Shenmue (Sega Dreamcast / Sony Playstation 4)

Durante o (curto) tempo de vida da Sega Dreamcast, eu era um ávido fanboy desta empresa nipónica. E mesmo ainda não tendo a consola (não havia €€€ para tudo), sempre tentei convencer os meus amigos que a consola da Sega seria uma excelente alternativa face à Playstation 1 ou mesmo à sua sucessora. Um dos jogos que sempre me impressionou foi precisamente o Shenmue de Yu Suzuki, pela liberdade que nos dava enquanto jogadores (sem dúvida um pioneiro do open world) mas também pelos gráficos extremamente bem detalhados para a época. Entretanto quando consegui realmente juntar dinheiro para comprar uma nova consola (em 2002), já a Dreamcast estava morta na Europa, pelo que optei antes por comprar a Nintendo Gamecube, que também tinha um catálogo de videojogos bastante promissor, bem como alguns clássicos da Dreamcast. Entretanto os preços dos Shenmue começaram a escalar e só consegui comprar o meu bem mais tarde, tendo-me custado 20€ na Cash Converters de Alfragide, assim como o Shenmue II, estando os 2 em óptimo estado. Entretanto, depois do Kickstarter do Shenmue III a Sega anunciou finalmente que iria remasterizar os Shenmue originais para os sistemas mais recentes, sendo que acabei por comprar a versão PS4 algures numa das promoções da Worten de “leve 3 pague 2”.

Jogo com sleeve, caixas, manuais e pequeno catálogo. Por algum motivo tenho 2 manuais idênticos

Apesar de ter experimentado o original, foi precisamente no remaster onde consegui terminar o jogo, pelo vou aproveitar para abrir o artigo precisamente para falar das diferenças entre ambas as versões. O remaster foi upscaled para 1080p, com algumas melhorias mínimas nos gráficos, apresentando no entanto a possibilidade de optarmos pelo voice acting em japonês ou inglês. Sinceramente prefiro jogar com o voice acting original, logo aqui está uma óptima melhoria! Os controlos, apesar de estarem longe de perfeitos, foram revistos, incluindo suporte aos analógicos e a algum controlo de câmara adicional . Podemos também salvar o nosso progresso no jogo a qualquer momento, para além de mais alguns pequenos extras como o suporte a troféus.

Remaster dois dois Shenmues para a Playstation 4

A história de Shenmue leva-nos a Dezembro de 1986 à pequena cidade de Dobuita, no Japão. O protagonista é Ryo Hazuki, um jovem estudante da secundária e também praticante de artes marciais que subitamente vê o dojo do seu pai a ser invadido por  mafiosos e o seu pai, Iwao Hazuki, a ser atacado por um misterioso homem chinês chamado Lan-Di, que lhe exige um artefacto que aparentemente estava escondido na sua propriedade. Depois de o obter, Lan Di assassina Iwao e põe-se em fuga. Naturalmente que Ryo quer vingança, começando a aventura precisamente no encalço de Lan-Di nas imediações do Dojo Hazuki, e a pouco e pouco vamos também desvendando um pouco do mistério acerca de Lan-Di, quais os seus motivos, bem como o passado de Iwao Hazuki.

Preparem-se para serem transportados para uma versão realista de uma pequena cidade japonesa em 1986

Shenmue é um jogo de natureza open world, bastante pioneiro no seu género, mas que se divide principalmente em 3 vertentes diferentes de jogabilidade. Por um lado temos as free quests, que envolvem toda a exploração das diferentes localizações que vamos tendo acesso, bem como as interacções com outras personagens. Temos também as sequências de pancadaria, onde o jogo se assume um pouco como um beat ‘em up. Também temos algumas cutscenes com Quick Time Events, algo que acabou por se tornar moda poucos anos depois de Shenmue ter vindo ao mundo. Por fim teremos ainda alguns segmentos de condução de veículos que também usam controlos diferentes.

À medida que personagens nos vão dando pistas chave, estas são registadas num bloco de notas.

A parte de toda a exploração é sem dúvida a que mais impressiona devido à atenção ao detalhe que Yu Suzuki e companhia levaram em conta. Shenmue usa um relógio interno onde o tempo não pára sendo que vamos presenceando transições de dia/noite (se bem que às 23:30 voltamos sempre para casa, afinal Ryo ainda é menor e bom rapaz), assim como diferentes condições meteorológicas. Os estabelecimentos comerciais têm horários fixos, e os NPCs possuem diferentes rotinas: de manhã vemo-los a sairem dos seus apartamentos para irem trabalhar, ao fim do dia vemo-los a voltar para casa, por exemplo. Para avançar na história vamos ter de falar com um infindável número de pessoas, se bem que alguns eventos apenas são despoletados a certas alturas do dia. Visto que no primeiro Shenmue não temos qualquer maneira de controlar o tempo, por vezes teremos mesmo de esperar que seja uma certa hora para entrar num certo local, por exemplo. Felizmente que podemos nos entreter com várias coisas enquanto esperamos, seja coleccionar bonecos, ou torrar moedas em arcades, incluindo jogar partidas dos clássicos Hang-On ou Space Harrier, nas suas versões originais.

As horas passam, as pessoas fazem as suas rotinas, a noite cai e abrem-se um novo leque de oportunidades

O sistema de combate já é algo inspirado em Virtua Fighter, o que sinceramente não resulta tão bem quando temos vários oponentes para defrontar ao mesmo tempo. A movimentação é um pouco lenta, e o problema do controlo de câmara (mais sobre isto em breve) também não ajuda. Temos no entanto muitos golpes e combos diferentes para aprender, algo que o jogo também nos encoraja a fazer no tempo livre: aprender novos golpes, e praticá-los. Isto é também um dos melhores passatempos que podemos fazer, pois à medida que vamos treinando as nossas habilidades (seja no dojo da família ou nalguns espaços abertos como um parque de estacionamento vazio em Dobuita), os golpes practicados vão ficando mais fortes, causando mais dano aos inimigos. Depois temos algumas cutscenes com QTEs e hoje em dia creio que toda a gente sabe a que tipo de jogabilidade se refere, algo que Shenmue foi um dos pioneiros. Eventualmente a história remete-nos para investigar as docas locais, onde teremos de inclusivamente de arranjar um emprego. É aqui que acabamos por ser um operador de empilhadoras, onde vamos tendo como tarefas diárias transportar contentores de um lado para o outro, nunca sem antes termos uma corrida matinal de empilhadoras, o que foi um detalhe muito engraçado.

Felizmente também dá bem para gastar o tempo (e dinheiro) a fazer muitas outras coisas que não seguir a história principal

A partir do momento em que ganhamos este emprego, no entanto, a nossa agenda acaba por ficar bem mais trancada, só podendo explorar Dobuita ao final do dia. É nesta fase do jogo também que eventualmente despoletamos uma série de eventos que nos vão levando para o final da primeira aventura, pelo que se quiserem explorar Dobuita por mais algum tempo, evitem ir às docas. No entanto, apesar de longo, este jogo tem no entanto um prazo para ser terminado. Temos até à primavera para o conseguir finalizar, o que acaba por ser tempo mais que suficiente, permitindo-nos explorar os locais e NPCs bem à vontade.

A nível de controlos, bom aqui é que a porca torce o rabo. A maior falha no design da Dreamcast não foi para mim a não inclusão de um leitor de DVD ao invés do formato proprietário GD-ROM, até porque em 1998 essa era uma tecnologia ainda muito recente e cara. Mas a falta de um segundo analógico na Dreamcast é um detalhe que a Sega deveria ter antecipado e corrigido: a Nintendo 64 apesar de não ter 2 analógicos já tinha o C-button a tomar funções similares no controlo de câmara e a Sony já tinha introduzido o Dual Shock a nível global em 1998. Ou seja, na versão Dreamcast usamos o D-pad para controlar Ryo e o analógico para controlar a câmara, o que no comando da Dreamcast se traduz em usar o mesmo polegar para ambas as funções, o que é chato. Para além disso a movimentação de Ryo é algo estranha, muitas vezes imprecisa, o que me levou no início a andar constantemente colado a paredes. Sim, mesmo na versão PS4 que já suporta 2 analógicos! De resto temos mais uma série de detalhes interessantes, mas também um pouco chatos por vezes. Por exemplo, para inspeccionar objectos nos cenários temos de: pressionar um dos botões de cabeceira para fazer zoom e eventualmente mudar a perspectiva para primeira pessoa. Depois, se já tivermos minimamente alinhados com o objecto que queremos inspeccionar, o jogo é inteligente e tranca a câmara nesse objecto, caso contrário temos de controlar a câmara manualmente para apontar para o objecto que queremos inspeccionar. Depois lá carregamos num botão de acção e vemos a mão de Ryo a pegar no objecto, onde podemos posteriormente rodar a mão com o analógico para melhor inspeccionar o objecto que agarramos. Abrir gavetas ou a porta do frigorífico é feita desta forma, bem como inspeccionar os seus conteúdos. Isto é giro pois oferece um realismo sem precedentes para a época, mas também acaba por irritar um pouco.

Algumas personagens estão incrivelmente bem detalhadas, aqui vemos Lan-Di, o assassino que procuramos.

Por fim, a nível audiovisual. Bom, devo dizer que não gostei muito do voice acting em inglês. Sim, é certo que é impressionante para a época todas as personagens terem as suas próprias falas, mas o voice acting em inglês não é o melhor. A versão PS4 felizmente, tal como já referido acima, permite-nos optar pelo voice acting em japonês o que prefiro até porque é bem mais fiel ao clima do jogo, afinal estamos a viver o dia-a-dia de um jovem japonês. De resto as músicas practicamente só existem em cutscenes, sendo bastante agradáveis. Já quando exploramos as ruas de Dobuita apenas ouvimos o burburinho de uma cidade em movimento, com alguns estabelecimentos a tocarem as suas próprias melodias para a rua. A nível gráfico, para um jogo lançado originalmente em 1999, estava de facto soberbo para a época, principalmente nos detalhes das personagens e suas expressões faciais. Os cenários também estavam incrivelmente detalhados para a época. O remaster é uma mera conversão com poucas melhorias neste aspecto, embora tenha reparado que quando anoitece, o jogo fica bem mais escuro no remaster, por algum motivo.

A versão Dreamcast traz também um disco extra, o Shenmue Passport que traz uma série de extras, incluindo algumas funcionalidades online.

Portanto, depois de ter jogado este Shenmue consigo perceber o porquê da Sega ter depositado tantas esperanças neste jogo, pois foi de facto absolutamente inovador para a época e pioneiro em muitos aspects de jogabilidade que vemos em jogos de aventura open world actualmente. Está longe de ser perfeito, com alguns controlos manhosos e a gestão do tempo não ser a melhor, mas devo dizer que gostei bastante, e vou começar muito em breve a sua sequela. Pelo pouco que investiguei antes de a começar, parece que melhoraram uma série de aspectos. Veremos!

Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
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2 respostas a Shenmue (Sega Dreamcast / Sony Playstation 4)

  1. Pedro Soares diz:

    Ainda tenho de jogar isto… deram-me uma DC há uns tempos com o jogo mas só testei o mesmo para ver se estava tudo a funcionar depois de uma limpeza na consola/comandos/VMU. Tenho de pegar nisto com o mindset certo senão já sei que não o acabo.

    • cyberquake diz:

      Sim, tem de ser com o mindset certo! Demorei algum tempo a terminar o Shenmue porque a minha primeira impressão foi má (legacy controls e cenas), mas ao fim de uns meses lá voltei a pegar e só o larguei quando terminei.
      Recomendo no entanto que experimentes a versão remastered, tens voice acting em Japonês e suporte aos 2 analógicos que melhoram um pouco os controlos.

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