Gunvalkyrie (Microsoft Xbox)

Lembro-me perfeitamente de quando, algures em 2001, a Sega anunciou a sua retirada do mercado de hardware de consolas para se dedicar exclusivamente ao desenvolvimento como third party, uma decisão que se manteve até aos dias de hoje. Apesar de a Dreamcast ainda ter recebido alguns títulos de qualidade até ao ano seguinte, não tivemos de esperar muito até começarmos a ver os estúdios da gigante nipónica a anunciar jogos para outras plataformas. Entre simples conversões de jogos da Dreamcast, sequelas ou propriedades inteiramente novas, um dos destaques dessa onda inicial foi precisamente este GunValkyrie, desenvolvido pela Smilebit. Inicialmente concebido para a Dreamcast, acabou por se tornar um exclusivo da primeira consola da Microsoft, tendo sido lançado na primavera de 2002. O meu exemplar foi comprado a um amigo há já vários anos, embora já não me recorde exactamente quando.

Jogo com caixa e manual

O jogo decorre no ano de 1906, numa realidade alternativa e distópica do passado, onde, após a revolução industrial dos séculos XVIII e XIX, a tecnologia evoluiu de forma tão acentuada que o Império Britânico acabou por conquistar o mundo e expandir-se para o espaço, colonizando vários outros planetas. Assumimos o controlo de agentes de uma fictícia agência de inteligência imperial, enviados à colónia de Tir na Nog para investigar o desaparecimento dos seus colonos e, em seu lugar, o surgimento de uma raça de insectos gigantes. Ao longo do jogo, temos na verdade duas personagens à disposição: a jovem Kelly O’Lenmey e o japonês Saburouta Mishima. Kelly assume o papel de protagonista principal, destacando-se pela versatilidade do seu equipamento e das suas habilidades, enquanto Saburouta empunha uma arma consideravelmente mais poderosa, embora seja bastante menos ágil.

O jogo tem também um sistema de lock automático, logo que a mira esteja próxima do alvo. Em algumas armas, é possível ter também um mecanismo de lock semelhante aos Panzer Dragoon, embora com um número bem mais limitado de alvos activos

Pensem neste GunValkyrie como um jogo de acção em 3D com mecânicas interessantes, mas notoriamente complexas devido à sua exigente implementação nos controlos, o que resulta numa experiência com uma curva de aprendizagem bastante acentuada. De forma resumida, o jogo requer o uso intensivo de ambos os analógicos e dos gatilhos, com os botões faciais reservados quase exclusivamente para a selecção de armas. Desde o início aprendemos que o botão R serve para disparar a arma actualmente equipada, enquanto o L activa o propulsor nas costas da personagem, permitindo-lhe subir lentamente no ar, consumindo combustível visível no canto inferior esquerdo do ecrã. Este combustível regenera-se automaticamente quando não está a ser utilizado. Ao pressionar o analógico esquerdo em conjunto com uma direcção, executamos uma propulsão rápida (uma espécie de dash ou dodge) que pode ser usada tanto no solo como no ar. Existe também uma mecânica mais subtil, mas crucial: ao efectuar esse dash e, de seguida, mover o analógico (sem o pressionar) na direcção contrária, conseguimos manter a personagem quase estática no ar, numa queda lenta e com baixo consumo de combustível. Esta técnica permite-nos atacar inimigos a partir de uma posição mais vantajosa e, quando bem dominada, torna possível permanecer no ar durante largos períodos de tempo, algo que o próprio jogo espera que façamos com frequência.

O combate aéreo é algo que tem de ser dominado para termos sucesso no jogo!

Mas há mais nuances nos controlos. O analógico direito comanda a câmara, mas com o eixo vertical invertido, uma opção que infelizmente não pode ser ajustada nas definições (um inconveniente grande para mim, visto que prefiro o controlo padrão). Além disso, a rotação horizontal da câmara é bastante limitada, o que me obrigou durante muito tempo a reposicionar a personagem com o analógico esquerdo para obter o enquadramento desejado, o que por sua vez é um processo lento, que me causou bastantes dissabores em combate. Só mais tarde descobri que existe afinal uma mecânica de quick-turn: pressionar o analógico direito e movê-lo numa direcção faz com que a personagem se volte rapidamente para esse lado, algo que teria sido útil saber desde o início! Para além das barras de vida e de combustível do propulsor, existe ainda uma barra de energia adicional, que serve para executar ataques especiais, uma funcionalidade que também só vim a perceber mais tarde. Quando no solo, ambas as personagens podem activar um poderoso ataque (GV Napalm), ideal para situações em que estamos cercados, pressionando ambos os analógicos em simultâneo. Este ataque consome parte da energia especial, que pode ser reabastecida através de power-ups ou realizando combos aéreos bem-sucedidos. No ar, essa mesma combinação de analógicos activa uma habilidade diferente (o GV Meteor Crash) que projecta a personagem investida em chamas, causando dano a todos os inimigos no caminho. Esta habilidade está inicialmente disponível apenas para Saburouta, sendo que Kelly só a desbloqueia mais tarde.

Entre missões, podemos consultar uma loja que nos permite melhorar o equipamento das personagens em troca dos pontos amealhados

No final de cada missão, a nossa performance é avaliada com base em critérios como o tempo gasto, número de inimigos derrotados e segredos encontrados. Em função do resultado, recebemos um ranking e uma quantidade de pontos que podem ser utilizados numa loja entre missões, onde se podem adquirir upgrades que melhoram a armadura, o consumo de combustível ou o sistema de lock-on da arma principal, entre outros. No caso de jogarmos com Kelly, o seu fato pode sofrer evoluções significativas, concedendo-lhe novas habilidades. A primeira transformação ocorre após derrotar um certo boss, desbloqueando precisamente o já referido Meteor Crash. A última evolução só é obtida ao encontrar todos os segredos espalhados pelos níveis, algo que não cheguei a completar, mas que, segundo consta, torna Kelly ainda mais móvel e poderosa. Por fim, ao terminarmos o jogo desbloqueamos um modo adicional (Challenge Mode), onde podemos rejogar qualquer nível com qualquer personagem, incluindo as variações evoluídas da Kelly que tenhamos desbloqueado.

A estética segue uma realidade alternativa num passado distópico e steampunk

No que diz respeito ao audiovisual, GunValkyrie revela-se um jogo interessante para os padrões de 2002. O seu conceito visual assenta firmemente numa estética steampunk, algo que se reflecte tanto no design das personagens como na arquitectura de certos níveis. Os primeiros cenários, mais abertos e áridos, apresentam um nível de detalhe algo modesto, com texturas simples e ambientes muito despidos, ainda que se destaque, curiosamente, o efeito visual impressionante da água numa das lagoas. Já os níveis mais fechados denotam grafismo mais cuidado, com texturas mais ricas e alguns efeitos visuais mais elaborados. Inicialmente comecei por jogá-lo na Xbox Series X poise este é, um dos poucos títulos da Xbox original compatíveis com o sistema, correndo com uma resolução superior. No entanto, essa melhoria vem acompanhada de alguma perda de qualidade, sobretudo nas cenas pré-renderizadas entre níveis, que sofrem com a compressão. Este efeito tornou-se ainda mais notório por eu utilizar um monitor ultrawide, um formato em que o jogo claramente não se adapta. Por outro lado, devido à elevada curva de aprendizagem e dificuldade, acabei por recomeçar o jogo no PC via emulação, sobretudo para tirar partido dos save states. Jogando em modo janela e com a resolução nativa em 4:3, o jogo revela uma apresentação bem mais fiel e agradável. Em termos sonoros, GunValkyrie oferece uma banda sonora ecléctica, alternando entre faixas orquestrais que evocam o imaginário de uma realidade steampunk dos séculos XIX e XX, e composições electrónicas mais enérgicas, que se adequam perfeitamente ao ritmo acelerado do jogo. O voice acting cumpre a sua função, embora o volume das vozes seja notavelmente baixo, o que faz com que muitas vezes fiquem abafadas pela música.

Graficamente é um jogo bastante interessante para os padrões de 2002, sendo especialmente notório em ambientes mais fechados

GunValkyrie é, em suma, um interessante jogo de acção, com mecânicas distintas e boas ideias que o diferenciam de muitos títulos contemporâneos. Contudo, os seus controlos complexos tornam a curva de aprendizagem bastante acentuada, o que pode afastar alguns jogadores. A experiência facilmente beneficiaria de uma execução mais intuitiva, mantendo a essência das mecânicas mas tornando-as mais acessíveis. Por exemplo, a utilização dos analógicos para um controlo de câmara e movimento mais fluídos, ou a inclusão de um botão dedicado ao dash (sendo que o botão X, por exemplo, não tem qualquer funcionalidade) são melhorias que se destacam de imediato. Curiosamente, o jogo começou por ser desenvolvido para a Dreamcast e, ao que tudo indica, estava pensado para utilizar em simultâneo um comando e uma lightgun, o que me deixa particularmente curioso sobre a visão original da equipa de desenvolvimento. Infelizmente, GunValkyrie não teve o sucesso comercial que a Sega possivelmente esperaria (talvez por ter sido um exclusivo de uma consola com pouca penetração no Japão) e, até aos dias de hoje, nunca teve direito a qualquer actualização ou sequela. Uma pena, pois havia aqui potencial para algo maior.

Metal Head (Sega 32X)

Ora cá está um jogo que há já muito tempo tinha curiosidade em explorar de forma mais séria. Metal Head é um dos poucos títulos da 32X desenvolvidos especificamente a pensar neste sistema, ao contrário da maioria da sua reduzida biblioteca, composta sobretudo por conversões de jogos Mega Drive ou arcade. Trata-se de um jogo de combate com mechs, apresentado com gráficos simples mas inteiramente em 3D poligonal, precisamente aquilo que a 32X prometia oferecer. Já por diversas vezes tive oportunidade de adquirir o jogo completo por menos de 50€, mas nunca quis dar mais do que 30€. Infelizmente, com os preços do mercado retro em constante subida, acabei por aproveitar uma oportunidade que surgiu há algumas semanas, mesmo tendo de desembolsar um valor mais elevado.

Jogo com caixa e manuais.

O conceito do jogo leva-nos a um futuro onde uma organização terrorista, armada até aos dentes, ameaça toda a civilização moderna. Encarnamos um piloto de mech ao serviço de uma força militar, e ao longo do jogo teremos várias missões para cumprir, todas em ambientes urbanos, onde teremos de destruir uma série de alvos: tanques, mechs, veículos inimigos e estruturas como geradores, por exemplo. A história não é particularmente impressionante, mas antes de cada missão temos direito a um curto briefing, narrado com clipes de vozes digitalizadas (algo pouco comum em jogos lançados em formato de cartucho).

Visualmente é de facto um jogo impressionante para uma 32X. Pelo menos em imagens estáticas!

Já no que diz respeito às mecânicas de jogo, comecemos pelos controlos. Este é um título que apresenta esquemas alternativos e suporta tanto os comandos de seis botões da Mega Drive como os tradicionais de três. Usando o comando de seis botões como base, o esquema por defeito utiliza o botão direccional para deslocar o nosso mech para a frente, para trás e para rodar à esquerda ou à direita, enquanto o botão A serve para o strafing, ou seja, movermo-nos lateralmente se o pressionarmos em conjunto com a esquerda ou a direita. O botão C permite-nos correr enquanto o mantivermos pressionado, os botões X, Z e Mode servem para alternar entre diferentes ângulos de câmara, e o botão Y é utilizado para trocar a arma equipada. O botão B, naturalmente, dispara a arma seleccionada. O uso do strafing e dos edifícios como abrigo acaba por se tornar essencial, já que temos uma barra de vida que se esvazia à medida que sofremos dano, e não existe forma de reparar o nosso mech a não ser concluindo a missão com sucesso.

Antes de cada missão temos direito a um briefing com uma fotografia da pessoa que fala connosco. As animações são muito rudimentares, mas até que algo engraçadas!

Depois, como tem sido habitual em videojogos que envolvem mechs, existe sempre algum grau de personalização, tanto nas armas como em equipamento alternativo que podemos activar. No que diz respeito ao armamento, algumas armas, como a metralhadora ou o hammer knuckle (esta última de alcance bastante reduzido e pouco recomendada), têm uso ilimitado, enquanto as restantes funcionam com munição limitada. No entanto, estas alterações ao loadout só podem ser feitas em dois momentos distintos: entre níveis (cada um com vários sub-níveis ou missões), ou quando morremos e recomeçamos a missão. Em ambos os casos, somos levados a uma loja onde podemos adquirir novas armas e upgrades para o nosso mech. Os créditos utilizados nestas compras são obtidos com base na nossa performance durante as missões, mas infelizmente os itens adquiridos não são permanentes, nos níveis seguintes teremos de voltar a comprar tudo novamente, o que, na minha opinião, não foi uma decisão muito inteligente. As missões em si levam-nos a explorar vários mapas renderizados em 3D poligonal, onde teremos de eliminar uma série de alvos. No canto superior direito do ecrã temos acesso a um mapa que funciona também como radar, indicando a posição de forças inimigas. No entanto, à medida que vamos sofrendo dano, essas funcionalidades vão sendo afectadas — o radar é o primeiro a desaparecer, seguido do próprio mapa. Já na parte inferior do ecrã, temos acesso a outras informações úteis: o dano sofrido, o tempo limite para completar a missão, a arma actualmente seleccionada (bem como a munição restante) e algumas mensagens informativas.

Entre níveis, ou depois de perder uma vida, somos levados a uma loja para gastar o dinheiro amealhado e equipar o nosso mech. Infelizmente as compras não são permanentes!

A nível gráfico, este é um jogo simples, embora todos os cenários e inimigos sejam renderizados em 3D poligonal. Os edifícios apresentam texturas rudimentares e de baixa resolução, e os veículos inimigos são, na sua maioria, compostos por modelos poligonais básicos, com poucas ou nenhumas texturas aplicadas. Ainda assim, a draw distance é bastante reduzida (é possível sofrermos dano de inimigos que se encontram fora do nosso campo de visão), e a performance do jogo não é propriamente fluída. A 32X é capaz de melhor (como demonstram algumas demos técnicas) mas é perfeitamente plausível que o desenvolvimento deste jogo tenha sido apressado, sem o tempo necessário para amadurecer as ideias de base e optimizar o desempenho geral. Já no que toca ao som, a banda sonora adopta maioritariamente um estilo rock, o que pessoalmente me agrada, mas acaba por ser completamente abafada pelo volume dos efeitos sonoros, que por sua vez não são nada de especial. O jogo conta, no entanto, com uma boa quantidade de diálogo com vozes digitalizadas, o que, apesar da fraca qualidade de áudio, não deixa de ser um feito algo invulgar dada a capacidade de armazenamento limitada dos cartuchos.

Podemos também alternar entre diversos ângulos de câmara e alguém se esqueceu de colocar texturas no topo dos edifícios

Portanto, a minha experiência com este Metal Head acaba por ser um pouco agridoce. É perfeitamente normal, em jogos de mechas, que os controlos sejam mais complexos do que nos habituais jogos de acção pois afinal, não é por acaso que controlamos um tanque com pernas! No entanto, a experiência no seu todo não é das mais agradáveis. Nota-se que este foi um projecto ambicioso (até porque o seu final sugere uma eventual sequela que nunca se materializou), mas os problemas de performance, os cenários simples e repetitivos, o combate algo metódico e o facto de os upgrades terem de ser comprados novamente entre missões são todos factores que pesam negativamente na experiência final.

Garfield: Caught in the Act (Sega Mega Drive)

De volta à Mega Drive para uma rapidinha a um interessante jogo de plataformas que, apesar de não fazer nada de extraordinário a nível de mecânicas de jogo, é visualmente um jogo impressionante. Estou claro a referir-me a este Garfield: Caught in the Act, produto da Nintendo of America cujo lançamento deu-se já em 1995/1996. Curiosamente foi um jogo que sempre me passou algo despercebido, mesmo quando explorei de forma veemente a biblioteca de Mega Drive através de emulação entre 1999 e 2001, o que até foi bom, pois agora tive direito a uma surpresa agradável. O meu exemplar deu entrada na colecção neste mês de Março, depois de ter sido comprado a um particular.

Jogo com caixa e manual

A história é simples: Garfield é assustado pelo seu companheiro canino Odie e com o salto que dá acaba por partir a TV. Com receio de irritar o seu dono Jon, Garfield apressa-se a a tentar recompor a televisão, mas não corre bem: o aparelho ganha vida própria e transporta Garfield para o seu interior, pelo que iremos acabar por explorar uma série de níveis influenciados por várias temáticas habituais em séries televisivas ou filmes como vampiros, pré-história, Egipto antigo ou um nível todo a preto e branco intitulado de Casablanca com uma estética muito similar dessa época.

Entre cada mundo, jogamos precisamente dentro da TV, com estes portais amarelos a servirem de porta de entrada para os níveis seguintes

No que diz respeito às mecânicas de jogo, as mesmas são consideravelmente simples, pois este é um platformer que não reinventa a roda. O botão C salta, enquanto que os botões A e B servem para atacar, tanto com projécteis de médio alcance, como com armas de combate próximo, se bem que os primeiros possuem munição limitada e devem ser utilizados com algum critério. O objectivo é o de simplesmente encontrar a saída do nível (assinaladas por controlos remotos gigantes), mas pelo caminho iremos encontrar inúmeros obstáculos e inimigos. Tantos que a própria barra de vida de Garfield tem 10 secções e os itens regenerativos (comida) são bastante frequentes. Para além desses itens podemos também coleccionar canecas de café que nos dão invencibilidade temporária, munições, vidas extra, um urso de peluche que serve de checkpoint caso percamos uma vida, ou uma marreta que nos leva a um nível de bónus com um mini-jogo do tipo whack-a-mole onde poderemos ganhar continues adicionais.

No final de cada mundo temos sempre um boss para enfrentar alguns com mecânicas bastante interessantes!

A nível audiovisual, este jogo é muito bom pelo menos a nível gráfico. Para além dos níveis serem variados entre si, são também bastante bem detalhados e muito coloridos. As sprites são grandes, e igualmente bem detalhadas, coloridas e bem animadas. O jogo está também repleto de pequenos detalhes muito interessantes, com o aspecto do Garfield (e as armas que usa) serem completamente distintos de nível para nível. Por exemplo, no mundo da selva, Garfield tem um chapéu de pirata e ataca com uma espada de madeira, enquanto os seus projécteis são bombas com fuso. Já no mundo da pré-história, Garfield aparece como uma espécie de tigre dentes-de-sabre, ataca com um osso e os projécteis são espinhas de peixe. Por outro lado, a nível sonoro não achei o jogo nada de especial. As músicas não são propriamente desagradáveis, algo muito comum em jogos que utilizem o driver de som GEMS, mas também não são propriamente músicas memoráveis. Nada de especial a apontar aos efeitos sonoros.

Visualmente é um jogo impressionante com sprites e cenários bem detalhados, coloridos, boas animações e vários efeitos gráficos bem implementados

Portanto estamos aqui perante um jogo de plataformas simples nos seus conceitos e jogabilidade, no entanto este Garfield prima pelos seus grafismos em 2D muito colorido, detalhado e animado e só por aí já vale a pena ser jogado. De notar também que existe uma versão para Game Gear, PC (com um nível extra) e uma outra versão para o serviço Sega Channel, que nunca chegou até nós. Essa versão para o Sega Channel é intitulada de Garfield: The Lost Levels e supostamente possui o mesmo conteúdo que esta versão, o nível exclusivo da versão PC mais dois níveis inéditos, cujos estavam também presentes na versão Game Gear.

Psychic World (Sega Game Gear)

De volta às rapidinhas para uma adaptação de um jogo que já trouxe aqui no passado para a Master System e que, curiosamente, considero um dos jogos de acção mais interessantes do sistema. O meu exemplar chegou à minha colecção há apenas algumas semanas, tendo-me sido vendido a um preço bastante acessível por um amigo.

Jogo com caixa e manual

A história coloca-nos no papel de Lucia, uma jovem que terá de salvar a sua irmã, raptada por criaturas misteriosas. Ambas trabalhavam num laboratório secreto dedicado ao estudo de poderes extra-sensoriais, e, para enfrentar a ameaça, o seu patrão entrega-lhe um capacete capaz de amplificar essas habilidades. Na prática, isto traduz-se num jogo de acção 2D, onde vamos adquirindo novas capacidades à medida que avançamos, sendo estas essenciais para superar os desafios que surgem pelo caminho.

Os níveis são consideravelmente diferentes das outras versões, sendo mais adaptados ao ecrã de uma consola portátil

Passando aos controlos, o direccional move a personagem, mas este é um daqueles jogos em que manter o direccional pressionado na mesma direcção durante alguns segundos faz com que a personagem comece a correr, o que pode dificultar a precisão dos movimentos. Fora isso, temos o botão 2 para saltar e o 1 para disparar, começando com uma arma de projécteis fracos e de curto alcance. À medida que avançamos, podemos encontrar novas armas e, sempre que apanhamos um ícone de uma que já possuímos, esta é melhorada. As armas têm afinidades elementais, disparando projécteis de água, fogo, gelo ou som, cada um com características específicas. Por exemplo, a arma de água, além de ser eficaz contra inimigos de fogo, permite criar plataformas temporárias em zonas húmidas, já a de fogo pode destruir blocos de gelo e a de som permite-nos destruir blocos metálicos.

As armas que desbloqueamos vão tendo outro tipo de utilidades como destruir superfícies ou criar plataformas

Além das armas, podemos desbloquear outras habilidades úteis, como um escudo que nos confere invencibilidade temporária, um ataque de explosão que causa dano a todos os inimigos no ecrã, um poder de levitação que permite voar por breves momentos e, por fim, a capacidade de nos teletransportarmos para o início do nível. Com excepção deste último, todos os poderes podem ser melhorados através de upgrades. Diferentemente das armas, estas habilidades consomem energia ESP, visível numa barra no fundo do ecrã. No entanto, alternar entre poderes não é muito intuitivo: temos de pressionar para baixo seguido do botão 2. Isto pausa o jogo e abre um pequeno menu onde podemos navegar entre as opções usando o direccional, mas sem largar o botão 2. Quando o fizemos, ficamos com a arma/habilidade que estaria seleccionada com o direccional nesse momento. Além disto, ao longo do jogo podemos encontrar itens que concedem pontos extra ou restauram a vida e a energia ESP.

A arte da versão da Master System era baseada neste boss, e isso sempre me deixou curioso com o jogo desde muito cedo!

Para além de novas armas, poderemos também ganhar outras habilidades úteis como um escudo capaz de nos conferir invencibilidade temporária, um poder de explosão capaz de causar dano em todos os inimigos no ecrã, um poder de levitação que nos permite voar temporariamente e por fim a possibilidade de nos teletransportarmos novamente para o início do nível. À excepção deste último poder, todos os outros podem também ser melhorados com upgrades e ao contrário das armas, todos estes poderes requerem “munições” na forma de energia ESP que pode ser medida numa barra de energia no fundo do ecrã. A maneira como alternamos entre todos estes poderes é que não é a mais elegante, obrigando-nos a pressionar o botão baixo em seguida do botão 2. Isto pausa o jogo e a barra de vida e energia é substituída por um pequeno menu onde podemos alternar entre todos estes diferentes poderes com o botão direccional. Mas tudo isto sem largar o botão 2! De resto temos também outros itens que podemos encontrar ao longo do jogo que nos dão pontos extra ou nos restabelecem as nossas barras de vida e energia.

As cut-scenes são diferentes entre versões

No que toca ao conteúdo, a versão Master System já era uma adaptação simplificada do original de MSX2 (sendo completamente linear), e esta versão Game Gear vai ainda mais longe, com níveis mais curtos e em menor número. No entanto, a área de jogo foi melhor aproveitada para o ecrã da portátil, permitindo sprites maiores e uma melhor utilização do espaço disponível. As cenas que avançam a narrativa também foram reformuladas, diferenciando-se visualmente das versões MSX2 e Master System, embora a preferência por uma abordagem ou outra dependa do gosto de cada jogador. Já a banda sonora, dentro das limitações do chip de som da Game Gear, cumpre bem o seu papel e tem faixas agradáveis como um todo.

No geral, Psychic World é um jogo de acção e plataformas bastante interessante, apesar de alguns problemas que não envelheceram bem, como a aceleração abrupta da personagem, a ausência de frames de invencibilidade ao sofrer dano e o método pouco prático para alternar entre armas e poderes. Na Master System ainda se compreende este última limitação visto o botão de pausa estar na consola, mas na Game Gear essa desculpa já não é válida. Ainda assim, é um título competente dentro do género, e vale a pena destacar as adaptações feitas pela Sanritsu para esta versão portátil.

Psy-O-Blade (Sega Mega Drive)

Tempo de voltar à Sega Mega Drive para uma rapidinha a um jogo bastante obscuro da sua biblioteca. Lançado algures durante o ano 1990, este Psy-O-Blade é na verdade uma conversão de um jogo de computador, lançado originalmente dois anos antes para uma série de computadores nipónicos como os PC-88 e PC-98 da NEC. É uma aventura gráfica ao estilo japonês e recebeu, há uns anos atrás, um patch de tradução feito por fãs, visto que o mesmo nunca havia saído fora do Japão. O meu exemplar foi comprado na vinted algures em Dezembro do ano passado, tendo-me custado menos de 30€.

Jogo com caixa e manual

O seu lançamento original é da T&E Software, a mesma empresa a mesma empresa responsável pela série Hydlide (sim, incluindo o infame jogo de Sega Saturn). Ao contrário desses jogos, que decorrem num ambiente de fantasia medieval, Psy-O-Blade transporta-nos para um futuro distante, num cenário de ficção científica. Aqui, assumimos o controlo de um jovem tripulante da nave espacial Cassowary, enviada numa missão de resgate para recuperar os tripulantes da Septemus 2, uma nave que deixou de responder às comunicações e ficou à deriva no espaço. Há, no entanto, um detalhe curioso a ter em conta: no universo de Psy-O-Blade, a Guerra Fria do século XX nunca terminou. Pelo contrário, as tensões agravaram-se ainda mais com o surgimento de uma terceira potência a ameaçar o equilíbrio mundial – os neo-comunistas! Qual a relevância disto para o jogo? Na verdade, não muita, mas Psy-O-Blade adora oferecer contexto sobre o seu mundo..

O ecrã está dividido da seguinte forma: ao centro o cenário que pode ser interagido, à esquerda a nossa posição no mapa, em baixo um retrato da personagem que está a falar e ao lado a caixa de texto para os diálogos

Em termos de mecânicas, Psy-O-Blade é uma aventura gráfica point and click. No entanto, enquanto esperava encontrar uma interface tradicional dos clássicos japoneses da época, como o Portopia, Famicom Detective Club ou Snatcher, com menus de texto representando acções, fui surpreendido por uma jogabilidade verdadeiramente point and click, com controlo total através de um cursor. O botão A serve para interagir com objectos, personagens ou elementos do cenário, enquanto o B permite cancelar acções ou avançar rapidamente o texto. Já o botão C abre um pequeno menu, normalmente utilizado para mudar de sala ou gravar o progresso do jogo. Nesta curta aventura, a progressão da história exige conversas frequentes com as mesmas personagens e uma boa dose de interacção com os cenários – o que significa, inevitavelmente, alguma caça ao pixel. O jogo é linear e bastante breve, como já referi, mas a narrativa tem os seus bons momentos e consegue manter o interesse. Há também um “jogo dentro do jogo”: a certa altura, somos forçados a jogar um clone de Space Harrier e alcançar pelo menos 200 pontos para avançar. Foi, de longe, a parte mais desafiante do jogo, mas uma surpresa agradável!

Algures a meio de aventura, um shmup tipo Space Harrier porque sim

A nível audiovisual, Psy-O-Blade apresenta um nível de detalhe razoável para um título de 1990. Algumas escolhas criativas são curiosas, como o facto de três dos colegas de tripulação do protagonista serem negros, todos com as mesmas feições, cor de cabelo e uniformes idênticos, um contraste evidente em relação ao resto da tripulação. Sendo esta uma aventura gráfica, os cenários são bem detalhados, ainda que estáticos, e o jogo exibe um forte estilo anime. A banda sonora é algo eclética nos géneros musicais que aborda e tem alguns temas mais rock que me agradam bastante e tipicamente resultam sempre bem no chip de som da Mega Drive. Por fim uma nota em relação à tradução. Confesso que não sei o quão fiel a mesma está ao original, pois temos palavrões nos diálogos, o que não é assim tão usual em jogos de consolas desta época. Além disso, há certas escolhas peculiares, como termos um Robert e um Bob, uma personagem feminina chamada Feminine. A mais curiosa foi mesmo a referência ao filme Alien que me fez soltar uma ligeira gargalhada. Um diálogo algo do género “isto que se está a passar faz-me lembrar o filme Alien, que é um filme do século XX onde um alien infiltra-se numa nave e mata todos os tripulantes. Mas não te preocupes que a personagem feminina sobrevive”.

A progressão do jogo obriga-nos a alguma caça ao pixel até que consigamos finalmente avançar

Eu adoro estas aventuras gráficas num estilo mais japonês, particularmente estas que têm a sua origem em sistemas dos anos 80 ou 90 e Psy-O-Blade, apesar de ser uma experiência curta e bastante linear, acabou por se revelar uma experiência surpreendentemente divertida e cativante.