Sherlock Holmes: The Awakened (Nintendo Switch)

Depois do ambicioso, porém imperfeito, Sherlock Holmes Chapter One, a Frogwares decidiu criar um remake de Sherlock Holmes: The Awakened, uma interessantíssima aventura gráfica que misturava as típicas mecânicas de detective com o horror lovecraftiano do mito de Cthulhu. Curiosamente, The Awakened já havia recebido um outro relançamento na forma de um remaster, que acrescentou novas mecânicas de jogo, e foi essa a versão que joguei anteriormente. Este artigo irá então incidir principalmente nas novidades introduzidas pelo remake, que acabei por jogar na Nintendo Switch, o que se revelou, infelizmente, uma decisão bastante infeliz. Isto deveu-se ao facto de a versão Switch, tanto quanto tenho conhecimento, ter sido a única que recebeu um lançamento físico, uma vez mais exclusivo do mercado sul-coreano e publicado pela IntraGames. O meu exemplar veio do eBay algures durante o primeiro trimestre deste ano, por cerca de 50€.

Jogo com caixa, lançamento físico exclusivo para a Coreia do Sul.

Em suma, este remake de The Awakened utiliza (quase) todas as mecânicas introduzidas pelo Chapter One para recontar a mesma história do jogo original. Sherlock começa por investigar o desaparecimento, em Londres, de várias pessoas de etnias incomuns, o que nos levará a visitar outros locais, como um asilo para doentes mentais nos Alpes suíços ou a zona pantanosa dos Bayous de Nova Orleães, enquanto vamos descobrindo a existência de um culto sinistro que parece estar envolvido nesses desaparecimentos. A própria sanidade mental de Sherlock Holmes será posta em causa com o decorrer do jogo, algo que tenho a ideia de que também acontecia no lançamento original, embora não da mesma forma. Aqui, ocasionalmente, somos levados para uma outra dimensão, onde teremos de resolver uma série de puzzles ambientais para escapar, ficando a questionar-nos se Sherlock realmente vivenciou essa experiência ou se não terá sido tudo uma alucinação. Não me recordo de isto acontecer na versão original.

As sequências de imaginação onde teremos de deduzir a ordem de certos acontecimentos, estão agora melhor implementadas e quando falhamos uma dedução, o jogo indica-nos os pontos de falha.

Uma das novidades trazidas pelo Chapter One era o seu mundo aberto, onde poderíamos inclusivamente, tal como em muitos outros jogos deste género, cumprir toda uma série de objectivos secundários, tipicamente pequenos casos de investigação, e obter uns quantos coleccionáveis. Aqui não temos um mundo aberto, mas cada capítulo decorre numa área específica que é, tipicamente, grande o suficiente para desbloquear múltiplos pontos de fast travel à medida que exploramos os mapas. Também existem alguns casos opcionais, embora a maioria esteja por detrás de um DLC pago. Já os coleccionáveis vão sendo desbloqueados naturalmente com o decorrer do jogo, à medida que vamos resolvendo puzzles e investigando novas pistas. Estes podem ser meramente cosméticos, como novas roupas ou penteados para Sherlock e Watson, mas também incluem modelos poligonais interactivos ou pequenas imagens de arte conceptual.

Infelizmente, a versão Switch fica muito aquém das expectativas a nível audiovisual e técnico

No que toca às mecânicas de jogo, estas são também muito similares às introduzidas pelo Chapter One. Isto quer dizer que, nas mecânicas de aventura, vamos obtendo toda uma série de pistas e objectivos no nosso bloco de notas e muitos deles, para serem “resolvidos”, vão-nos obrigar a tomar uma série de acções, cujos ícones acima de cada pista nos podem ajudar a identificar. Existem pistas que nos obrigam a fazer pinning para que sejam o nosso foco de investigação, outras podem ser resolvidas ao falar com certas pessoas e outras apenas através das mecânicas de concentração ou de dedução. Felizmente, ainda me lembrava desses detalhes do Chapter One, pelo que não tive grandes problemas em avançar. No entanto, o maior calcanhar de Aquiles do Chapter One estava precisamente nas suas sequências de acção, que, apesar de continuarem a ser um problema neste Awakened, praticamente não existem e foram reduzidas a quick time events. É uma solução que, pelo menos neste caso, acaba por funcionar melhor do que os combates do jogo anterior.

Já no que toca aos audiovisuais, o Chapter One representou um salto gráfico bastante considerável, apesar de ter ainda muitas imperfeições ao nível da estabilidade e, principalmente, do detalhe e das animações das personagens. Este Awakened parece-me utilizar o mesmo motor gráfico, mas como tive a infelicidade de o jogar na Nintendo Switch, fiquei com a pior opção possível. Imaginem um jogo de PC moderno com os gráficos no mínimo e jogado com um CPU abaixo dos requisitos mínimos. Tive imensos problemas de performance, particularmente quando explorava zonas mais ricas em detalhe, como a baixa londrina ou Nova Orleães, para além de os gráficos serem consideravelmente piores do que nas restantes versões, ao ponto de me fazer questionar se não deveria antes piratear o jogo e jogá-lo no PC. Por outro lado, ao menos o som e o voice acting continuam impecáveis. A banda sonora mantém a atmosfera adequada à aventura e a interpretação vocal continua a ser, como seria de esperar, um dos pontos fortes da produção.

Apesar do nevoeiro digno de uma Nintendo 64, adorei a referência ao Moskva

Portanto, este Sherlock Holmes: The Awakened é um remake que reconta uma das histórias mais interessantes de toda a série Sherlock Holmes, pela mistura de conceitos de um jogo de detectives com toda a componente de terror de H.P. Lovecraft. No entanto, apesar do aspecto mais moderno, que é muito bem-vindo (algo que não acontece nesta versão Switch devido às limitações do sistema), a verdade é que o jogo me pareceu bastante mais simplificado, principalmente nos puzzles, na análise forense e nas deduções lógicas que habitualmente teríamos de fazer. Fica a sensação de que o desenvolvimento do jogo foi algo apressado, o que infelizmente também se compreende, dado que a Frogwares é um estúdio ucraniano cujo país continua a lidar com uma invasão russa. É uma situação que a própria Frogwares reconhece e eu próprio não consegui conter um certo sorriso perante uma situação que acontece neste jogo: quando exploramos as docas londrinas, há um navio carregado de salitre que explode no cais. “Um potencial acidente causado por alguém a fumar próximo da carga”, diz Watson. O navio chama-se Moskva. Slava Ukraini.

Sherlock Holmes: Chapter One (Sony Playstation 5)

Tempo de regressar à série Sherlock Holmes da Frogwares para aquele que foi seguramente o jogo mais ambicioso da série até hoje. Chapter One é uma prequela que retrata a vida de Sherlock como um jovem adulto que, na companhia de Jon, o seu amigo imaginário, regressa à fictícia ilha mediterrânica de Cordona, onde a sua falecida mãe havia passado os seus últimos dias. Vamos aproveitar a estadia para tentar descobrir a verdade por detrás dessa morte trágica, bem como resolver muitos outros crimes com que nos iremos deparar. O meu exemplar foi comprado algures no início deste ano, depois de me ter apercebido que havia um lançamento físico na Coreia do Sul. Aparentemente, por algum motivo, esta série deverá ter sido muito bem recebida por lá, pois tanto este Chapter One como o remake de The Awakened, receberam lançamentos físicos exclusivos naquele país.

Jogo com caixa, lançamento sul-coreano. Até à data apenas saiu em formato físico neste país.

A principal novidade deste Chapter One é a sua natureza de mundo aberto, algo que a Frogwares já havia tentado introduzir com o seu antecessor, The Devil’s Daughter, através de secções maiores de exploração. Mas aqui temos toda uma ilha para explorar, com um sistema de dia e noite. No entanto, tal como em todos os outros jogos da série, este é sem dúvida mais um eurojank, na medida em que se revelou bem mais ambicioso do que aquilo que conseguiu entregar no final de contas. Mas já lá vamos.

Pela primeira vez na série, temos um jogo de mundo aberto, apesar de não haver assim tanto para fazer no mapa.

Na sua essência, este é mais um jogo de aventura onde teremos de investigar crimes: entrevistar testemunhas ou pessoas de interesse, explorar cenários em busca de pistas e realizar análises forenses a cadáveres ou a certas provas que tenhamos recolhido. Felizmente, ao contrário de The Devil’s Daughter, a Frogwares não tentou introduzir demasiadas mecânicas assentes em mini-jogos e quick time events, mas temos várias sequências de acção com tiroteios que infelizmente não estão lá muito bem implementadas. Quer dizer, se simplesmente dispararmos a matar contra os nossos oponentes não há grande problema na jogabilidade, mas Sherlock Holmes é um cavalheiro e somos fortemente encorajados a aprisionar, e não matar, os bandidos.

Como tem sido habitual em jogos desta série, muitas vezes precisamos de nos mascarar para conseguir entrar em certos locais ou para que as pessoas se abram para nós.

Mas é aqui que as coisas ganham contornos menos agradáveis. Para prender alguém temos primeiro de o atordoar. Certos inimigos possuem pontos fracos, como cintos de munições, colares com combustível ou chapéus, que podem ser atingidos. Para além disso, todos os combates são travados em arenas fechadas e os próprios cenários estão pejados de objectos que podem ser utilizados para desorientar os bandidos que estejam nas suas imediações. Válvulas de tubos de vapor, sacos de farinha, candelabros nos tectos ou extintores nas paredes são apenas alguns dos exemplos. Certos inimigos possuem no entanto armaduras (assinaladas a azul na nossa visão de foco) que devem primeiro ser destruídas, só depois ficando vulneráveis. Uma vez atordoados, temos alguns segundos para nos aproximarmos deles e dar início a uma sequência de quick time events para os prender. Infelizmente, esta sequência é tudo menos intuitiva, o que nos irá causar alguma frustração. Aprisionar bandidos em vez de os matar traz-nos uma ligeira recompensa monetária, que no fim de contas nem é assim tão importante quanto isso. E se matarmos os inimigos, não existem quaisquer consequências morais para além da desaprovação de Jon, o amigo imaginário de Sherlock que nos acompanha ao longo da aventura. Então, para evitar maiores frustrações, fui matando a maior parte dos inimigos que me atacavam, particularmente os que não possuíam quaisquer pontos fracos.

O modo de concentração, para além de salientar certos pontos de interesse, também é utilizado para a recriação de certos eventos

No que toca às mecânicas de open world, estas também não funcionam da melhor forma, infelizmente. À medida que exploramos a ilha, iremos encontrar e registar no mapa vários pontos de interesse, assim como pontos de fast travel que nos permitem deslocar mais rapidamente. Mas também vamos desbloquear toda uma série de sidequests e outros casos para resolver. E a maneira como o jogo nos obriga a gerir todo este conteúdo não é de todo a mais intuitiva. Por exemplo, se nos quisermos focar no caso A, temos de abrir o menu, ir à lista de casos e pistas e escolher uma pista desse caso como sendo o nosso foco principal. Se depois tentarmos falar com algum NPC ou inspeccionar uma área de jogo, a resposta será sempre dada no contexto da pista que seleccionámos no menu. Isso é algo confuso e que nunca foi devidamente explicado pelo jogo. Só perto do final é que me apercebi de que cada pista pode ter vários ícones associados e esses ícones indicam que, para progredir nessa pista, poderemos ter de falar com alguém, procurar uma localização, vestir um disfarce, usar o modo de “concentração” de Sherlock, entre muitas outras possibilidades.

Infelizmente o modo de combate deixa muito a desejar, particularmente se quisermos optar por uma abordagem não letal.

Mas apesar de todas estas imperfeições ao nível das mecânicas de jogo, devo dizer que adorei o tempo que passei em Cordona. Todos os casos criminais que investigamos são bastante envolventes e recheados de personagens interessantes. Teremos de utilizar todo o nosso poder de dedução com base nos testemunhos e pistas recolhidas para eventualmente conseguirmos acusar alguém. Tal como acontece desde Crimes and Punishments, as pistas que recolhemos estão sempre abertas à interpretação e, tendo em conta que há normalmente mais do que um suspeito, é possível interpretar as mesmas evidências de maneiras distintas que nos levam a culpados diferentes. E mesmo depois de acusarmos alguém, podemos eventualmente absolvê-lo ou condená-lo, entregando-o às autoridades. Infelizmente continua sem haver grandes consequências caso tenhamos acusado a pessoa certa ou errada, algo que continua a ser um potencial por concretizar na série, até porque não temos forma de saber com certezas se acusámos a pessoa certa ou não.

Visualmente é um jogo bem competente, apesar dos seus problemas de performance

Visualmente este é um jogo interessante, apesar de tecnicamente ter os seus problemas. Adorei a interpretação que deram a uma fictícia ilha mediterrânica, com um misto de influências das várias culturas que por lá passaram ao longo dos anos: romana, árabe, veneziana e, por fim, o colonialismo do Império Britânico victoriano do século XIX. O mundo está, portanto, bem construído e mesmo que não haja assim tanto para fazer, deu bastante gosto explorar todas as suas ruas. No entanto, tecnicamente o jogo tem os seus problemas, como quebras constantes de framerate. Ainda assim, graficamente é um jogo bonito e é louvável o esforço que a Frogwares tem tido nos últimos anos ao evoluir a apresentação dos seus jogos. O voice acting é, como sempre, irrepreensível na narração inglesa e a banda sonora é bastante adequada, repleta de instrumentos e melodias de época.

Portanto, devo dizer que apesar de todos os problemas técnicos e mecânicas de jogo questionáveis, particularmente os combates, gostei bastante deste Chapter One. Sim, a personagem de Sherlock Holmes é bem mais arrogante e incisiva neste jogo, fruto da sua juventude, mas acho que este é um título muito forte na sua narrativa e no enriquecimento da própria personagem. Infelizmente, devido ao actual conflito em solo ucraniano, a Frogwares teve de reduzir a sua capacidade de desenvolvimento, mas ainda conseguiram, em 2023, lançar um remake de The Awakened, que planeio jogar muito em breve.