Undead Line (Sega Mega Drive)

Vamos agora regressar à Mega Drive para acompanhar mais um dos relançamentos da Retro-Bit, que me chegou finalmente às mãos algures durante o mês de Março, após vários meses de espera e adiamentos. Undead Line é um shmup desenvolvido originalmente pela T&E Soft para o MSX2, lançado em 1989. Ao longo dos dois anos seguintes surgiram conversões para outros sistemas, nomeadamente o mítico computador X68000 e a Mega Drive. Todas estas versões se mantiveram exclusivas do mercado nipónico e a versão Mega Drive tem vindo a atingir preços bastante proibitivos no mundo do coleccionismo, pelo que este relançamento da Retro-Bit foi mais que bem-vindo.

Jogo com capa reversiva, sleeve exterior de cartão, manual e extras diversos.

Undead Line é um jogo que me faz lembrar bastante o Elemental Master, não só pela sua temática de dark fantasy, mas sobretudo por se tratar de um ground based shooter. Não há aqui naves espaciais nem dragões, somos apenas um guerreiro contra um autêntico exército de criaturas diabólicas que teremos de destruir. Ainda assim, e ao contrário de outros hack and slash da época, a acção desenrola-se através do disparo constante de projécteis, como num shmup tradicional.

As mecânicas de jogo são simples na sua essência. O botão B serve para disparar (recomendo vivamente activar o rapid fire nas opções), o botão A activa o ataque especial, neste caso uma bola metálica com espinhos que orbita a personagem, oferecendo alguma protecção temporária contra dano inimigo. Já o botão C permite envergar o escudo, bloqueando ataques vindos da frente. Existe, no entanto, um trade-off importante, pois ao utilizar o escudo ficamos impossibilitados de atacar. Ainda assim, trata-se de uma habilidade preciosa quando usada de forma criteriosa, tal é o nível de desafio que o jogo apresenta.

Tal como acontece nos Thunder Force, os primeiros níveis podem ser jogados em qualquer ordem.

Como seria de esperar num shmup, não faltam coleccionáveis com efeitos variados. Existem itens que alteram a arma e os seus padrões de fogo, outros que regeneram parcialmente a barra de vida, concedem vidas extra, invencibilidade temporária, escudos ou até os já tradicionais satélites que disparam ao nosso lado. As armas podem também ser melhoradas ao recolhermos ícones idênticos ao da arma equipada. No entanto, à semelhança de jogos como TwinBee, disparar sobre um item faz com que este mude de tipo, o que pode tornar-se problemático. Por um lado, ao recolhermos uma arma diferente perdemos imediatamente os níveis de evolução da arma anterior, regressando ao nível mais baixo na nova arma. Por outro, existem também itens com efeitos negativos, como redução de velocidade, perda de vida ou mesmo downgrades à arma.

Para quem jogar o original: activem o rensha nas opções – é o auto fire!

Este sistema é particularmente relevante porque Undead Line é um jogo bastante exigente. Os inimigos são rápidos, os padrões de ataque agressivos, e passamos grande parte do tempo a desviar-nos de projécteis enquanto tentamos responder na mesma moeda. Nesse contexto, é extremamente fácil apanhar inadvertidamente um item indesejado. A conjugação da dificuldade elevada com este sistema de power-ups “rotativos” contribui para tornar o jogo especialmente desafiante. Experimentem jogar o primeiro nível na dificuldade máxima (Crazy), é de facto um outro mundo de dor e sofrimento!

Esta é o tipo de dificuldade que nos espera: muitos inimigos, projécteis e tudo num ritmo estonteante!

Importa também referir uma outra mecânica interessante: ao longo dos níveis podemos encontrar até três fadas escondidas. Cada uma corresponde a um ponto de experiência que, no final de cada nível, pode ser distribuído por quatro atributos distintos, ST, MP, DX e AG, presumivelmente força, magia, destreza e agilidade. Investir em AG aumenta a velocidade de movimento, algo absolutamente crucial face à rapidez dos inimigos. Os restantes atributos melhoram o poder ofensivo das diferentes armas disponíveis.

Visualmente os bosses estão bem conseguidos!

No que diz respeito ao aspecto audiovisual, Undead Line é competente, embora não figure entre os shmups mais impressionantes da Mega Drive. Ainda assim, aprecio bastante a sua estética de dark fantasy e os pequenos detalhes presentes nos níveis. Num dos cenários, por exemplo, exploramos um cemitério onde destruir campas faz surgir fantasmas prontos a atacar. Outros níveis introduzem obstáculos adicionais, como paredes móveis ou jactos de lava, que acrescentam variedade ao desafio. Os inimigos seguem uma linha estética coerente e os bosses são, regra geral, grandes e bem detalhados. Já a banda sonora destaca-se pela positiva, com composições de forte influência rock, algo muito característico de jogos do mesmo género na Mega Drive e que me agrada particularmente.

Alguém chamou o tipo do Splatterhouse?

Em suma, Undead Line é um shmup interessante e bastante gratificante, ainda que marcado por uma dificuldade acima da média. A sua estética de fantasia sombria distingue-o dentro do género e, tendo em conta os preços elevados da versão original no mercado de segunda mão, este relançamento da Retro-Bit é claramente bem-vindo, a acrescentar também que o jogo foi devidamente localizado para inglês, Fica a esperança de que, no futuro, outros clássicos recebam o mesmo tratamento, como M.U.S.H.A..

Psy-O-Blade (Sega Mega Drive)

Tempo de voltar à Sega Mega Drive para uma rapidinha a um jogo bastante obscuro da sua biblioteca. Lançado algures durante o ano 1990, este Psy-O-Blade é na verdade uma conversão de um jogo de computador, lançado originalmente dois anos antes para uma série de computadores nipónicos como os PC-88 e PC-98 da NEC. É uma aventura gráfica ao estilo japonês e recebeu, há uns anos atrás, um patch de tradução feito por fãs, visto que o mesmo nunca havia saído fora do Japão. O meu exemplar foi comprado na vinted algures em Dezembro do ano passado, tendo-me custado menos de 30€.

Jogo com caixa e manual

O seu lançamento original é da T&E Software, a mesma empresa a mesma empresa responsável pela série Hydlide (sim, incluindo o infame jogo de Sega Saturn). Ao contrário desses jogos, que decorrem num ambiente de fantasia medieval, Psy-O-Blade transporta-nos para um futuro distante, num cenário de ficção científica. Aqui, assumimos o controlo de um jovem tripulante da nave espacial Cassowary, enviada numa missão de resgate para recuperar os tripulantes da Septemus 2, uma nave que deixou de responder às comunicações e ficou à deriva no espaço. Há, no entanto, um detalhe curioso a ter em conta: no universo de Psy-O-Blade, a Guerra Fria do século XX nunca terminou. Pelo contrário, as tensões agravaram-se ainda mais com o surgimento de uma terceira potência a ameaçar o equilíbrio mundial – os neo-comunistas! Qual a relevância disto para o jogo? Na verdade, não muita, mas Psy-O-Blade adora oferecer contexto sobre o seu mundo..

O ecrã está dividido da seguinte forma: ao centro o cenário que pode ser interagido, à esquerda a nossa posição no mapa, em baixo um retrato da personagem que está a falar e ao lado a caixa de texto para os diálogos

Em termos de mecânicas, Psy-O-Blade é uma aventura gráfica point and click. No entanto, enquanto esperava encontrar uma interface tradicional dos clássicos japoneses da época, como o Portopia, Famicom Detective Club ou Snatcher, com menus de texto representando acções, fui surpreendido por uma jogabilidade verdadeiramente point and click, com controlo total através de um cursor. O botão A serve para interagir com objectos, personagens ou elementos do cenário, enquanto o B permite cancelar acções ou avançar rapidamente o texto. Já o botão C abre um pequeno menu, normalmente utilizado para mudar de sala ou gravar o progresso do jogo. Nesta curta aventura, a progressão da história exige conversas frequentes com as mesmas personagens e uma boa dose de interacção com os cenários – o que significa, inevitavelmente, alguma caça ao pixel. O jogo é linear e bastante breve, como já referi, mas a narrativa tem os seus bons momentos e consegue manter o interesse. Há também um “jogo dentro do jogo”: a certa altura, somos forçados a jogar um clone de Space Harrier e alcançar pelo menos 200 pontos para avançar. Foi, de longe, a parte mais desafiante do jogo, mas uma surpresa agradável!

Algures a meio de aventura, um shmup tipo Space Harrier porque sim

A nível audiovisual, Psy-O-Blade apresenta um nível de detalhe razoável para um título de 1990. Algumas escolhas criativas são curiosas, como o facto de três dos colegas de tripulação do protagonista serem negros, todos com as mesmas feições, cor de cabelo e uniformes idênticos, um contraste evidente em relação ao resto da tripulação. Sendo esta uma aventura gráfica, os cenários são bem detalhados, ainda que estáticos, e o jogo exibe um forte estilo anime. A banda sonora é algo eclética nos géneros musicais que aborda e tem alguns temas mais rock que me agradam bastante e tipicamente resultam sempre bem no chip de som da Mega Drive. Por fim uma nota em relação à tradução. Confesso que não sei o quão fiel a mesma está ao original, pois temos palavrões nos diálogos, o que não é assim tão usual em jogos de consolas desta época. Além disso, há certas escolhas peculiares, como termos um Robert e um Bob, uma personagem feminina chamada Feminine. A mais curiosa foi mesmo a referência ao filme Alien que me fez soltar uma ligeira gargalhada. Um diálogo algo do género “isto que se está a passar faz-me lembrar o filme Alien, que é um filme do século XX onde um alien infiltra-se numa nave e mata todos os tripulantes. Mas não te preocupes que a personagem feminina sobrevive”.

A progressão do jogo obriga-nos a alguma caça ao pixel até que consigamos finalmente avançar

Eu adoro estas aventuras gráficas num estilo mais japonês, particularmente estas que têm a sua origem em sistemas dos anos 80 ou 90 e Psy-O-Blade, apesar de ser uma experiência curta e bastante linear, acabou por se revelar uma experiência surpreendentemente divertida e cativante.