Wolfenstein II: The New Colossus (PC)

O Wolfenstein: The New Order foi uma das melhores surpresas de videojogos que tive nos últimos anos. Depois do algo desapontante Wolfenstein de 2009 a série entrou num hiato indefinido até que a Bethesda/id Software decidem confiar nos suecos da MachineGames para lançarem mais um reboot desta série e aquele que eu considero definitivo, pois para além de possuirem uma jogabilidade old school aliciante e bem implementada, toda a narrativa que a acompanhava era igualmente excelente. E em 2017 a Machinegames volta à carga com esta sequela que não fica nada atrás do seu antecessor! O meu exemplar foi comprado no ebay algures em Dezembro passado por cerca de 4 dólares. Já os portes e alfândega é que é outra história…

Jogo com caixa e mini manual

Tal como o seu predecessor, este é um jogo que decorre durante a década de 60, numa realidade alternativa onde os nazis tinham vencido a segunda guerra mundial devido aos seus avanços tecnológicos e subjugaram todo o mundo ao seu domínio tirano. E a história começa logo após os eventos do final do jogo anterior, dos quais eu não me vou alongar muito mas digamos que o BJ Blazkowicz volta a não ficar em muitas boas condições físicas, pelo que começamos o jogo com os nazis no nosso encalço e temos de nos defender estando ainda em cadeira de rodas! Eventualmente nos recompomos de alguma forma e é tempo de voltar à carga e passar ao ataque. Esta sequela foca-se então em libertar os Estados Unidos e iremos visitar algumas das suas localizações, incluindo uma Nova Iorque devastada por um ataque nuclear, mas também Roswell, Texas, Nova Orleães e outras surpresas.

Confesso que estava à espera de encontrar mais níveis deste género, com mais localidades icónicas norte-americanas sob o domínio nazi

Também tal como o seu predecessor este jogo mantém uma jogabilidade old school onde poderemos carregar todas as armas que encontramos, ficando assim com um arsenal considerável à nossa disposição e o uso de medkits ou armaduras é também algo a ter em conta. Também poderemos jogar tanto à Rambo como à Hitman de uma maneira mais furtiva e o jogo é igualmente super divertido em ambos os casos! Existem alturas em que o jogo nos encoraja a jogar de uma maneira mais furtiva e sabemos que isso acontece quando entramos numa nova área e recebemos a notificação de um (ou mais) sinais de rádio terem sido detectados. Estes são sinais dos radios dos oficiais da zona, que nos indicam também uma ideia da sua direcçãao e distância. O objectivo seria então de os tentar eliminar silenciosamente, passando despercebidos por todos os inimigos normais (ou neutralizando-os também de forma silenciosa pelo caminho). Caso sejamos descobertos, os comandantes são alertados e fazem soar o alarme, ordenando a todos os inimigos naquela zona que nos ataquem e inclusivamente poderão até chamar reforços. Claro que quando isto acontece é mesmo altura de jogar à Rambo pois seremos assolados por dezenas de inimigos em simultâneo e tal como no jogo anterior poderemos inclusivamente usar mais que uma arma em simultâneo, o que nos dá muito jeito para rapidamente matar os inimigos que surjam no nosso caminho. Já não me recordo bem, mas creio que no jogo anterior apenas poderiamos usar 2 armas semelhantes em simultâneo, por exemplo 2 pistolas, metralhadoras, shotguns, etc. Aqui podemos misturá-las livremente e ocasionalmente ainda teremos acesso a algumas armas mais pesadas que poderão ser roubadas a certos inimigos como metralhadoras pesadas ou outras mais high tech como armas laser ou lança chamas poderosos.

O balanço entre acção pura e furtividade continua muito bom!

De resto é também um jogo com algum foco na exploração pois teremos inúmeros coleccionáveis inteiramente opcionais para descobrir e apanhar. Desde vários tipos de documentos que enriquecem um pouco o contexto da história daquele mundo, passando por artwork desbloqueável, jóias e ouro tal como nos Wolfenstein clássicos, entre outros como vinis de artistas e músicas fictícias que foram criados propositadamente para estes Wolfenstein e que mimicam de certa forma os artistas e géneros musicais mais populares da década de 60, mas com motivos alusivos à alemanha nazi. Bandas como os The Bunkers, por exemplo! Mas sem dúvida que os coleccionáveis mais úteis são os upgrades que poderemos aplicar em todo o nosso arsenal, ou no caso dos oficiais, poderemos também recolher dos seus cadáveres códigos de encriptação para serem usados nas máquinas enigma. Tal como manda a lei na década de 60, são cartões perfurados! Esses cartões poderão ser utilizados para desbloquear missões de assassinamento a outros oficiais mais poderosos, onde teremos a hipótese de regressar a zonas que já teríamos visitamos no modo história e assim colectar mais alguns coleccionáveis, para além de assassinar os novos comandantes.

Claro que o Wolf3D tinha de marcar uma vez mais a sua presença, mas agora com os papéis trocados

Visualmente é um jogo bem competente e algo variado nos seus cenários. Começamos por explorar uma Nova Iorque e seus túneis do metro completamente em ruínas, posteriormente a pequena cidade de Roswel repleta de lojas típicas dos anos 60, mas claro agora sempre com um toque alemão. Já a Nova Orleães é também uma sombra, sendo agora relegada para um ghetto onde os indesejáveis do regime viviam em condições miseráveis. Naturalmente teremos também inúmeros bunkers e bases militares todas high tech para explorar e o espaço voltou a não ser esquecido, mas confesso que preferi as missões lunares do primeiro jogo. Ainda assim confesso que estava à espera de explorar mais cidades típicas americanas ou seja, estava a contar ver mais localizações como Roswell que apresentam todo um look anos 60 que misturam a estética norte-americana dessa época com a nazi. O voice acting e a narrativa como um todo são excelentes, e apesar de termos algumas cenas bem tensas com os vilões, temos também muitas mais cutscenes bem humoradas pelo meio. A banda sonora oscila entre o ambiental, especialmente tensa nos momentos de furtividade, com o rock e electrónica mais enérgicos próprios para os intensos combates que iremos eventualmente travar. Por outro lado temos também aquelas adaptações de músicas rock-pop típicas da década de 60, mas adaptadas à realidade alternativa do domínio nazi, tal como já referi algures acima.

A narrativa continua fantástica, mas há também um maior número de situações cómicas à nossa espera

Portanto este Wolfenstein II foi mais uma óptima experiência e a MachineGames ficou uma vez mais de parabéns pela execução do jogo ser tão boa a todos os níveis. Confesso que ainda assim prefiro o The New Order por uma magra margem, mas este jogo é também excelente. Infelizmente, ao contrário do Wolfenstein: The Old Blood que foi originalmente idealizado como um conjunto de DLCs mas acabou por ser lançado à parte como um lançamento independente, aqui temos algumas histórias paralelas travadas por outros protagonistas para explorar, mas essas estão mesmo apenas disponíveis como DLC. Talvez se um dia os apanhar ao desbarato os compre, pois fiquei bem curioso com isso. Por outro lado também, este jogo foi sucedido pelo Wolfenstein: The Youngblood que já é uma experiência completamente diferente (com muito foco no co-op) e já não foi tão bem recebida. A ver então como vão dar continuidade à série no futuro!

Monkey Island 2: LeChuck’s Revenge Special Edition (PC)

Depois de ter terminado o primeiro Monkey Island e o ter achado um jogo excelente, foi tempo de pegar na sua primeira sequela. Tal como a versão do primeiro Monkey Island que cá trouxe, esta é também a Special Edition que veio incluído na colectânea Monkey Island: Special Edition Collection, cujo meu exemplar foi comprado no ebay algures no passado Dezembro por menos de 30€. Ao contrário do primeiro remake, este acaba no entanto por ser bem melhor conseguido, como irei detalhar mais à frente.

Jogo com caixa e manual

Edit: Recentemente comprei também na vinted uma compilação que traz nada mais nada menos que 10 aventuras gráficas clássicas da Lucasarts, incluindo uma versão DOS (floppy disk) do Monkey Island 2 original. É um lançamento exclusivo do mercado holandês (apesar de os jogos em si estarem em inglês). É também apenas a jewel case de um pacote maior em big box, mas mesmo assim achei que seria uma boa compra visto todos estes jogos da Lucasarts terem preços proibitivos actualmente.

Compilação com muitas aventuras gráficas clássicas da Lucasarts, exclusiva para o mercado holandês. Infelizmente, tirando o Sam and Max que é o único jogo do segundo CD, todas as outras versões aqui disponíveis parecem ser as de disquete.

O segundo videojogo desta saga decorre uns anos após os acontecimentos do primeiro Monkey Island, onde Guybrush Threepwood derrota o espectro do capitão LeChuck e torna-se finalmente um pirata de sucesso. Ou então não. A sua nova aventura é a de procurar o tesouro escondido de um outro pirata, mas como Guybrush continua algo fanfarrão e trapalhão, acaba por ficar preso na ilha de Scabb. Ilha essa que é controlada por um lacaio de LeChuck (Largo LaGrande) e que aterroriza a população daquela ilha, ao impor um embargo de quaisquer embarcações que lá possam chegar ou partir. A nossa primeira tarefa será mesmo a de lidar com Largo LaGrande e posteriormente poderemos explorar duas outras ilhas adicionais em busca de 4 pedaços do mapa que nos guiarão ao tal afamado tesouro. Pelo meio e de forma inadvertida, acabamos também por possibilitar que o pirata LeChuck ressuscite, agora como um zombie.

Tal como no remake do primeiro jogo poderemos transitar de forma rápida e limpa para a versão clássica, desta vez levando também o voice acting se assim o desejarmos

Tal como no seu antecessor o jogo está dividido em vários actos, onde o segundo (o tal onde teremos de encontrar as quatro peças do mapa do tesouro) é sem dúvida o mais longo, que nos obriga a resolver inúmeros puzzles que por sua vez irão abranger deslocações constantes às 3 ilhas. E este é uma aventura gráfica do estilo point and click onde se jogado no modo clássico possui uma interface semelhante à do primeiro jogo, com as acções disponíveis e o inventário sempre visíveis num menu na parte inferior do ecrã. Jogando no modo moderno, ao clicar com o botão esquerdo do rato irá fazer sempre com que nos desloquemos para o local clicado, enquanto que clicando com o botão direito do rato surge uma espécie de um menu radial que nos permite seleccionar qual a acção pretendida, acções essas que são dinamicamente diferentes consoante o contexto do objecto/personagem/local clicado. É um sistema que acaba por resultar bem melhor do que o introduzido no remake do primeiro jogo.

Uma vez mais, a atenção da Lucasarts ao detalhe é impressionante. Leiam a descrição deste póster várias vezes ao longo do jogo para terem uma ideia.

A narrativa continua excelente e bem trabalhada, com várias personagens novas a serem introduzidas, mas também o regresso de outras caras conhecidas que continuam com um charme único, como é o caso do chato do Stan, agora vendedor de caixões usados (e o seu puzzle associado é hilariante!), o eterno naufragado Herman Toothrot, ou a governadora Elaine. E apesar de o jogo ter os seus bons momentos e os habituais puzzles bizarros, sinceramente continuo a preferir o primeiro Monkey Island, que acho que conseguiu ser ainda mais original (todo o processo para aprender a lutar com a espada é simplesmente brilhante). No entanto tenho de dar o braço a torcer para a fase final. O puzzle que brinca com a música Dem Bones (que curiosamente só vim a conhecer no ano passado devido à brilhante versão dos Macabre) está muito bem implementado e a sequência final como um todo foi bastante surpreendente. Agora consigo entender a dor dos fãs que tiveram de esperar uns 7 anos por um novo Monkey Island!

Algumas personagens regressam como é o caso do chato do Stan. Mas aqui vamo-nos poder vingar de uma forma hilariante!

No que diz respeito aos audiovisuais, esta Special Edition permite-nos, tal como no remake do primeiro jogo, alternar livremente e em tempo real entre a nova versão e a clássica, com tanto os visuais como a música a mudar entre de uma forma bastante limpa. O lançamento original possui um grafismo muito bom para quem gosta de pixel art, como é o meu caso, com cenários muito bem detalhados, assim como as personagens e suas animações. Os visuais no remake estão melhores do que os introduzidos no primeiro jogo, com cenários lindíssimos e pintados à mão e a arte das personagens está agora muito superior ao que fizeram com o primeiro jogo. As músicas foram também regravadas com instrumentos reais, soando ainda melhor e introduziram também voice acting que se mantém muito competente. Desta vez, no entanto a Lucasarts fez magia e poderemos inclusivamente ouvir o voice acting quando transitamos para o modo clássico.

Um dos conteúdos extra aqui incluídos é um modo de comentário por parte dos criadores originais

Portanto estamos aqui perante mais uma excelente aventura gráfica, apesar de eu ter gostado um pouco mais do primeiro jogo. No entanto, o bom humor e uma narrativa animada continuam a reinar. No que diz respeito ao remake a Lucasarts fez um trabalho muito melhor do que no primeiro jogo, ao usar melhor arte para as personagens e cenários e introduzir o voice acting no modo clássico também. Para além disso, os fãs poderão desbloquear uma galeria de arte repleta de material da produção do jogo, assim como um modo “comentário” com os seus criadores. A maneira como esta aventura termina deixa-me no entanto bastante curioso para o The Curse of Monkey Island, que deverei jogar em breve.

The Secret of Monkey Island Special Edition (PC)

Finalmente lá me decidi a jogar este grande clássico das aventuras gráficas. Produzido originalmente pela Lucasarts em 1990, o The Secret of Monkey Island é uma aventura gráfica 2D do estilo point and click, com uma narrativa muito bem humorada e repleta de personagens memoráveis. Foi um jogo de grande sucesso dentro do seu género, com múltiplas versões a serem lançadas incluindo microcomputadores como o Atari ST, Commodore Amiga ou até o nipónico FM Towns. A Mega CD foi a única consola a receber uma conversão deste jogo, embora essa versão se tenha ficado unicamente por solo norte-americano. Anos mais tarde a Lucasarts decide criar remakes dos dois primeiros jogos, lançando-os na compilação Monkey Island: Special Edition Collection e foi essa a versão que joguei pois é a única que tenho actualmente na colecção. O meu exemplar foi comprado no passado mês de Dezembro no ebay por cerca de 30€. Lembro-me de ver este jogo a 10 ou 15€ novo na extinta Game e esperar que baixasse para os 3/5€, como muitos outros jogos de PC que por lá comprei, mas infelizmente a certo ponto o jogo desapareceu ou a loja fechou e nunca mais me lembrei do mesmo.

Colectânea que traz os remakes dos primeiros dois jogos da série

Edit: Recentemente comprei também na vinted uma compilação que traz nada mais nada menos que 10 aventuras gráficas clássicas da Lucasarts, incluindo uma versão DOS (floppy disk) do Monkey Island original. É um lançamento exclusivo do mercado holandês (apesar de os jogos em si estarem em inglês). É também apenas a jewel case de um pacote maior em big box, mas mesmo assim achei que seria uma boa compra visto todos estes jogos da Lucasarts terem preços proibitivos actualmente.

Compilação com muitas aventuras gráficas clássicas da Lucasarts, exclusiva para o mercado holandês. Infelizmente, tirando o Sam and Max que é o único jogo do segundo CD, todas as outras versões aqui disponíveis parecem ser as de disquete.

E o jogo coloca-nos no papel de Guybrush Threepwood, um jovem aspirante a pirata que visita à ilha de Mêlée Island em busca de uma oportunidade. Eventualmente lá teremos de falar com “três importantes piratas” que nos obrigam a completar três desafios para sermos considerados piratas: derrotar a melhor espadachim da ilha, roubar um objecto valioso da mansão da governadora e claro, descobrir um tesouro escondido. Depois de completarmos os três objectivos algo acontece: o capitão pirata fantasma LeChuck e sua tripulação espectral invadem a ilha e raptam a governadora, levando-a para a misteriosa Monkey Island. Naturalmente que teremos também de arranjar forma de lá chegar e arruinar os seus planos!

É incrível, mas não há cá NPCs fracos. É fácil vermos que estamos perante um jogo com um bom sentido de humor quando o vigia da cidade é meio cego

Ora este é uma aventura gráfica do estilo point and click, tal como referi acima. Na incarnação original toda a interface era feita pelo rato onde na parte inferior do ecrã teríamos disponíveis uma série de verbos como caminhar, observar, falar, apanhar entre outros, assim como o inventário. Então o grosso da jogabilidade traduzia-se em seleccionar o verbo apropriado e com o ponteiro do rato clicar onde o quiséssemos aplicar, incluindo os próprios objectos do inventário. O remake possui uma funcionalidade de alternar em tempo real para o jogo original e a sua versão moderna. Nesta última a interface foi ligeiramente modificada com acções pré-determinadas a surgirem no canto inferior esquerdo e direito do ecrã (traduzindo-se para os botões esquerdo e direito do rato) e estas acções mudam consoante a zona onde passamos o cursor do rato. Por exemplo, passando o rato por uma porta, tipicamente a acção do botão esquerdo é “caminhar para a porta”, enquanto que a do lado direito é “abrir porta”. Para seleccionar outras acções podemos alternar entre as mesmas com a scrolling wheel, pressionar a tecla V para mostrar uma janela com todos os verbos disponíveis ou simplesmente pressionar as suas teclas de atalho como O de Open, P de Pick up, L de Look e por aí fora.

Alguns dos puzzles são bastante bizarros, outros algo frustrantes, mas outros ainda bem originais, como este “mapa do tesouro”.

Este jogo tem também a particularidade de ir um pouco contra a tendência das aventuras da Sierra, onde poderíamos morrer ao mínimo erro. Aqui as situações onde podemos morrer e obrigatoriamente recarregar o nosso último save são mínimas e não muito fáceis de obter, pelo que poderemos jogar um pouco mais descansados. Tem no entanto alguns puzzles fora do comum e por vezes irritantes, como quando precisamos de assaltar um cofre, ou transportar grog pela cidade para libertar um prisioneiro. A ideia é que o grog (bebida alcoólica preferida destes piratas) é altamente corrosivo e poderá então ser usado para dissolver a fechadura da cela. Mas para isso teremos de o transportar em canecas que rapidamente também se dissolvem. A solução é caminhar rapidamente pela cidade e verter o líquido de caneca em caneca, o que é um pouco atabalhoado de se fazer com esta nova interface. Outros puzzles são incrivelmente originais. Para nos tornarmos piratas teremos de derrotar um mestre espadachim. Naturalmente temos zero habilidade para isso então precisamos primeiro de treinar o combate. O nosso treinador, depois de uma aula básica de luta com espadas diz-nos que a chave para o sucesso é insultar o oponente e responder adequadamente aos insultos que nos lançam. Um exemplo que nos dá: se um pirata nos diz “you fight like a dairy farmer” (tu lutas como um produtor de leite) a nossa resposta deverá ser “How appropriate. You fight like a cow” (Que apropriado. Tu lutas como uma vaca). A partir dessa altura iremos passar a encontrar vários piratas a passearem-se pela ilha. Quando estes se cruzam connosco a ideia será precisamente a de treinarmos estes insultos e as suas respostas, com muitos trocadilhos e punchlines deliciosos. Quando já soubermos de insultos suficientes e suas respostas, lá somos convidados a enfrentar o mestre.

Apesar de alguma da arte das novas personagens, particularmente a de Guybrush, ser horrível, felizmente poderemos alernar para o jogo antigo em tempo real a qualquer momento

No que diz respeito ao aspecto gráfico, vamos fazer aqui um pequeno enquadramento: a versão original deste jogo sai apenas com suporte a gráficas EGA (16 cores em simultâneo no ecrã), sendo posteriormente lançada uma versão VGA mais colorida e os retratos ampliados das personagens com quem vamos dialogando são agora mais realistas. Posteriormente essa versão é relançada em formato CD, com uma nova banda sonora em CD audio a acompanhar. Qualquer uma dessas versões possuía lindíssimos gráficos em pixel art e boas animações. Este remake de 2019 coloca-nos com visuais actualizados e se por um lado os cenários, agora que parecem retirados de pinturas, até que estão muito bem conseguidos, por outro as personagens ficaram a meu ver muito piores. Tal como já referi acima podemos alternar livremente em tempo real entre a versão moderna e clássica, sendo que para além dos gráficos mudarem, a banda sonora também, o que é outro detalhe interessante. Ainda assim, a única razão que me levou a não usar a vista clássica constantemente é o facto de o remake incluir, pela primeira vez, voice acting. Aparentemente muitos dos actores que deram a voz nas sequelas foram aqui utilizados e o resultado é muito bom.

Sem dúvida que o voice acting é a adição mais importante deste remake. Isto torna o Stan especialmente chato, o que é delicioso

Portanto este é uma excelente aventura gráfica, com alguns puzzles hilariantes, outros extremamente originais, um excelente sentido de humor e repleto de personagens super carismáticas, como o vigia cego, a tribo de canibais vegetarianos, ou o chato do vendedor de barcos usados. A narrativa é por vezes tão bizarra que só temos vontade de clicar nas repostas erradas nos diálogos só para ver onde é que a conversa vai! Este remake peca pelos visuais das personagens não ser tão bom quanto o original e a nova interface não ser a mais adequada para resolver alguns dos puzzles. No entanto, o voice acting e a possibilidade de alternar entre a versão moderna e clássica a qualquer momento são pontos muito fortes. Ansioso por jogar a sequela!

Fighting Force (PC)

Desenvolvido pelas mesmas mentes por detrás do Tomb Raider, este Fighting Force começou por ser originalmente concebido para ser um Streets of Rage em 3D. No entanto a Sega acabou por não dar luz verde ao projecto (apostando antes no Die Hard Arcade), pelo que a Core não desistiu da sua ideia, transformando o jogo neste Fighting Force que aqui vos trago, cujo foi lançado para as principais plataformas da época, excepto a própria Sega Saturn, claro. Aparentemente o desenvolvimento da versão Saturn foi levado até bastante tarde, mas algures em 1997 o seu lançamento acabou por ser cancelado. O meu exemplar foi comprado algures em Setembro de 2017 na feira da Vandoma no Porto por cerca de 3€.

Jogo com big box, jewel case, manuais e papelada

A história leva-nos ao “futuro”, poucos anos após o virar do milénio. Um poderoso e influente cientista acreditava piamente no apocalipse que aconteceria no ano 2000, mas quando chega essa fatídica altura e nada acontece, decide forçar esse evento por suas próprias mãos, recorrendo para isso ao seu poderoso exército. Mas claro, 4 pessoas (2 homens e 2 mulheres de origens e profissões distintas) decidem resistir e colocar um travão no Dr. Dex Zeng.

Este é então um beat ‘em up em 3D, dos primeiros que tentou mesmo transportar esse género para os gráficos em 3D poligonal. Infelizmente não é um jogo que tenha envelhecido muito bem, mas sinceramente não o acho assim tão mau. Os controlos consistem em usar as setas do teclado para o movimento, mais outras teclas para socos, pontapés, saltar, correr e agarrar/atirar inimigos. Cada personagem possui diferentes golpes, incluindo um special único, que por sua vez nos retira um pouco da barra de vida de cada vez que os usemos. No que diz respeito às personagens em si, a Mace Daniels e Hawk Manson são as mais balanceadas, o Smasher é um brutamontes super poderoso mas lento, enquanto que a Alana é a mais ágil mas mais fraca fisicamente. Tal como era habitual nos beat ‘em ups das gerações de consolas anteriores, poderíamos apanhar armas, seja ao “roubá-las” aos inimigos que as carregassem, ou depois de destruir objectos que as escondiam. Para além de armas, poderemos também encontrar outros itens como dinheiro que nos dão pontos adicionais, ou medkits ou comida que nos regenerem parcialmente a nossa barra de vida.

Começamos por escolher que personagem queremos representar, sendo que cada um possui diferentes atributos e golpes especiais

E estes são os básicos do Fighting Force. Não o considero um jogo mau tendo em conta a época em que foi lançado e o que a Core Design tentou aplicar aqui. Mas eis os pontos onde acho que o jogo envelheceu pior: o jogo é bastante repetitivo e a decisão de ter uma câmara mais dinâmica não é a melhor, visto que não a podemos controlar, mas vamos por partes. Os níveis são maioritariamente arenas grandes, sejam grandes corredores, ruas ou pátios. Ocasionalmente teremos de partir portões ou paredes para progredir nos mesmos, mas na sua maioria acabam por se tornar níveis monótonos e algo vazios, com grupos de 3, 4 inimigos a surgirem consecutivamente até que o nível termina quando os derrotamos a todos. Existe no entanto um factor que aumenta a longevidade do jogo, pois em pelo menos dois momentos temos de decidir qual dos 3 caminhos disponíveis seguir, resultando em alguns níveis que apenas poderemos visitar numa outra partida. Já a escolha da câmara mais dinâmica também acho que não resulta, pois por um lado não a podemos controlar, por outro volta a vir o tema dos níveis serem amplos, porém vazios. Nas eras 8 e 16bit já tivemos inúmeros beat ‘em ups que, apesar de serem inteiramente em 2D, nos davam a liberdade de mover em 3D pelas ruas, com uma câmara naturalmente fixa. Creio que se tivessem seguido esta abordagem poderiam ter apostado mais em enriquecer os cenários. É que comparado com o Dynamite Deka/Die Hard Arcade, lançado um ano antes nas arcades, esse jogo é bem mais dinâmico e divertido!

Apesar dos cenários serem algo vazios, temos muita coisa para destruir se assim o entendermos. Para além de nos darem mais pontos, por vezes escondem itens regenerativos ou armas que podemos usar no combate

No que diz respeito aos gráficos, as personagens e cenários são totalmente renderizados em 3D poligonal. As personagens e itens possuem um detalhe gráfico bom quanto baste para a época, já os cenários acho que poderiam por vezes ser um pouco mais aprimorados, como já referi acima. Nada de especial a apontar aos efeitos sonoros, já a banda sonora, apesar de a mesma até ser moderadamente eclética, apresentando-nos algumas músicas electrónicas ou rock, acho que a mesma poderia e deveria ser um pouco mais enérgica para um jogo deste tipo.

Sabem o que não pode faltar num beat ‘em up? Níveis em elevadores. Aqui temos pelo menos dois!

Portanto este Fighting Force é um jogo que envelhece um pouco mal com o decorrer dos anos pelas razões que mencionei dois parágrafos acima. No entanto não o considero um mau jogo de todo e, fanboy da Sega como sou, gostaria que a versão Saturn tivesse visto a luz do dia. O jogo teve um sucesso comercial considerável, com uma versão para a Nintendo 64 a sair já em 1999, meros meses antes da sua sequela, Fighting Force 2 ter saído para a Playstation e Dreamcast. E ora cá está mais um jogo com má fama, que planeio jogar em breve e tirar isso a limpo.

Machinarium (PC)

Continuando pelas rapidinhas, mas voltando agora ao PC, aproveitei para jogar mais um título do meu extenso backlog no steam. Produzido pelos checos Amanita Design, que por sua vez já haviam produzido uns quantos jogos mais pequenos anteriormente, creio que foi mesmo este Machinarium que os trouxe à ribalta, principalmente pela sua direcção artística, algo que já vinha a ser evidente mesmo nos seus jogos anteriores. O meu exemplar creio que foi comprado nalgum indie bundle a um preço bem reduzido.

O jogo leva-nos a acompanhar a história do pobre robot Joseph, que logo no início da aventura se vê atirado para um monte de sucata. Após nos recompormos e finalmente conseguirmos entrar novamente na cidade é que nos vamos apercebendo da história que está por detrás, sendo esta contada de uma forma minimalista, mas brilhante. O nosso papel será o de resgatar a namorada de Joseph, que havia sido raptada por um conjunto de robots bandidos que andam por lá a causar o pânico na cidade e por várias vezes os iremos encontrar ao longo do jogo.

O mundo de Machinarium é brilhantemente representado, com belíssimos cenários que parecem pintados à mão e robots dos mais variados feitios com boas animações também

Esta é então uma aventura gráfica do estilo point and click, mas também com uma interface muito minimalista, pois é literalmente apontar o rato e clicar, com o ponteiro a mudar automaticamente de forma consoante o tipo de acção que podemos desencadear, seja andar ou interagir/falar com outros objectos e robots que por lá habitam. No entanto, apenas sabemos que podemos interagir com alguma coisa quando nos aproximamos da mesma, tenham isso em consideração. Coleccionar e combinar itens é parte integrante deste tipo de jogos e tal aqui não falta, assim como alguns puzzles e outros mini-jogos que teremos eventualmente que resolver. Um outro detalhe interessante a mencionar é que o corpo de Joseph é extensível, podendo alongar e encurtar-se, o que será também necessário utilizar para avançar em muitos dos desafios que o jogo nos coloca.

A narrativa é também simplista, mas resulta muito bem

Visualmente é um jogo impressionante por toda a sua direcção artística. Machinarium (presumo que seja esse o nome da cidade), é uma cidade onde tudo é mecanizado, desde os robots com aspecto mais humanóide e outros com formas de animais como gatos ou pássaros. A cidade de Machinarium é também suja e enferrujada por tudo isso e os cenários acabam por ser muito bem desenhados. As animações também estão excelentes, assim como a banda sonora que é bastante atmosférica e se adequa perfeitamente à narrativa. A narrativa por si só é bastante minimalista, não existindo qualquer diálogo escrito ou falado. Os diálogos vão então sendo interpretados através de balões de banda desenhada onde no lugar de palavras vamos mesmo vendo algumas animações que ilustram a mensagem que está a ser passada. Resulta muito bem!

Se estivermos presos nalguma parte do jogo temos também um sistema de hints que nos vão dando algumas dicas de como prosseguir

Portanto devo dizer que este Machinarium foi uma óptima surpresa. É uma aventura gráfica com uma direcção artística brilhante e uma narrativa minimalista, porém muito bem conseguida. Depois de o jogar fui cuscar o restante catálogo da Amanita Design e, vendo outros videojogos com direcção artística excelente, será um estúdio que merecerá muito mais da minha atenção.