Ken Follett’s The Pillars of the Earth (Microsoft Xbox One)

Ao longo dos últimos dias decidi pegar em mais uma aventura gráfica da Daedalic, um estúdio alemão que muito apoiou este subgénero ao longo dos anos. A última vez que cá tinha trazido um jogo deles (sem contar com o infame Gollum) foi algures em meados de 2022 com 1954: Alcatraz, pelo que era merecido voltar a explorar o seu catálogo. O meu exemplar foi comprado numa CeX, algures no norte do país, em Março deste ano, tendo-me custado uns 8€.

Jogo com caixa

Este jogo é baseado no livro homónimo, publicado originalmente em 1989 pelo autor britânico Ken Follett, que acompanha a história de um conjunto diverso de personagens ao longo de várias décadas do século XII, em plena Idade Média. Sem querer revelar demasiado da premissa, digamos que é uma narrativa repleta de intriga política, corrupção no seio do clero e de toda uma série de escolhas difíceis que as personagens principais terão de tomar. Retrata também, de uma forma aparentemente realista, as dificuldades da época, desde a pobreza latente dos camponeses até à violência inerente ao período. Confesso que nunca tinha ouvido falar da obra original, mas creio que terá tido um sucesso considerável, visto que já no século XXI deu origem a adaptações televisivas, jogos de tabuleiro e, claro, a este videojogo que vos trago hoje.

Um dos pontos positivos do jogo é a sua narrativa pausada, mas que nos faz sentir bem as personagens e as suas lutas

Neste título, a Daedalic piscou o olho ao modelo de negócio da Telltale, visto que The Pillars of the Earth herda muitas das mecânicas tipicamente associadas a esses jogos. Desde logo, a narrativa encontra-se dividida em episódios, surgem diálogos com tempo limite para as nossas respostas (onde deixar esgotar o tempo e, por conseguinte, não responder é também uma opção) e, ocasionalmente, somos confrontados com escolhas que podem influenciar acontecimentos futuros. Existem ainda algumas secções de acção que recorrem a quick time events, obrigando-nos a executar uma determinada sequência de botões no momento certo. De resto, as restantes mecânicas aproximam-se do formato clássico das aventuras gráficas point and click, pedindo-nos para explorar cenários, interagir com pontos de interesse, recolher objectos e dialogar com personagens de forma a fazer avançar a narrativa. A excepção surge em certos segmentos ocasionais em que temos de atravessar um mapa, sendo aí necessário escolher que caminho seguir, uma decisão que poderá também trazer pequenas consequências.

A história leva-nos a acompanhar o progresso tumultuoso de várias personagens ao longo de décadas. Esta catedral é um elemento central da narrativa.

Quanto aos controlos, considero que foram bem adaptados ao comando. O analógico esquerdo move a personagem no ecrã, enquanto o direito permite seleccionar qual o item do inventário queremos equipar. O gatilho direito faz com que a personagem caminhe um pouco mais rápido, e o esquerdo destaca todos os pontos interactivos visíveis no cenário. Sempre que nos aproximamos de um desses pontos de interesse, surgem ícones no ecrã que correspondem às acções disponíveis, mapeadas para a mesma disposição dos botões faciais do comando. Assim, o botão A serve normalmente para interagir com objectos ou falar com personagens, o X para observar e o Y para utilizar o item seleccionado. Já o botão B funciona apenas para cancelar ou acelerar o decorrer dos diálogos.

Tal como nos jogos da Telltale, temos várias escolhas para fazer que podem afectar o desenrolar da narrativa

O que mais me surpreendeu neste jogo foi a sua narrativa madura, que retrata de forma crua o drama vivido pela maioria da população europeia na Idade Média: a pobreza extrema das classes baixas, sempre à mercê das guerras e dos caprichos dos senhores feudais. A isto junta-se uma componente emotiva que explora as difíceis (e muitas vezes imprevisíveis) decisões que as personagens principais se vêem obrigadas a tomar, aliada à intriga política, à corrupção e às guerras de ascensão ao trono ou ao controlo de feudos, o que torna a história especialmente envolvente. Há também um foco considerável na religião católica da época e nos abusos de poder associados, algo que me fez de imediato recordar O Nome da Rosa de Umberto Eco. No que respeita à aproximação ao modelo da Telltale, considero que o resultado não foge assim tanto do que a empresa norte-americana nos habituou. Isto porque as escolhas que tomamos podem tanto podem ter conmsequências imediatas, como repercussões em acontecimentos bastante distantes, mas aparentemente não chegam a alterar de forma significativa a narrativa central nem os seus momentos-chave. Em termos de ritmo, adorei os dois primeiros episódios, mas já o terceiro (e último) me convenceu menos. Aí a narrativa avança a um passo bastante mais acelerado, deixando a impressão de que certos detalhes importantes ficaram de fora, talvez devido a um ciclo de desenvolvimento mais apressado.

Ocasionalmente teremos alguns segmentos de acção onde precisamos de passar alguns quick time events. São todos deste estilo.

Os visuais são também um dos pontos fortes do jogo, com belíssimos gráficos em 2D, onde cenários e personagens surgem muito bem detalhados e transmitem a sensação de terem sido desenhados e pintados à mão. O voice acting é, a meu ver, bastante competente, tal como a banda sonora, que tende a assumir um registo sobretudo ambiental. Ainda no voice acting, há um pormenor curioso que não posso deixar de destacar: a certa altura acompanhamos a viagem de uma personagem a Santiago de Compostela e, ao interagir com os habitantes, estes respondem em galego e não em castelhano. É um momento em que a barreira linguística se torna efectivamente um obstáculo, mas, graças à proximidade do galego com a língua portuguesa, consegui entender facilmente essa comunicação. Existem, no entanto, alguns problemas técnicos, pelo menos nesta versão Xbox. Por várias vezes o jogo deixou de reconhecer inputs do comando, e cheguei a encontrar pequenos bugs, como personagens a falarem umas por cima das outras. Felizmente, não foram situações frequentes e carregar o último save bastou sempre para as resolver.

Visualmente o jogo é muito rico nos seus cenários e personagens.

Portanto, devo dizer que gostei bastante de The Pillars of the Earth. É verdade que, enquanto aventura gráfica, não é o jogo mais desafiante do mundo, já que os seus puzzles são relativamente simples. Ainda assim, a narrativa (embora propositadamente lenta) revela-se muito rica no seu conteúdo e no carisma das personagens, mantendo-me sempre curioso em relação ao que iria acontecer a seguir. Deixou-me, inclusive, com bastante vontade de ler o livro ou de ver a adaptação televisiva!

Worms (Sega Mega Drive)

Muitas memórias tenho eu de jogar Worms 2 ou Worms Armageddon com amigos, quer nas suas casas, quer mesmo nos computadores da escola! Ainda assim, é incrível como, após tantos anos a coleccionar, nunca tinha tido um jogo desta série na minha colecção. Isto porque com o foco no multiplayer que a série sempre teve, foi tendo cada vez menos importância para mim enquanto jogador. Mas como grande fã da Mega Drive, não resisti e acabei por comprar (finalmente) um exemplar do primeiro jogo da série nessa versão. Entrou na minha colecção algures em Julho deste ano, após o ter adquirido a um amigo meu por um preço bastante convidativo.

Jogo com caixa e manual

Desenvolvido originalmente para o Commodore Amiga, Worms apresenta um conceito simples. Até quatro equipas de minhocas militares combatem entre si em cenários gerados de forma aleatória, onde cada soldado tem o seu turno para, dentro de um tempo limite, se mover pela arena e atacar com a arma que entender. No fim, vence a equipa que tiver pelo menos um sobrevivente. As minhocas podem ser derrotadas de três formas: ao perderem toda a barra de vida, ao caírem na água ou se forem projectadas para fora da arena. A natureza bizarra de muitas armas, como projécteis de energia chamados de “dragon ball“, explosivos em forma de bananas ou ovelhas, acrescenta um humor peculiar, muito associado à tradição do ecossistema Amiga. O jogo teve sucesso, não só pelas inúmeras sequelas que gerou ao longo dos anos, mas também pelas várias conversões da versão original, incluindo a da Mega Drive, ainda que esta apresente algumas limitações. Mas já lá vamos.

Um dos problemas desta versão é o facto das minhocas serem todas idênticas entre si, independentemente da equipa a que pertençam

Os níveis são completamente destrutíveis, um elemento central da jogabilidade. Cada explosão abre crateras, e certas armas ou ferramentas podem ser usadas para escavar túneis, o que acrescenta uma forte componente estratégica. Afinal, quanto menos cenário houver, maiores são as hipóteses de uma minhoca cair à água. Até a eliminação de um inimigo pode ser perigosa, já que, ao perder toda a vida, cada minhoca detona um pequeno explosivo, capaz de danificar todos os que estejam por perto. A gestão do arsenal disponível é outra das preocupações. Armas mais comuns, como a bazuca (com que cada minhoca começa), a uzi, a caçadeira ou as granadas têm munição ilimitada. Outras mais poderosas, como as cluster bombs, o teletransporte ou os ataques aéreos, possuem usos limitados e exigem maior ponderação. De tempos a tempos, são lançados mantimentos por pára-quedas que trazem armas raras e devastadoras, inacessíveis de outra forma, como as bananas explosivas ou as célebres ovelhas. Estes itens tornam-se, assim, tesouros muito cobiçados. Por fim, há ainda o efeito do vento, em constante mudança, que influencia trajectórias de projécteis, embora algumas armas não sejam afectadas.

Uma das formas de derrotar as minhocas é mandá-las para a água, pelo que destruir certas secções do nível é também algo a considerar

A versão Mega Drive tem, no entanto, alguns pontos negativos. O mais notório é o facto de os níveis não serem gerados aleatoriamente, mas sim escolhidos de um conjunto pré-renderizado. Ainda assim, estes cenários apresentam alguma variedade temática, incluindo desertos, florestas, montanhas geladas ou paisagens marcianas, embora o original do Amiga oferecesse aparentemente muito mais opções. Outros aspectos menos positivos (que podem não ser exclusivos desta versão) incluem o facto de todas as minhocas serem visualmente idênticas, independentemente da equipa a que pertençam, o que torna essencial memorizar os nomes dos elementos do nosso esquadrão para manter o foco. Certas armas, como a caçadeira ou a uzi, podem também sofrer ricochetes quando disparadas a curta distância ou na proximidade de superfícies, causando muitas vezes mais dano ao jogador do que ao inimigo. Por fim, a barra de vida de cada equipa surge numa posição fixa no topo do ecrã, ficando frequentemente fora de vista quando a câmara acompanha a acção em zonas mais baixas do terreno.

A barra de vida de cada equipa está fixa no topo do mapa, portanto nem sempre fica visível

Visualmente, este é um jogo bastante simples, mas funcional. O reduzido tamanho das minhocas (algo que viria a mudar nas sequelas) remete claramente para a inspiração de outros jogos com origem no Amiga, como Lemmings. Ainda assim, apesar da escala diminuta, as minhocas exibem bastante personalidade, graças a animações que lhes conferem um sentido de humor característico. Os níveis, por sua vez, são simples, com apenas alguns detalhes gráficos ocasionais, mas destacam-se sobretudo pelo facto de serem totalmente destrutíveis. Já a paleta de cores mais limitada em relação a outras versões, bem como a menor variedade de cenários nesta edição, são fragilidades difíceis de ignorar. No que toca ao som, mantém-se a mesma simplicidade: para além de alguns efeitos sonoros do combate, apenas se ouvem curtas composições musicais nos menus.

Os modos de jogo são simples: podemos jogar uma partida amigável ou um campeonato. As partidas podem também ser bastante customizáveis nas regras e armas/equipamento permitido

Portanto, este primeiro Worms revelou-se uma experiência bastante agradável. Por um lado, foi bom regressar a esta série ao fim de tantos anos; por outro, mesmo que este título inicial (e em particular a versão Mega Drive) seja visivelmente mais limitado no aspecto audiovisual, a verdade é que a essência das mecânicas divertidas já estava presente. Se não tivesse tido acesso a um PC na segunda metade dos anos 90, consigo facilmente imaginar-me a passar bons momentos com os meus amigos a jogar esta versão. Hoje em dia, no entanto, existem muitas outras alternativas, mesmo para revisitar este primeiro jogo, que está melhor implementado noutras versões.

Alan Wake’s American Nightmare (PC)

Pouco depois de terminar o Alan Wake Remastered decidi avançar para este segundo título da série. Lançado originalmente em 2012 para a Xbox 360 e PC, American Nightmare apresenta-se como uma experiência mais curta e claramente focada na acção. A minha cópia digital no Steam veio parar à biblioteca através de uma promoção no Humble Bundle, comprada já há bastantes anos, em 2013, por um preço bastante reduzido. Entretanto, se nunca jogaram o primeiro Alan Wake e têm essa intenção, recomendo que não leiam o parágrafo seguinte, pois irão encontrar alguns spoilers.

A história de American Nightmare decorre após os eventos narrados no primeiro jogo, quando Alan Wake consegue salvar a esposa das forças obscuras que assombravam o Cauldron Lake, à custa da sua própria liberdade, ficando retido no fundo do lago. Apesar de ser narrado como se de um episódio da série fictícia Night Springs se tratasse, o jogo coloca-nos perante o confronto de Alan com o seu lado mais sombrio, personificado em Mr. Scratch, que ameaça libertar-se do Cauldron Lake e regressar ao mundo real apenas para fazer mal à esposa de Alan. Também o setting é distinto: em vez das montanhas enevoadas de Bright Falls, viajamos até Night Springs, uma pequena localidade perdida no árido deserto do Arizona.

As personagens até que estão bem detalhadas para um jogo de 2012 mas as suas animações são muito limitadas. Por exemplo, esta senhora está sempre com a mesma pose em todas as cenas.

No que toca às mecânicas, American Nightmare mantém a base do seu predecessor, mas aposta num maior ênfase no combate. Continua presente o uso da lanterna para destruir os “escudos de escuridão” dos inimigos antes de estes ficarem vulneráveis às armas de fogo, embora agora haja uma maior variedade de adversários. Os bandos de corvos, por exemplo, têm a capacidade de se transformar num inimigo humanóide, enquanto outros duplicam-se sempre que são atingidos por uma fonte de luz intensa. Para equilibrar o desafio, existe também uma selecção mais alargada de armas, que podem ser desbloqueadas através da recolha de coleccionáveis e da abertura de malas espalhadas pelos cenários. Entre estas encontramos diferentes shotguns, espingardas e até armas automáticas. A utilização de flares ou granadas de luz continua a ser essencial para lidar com grupos numerosos de inimigos e sobreviver às situações mais exigentes.

Novas armas e inimigos foram introduzidas a mecânicas de jogo já conhecidas

O modo história é, no entanto, bastante curto. Se no primeiro Alan Wake uma das críticas que fazia era a certa repetição das secções de exploração e longas caminhadas pelas florestas de Bright Falls, aqui essa repetição manifesta-se de outra forma. O jogo contém apenas três níveis: um motel de estrada e suas imediações, um observatório astronómico e um cinema drive-in tipicamente norte-americano, todos eles relativamente amplos. Depois de os concluirmos pela primeira vez, a narrativa leva-nos de volta ao início, com pequenas variações nos acontecimentos. Na prática, American Nightmare desenrola-se como um time loop de três dias, que nos faz revisitar as mesmas áreas com mudanças subtis. Para além da campanha, existe ainda um modo arcade, concebido como um verdadeiro score attack. Aqui o objectivo é sobreviver durante dez minutos a ondas sucessivas de inimigos, recolhendo munições e novas armas espalhadas pelas arenas. Existem cinco cenários distintos, que variam entre um cemitério, uma cidade abandonada, um campo de extracção de petróleo, uma área mais florestal ou uma zona de caravanas. Confesso que não dediquei muito tempo a este modo, mas é evidente que foi pensado para prolongar a longevidade do jogo, com a possibilidade de desbloquear as arenas em dificuldades mais elevadas (Nightmare).

Para além do modo história temos também um modo arcade, uma espécie de score attack onde temos de sobreviver durante 10 minutos a ondas de inimigos

Em termos audiovisuais, American Nightmare está bem conseguido para os padrões de 2012. As personagens são detalhadas, ainda que as animações fiquem algo aquém, e os cenários apresentam-se com um visual distinto do primeiro jogo, graças à ambientação no Arizona. O contraste entre o deserto árido e as florestas densas de Bright Falls funciona muito bem, ainda que, por se tratar sempre de ambientes nocturnos, raramente consigamos apreciar a paisagem em todo o seu esplendor. No campo sonoro, o voice acting mantém o nível de qualidade esperado, ajudando a dar vida a uma narrativa mais curta, mas ainda assim cativante. A banda sonora alterna entre faixas ambientais e composições mais marcantes em momentos-chave, destacando-se, como seria de esperar para mim, as músicas de inspiração heavy metal da fictícia banda Old Gods of Asgard, que continuam a ser um dos pontos altos da série.

No fim de contas, Alan Wake’s American Nightmare acaba por ser uma experiência agradável, mas também demasiado breve, o que torna a sua recomendação algo limitada. Para quem é fã de Alan Wake, o jogo pode ser uma boa adição, sobretudo se surgir a um preço acessível, já que oferece algumas variações interessantes na jogabilidade e um setting bastante diferente do habitual. Ainda assim, enquanto capítulo na história da série, deixa a sensação de ser mais um episódio paralelo do que uma peça essencial. Talvez só depois de mergulhar em Alan Wake II consiga avaliar melhor o peso real deste título no todo da narrativa. Até lá, fica como um curioso desvio que os seguidores da saga poderão apreciar, mas que dificilmente convencerá quem procura uma experiência mais completa por si só.

Megami Tensei Gaiden: Last Bible II (Nintendo Game Boy / Game Boy Color)

Tempo de voltar à série Megami Tensei para uma análise a mais um dos seus inúmeros jogos secundários. Megami Tensei Gaiden: Last Bible II foi lançado originalmente para o Game Boy clássico em 1993, com uma conversão lançada anos mais tarde para o Game Boy Color. Ao contrário do seu predecessor, este nunca chegou a ser oficialmente localizado, nem recebeu uma versão diferente para a Sega Game Gear. Apesar de possuir ambas as versões na minha colecção, optei por jogar a versão Game Boy Color com um patch de tradução feito por fãs.

Jogos com caixa, manual e papelada. Em cima versão Game Boy clássico, em baixo, versão Game Boy Color

A boa notícia é que este segundo Last Bible é superior ao original em muitos aspectos, a começar pela história. Para além de a aventura ser mais longa, a própria narrativa é mais interessante e simplesmente mais rica no seu conteúdo. Aqui controlamos Yuri, uma criança com um passado atribulado: pouco depois de ter nascido, o Rei de Magoku, temendo uma profecia que ditava o nascimento da reencarnação de uma entidade divina, mandou assassinar todas as crianças recém-nascidas nas povoações à sua volta (quaisquer semelhanças com o cristianismo são mera coincidência, ou não). Yuri e Larsa foram dois dos sobreviventes desse massacre, tendo sido enviados em segredo para uma pequena povoação numa floresta, habitada por bestas e monstros benevolentes que os criaram. Anos passam e, quando Yuri faz 15 anos, é tempo de explorar o mundo à sua volta, onde encontram uma sociedade mais polarizada no seu ódio a todas as bestas, fossem elas benevolentes ou não. Com o reino de Magoku uma vez mais a causar conflitos, acabamos por ser arrastados para esses mesmos confrontos, com muitas outras personagens humanas a cruzarem-se connosco, entrando e saindo do grupo à medida que a narrativa vai progredindo.

Quaisquer paralelismos com o cristianismo são mera coincidência… ou não. Será por essa razão que esta versão GBC não recebeu uma localização oficial para Inglês?

No que toca à jogabilidade, as mecânicas de base do primeiro jogo estão também aqui presentes. Este é então um JRPG de fantasia medieval, com encontros aleatórios e batalhas por turnos onde poderemos recrutar e fundir os vários monstros que vamos enfrentando. A negociação continua algo simples, com uma série de perguntas de resposta sim/não, mas a conversa é ligeiramente mais fluida do que no predecessor. Por vezes mais vale pedir a um dos nossos monstros que faça a negociação por nós, sendo esta realizada automaticamente. O auto-battle é outra mecânica recorrente e que muito jeito dá para fazer grinding contra inimigos mais fracos! Obviamente que mesmo assim é possível perder, particularmente quando lutamos contra inimigos que teimam em lançar ataques que nos deixam paralisados ou noutro estado debilitante. No entanto, mesmo que isso aconteça, não somos penalizados, já que acordamos no último inn que visitámos, com toda a gente curada e com todo o dinheiro e itens connosco.

O sistema de combate é familiar, com a introdução dos ciclos lunares, visíveis no canto superior direito do menu

De resto, as maiores novidades que esta sequela nos traz passam pela introdução dos ciclos lunares, onde com a Lua cheia os inimigos se tornam bem mais poderosos, bem como uma melhor gestão do inventário. Apesar de este continuar a ser algo reduzido e segregado por personagem (enquanto a versão Game Gear já tinha um inventário maior e partilhado por todos), o facto de os monstros recrutados poderem agora guardar itens, embora não os possam equipar, acaba por aliviar um pouco a gestão minuciosa do inventário que tínhamos de fazer no primeiro jogo. Comprar armas ou outro equipamento na loja tornou-se também uma experiência mais agradável, na medida em que conseguimos entender quais as personagens que podem ter tal item equipado e que melhorias aos stats eles trazem se forem efectivamente equipados.

Aplaudo a decisão de tornarem as cidades menos labirínticas, mas as dungeons foram demasiado simplificadas

Há ainda dois detalhes que convém mencionar, até porque não o fiz quando escrevi sobre o primeiro jogo. O primeiro é a vertente multijogador, que sinceramente me passou ao lado, mas que creio consistir em ter duas Game Boy ligadas entre si e cada jogador usar a sua party para combates com o outro. O segundo é o conteúdo pós-créditos. Tanto no primeiro Last Bible como neste segundo podemos continuar a jogar, até porque existem alguns monstros mais poderosos para combater e tentar recrutar, que por sua vez seriam certamente úteis nos confrontos multijogador. Seguramente não havia muitos RPGs nesta época com conteúdo post-game, pelo que é um detalhe que achei importante mencionar.

Já no que diz respeito aos audiovisuais, devo dizer que tanto a versão Game Boy original como a Game Boy Color são francamente melhores do que os seus predecessores, a começar pela banda sonora, que possui algumas músicas bastante agradáveis. A nível gráfico as melhorias são igualmente notórias: o design das cidades é mais simples mas, a meu ver, mais funcional, embora, por outro lado, as dungeons tenham sido demasiado simplificadas. Mas o ponto forte é mesmo a arte: os inimigos são bem mais interessantes neste segundo jogo, com uma direcção artística que os aproxima mais dos Megami Tensei da Super Nintendo, embora a atmosfera continue a ser muito menos depressiva no geral. No entanto, a versão Game Boy Color não traz nenhuma outra melhoria além da adição de cor aos gráficos. A versão Game Gear do primeiro Last Bible continua a ser largamente superior em detalhe gráfico.

A arte é também outra melhoria notável, estando mais em linha com o que se fazia na Super Nintendo

Portanto, este segundo Last Bible revelou-se uma agradável surpresa. Não só a narrativa é mais interessante (apesar de existirem demasiadas entradas e saídas de personagens humanas que nos vão acompanhando), o jogo é também mais longo, com algumas ligeiras melhorias nas suas mecânicas e uma direcção artística mais interessante e em linha com os restantes títulos do universo Megami Tensei daquela época. Segue-se agora Majin Tensei, lançado originalmente meros meses após este jogo, outro título secundário do universo Megami Tensei e com mecânicas de jogo completamente distintas. Muito curioso com o que aí vem!

Alan Wake (PC / Microsoft Xbox Series X)

Depois de Max Payne 2, O projecto que viria a ser Alan Wake passou por várias metamorfoses durante o seu longo ciclo de desenvolvimento, mas acabou por se afirmar como um jogo centrado na narrativa, com uma forte atmosfera de mistério e elementos de terror psicológico. Por via de um acordo com a Microsoft, o título foi lançado em 2010 como exclusivo da Xbox 360, chegando mais tarde também ao PC. Anos depois, a Remedy recuperaria a obra com um remaster que a trouxe para as restantes plataformas e foi precisamente essa a versão que joguei. Curiosamente, já possuía o original em formato digital no PC há muitos anos, possivelmente vindo num bundle barato juntamente com o spin-off Alan Wake’s American Nightmare. Quanto ao remaster, acabei por encontrá-lo no ano passado numa Cex, num exemplar para a Xbox One que me custou cerca de 20€.

Jogo com caixa

Ao contrário dos Max Payne, onde controlávamos um ex-polícia habituado à acção e aos tiroteios, o protagonista de Alan Wake é um escritor de sucesso que atravessa uma crise criativa, incapaz de escrever uma única linha para o seu próximo livro há já vários anos. Na tentativa de o ajudar a ultrapassar esse bloqueio, a sua esposa Alice decide surpreendê-lo com uma escapadinha até uma região montanhosa e rural no noroeste dos Estados Unidos, em busca de paz, tranquilidade e, talvez, inspiração. A viagem leva-os à pequena cidade de Bright Falls, onde acontecimentos estranhos rapidamente se instalam, culminando no misterioso desaparecimento de Alice. Munido de um manuscrito que não se recorda de ter escrito, Alan vê-se envolvido num thriller psicológico que percorre a ténue fronteira entre realidade e pesadelo, repleto de fenómenos inquietantes e criaturas envoltas em escuridão.

Todos os inimigos possuem escudos que precisam de ser rompidos após levarem com luz directa durante algum tempo. Só depois ficam vulneráveis!

A dualidade entre luz e escuridão é o elemento central das mecânicas de Alan Wake. Desde cedo, recebemos uma lanterna, indispensável para enfrentar inimigos que, à partida, são invulneráveis. Só quando expostos a luz directa é que os seus escudos de escuridão se dissipam, tornando-os vulneráveis a armas de fogo. A lanterna emite, por defeito, um feixe fraco, suficiente apenas contra adversários menos resistentes. Para inimigos mais poderosos, ou simplesmente para acelerar o processo, podemos recorrer ao gatilho esquerdo e concentrar a luz, consumindo rapidamente as baterias. Usada de forma moderada, a lanterna recarrega-se sozinha ao longo do tempo, mas a gestão de energia torna-se vital. Além da lanterna, temos à disposição vários recursos luminosos. Os flares criam uma zona de segurança momentânea, repelindo inimigos que nos rodeiem; as granadas flashbang e a pistola de flares funcionam como verdadeiras armas de demolição contra grupos maiores, infligindo elevados danos. Todos estes consumíveis, tal como as baterias adicionais e a munição das armas, são escassos, exigindo uma gestão criteriosa. Muitas vezes, correr até uma fonte de luz fixa revela-se a opção mais sensata, em vez de gastar provisões em combates prolongados. Já quando nos deparamos com um generoso depósito de munições infinitas, é quase sempre sinal de que um confronto com um boss está iminente.

Quaisquer semelhanças com Twin Peaks são mera coincidência. Ou não.

No que toca ao armamento convencional, Alan começa apenas com um revólver, mas depressa se juntam opções como a caçadeira ou a espingarda de caça, embora só possamos transportar uma destas em simultâneo. O botão direccional permite alternar rapidamente entre o revólver, a pistola de flares, a arma “pesada” escolhida e ainda entre os flares ou granadas de luz, garantindo acesso rápido a todos os recursos. A disposição dos controlos segue os padrões modernos dos jogos de acção, simples e intuitivos, mas eficazes. Por fim, ao longo da aventura também encontramos versões melhoradas da lanterna, capazes de prolongar a duração das baterias ou intensificar o feixe luminoso, algo que se torna particularmente útil nos momentos de maior pressão.

Ocasionalmente, fugir é o melhor remédio. Mas dava jeito haver algum indicador visual da fadiga de Alan.

Tudo isto culmina numa experiência interessante de início, mas que à medida que avançamos começa a dar sinais de fadiga. Embora existam alguns segmentos de exploração e pequenos puzzles ocasionais, grande parte do jogo resume-se a atravessar longos trilhos nas montanhas, interrompidos por combates que se podem tornar repetitivos ao fim de algumas horas. A condução de veículos surge como um alívio momentâneo (com direito a usar os faróis como arma) mas não me agradaram os controlos, sobretudo em manobras de marcha-atrás. Também as mecânicas de corrida deixam a desejar: Alan não é um atleta, cansa-se rapidamente e abranda o passo, mas falta uma indicação visual mais clara desse esforço para melhor gerir a resistência. Apesar dessas limitações, o que me manteve preso à aventura até ao fim foi a narrativa, francamente envolvente e capaz de me deixar genuinamente curioso sobre as surpresas que Bright Falls ainda teria reservadas.

Os flares são óptimos para atordoar inimigos, dando-nos oportunidade de escapar

Para além da história principal, Alan Wake recebeu dois DLC (The Signal e The Writer) que acompanham o destino do protagonista após os eventos do jogo base. São episódios curtos, com cerca de uma hora e meia de duração cada, e colocam maior ênfase no combate. No entanto, acabaram por me parecer algo dispensáveis: não acrescentam muito à narrativa, não introduzem novidades de jogabilidade e reciclam vários cenários já visitados. Tanto a versão PC como a Remastered incluem estes conteúdos de forma integrada. No caso desta última, que foi a que joguei, há ainda um visível upscale na resolução, assim como modelos de personagens e texturas mais detalhados.

Estes pontos de luz servem como um porto seguro: dissipam os inimigos que nos perseguem, regeneram a nossa barra de vida rapidamente e servem também de checkpoints

No plano audiovisual, Alan Wake aposta numa atmosfera melancólica e sombria que se adapta bem à sua narrativa. Contudo, não escapa a uma paleta dominada por cinzentos e castanhos, muito típica da geração em que foi lançado, e que se mantém na versão Remastered. Os modelos de personagens beneficiam de maior detalhe, mas as animações continuam por vezes pouco convincentes, com expressões faciais algo estranhas a não serem incomuns. Também senti falta de maior variedade no design dos inimigos. Já no campo sonoro, a experiência é bastante mais sólida: a narrativa é reforçada por monólogos de Alan que recordam o estilo de Max Payne, o voice acting é competente e a banda sonora, pontuada por várias músicas conhecidas, está muito bem escolhida e contribui imenso para a identidade do jogo. De notar também a escolha em apresentar cada capítulo do jogo como se um episódio televisivo de uma série se tratasse, acho que foi também um ponto bem conseguido.

A narrativa manteve-se sempre muito interessante e deixou-me constantemente curioso com o que se iria passar a seguir.

Em suma, fiquei satisfeito por finalmente ter experimentado Alan Wake. A sua narrativa envolvente e peculiar conseguiu manter-me interessado até ao final, mesmo apesar da repetição inerente a atravessar longos trechos de floresta e enfrentar combates frequentes. Para além de uma sequela lançada em 2023, e de várias referências espalhadas por outros jogos da Remedy, a série recebeu também um título secundário, Alan Wake’s American Nightmare, que pretendo jogar em breve. Estou bastante curioso para ver de que forma a Remedy foi afinando e expandindo esta fórmula ao longo dos anos.