Gillian e a sua esposa Jamie, da qual agora vive separado, foram encontrados em sono criogénico num bunker algures na Sibéria e sem qualquer memória do seu passado. A aventura decorre algures em meados do século XXI, na cidade fictícia de Neo Kobe, no Japão, cerca de 50 após um evento cataclísmico que se originou na Rússia e que dizimou uma grande parte da população do planeta. Gillian irá então investigar a ameaça dos Snatchers, mas também procurar saber mais do seu passado e o da sua esposa.

Jogo com caixa, manual embutido na capa e alguns stickers, versão Sega Saturn

O jogo em si é uma aventura gráfica, mas com as mecânicas de jogo típicas das aventuras japonesas. Isto é, temos uma janela com os gráficos, tipicamente do cenário do que nos rodeia e ocasionalmente algumas cutscenes com os intervenientes, e em baixo vamos tendo menus onde poderemos seleccionar que acção a executar, que tipicamente são MOVE, TALK, INVESTIGATE, LOOK, entre outras. E é precisamente ao escolher este tipo de acções que vamos viajar para locais diferentes, interagindo com os NPCs e cenários, obtendo pistas que nos vão desvendando parte do mistério. Ocasionalmente teremos algumas sequências de acção, que são pequenas galerias de tiro onde devemos mover a mira numa grelha de 3×3 e disparar nos Snatchers ou outros perigos que nos podem esperar. A versão Mega CD tem a hipótese de usar a Justifier, a light gun da Konami que vinha juntamente com o Lethal Enforcers, para estas sequências de acção.

Quaisquer semelhanças com os Terminators não são mera coincidência

Mas o que torna este Snatcher tão especial? Certamente que é pela sua narrativa, que tem tanto de sério como de cómico, não fosse o ocasional gore causado pelos ataques dos Snatchers, pela narrativa algo dramática em certos eventos chave, mas também no relacionamento de Gillian e Julian. Mas também tem de cómico precisamente pela personalidade bem humorada de Gillian, especialmente quando este tenta a sua sorte com as diferentes mulheres que lhe vão aparecendo à frente. A relação com o seu ajudante robótico, o Metal Gear Mk. 2 também está muito bem conseguida. E Hideo Kojima conseguiu então apresentar uma narrativa muito boa, com um mistério que se vai adensando à medida que vamos progredindo no jogo e deixa-nos sempre presos na envolvência da história e das personagens bastante carismáticas que aqui foram introduzidas. Para um jogo cuja história é originalmente de 1988, está aqui um trabalho fantástico.

O charme de Snatcher está também nos pequenos detalhes. Reparem nos anúncios luminosos.

E o trabalho fantástico está também na atenção ao detalhe e a grande quantidade de conteúdo algo opcional que podemos desvendar, como chamadas telefónicas aos produtores do jogo, ou até mesmo a uma sex-line que nos leva a assistir a um diálogo hilariante entre Gillian e a telefonista. Referências a pop culture não faltam e claro, aos outros trabalhos de Kojima, nomeadamente o primeiro Metal Gear. E essas referências a Metal Gear não se ficam pelo assistente de Gillian, pois Outer Heaven é um local chave que iremos explorar algumas vezes. Referências à Konami e a outros dos seus videojogos como Contra, Castlevania ou Rocket Knight Adventures também podem ser encontradas! Para além disso, o Kojima deu-se ao trabalho de criar muito lore daquele mundo, que pode ser consultado de forma completamente opcional no computador da base dos Junkers. Portanto a atenção ao detalhe é outro dos pontos fortes deste Snatcher.

Gosto bastante dos visuais do jogo e mesmo sendo maioritariamente imagens algo estáticas, a excelente narrativa, banda sonora e voice acting complementam-nos muito bem

A nível audiovisual temos aqui outro ponto muito forte. Tal como é habitual noutros jogos de aventura / visual novel, os gráficos tendem a ser imagens ou estáticas, ou apenas com algum movimento residual. E apesar das imagens serem boas por si, o facto de serem algo estáticas também acontece aqui. Mas sinceramente no fim do dia nada disso importa porque a narrativa absorve toda a nossa atenção e os momentos chave são todos narrados com voice acting. E para um videojogo japonês com uma história tão única e complexa como esta, ter recebido uma localização e voice acting em inglês para uma consola em 1994, é de facto um feito extraordinário. É que o voice acting está de facto muito bom, tornando as personagens ainda mais carismáticas. E todo o som em si também está bem conseguido, desde os pequenos efeitos sonoros que vamos ouvindo, como o barulho de passos, os alertas que Metal Gear vai lançando ou mesmo a banda sonora ecléctica que vamos ouvindo, tudo contribui de forma muito positiva para enriquecer a narrativa e a acção.

O jogo vai tendo também os seus momentos de acção onde teremos de abater alguns inimigos. E a versão Mega CD suporta a light gun Justifier para estas partes!

As primeiras versões deste Snatcher foram lançadas em 1988 para os computadores nipónicos MSX2 e PC-88. Estas versões terminavam a história no final do acto 2, o que é um grande cliffhanger! Em 1992 sai a versão PC-Engine CD, que possui o acto 3 que conclui a história (mas deixando espaço para uma eventual sequela), para além de incluir algumas músicas em formato CD-Audio, voice acting em japonês nos momentos mais importantes e gráficos melhorados no geral, tirando partido da maior palete de cores que a PC-Engine poderia aproveitar. A versão Mega CD, que como referi no início curiosamente nunca chegou a sair no Japão, é baseada na versão de PC-Engine CD, incluindo algumas cenas adicionais. É a única versão que foi oficialmente localizada para o Ocidente, e apesar de ter alguns extras, também perdeu algumas (felizmente muito poucas) coisas nesse processo. Anos mais tarde em 1996 são lançadas as versões Saturn e Playstation que aparentemente são um pouco decepcionantes. Para além de adicionarem uma cutscene em CGI que envelheceu muito mal, muito do gore das versões originais é censurado, especialmente na versão Playstation. Alguns dos gráficos também foram redesenhados, perdendo algum do charme original. É uma pena!

Não há aqui quaisquer pudores em apresentar algum gore, e a versão PC-Engine ainda vai mais longe.

E sendo assim, entende-se perfeitamente o porquê de nenhum fã se ter dado ao trabalho de traduzir as versões PC-Engine, Saturn ou Playstation deste jogo. A sua localização na versão Mega CD já é excelente e a versão da consola de 16bit da Sega, acaba por ser das mais completas e com menos censura, perdendo apenas para a PC-Engine CD num ou noutro detalhe que não justifica de todo o esforço de tradução. Este é então um daqueles jogos que se tornaram caríssimos ao longo do tempo e é fácil de entender o porquê. Snatcher nunca foi um sucesso comercial no ocidente pelo que nunca houve muitas unidades em circulação e para além disso todo o sucesso que Kojima veio a ter com Metal Gear Solid veio atrair uma grande atenção por fãs e coleccionadores a esta pérola da Mega CD. É uma pena que a Konami actualmente não se interessar muito pelo mercado de videojogos, pois um relançamento deste jogo, preferencialmente desta versão, seria excelente, quanto mais não fosse em formato digital! É um excelente jogo que merece ser jogado!

Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
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