Syndicate (Sega Mega Drive)

Tempo de voltarmos agora às rapidinhas, desta vez para uma versão diferente de um jogo que já trouxe cá há alguns meses atrás. Syndicate, produto da Bullfrog desenvolvido originalmente para MS-DOS e outros computadores, foi um jogo de estratégia e acção bastante interessante para o seu tempo. Com o sucesso que alcançou, não tardaram a surgir versões para consolas, incluindo esta adaptação para a Mega Drive que vos trago hoje. Tendo em conta a complexidade da versão original, onde o uso de rato e teclado era fundamental para tirar partido de todas as suas mecânicas, fiquei naturalmente curioso em perceber como este Syndicate funcionaria num sistema de 16 bits. O resultado é surpreendente por um lado, mas também desapontante por outro. O meu exemplar deu entrada na minha colecção algures em Maio deste ano, depois de me ter sido vendido a um preço bastante convidativo por um amigo.

Jogo com caixa. Manual procura-se e bem necessário que é!

Diria mesmo que, se há jogo para a Mega Drive em que ter o manual é praticamente obrigatório, este é um deles, algo que infelizmente não aconteceu comigo. Felizmente, é relativamente fácil encontrar scans do manual na internet, o que acabou por tornar a minha vida ligeiramente mais fácil. O que mais me surpreendeu pela positiva nesta versão foi a quantidade de funcionalidades e mecânicas que transitaram do original para este formato de 16 bits. Continua a ser possível controlar um esquadrão de quatro mercenários, geri-los de forma independente e ajustar os seus níveis de adrenalina, inteligência e percepção, mantendo assim uma boa parte da componente estratégica que define a experiência de Syndicate. A vertente financeira, assim como o sistema de investigação e desenvolvimento, também marcam presença. Podemos taxar os territórios conquistados, utilizando o dinheiro não só para equipar os agentes com armas, utilitários ou implantes cibernéticos, mas também para investir em pesquisa de novo armamento ou versões melhoradas das modificações existentes. As missões, apesar de apresentarem mapas mais simples, mantêm muitos dos objectivos clássicos: assassinar agentes de facções rivais, escoltar figuras importantes, persuadir cientistas a juntarem-se ao nosso sindicato do crime, entre outros.

Apesar de manter a mesma atmosfera, visualmente o jogo é muito mais simples e aquele mapa minúsculo no centro do ecrã é muito menos útil que o da versão original.

Onde está então o principal problema? Nos controlos, claro. Apesar de o comando de seis botões já existir há bastante tempo no mercado, Syndicate não oferece qualquer tipo de suporte para esse periférico, obrigando o jogador a recorrer ao comando tradicional de três botões, manifestamente insuficiente para a quantidade de mecânicas aqui presentes. A movimentação é feita com o direccional e, felizmente, o jogo inclui um sistema de mira automática. As personagens apanham automaticamente as armas caídas no chão sempre que passam por elas, embora também acabem por recolher aquelas que descartamos por falta de munições. O botão C serve para disparar a arma equipada, mas todas as restantes acções exigem combinações de botões. Manter o botão B pressionado e carregar para a esquerda ou direita permite seleccionar o agente activo, enquanto carregar para cima ou para baixo troca a arma equipada. Para controlar todos os agentes em simultâneo é necessário premir A e Start ao mesmo tempo. Manter o botão A pressionado em conjunto com o direccional permite ajustar os níveis de inteligência, agressividade e percepção de cada unidade. Para descartar uma arma sem munições, a combinação é B e Start. Existem ainda atalhos para activar comportamentos pré-definidos, como Panic Mode, Guard Mode ou Sleep Mode. Como se pode facilmente perceber, o esquema de controlo é extremamente complexo e, aliado a um jogo já de si bastante exigente, contribui para uma curva de aprendizagem ainda mais íngreme. A navegação nos menus também não é particularmente intuitiva, o que não ajuda.

A cena inicial também está aqui na Mega Drive, de forma mais simplificada, mas não deixa de ser uma introdução impressionante no sistema

No capítulo audiovisual, esta versão para Mega Drive fica alguns bons furos abaixo do original MS-DOS. Apesar de conseguir preservar a atmosfera opressiva, os gráficos perdem claramente em resolução e detalhe nas sprites. A perspectiva isométrica mantém-se, bem como algumas das suas limitações, nomeadamente a impossibilidade de ver o que acontece no interior dos edifícios ou nas traseiras dos cenários, sendo apenas auxiliados por cursores que indicam a posição dos agentes fora de vista. A cena de abertura está presente, embora com menos animação e qualidade, algo perfeitamente compreensível face às limitações de armazenamento do cartucho. A banda sonora, simples e minimalista, mas eficazmente tensa, também foi adaptada, mantendo a dinâmica de alternância entre exploração e combate. Ainda assim, as músicas soam mais ríspidas do que na versão original, algo infelizmente comum em muitos jogos ocidentais da Mega Drive, e não necessariamente por limitações técnicas do sistema. Notei também a ausência de alguns efeitos sonoros.

Infelizmente o sistema de menus também não é muito intuitivo

Em suma, esta versão de Syndicate é um jogo que dificilmente consigo recomendar nos dias de hoje, sobretudo tendo em conta a facilidade com que se pode jogar a versão original de MS-DOS através de emulação em sistemas modernos. Se por um lado é impressionante ver a Bullfrog conseguir transportar a maioria das mecânicas do original para um hardware bastante mais limitado, por outro o esquema de controlos imposto torna-se um obstáculo constante à fruição do jogo. Num título já recheado de momentos desafiantes, esta camada adicional de complexidade acaba por ser pouco bem-vinda. O suporte para o comando de seis botões poderia ter mitigado alguns destes problemas, tal como uma simplificação mais assumida das mecânicas, ainda que isso implicasse sacrificar parte da identidade que tornou o Syndicate original tão marcante.

Terminator: Resistance – Complete Edition (Microsoft Xbox Series X)

Ora cá está um daqueles jogos que, se não me tivessem dito que era bastante competente e interessante, muito provavelmente nunca o teria comprado, já que me passou completamente ao lado. Produzido pelo estúdio polaco Teyon, Terminator: Resistance é um first person shooter baseado na conhecida saga de filmes de acção, lançado originalmente em 2019 para PC, PS4 e Xbox One. Em 2021 surgiu uma versão Enhanced para a PS5, com melhorias gráficas e de performance, além de já incluir um DLC. No entanto, apenas em 2023 foi finalmente lançada uma versão para a Xbox Series, trazendo todas as melhorias da edição Enhanced e incluindo todos os DLCs. Ao saber que esta era a versão mais completa e que contava também com lançamento físico, acabou por ser a que procurei adquirir, o que aconteceu nesta última Black Friday, tendo-me custado cerca de 30€ na Amazon.

Jogo com caixa

A história segue o lore estabelecido nos dois primeiros filmes da saga Terminator. A narrativa transporta-nos para um futuro pós-apocalíptico onde a Skynet se revolta contra a raça humana e, após despoletar um cataclismo nuclear que dizimou grande parte da população, procura exterminar os sobreviventes através de vários tipos de robots criados para esse efeito. Controlamos Jacob Rivers, o último sobrevivente de uma célula da resistência que foi praticamente aniquilada por um novo tipo de exterminador, os infiltradores, indistinguíveis dos humanos à primeira vista, à excepção da sua força devastadora. A aventura começa com o protagonista completamente indefeso, em fuga constante de vários robots, até que, juntamente com outros sobreviventes, consegue chegar a um abrigo seguro. Ao explorar as imediações em busca de armamento e recursos, entramos finalmente em contacto com o resto da resistência, que começa a delinear um plano para atacar a Skynet em força.

Desde cedo que podemos activar um visor que nos permite localizar os inimigos próximos, mesmo que estejam por detrás de paredes.

Estamos perante um first person shooter que integra um conjunto bastante sólido de mecânicas de RPG. Ao derrotar inimigos ganhamos experiência, que nos permite subir de nível e evoluir várias habilidades. Existe também um sistema de crafting, através do qual podemos criar medkits, munições, engenhos explosivos e outras utilidades. Durante a exploração encontraremos portas e baús trancados, que podem ser abertos recorrendo à habilidade de lockpicking. Algumas portas e torres de metralhadoras das instalações da Skynet podem igualmente ser acedidas via hacking. Em ambos os casos, o sucesso depende da resolução de pequenos mini-jogos, sendo que a evolução das respectivas habilidades aumenta as probabilidades de êxito. O mesmo se aplica ao crafting, já que melhorar as habilidades associadas desbloqueia novas opções de criação de itens. As mecânicas de RPG estendem-se também à exploração e à vertente narrativa, permitindo-nos interagir com vários NPCs, cujas respostas podem ter algum impacto no desenrolar da história. Estes personagens oferecem ainda diversas sidequests opcionais, que enriquecem o mundo do jogo.

O jogo tem também várias mecânicas de RPG, incluindo vários NPCs com os quais podemos interagir

O jogo apresenta também uma componente de acção furtiva bastante relevante, sobretudo na primeira metade da campanha. Nesta fase, as armas de fogo convencionais revelam-se pouco eficazes contra os exterminadores, obrigando-nos a avançar de forma mais cautelosa e a evitar confrontos directos sempre que possível. A dinâmica muda significativamente quando desbloqueamos as armas de plasma, momento em que os papéis se invertem e os outrora imponentes T-800 passam a ser adversários bem mais frágeis. Ocasionalmente surgem inimigos de maior porte, como os hunter killers, que exigem estratégias ou armamento específico, mas no geral considero que o jogo consegue equilibrar bem a acção mais frenética típica do género com a furtividade, a exploração e as mecânicas de RPG. Existem níveis bastante lineares e focados exclusivamente na acção, mas também mapas mais amplos, que oferecem total liberdade de exploração e a possibilidade de completar objectivos e sidequests opcionais.

O DLC Annihilation Line coloca-nos a interagir com Kyle Reese, personagem principal do primeiro filme

Tal como referido, esta versão inclui vários DLCs. Annihilation Line é uma campanha adicional que decorre algures a meio da narrativa principal. Aqui voltamos a controlar Jacob Rivers, agora acompanhado por Kyle Reese, protagonista do primeiro filme, e mais duas personagens, numa missão importante e envolta em mistério atribuída pelo próprio John Connor. Trata-se de um DLC com uma duração considerável, composto por seis níveis distintos, alguns deles bastante extensos e recheados de objectivos opcionais. Existe ainda o modo Infiltrator, onde assumimos o controlo de um exterminador. Este modo funciona como uma espécie de roguelike, com um mapa fixo mas povoado de forma aleatória. O objectivo passa por localizar um bunker da resistência e assassinar o seu líder, sendo necessário recolher documentos de inteligência que revelam gradualmente novos pontos de interesse, até que a localização final seja descoberta. Como é típico do género, temos apenas uma vida, sendo que a única forma de recuperar energia passa por recolher peças de outros exterminadores ou robots derrotados durante a exploração.

Já no DLC infiltrator controlamos um exterminador, onde poderemos utilizar o seu típico de infra vermelhos

No que toca ao audiovisual, não considero que este seja um jogo particularmente impressionante. Mesmo na geração da Xbox One ou PS4, e quase arriscaria dizer na anterior, existem vários títulos com uma fidelidade técnica superior. Os modelos poligonais e as animações dos NPCs são bastante modestos e os gráficos, no geral, ficam aquém da média. Apesar de o cenário pós-apocalíptico justificar a predominância de ambientes em ruínas, o principal problema não é a falta de variedade de cenários ou inimigos, mas sim o facto de o jogo ser tecnicamente pouco ambicioso. Já no departamento sonoro, o balanço é mais positivo. O voice acting é competente e a banda sonora inspira-se claramente nos temas dos dois primeiros filmes, algo que pessoalmente me agradou bastante.

No final de contas, apesar de Terminator: Resistance não ser um jogo tecnicamente muito competente, consegue compensar com mecânicas de jogo sólidas, um sistema de crafting robusto, níveis amplos e cheios de conteúdo opcional e, acima de tudo, uma adaptação bastante respeitosa e eficaz ao universo da saga Terminator. O mesmo estúdio, que no passado lançou um shooter do Rambo que foi alvo de duras críticas, acabou por surpreender mais tarde com um outro first person shooter, desta vez baseado na saga Robocop. Deste último também me chegou algum feedback positivo, pelo que deverá ser um jogo a que pretendo pegar em breve.

The Horde (Sega Saturn)

Tempo de finalmente voltar à Sega Saturn para um título muito curioso, e que bem representa aquele período muito sui generis da primeira metade dos anos 90 na indústria dos videojogos, marcado pela transição do 2D para o 3D e pela adopção do formato CD, que por sua vez permitia incorporar clipes de full motion video nos videojogos. Lançado originalmente em 1994 para a 3DO e para o PC, sob o selo da Crystal Dynamics, a única conversão que este título recebeu para consolas foi precisamente esta versão Saturn, já em 1996, convertida pela Silicon Knights. Este meu exemplar deu entrada na minha colecção na primavera deste ano, tendo sido comprado por cerca de 7€ numa feira de velharias. Infelizmente, este é um dos poucos jogos Saturn que recebeu lançamentos específicos em várias línguas em território europeu, sendo a minha versão um lançamento integralmente em Alemão, o que me levou a emular a versão em inglês.

Jogo com caixa, versão integralmente em alemão.

The Horde é um híbrido entre jogo de simulação, estratégia e acção. Controlamos o jovem Chauncey, outrora um mero servente do rei Winthrop, mas que, após um incidente durante um banquete real onde salva o rei com uma manobra de Heimlich, é recompensado com um título de Cavaleiro e uma pequena parcela de terra para gerir. O problema é que essa aldeia é invadida diariamente pelos hordlings, criaturas de cor vermelha que devoram tanto as plantações como os próprios aldeões. Cabe-nos proteger a aldeia, construir fortificações e evitar que estas criaturas dizimem a população, ao mesmo tempo que fortalecemos a economia local para conseguir pagar os impostos impostos pelo governador. À medida que vamos sendo bem sucedidos, o rei recompensa-nos com mais terras, progressivamente mais difíceis de gerir, enquanto os hordlings se tornam mais numerosos e agressivos. O governador cedo se assume também como um obstáculo adicional, uma vez que, na ausência de herdeiros por parte de Winthrop, ambiciona o trono e faz tudo para nos dificultar a vida, aumentando os impostos pelos motivos mais absurdos e hilariantes possíveis.

Antes de cada nova estação, a interface do jogo dá-nos algumas dicas de como prosseguir.

A acção está organizada pelas diferentes estações do ano, sendo que cada uma se divide em duas fases distintas. A primeira é a de preparação e desenvolvimento, onde, com o dinheiro disponível, podemos plantar árvores, construir fortificações, comprar gado ou contratar soldados e colocá-los em posições fixas de defesa. Quando o tempo se esgota, inicia-se a invasão dos hordlings. Nesta fase de combate, o objectivo é derrotar todas as criaturas invasoras, terminando apenas quando todos forem eliminados ou quando ocorre um game over, seja por todos os aldeões serem devorados ou por ficarmos sem pontos de vida. Para nos auxiliar nestes confrontos, é possível adquirir itens mágicos, como um anel de teletransporte que permite deslocações rápidas pelo mapa, a invocação de um dragão que incinera tudo à sua volta, incluindo partes da aldeia, ou uma flauta mágica que atrai os hordlings. Estes itens devem, no entanto, ser usados com cuidado, pois cada utilização consome também dinheiro das nossas economias. No final de cada ano, se não tivermos fundos suficientes para pagar o imposto, o jogo termina igualmente em game over.

A qualquer momento podemos alternar entre a vista próxima e uma vista de cima, que para mim é a melhor forma que temos para gerir os recursos.

Inicialmente, os hordlings são relativamente fracos, pelo que o foco principal passa por acumular dinheiro. As vacas são um investimento elevado no início, tornando o plantio de árvores e a posterior recolha de madeira a forma mais eficaz de gerar rendimento. Assim que seja possível, o investimento em gado torna-se vantajoso, uma vez que cada vaca, apesar de custar 100 moedas de ouro, gera 25 moedas no final de cada estação, revelando-se um bom investimento a longo prazo. Com o crescimento da aldeia, mais habitantes surgem, aumentando tanto o território a defender como o potencial de rendimento. Os territórios seguintes introduzem desafios específicos. A segunda aldeia situa-se numa região onde as árvores são consideradas sagradas, tornando inviável a principal fonte de rendimento anterior. Segue-se um pântano, onde a estratégia passa por plantar árvores para absorver a água e tornar o solo fértil. No deserto, é necessário escavar repetidamente para encontrar e expandir fontes de água. O último território, coberto de neve e gelo, é o mais exigente de todos. Aqui, se tivermos sido eficientes anteriormente, é possível sobreviver recorrendo sobretudo aos itens mágicos. Caso contrário, torna-se necessário investir fortemente em vacas para trabalhar o terreno. Durante o outono e o inverno surgem hordlings de gelo, criaturas particularmente resistentes que congelam novamente os terrenos por onde passam. Sendo a última região, acabei por optar por uma abordagem focada apenas na sobrevivência, gastando dinheiro em itens mágicos para ultrapassar os confrontos exigentes.

Os combates vão sendo cada vez mais exigentes, mas também teremos itens mágicos bastante poderosos para nos ajudar, temos é de os utilizar de forma inteligente.

The Horde revela-se assim um jogo interessante, apesar das suas mecânicas de city builder serem algo primitivas quando comparadas com outros títulos do género, como SimCity. As fases de combate são bem-vindas, embora algo desajeitadas, tanto pela perspectiva isométrica como pela detecção de colisões pouco precisa. Ainda assim, a variedade de itens mágicos disponíveis introduz uma camada estratégica interessante. Uma das estratégias que adoptei foi usar a flauta mágica para atrair os hordlings para longe da aldeia, invocando depois o fogo do dragão para os eliminar. Existem também eventos aleatórios a ter em conta, como a queda de um meteorito, flutuações no custo dos recursos ou o governador a roubar-nos o anel de teletransporte, entre muitos outros, anunciados através de cenas full motion video ao longo do jogo.

No final de cada ano, para além da obrigação de pagar imposto, podemos visitar uma loja onde desbloqueamos certos recursos, assim como comprar outros itens mágicos.

Visualmente, o maior destaque vai para as sequências em full motion video, cheias de bom humor e com actuações bastante competentes. Os gráficos do jogo propriamente dito são simples, recorrendo a sprites 2D numa perspectiva isométrica para simular profundidade, o que por vezes dificulta a visibilidade dos inimigos escondidos atrás de casas, árvores ou muros. Em contrapartida, o design dos hordlings é inspirado e divertido, com situações como criaturas disfarçadas de vacas para iludir os guardas. A banda sonora é agradável e tranquila, evocando um setting de fantasia medieval que se adequa bem à atmosfera geral.

As cenas em full motion video são um dos pontos fortes do jogo pois são bastante humoradas

No final, The Horde destaca-se como um jogo com uma curva de aprendizagem algo elevada, mas que compensa com muito bom humor e ideias criativas. Os controlos e a perspectiva isométrica prejudicam por vezes os combates, e enquanto city builder é claramente básico, mas os itens mágicos e a estrutura híbrida ajudam a manter a experiência interessante. Não sendo um título incrível, é ainda assim mais um bom exemplo da criatividade da Crystal Dynamics no início da era dos sistemas de 32-bit.

Neva (Nintendo Switch)

Do mesmo estúdio que nos trouxe Gris, foi agora tempo de visitar Neva, lançado originalmente durante o último trimestre de 2024, mas cujo lançamento físico só veio a acontecer já no decorrer deste ano de 2025. Para além do seu estilo de arte distinto, muito pouco conhecia deste novo jogo. Havia lido por aí que também se tratava de uma aventura sobre o sentimento de perda, pelo que achei que poderia funcionar como uma espécie de continuação espiritual de Gris, mas tal não acontece. O meu exemplar foi comprado numa das campanhas de black friday da loja espanhola Xtralife, por cerca de 25€.

Jogo com caixa

Nesta aventura controlamos a jovem guerreira Alba que, em conjunto com uma mística criatura, uma espécie de lobo gigante com hastes de veado, confronta uma sinistra ameaça. Criaturas negras, com máscaras humanas, corrompem toda a natureza e absorvem a vida de tudo o que tocam, e a cena inicial mostra como Alba e o seu lobo enfrentam esta ameaça, acabando por sucumbir. O jogo em si começa aparentemente no dia seguinte, com o mundo restaurado, mas em vez do lobo gigante que nos acompanhava temos agora a presença de uma pequena cria, Neva, que passa a seguir-nos. À medida que vamos progredindo no jogo, iremos voltar a encontrar estas criaturas, cuja ameaça se vai intensificando, mas também a própria Neva vai crescendo e ganhando novas habilidades que nos ajudam ao longo do caminho. Tal como em Gris, trata-se de um jogo com uma narrativa muito minimalista e claramente assente num “story don’t tell”, embora os sentimentos aqui evocados não se limitem apenas à perda, abordando também a parentalidade, à medida que a relação entre Alba e Neva se vai fortalecendo.

Particularmente no início, Neva é um jogo repleto de paisagens relaxantes

Tal como em Gris, existe aqui um foco claro em desafios de platforming e em alguns puzzles que nos obrigam a utilizar todas as habilidades que vão sendo desbloqueadas. A principal novidade a nível de mecânicas é precisamente o combate, inexistente no jogo anterior. Alba dispõe de um botão de salto (botão B), contando desde início com duplo salto, um botão de ataque (Y) com a sua espada, um botão de dodge (A), que pode também ser utilizado durante os saltos, e ainda um outro para chamar ou acariciar Neva (X). À medida que avançamos, novas habilidades vão sendo introduzidas, como a possibilidade de escalar certas paredes.

Ao contrário de Gris, em Neva temos combate, onde enfrentamos estas criaturas negras

Mas é a criatura Neva que mais evolui ao longo da aventura. Inicialmente trata-se de uma pequena cachorrinha indefesa, que tem alguma dificuldade em acompanhar-nos, enquanto no segmento seguinte já está mais crescida, mais rebelde, e começa a ajudar no combate contra inimigos básicos. A partir do segmento seguinte, Neva já é maior, mais experiente em combate e passa a ter acesso a habilidades adicionais, como a capacidade de se transformar num projéctil de energia que nós próprios podemos lançar, ideal para atacar certos inimigos ou obstáculos à distância. Na sua fase adulta, Neva torna-se tão grande que, em certas zonas, até a podemos montar para atravessar essas secções de forma mais rápida. Os puzzles, os combates e os desafios de platforming vão evoluindo de forma paralela a todas estas novas habilidades e, caso queiramos descobrir todos os coleccionáveis existentes, será mesmo necessário dominar todas estas técnicas. A introdução do combate traz também uma barra de vida, que pode ir sendo regenerada através do próprio combate ou recorrendo a algumas fontes de água espalhadas pelos diferentes níveis que vamos explorando.

Apesar do distinto estilo artístico, por vezes é difícil saber o que é plataforma e o que não é, particularmente se não tivermos os parâmetros de imagem devidamente calibrados

É, no entanto, pela componente audiovisual que Neva mais se destaca, tal como já acontecia com Gris. Ainda assim, o estilo artístico deste jogo é consideravelmente diferente do seu predecessor. Temos novamente um mundo fantasioso, repleto de criaturas estranhas, leis de física pouco convencionais e uma arquitectura muito distinta, mas existe aqui um foco muito maior em jogos de contraste e brilho. Isto torna alguns segmentos de platforming mais exigentes, pois nem sempre é fácil distinguir o que é plataforma do que não é. Alguns destes parâmetros podem ser ajustados nas opções do jogo, mas no meu caso foi também necessário mexer nos valores da própria televisão para encontrar um melhor equilíbrio entre brilho e contraste. A música é bastante agradável e calma na maior parte do tempo, e praticamente não existem vozes, apenas os chamamentos de Alba para Neva, muitas vezes respondidos com latidos.

Neva é, assim, um jogo de plataformas relaxante e visualmente muito bonito, com um estilo artístico bastante particular. Conta uma história tocante, ainda que apresentada de forma extremamente minimalista, e revela-se ligeiramente mais desafiante do que o seu antecessor devido à introdução do combate. As mecânicas de jogo evoluem em paralelo com a narrativa, assim como os desafios de combate e platforming, resultando numa progressão natural e bem ritmada. No entanto, tal como em Gris, uma vez concluída a aventura, resta-nos apenas revisitar os níveis previamente terminados em busca de todos os coleccionáveis.

The Dark Pictures Anthology: Little Hope (Sony Playstation 4)

Tempo de continuar com a PlayStation 4, e logo com um jogo capaz de quebrar completamente qualquer espírito natalício que pudesse pairar cá em casa. Por alturas do Halloween já cá tinha trazido o Man of Medan, o primeiro capítulo da saga The Dark Pictures Anthology. Desde então fiquei com vontade de explorar este segundo título da série, algo que fiz inicialmente no modo Movie Night em conjunto com a minha namorada, tendo-o posteriormente explorado mais a fundo em busca de finais alternativos e diferentes ramificações na narrativa.

Colectânea com os primeiros dois jogos da série, caixa exterior de cartão, steelbook, um mapa, pinos e papelada adicional.

A história gira em torno de um pequeno grupo de estudantes universitários e do seu professor que, durante uma viagem para uma visita de estudo, sofrem um acidente de autocarro nas imediações de uma pequena localidade norte-americana aparentemente abandonada, Little Hope. Com o motorista desaparecido e com a vila envolta num misterioso nevoeiro que impede qualquer tentativa de fuga, resta ao grupo caminhar em direcção ao centro da localidade em busca de ajuda. Rapidamente começam, no entanto, a acontecer eventos sinistros, que prefiro não revelar e deixar o leitor experienciar por si próprio. Sem querer revelar mais da narrativa em si, posso apenas acrescentar que gosto da temática de “caça às bruxas” que a narrativa evoca, quanto mais não seja por eu ter crescido num meio ainda algo rural e supersticioso com esse tipo de coisas também.

O Curador, essa personagem enigmática que nos introduz a história e nos vai dando algumas dicas. Mas nem sempre os seus conselhos são sábios.

Não me ia alongar muito nesta análise, pois na sua essência este título é bastante similar ao seu predecessor directo, tanto nas mecânicas como nos modos de jogo, no entanto existem algumas nuances que o destacam. Tal como a Supermassive Games já havia feito em Until Dawn, estamos perante uma aventura de terror onde temos de tomar uma série de decisões, quer nos diálogos, quer em determinados momentos de acção, decisões essas que podem alterar a forma como as personagens se relacionam entre si, bem como o próprio desenrolar da história. As sequências de acção, para além de algumas escolhas ocasionais, são maioritariamente compostas por quick time events, onde teremos de pressionar uma série de botões nos momentos certos, assim como atirar objectos ou disparar armas contra alvos específicos. Falhar algumas destas sequências traz igualmente consequências, que num videojogo de terror dificilmente serão positivas para as personagens envolvidas. E tal como no seu precursor, as consequências das escolhas nem sempre são óbvias. Existem muitas escolhas inconsequentes ou com pouco impacto como é normal (nem tudo tem de ser game changer), mas algumas escolhas apenas terão repercussões a longo prazo, o que para mim é sempre surpreendente.

Tal como noutros jogos da Supermassive, as escolhas que fazemos podem ter consequências no decorrer da história, ou do relacionamento entre personagens.

Por exemplo, a minha primeira experiência com o jogo foi através do modo Movie Night, como já referi anteriormente. Uma das primeiras falas que ouvimos no início da aventura é a do professor universitário John, que afirma ter deixado o álcool e estar bastante satisfeito com essa decisão. Pouco depois do acidente, o primeiro local que exploramos é um bar decadente, onde John é convidado a beber um shot de whisky. A minha namorada escolheu imediatamente aceitar a bebida, ao que eu reagi com uma risada e comentei: “então não ouviste o homem a dizer no início que tinha problemas com álcool? Acabaste de o condenar à morte!”. Para minha surpresa, tal não aconteceu. No entanto, essa escolha não foi inconsequente, algo de que só me apercebi mais tarde, após várias sessões de jogo. No caso de John, aceitar o shot desbloqueia um traço negativo da sua personalidade e, sempre que isso acontece a uma personagem, as sequências de acção em que esta está envolvida tornam-se mais exigentes, com tempos de reacção mais curtos. Achei este detalhe particularmente interessante, não só por ser uma alteração muito subtil e fácil de passar despercebida, mas também porque os traços negativos das personagens acabam por ter um peso relevante na própria narrativa. Pelo meio, o Curador vai-nos dando algumas pistas sobre o que está a acontecer, embora confesse que certas dicas, como o conhecido truque das cartas, me pareceram excessivamente crípticas e difíceis de interpretar, sobretudo numa primeira sessão de jogo.

Ao explorar os cenários iremos também encontrar várias pistas que ajudam a enriquecer a narrativa

No que toca aos modos de jogo, os introduzidos em Man of Medan estão também aqui presentes. É possível jogar a aventura a solo, tanto no Theatrical Cut como no Curator’s Cut, sendo que neste último somos levados a experienciar cenas e diálogos alternativos que não surgem no modo principal.
Em relação ao multijogador, regressam as opções Movie Night e Shared Story. No primeiro caso, trata-se de um modo local onde cada jogador controla uma ou mais personagens específicas, com o comando a ir passando entre os jogadores conforme a narrativa o dita. O Shared Story é um modo totalmente online, no qual o outro jogador toma certas acções em paralelo connosco. Não cheguei a experimentar este modo, pelo que não me vou alongar demasiado, mas a ideia passa por um jogador experienciar o Theatrical Cut enquanto o outro joga o Curator’s Cut. Já no Movie Night, levei a experiência até ao fim com a minha namorada e acabou por ser bastante agradável para ambos.

Ocasionalmente teremos também combates e as criaturas aqui introduzidas estão bem conseguidas

A nível audiovisual, considero que Little Hope é um jogo bastante competente. A pequena vila, largamente abandonada durante os anos 70, apresenta-se num estado de grande degradação que, em conjunto com o nevoeiro constante e a atmosfera sinistra, contribui para um ambiente permanentemente tenso. Uma vez mais, joguei a versão de PS5 visto haver um upgrade gratuito em relação à versão original. E comparando com a versão PS5 do Man of Medan, devo dizer que notei uma boa melhoria no que toca especialmente às animações faciais das personagens e o seu movimento, parecendo agora mais natural. Voltando à atmosfera, devo também dizer que este jogo foi mais do meu agrado. A atmosfera é tensa, não só por todo o nevoeiro envolvido que nos causa uma sensação constante de desconforto e expectativa que algo surja do nada para nos atacar, mas também pelo facto daqueles “jump scares” gratuitos serem menos frequentes. O voice acting é sólido no geral, embora confesse que inicialmente estranhei alguns dos diálogos e a hostilidade evidente entre as personagens. Algo que acaba por fazer mais sentido à medida que nos apercebemos do rumo que a narrativa toma. Mais uma vez, o papel do Curador deixa-me intrigado e fico bastante curioso para perceber como esta personagem irá evoluir nos títulos seguintes.

Little Hope acaba assim por ser mais uma experiência agradável para quem aprecia videojogos deste género. Jogado apenas uma vez, trata-se de uma experiência relativamente curta, mas a forma como o jogo termina desperta facilmente a curiosidade para novas jogadas, nem que seja para procurar pistas adicionais ou finais alternativos que ajudem a compreender melhor o que realmente aconteceu. Pelo menos foi isso que senti. Ainda assim, convém referir que Little Hope é uma experiência mais linear do que o seu antecessor, já que em Man of Medan certas escolhas poderiam levar-nos a capítulos completamente distintos, algo que aqui não acontece. No entanto, considero a narrativa de Little Hope bastante mais interessante, particularmente quando nos apercebemos de todas as camadas de complexidade que nela estão envolvidas. Veremos o que House of Ashes nos reserva!