Star Fox Guard (Nintendo Wii U)

Depois de terminar Star Fox Zero mantive a Nintendo Wii U ligada à corrente para ir jogando, de forma esporádica, este título que foi também lançado na mesma altura. Aliás, as primeiras edições físicas de Star Fox Zero incluíam igualmente este jogo em formato físico. Todos os outros lançamentos foram digitais, incluindo as caixas que víamos nas superfícies comerciais, que traziam apenas um código para fazer download do jogo. Na altura não encontrei nenhum negócio particularmente barato dessa edição de Star Fox Zero, pelo que, quando vi esta versão digital à venda numa Worten por menos de 3€, não resisti e acabei por a trazer para casa.

Caixa com papelada e um código de download

Este Star Fox Guard demarca-se dos restantes títulos da série por apresentar um estilo de jogo completamente distinto do que nos habituou. Trata-se, nada mais nada menos, de um tower defense, ainda que com aquele toque especial que associamos à Nintendo. Ainda assim, convém referir que o jogo foi desenvolvido pela Platinum Games, mas certamente perceberam ao que me referia. O objectivo passa por ajudar Grippy, tio de Slippy Toad, a defender as suas bases de extracção de minerais, que têm vindo a ser recorrentemente atacadas por vários robots. As bases são compostas por corredores labirínticos, equipados com câmaras pré-posicionadas, também elas equipadas com armas que disparam raios laser. Em cada nível somos invadidos por vários tipos de robots e o nosso objectivo é impedir que estes destruam o equipamento localizado no centro da base.

Uma vez mais, estas imagens promocionais são mesmo a melhor forma de ilustrar o que decorre em ambos os ecrãs

Sendo este um exclusivo de Wii U, é expectável que tire partido da arquitectura única do sistema, com o que vemos no ecrã da televisão e no comando a ser diferente. No ecrã da TV temos acesso, em tempo real, ao feed de vídeo de todas as câmaras espalhadas pelo labirinto, enquanto que no comando é apresentado um mapa da base com o posicionamento das câmaras. É neste ecrã que escolhemos, através do toque, qual a câmara que queremos controlar, apontar e disparar sobre os alvos. O jogo obriga-nos assim a dividir constantemente a atenção entre os dois ecrãs. No ecrã da TV, as câmaras seguem uma ordem numérica ao longo das margens, sendo que a parte central destaca a câmara actualmente seleccionada. No entanto, como essa ordem não corresponde ao posicionamento real das câmaras no mapa, sempre que detectamos um inimigo prestes a entrar na base temos de desviar a atenção para o ecrã do comando, localizar a câmara mais bem posicionada para lidar com essa ameaça, seleccioná-la e agir. À medida que avançamos no jogo, os inimigos tornam-se não só mais numerosos, mas também mais desafiantes, pelo que esta constante alternância entre ecrãs pode tornar-se problemática.

Os gorilas, para além de serem robots de ataque que vão ao centro, também nos atacam as câmaras. Devemos mesmo ser o mais rápidos possível a reagir a ameaças, caso contrário ficamos com muitas câmaras fora de acção.

Antes de aprofundar um pouco mais as mecânicas, convém referir que existem dois tipos de robots: os de combate, que procuram activamente o núcleo da base para o atacar, e os caóticos. Estes últimos não atacam directamente o centro, existindo apenas para atrapalhar as nossas defesas. Podem desactivar câmaras, lançar fumo para o ecrã de forma a camuflar a entrada de outros robots, sugar câmaras pelo ar ou até projectar imagens falsas, escondendo a passagem de inimigos. Já os robots de combate vão evoluindo ao longo do jogo. Um dos modelos iniciais, por exemplo, está equipado com um escudo indestrutível que se mantém sempre virado para a câmara mais próxima, obrigando-nos a seleccionar uma câmara alternativa com ângulo suficiente para o atacar. Robots camuflados ou capazes de dar saltos longos são outras ameaças que surgem mais tarde. O nível termina quando todos os robots de combate forem destruídos, sendo-nos indicada no centro do ecrã a quantidade restante. Embora não sejamos obrigados a destruir os robots caóticos, fazê-lo é importante, não só porque podem deixar-nos indefesos ao desactivar câmaras, mas também porque os pontos obtidos ao destruí-los são essenciais para desbloquear melhorias.

Isto é o que vemos no ecrã do comando. Com o toque, podemos seleccionar que câmara controlamos, bem como a posição de certos robots que nos atacam a base. Também poderemos reajustar o posicionamento das câmaras.

À medida que progredimos, os níveis tornam-se cada vez mais caóticos. O número de inimigos aumenta, tal como a variedade de ameaças, criando várias situações de pânico. Uma mecânica essencial para o sucesso passa pela possibilidade de reposicionar as câmaras no labirinto através do touch screen do comando, algo que pode ser feito antes de cada missão. No que toca a conteúdo desbloqueável, para além de missões especiais de dificuldade acrescida, podemos também desbloquear câmaras especiais. A lock-on cam permite trancar até seis inimigos em simultâneo e, ao disparar mísseis em trajectória parabólica, é particularmente eficaz contra robots com escudo. Segue-se uma câmara que activa vídeo em câmara lenta, ideal para confrontos com bosses. Mais tarde desbloqueamos uma câmara capaz de congelar inimigos, exigindo depois o uso de outra câmara para os destruir. Outras variantes vão surgindo, como uma câmara aérea ou outra com tecnologia de raios-X. O “problema” é que inicialmente apenas podemos usar uma destas câmaras por nível, chegando a um máximo de três mais tarde, caso obtenhamos pontos suficientes.

O jogo tem também uma integração com amiibos que nos permite, uma vez por dia, chamar um ataque aéreo que limpa o mapa de todos os inimigos.

O verdadeiro segredo para o sucesso passa não só por concentração máxima e nervos de aço, mas também por um planeamento cuidadoso antes de cada missão. Apesar de ser possível completar os níveis com o posicionamento original das câmaras, o ecrã do comando fornece informação preciosa, indicando os pontos de entrada com maior probabilidade de ataque. A possibilidade de repetir uma missão falhada revela-se igualmente essencial para ajustar estratégias. Assim que desbloqueamos câmaras especiais, sobretudo quando passamos a poder usar mais do que uma, posicionar uma slow cam ou lock-on em pontos chave próximos do centro da base pode fazer toda a diferença.

No final das missões em cada planeta, esperem muitas vezes por um boss!

Visualmente, trata-se de um jogo bastante simples, com cenários compostos por labirintos de paredes metálicas que mantêm padrões cromáticos semelhantes ao longo do jogo. Ainda assim, os níveis decorrem em vários planetas do sistema Lylat, começando em Corneria e passando por locais familiares como Titania, Zoness ou Fortuna, onde a vegetação chega mesmo a crescer nas paredes e a obstruir o campo de visão, culminando em Grippia, um planeta exclusivo deste jogo. No entanto, o foco está claramente nos labirintos e nos robots, deixando pouco espaço para apreciar as paisagens. É precisamente no design dos robots que o jogo revela grande charme, com um estilo marcadamente cartoon e vários piscadelas de olho à história da própria Nintendo. Para além de robots com cabeças semelhantes à do R.O.B. da NES, encontramos outros inspirados em Donkey Kong ou nos fantasmas Boo. Robots em forma de televisões ou pássaros que se apaixonam pelas nossas câmaras e tentam levá-las consigo são detalhes tipicamente Nintendo, impossíveis de ignorar sem um sorriso. Aparentemente, o jogo contou com uma forte influência de Shigeru Miyamoto no seu desenvolvimento, algo que se reflecte nestes pequenos pormenores. No campo sonoro, o trabalho é competente, tirando partido do altifalante do comando da Wii U, com grande parte do áudio a ser reproduzido a partir daí. A narração cumpre, tal como a banda sonora, que contribui para aumentar a tensão nos momentos mais críticos.

Os pontos que vamos ganhando vão desbloqueando níveis extra, assim como novas câmaras especiais

Tendo em conta que o número de missões especiais é superior ao das normais, sei que ficou ainda muita coisa por jogar. No entanto, não sendo particularmente fã de jogos do género tower defense, e tal como aconteceu em Star Fox Zero, a necessidade constante de dividir a atenção entre dois ecrãs que não estão naturalmente próximos, como acontecia na Nintendo DS, acaba por ser frustrante. Isso levou-me também a jogar em sessões relativamente curtas ao longo de uma semana. Ainda assim, mesmo não sendo um jogo feito à minha medida, é impossível ignorar o charme que um título da Nintendo consegue imprimir, capaz de arrancar alguns sorrisos e até pequenas gargalhadas ao longo da experiência.

Star Fox Zero (Nintendo Wii U)

Tempo de voltarmos à Nintendo Wii U para um jogo muito curioso do seu catálogo e que, até ao momento de escrita deste artigo, é um dos pouquíssimos títulos publicados pela própria gigante nipónica que nunca recebeu qualquer conversão para a sucessora Nintendo Switch. Representa também uma importante parceria entre a Nintendo e a Platinum Games, que já haviam colaborado anteriormente em Bayonetta 2. Curiosamente, é também o terceiro Star Fox “principal” a ser desenvolvido por um estúdio externo à Nintendo, tal como aconteceu com Star Fox Adventures (Rare) ou Star Fox Assault (Namco). O meu exemplar, sinceramente, já não me recordo onde ou quando o comprei, mas tenho ideia de ter sido barato, dez euros ou menos. Tenho pena, isso sim, de não ter conseguido adquirir ao desbarato a edição de coleccionador, que incluía também o Star Fox Guard em formato físico.

Jogo com caixa e papelada

Este jogo é um reboot de Star Fox 64, onde controlamos Fox McCloud que, em conjunto com os seus wingmen, irá lutar pelo futuro de Corneria, agora ameaçada pelas forças de Andross, outrora um cientista promissor que acaba por se revoltar contra o resto da galáxia, criando um autêntico exército que toma o planeta de assalto.

Tal como noutros jogos da série, existem vários caminhos alternativos e missões secretas que lhe aumentam a longevidade

No que toca à estrutura do jogo, este divide-se entre secções on rails, onde somos conduzidos por um percurso pré-definido e temos de destruir vagas sucessivas de inimigos e obstáculos para evitar, e áreas mais abertas que oferecem maior liberdade de movimentos e objectivos mais abrangentes. Pelo caminho podemos recolher power ups que melhoram a nossa capacidade ofensiva ou defensiva. Para além dos disparos normais, é possível efectuar charged shots, mantendo o botão de disparo pressionado durante alguns segundos antes de o largar. Estes disparos carregados podem fazer lock-on a inimigos e, no caso do veículo terrestre Landmaster, permitem até fixar três alvos distintos em simultâneo. Temos ainda acesso a bombas de munição limitada, mas extremamente eficazes, bem como aos anéis coloridos que recuperam parte da nossa barra de vida. Por outro lado, a recolha de três anéis dourados concede uma vida extra. Cada nível encontra-se dividido em várias fases, com um checkpoint no início de cada uma, pelo que ao perdermos uma vida recomeçamos a partir desse ponto.

Estes ecrãs promocionais são a melhor forma de ilustrar a assimetria entre os diferentes ecrãs de jogo

Star Fox Zero apresenta também vários veículos jogáveis. Para além dos clássicos Star Wing, a nave principal, e Landmaster, um veículo terrestre com controlos semelhantes aos de um tanque, temos ainda o Walker e o Gyrowing. O Walker, introduzido originalmente em Star Fox 2 para Super Nintendo, jogo que só viria a ser oficialmente lançado com a Super Nintendo Mini, é um veículo bípede que se assemelha a uma avestruz e oferece maior liberdade de movimentos em terra, sobretudo em espaços fechados. Já o Gyrowing funciona como uma espécie de helicóptero e apresenta um esquema de controlo bastante distinto. Com este veículo podemos lançar um pequeno robot, o Direct-i, que explora áreas apertadas e permite efectuar hacking de determinados equipamentos. À medida que progredimos, desbloqueamos também transformações entre veículos, com o Star Wing a poder transformar-se num Walker e vice-versa com o simples pressionar de um botão, ou com o Landmaster a ganhar temporariamente capacidades limitadas de voo.

Quando descemos o robot, o ecrã do comando passa a mostrar a perspectiva do mesmo

Até aqui e na teoria, tudo parece perfeito, mas os problemas surgem quando entram em jogo as particularidades da Wii U e do seu comando. Este sistema é conhecido pela sua jogabilidade assimétrica e, neste caso, o ecrã do GamePad é utilizado para apresentar uma perspectiva na primeira pessoa, a partir do cockpit do veículo que estamos a controlar. Esta vista torna-se essencial em vários momentos, sobretudo nas secções de maior liberdade de movimentos, onde a pontaria precisa é fundamental. O problema é que a perspectiva apresentada no comando é frequentemente distinta da que vemos no televisor, obrigando-nos a dividir constantemente a atenção entre dois ecrãs. Para agravar a situação, esta “mira fina” depende também dos sensores de movimento do comando e confesso que nunca fui grande fã desta solução. Star Fox Zero está repleto de momentos exigentes, algo expectável num jogo com envolvimento da Platinum, e gerir dois pontos de vista diferentes, no meio de intenso fogo inimigo, acaba por gerar confusão mais do que acrescentar profundidade. Até porque este, tal como outros Star Fox que seguem a fórmula mais clássica da série, possui vários caminhos alternativos e missões secretas que poderemos desbloquear, aumentando consideravelmente a sua longevidade. Mas assim que vi os créditos pela primeira vez, não tive interesse em continuar a jogar.

Visualmente é um jogo muito bonito

Visualmente, trata-se de um jogo bastante interessante. A Wii U, apesar de ter chegado ao mercado já algo limitada do ponto de vista tecnológico, representou ainda assim um salto qualitativo considerável para as séries Nintendo, permitindo finalmente experienciar muitos destes universos em alta definição. A Platinum Games fez aqui um óptimo trabalho, com gráficos detalhados, boa fluidez e uma variedade de cenários muito apreciável. No que toca ao som, a banda sonora é orquestral e épica, e o voice acting revela-se competente. No entanto, mais uma vez, o jogo insiste em tirar partido do comando da Wii U, fazendo com que todas as vozes sejam reproduzidas directamente no GamePad, como se fossem comunicações rádio vindas do cockpit.

Lançado no apogeu dos amiibo, poderemos desbloquear algumas naves adicionais, incluido o Arwing clássico de SNES.

Star Fox Zero acaba por ser um jogo interessante, um shooter competente e repleto de acção tal como a Platinum nos habituou. No entanto acaba por tropeçar na forma como tenta integrar o comando da Wii U na sua jogabilidade. Na minha opinião, teria beneficiado bastante de uma interface mais tradicional. A Platinum foi claramente capaz de criar confrontos intensos e espectaculares no espaço, mas fê-lo à custa de mecânicas e controlos desnecessariamente complicados e a falta de opções de personalização agrava ainda mais o problema. Por exemplo, mesmo sendo possível desactivar os sensores de movimento, a experiência raramente melhora de forma significativa. Segue-se, no entanto, Star Fox Guard, também produzido pela Platinum Games e com uma abordagem bastante diferente. Esperem uma análise em breve!

ZombiU (Nintendo WiiU)

Recentemente fui desafiado pelos meus colegas do podcast TheGamesTome a jogar este ZombiU no âmbito da nossa rubrica Backlog Battlers, uma espécie de clube de leitura onde nos desafiamos uns aos outros a jogar certos títulos que temos em lista de espera. Curiosamente este era um jogo que já planeava experimentar em breve, pelo que o desafio foi bem-vindo. Tal como tem sido habitual quando escrevo sobre um jogo nesse contexto, aproveito também para deixar o vídeo do episódio onde falamos do mesmo. Quanto ao meu exemplar, já não me recordo onde ou quando o comprei, muito menos quanto terá custado, mas terá sido seguramente barato.

Jogo com caixa e folhetos com instruções básicas e um pequeno mapa

A Ubisoft foi um dos estúdios ocidentais que mais apoiou a Nintendo Wii, não só com inúmeros videojogos pensados para um público mais casual, como a série Rayman Raving Rabbids ou Just Dance (cujo Just Dance 2020 foi até um dos últimos títulos a receber edição física para o sistema), mas também com experiências dirigidas a uma audiência mais tradicional, como Red Steel, um dos jogos de lançamento da Nintendo Wii. Com o lançamento da WiiU, um dos jogos de lançamento da Wii. Com a chegada da WiiU, a Ubisoft voltou a assumir-se como parceira estratégica da Nintendo, sendo ZombiU parte da linha inicial da consola e tirando partido das suas funcionalidades únicas.

Na sua essência, ZombiU é um verdadeiro survival horror. Decorre numa Londres moderna devastada por uma epidemia zombie (as semelhanças com o filme 28 Days Later são inevitáveis), onde controlamos um protagonista conduzido para um abrigo seguro numa estação de metro. Esse abrigo é vigiado por uma misteriosa figura que, através dos sistemas de vigilância, nos vai dando instruções de sobrevivência e enviando em missões de exploração às zonas vizinhas, quase sempre em busca de mantimentos. É nessas expedições que acabamos por encontrar outros NPCs, os quais nos atribuem novos objectivos e fornecem informações adicionais acerca da catástrofe, da sua origem e de possíveis curas.

As armas de fogo devem ser usadas com moderação. As munições são limitadas e o seu som atrai outros zombies

O conceito de survival horror é sustentado por vários factores, como a escassez de munições e provisões ou a presença de uma funcionalidade de morte permanente. Basta uma mordidela para a personagem ficar infectada. No entanto, em vez de surgir um game over, o jogo coloca-nos na pele de outra personagem aleatória que desperta no mesmo abrigo e herda os objectivos do protagonista anterior. Aqui entra uma mecânica de inspiração soulslike: podemos tentar recuperar o equipamento da antiga personagem, que permanece na zona onde morreu, agora transformada em zombie. Se a nova personagem morrer antes de o conseguir, os itens perdem-se de forma definitiva. Outra funcionalidade herdada da série Souls é o sistema online “comunitário”: jogadores podiam deixar mensagens uns aos outros através de graffiti, e até havia a possibilidade de zombies de outros jogadores invadirem a nossa sessão. Hoje em dia, com os servidores da Ubisoft fechados, essa vertente passou-me ao lado. Para além do modo normal, existe ainda uma dificuldade adicional em que o permadeath obriga a recomeçar a aventura desde o início.

No gamepad temos acesso ao mapa (quando desbloqueado para uma certa zona), itens de uso rápido recorrendo ao toque (cantos superiores), acesso ao nosso inventário e, no canto inferior um botão de ping que sinaliza sinais de movimento à nossa volta.

Outros elementos reforçam a tensão, sobretudo a utilização do gamepad da WiiU como peça central da jogabilidade. O inventário dispõe de slots de acção rápida, activados ao toque, enquanto os restantes itens ficam armazenados numa mochila de capacidade limitada, gerida também via touch screen. O detalhe está no facto de a acção não parar enquanto mexemos no inventário, obrigando-nos a olhar para o gamepad e ficando completamente vulneráveis durante esse tempo. Barricar ou destrancar portas com lockpicks envolve igualmente mini-jogos que nos desviam a atenção do ecrã principal. Em suma, todas as actividades que na vida real nos tirariam o foco do que nos rodeia obrigam a olhar para o gamepad, contribuindo genuinamente para a atmosfera de constante nervosismo.

Cada acção que na vida real nos desviaria o foco, obriga-nos aqui a olhar para o gamepad. Neste caso procurar por provisões no cadáver de um zombie!

O combate é outro ponto intenso. As personagens que controlamos são meros cidadãos sem treino militar. As armas de fogo e respectivas munições são raras, e a única arma de corpo a corpo disponível é um bastão de criquete. Os zombies são resistentes, exigindo várias pancadas até cederem. Quando enfrentamos mais do que um inimigo em simultâneo, a situação torna-se crítica, o que incentiva uma abordagem metódica, tentando lidar com cada ameaça isoladamente. O gamepad tem uma funcionalidade muito útil como um radar, assim como uma câmara de smartphone. Ao levantá-lo e movermos o comando podemos “varrer” o cenário, detectando actividade orgânica, identificando itens recolhíveis e até descobrindo pistas em paredes e outras superfícies que ajudam a resolver certos puzzles.

…nessas situações o gamepad é então utilizado para gerir o inventário, colocando itens quer nos slots de acção rápida, quer na nossa mochila.

Assim fui adoptando um estilo de jogo mais cauteloso e metódico, usando frequentemente o radar e scanner para antecipar quantos zombies estavam nas proximidades e conservar munições e recursos. Porém, nem sempre os planos resultam: o excesso de confiança paga-se caro, ou às vezes simplesmente somos surpreendidos com zombies de diferentes características que nos obrigam a mudar de estratégia. A morte e consequente reencarnação são mesmo mecânicas centrais da experiência e aprendizagem! E sim, embora seja possível perdermos todos os mantimentos acumulados com a morte de uma personagem, existem alguns factores de equilíbrio. O abrigo seguro contém um baú de grande capacidade que preserva os itens lá guardados mesmo que a personagem morra. Além disso, o progresso narrativo (áreas desbloqueadas e objectivos concluídos) transita entre personagens. A única excepção é a sequência pós-créditos: sobreviver a essa fase é condição necessária para alcançar o final verdadeiro e, caso morramos, é necessário repetir toda a aventura desde o início. Se vos acontecer, digo já que não perdem nada de especial. Convém ainda mencionar que os eventuais upgrades de armas desbloqueados perdem-se sempre que a personagem actual morre.

Embora estas imagens promocionais nem sempre usem imagens reais do jogo ou produto final, acabam por ilustrar perfeitamente o tipo de possibilidades que o ZombiU nos oferecia

A nível audiovisual e narrativo confesso que o jogo me deixou algo desiludido. Começando pela narrativa, achei-a pobre e com personagens pouco interessantes, quando havia ali material que podia ter sido explorado de forma mais profunda, sobretudo em torno das profecias mencionadas. Ainda assim, essa fragilidade acaba por ser compensada pelo clima de tensão constante que as mecânicas de jogo proporcionam. Visualmente, gostei do facto de a acção decorrer no Reino Unido: explorar um Palácio de Buckingham ou a Torre de Londres devastados por uma invasão zombie é uma ideia bem conseguida, e ver zombies na pele dos tradicionais guardas reais foi, para mim, um dos pontos altos do lado artístico. No entanto, tecnicamente, ZombiU não impressiona. Não chega a ser um jogo feio, mas está mais próximo do detalhe gráfico de gerações anteriores do que de um título verdadeiramente de nova consola. O voice acting também não acrescenta grande valor, enfraquecendo ainda mais a narrativa, e a escassez de personagens também não ajuda. Por outro lado, o som ambiente está muito bem conseguido e reforça de forma exemplar a atmosfera tensa. Passamos a maior parte do tempo apenas com o som os nossos passos e ocasionais gemidos de zombies ao fundo. A banda sonora surge pontualmente, mas sempre em momentos-chave, acentuando de forma eficaz a sensação de terror.

Embora o jogo não seja o mais bonito do mundo, tem alguns bons momentos gráficos, pena que não seja consistente nesse aspecto.

Portanto, embora ZombiU não seja especialmente apelativo do ponto de vista audiovisual ou narrativo, revelou-se para mim uma surpresa agradável pela forma criativa como implementa as suas mecânicas e como consegue tirar partido da arquitectura única da WiiU. Convém ainda mencionar que o jogo inclui um modo multijogador local bastante original: quem segura o gamepad controla os zombies e o seu posicionamento, enquanto o outro jogador, com comandos tradicionais (seja Wii Remote ou Pro Controller), tenta sobreviver aos desafios colocados. Não cheguei a experimentar este modo, por isso não me posso alongar na avaliação, mas é um conceito curioso. Infelizmente, dado o fracasso comercial da WiiU, ZombiU acabou remetido a alguma obscuridade. Alguns anos após o lançamento, a Ubisoft decidiu relançá-lo para PlayStation 4, Xbox One e PC, sob o título abreviado Zombi. Esta versão traz ligeiras melhorias gráficas, mas perde o multijogador e substitui as interacções com o gamepad por pop-ups no ecrã. Mantém o mesmo clima de sobrevivência e tensão, mas a ausência da componente táctil e da vulnerabilidade criada pelo comando parece retirar-lhe parte do impacto.

Bayonetta 2 (Nintendo WiiU)

Tempo de finalmente voltar à Nintendo WiiU para revisitar aquele que foi um dos seus exclusivos mais sonantes. Bayonetta, o original, é um excelente jogo de acção da Platinum Games, publicado pela Sega algures em 2009. Apesar de ter sido amplamente aclamado pela crítica, acabou por vender abaixo das expectativas, e desde então a Sega tornou-se algo reticente em financiar uma sequela. Mas a Nintendo viu ali uma boa oportunidade e, depois de chegar a acordo com a Platinum e com a própria Sega, financiou parte do desenvolvimento deste Bayonetta 2, com a contrapartida de o jogo permanecer exclusivo às suas plataformas. Esta iniciativa causou alguma divisão entre os fãs, muito pelo facto de a WiiU não ser, à partida, um sistema atractivo para o público-alvo da Platinum. Entretanto o jogo foi relançado para a Nintendo Switch, onde acredito que já tenha alcançado vendas mais satisfatórias. Eu, pessoalmente, não optei por fazer o upgrade, tendo mantido esta versão WiiU na colecção. Já não sei precisar o ano em que a adquiri, mas lembro-me de ter sido comprada a um bom preço (na altura) a um amigo coleccionador.

Jogo com caixa e tanta papelada que dava perfeitamente para um manual a sério.

Encarnamos uma vez mais na bruxa Bayonetta, apenas alguns meses após os eventos da primeira aventura, quando forças angelicais voltam a invadir o planeta. Desta vez, no entanto, Jeanne, outrora sua inimiga e agora aliada, acaba por ser mortalmente ferida nesse confronto. Ainda assim, nem tudo está perdido: se Bayonetta conseguir viajar até ao inferno a tempo, poderá resgatar a alma da sua amiga. Pelo caminho, conhece uma criança de poderes misteriosos e sem memória do seu passado, também ela perseguida pelas forças do paraíso. Ambos decidem unir esforços, e a trama desenvolve-se a partir daí, com reviravoltas típicas do estilo já bem vincado da série.

O que não falta aqui são lutas contra bosses épicos!

As mecânicas de jogo mantêm-se, em grande parte, fiéis ao Bayonetta original. Estamos perante um jogo de acção frenética, como a Platinum tão bem sabe fazer, com combates que misturam ataques corpo-a-corpo, disparos, magias e inúmeros combos. Como antes, Bayonetta pode equipar diferentes armas, de fogo ou brancas, tanto nas mãos como nos pés, o que resulta em confrontos visualmente acrobáticos e altamente coreografados. A mecânica central continua a ser o Witch Time: sempre que nos desviamos de um ataque inimigo no último instante, o tempo abranda, permitindo desferir ataques mais poderosos. Estão de volta os Torture Attacks, a possibilidade de adquirir upgrades e alternar entre conjuntos de armas equipadas, bem como o sistema de crafting para consumíveis. A principal novidade reside no Umbran Climax, uma técnica especial que podemos activar quando a barra de magia atinge um certo valor. Este estado temporário aumenta significativamente o alcance e o poder dos ataques, tornando-nos verdadeiras forças da natureza por breves instantes.

O Umbran Climax é uma das principais novidades a nível de jogabilidade aqui introduzidas e que requerem a magia que vamos amealhando

Convém também mencionar a forma como Bayonetta 2 tira partido das funcionalidades do GamePad, elemento central na WiiU. Felizmente, o jogo evita recorrer a gimmicks excessivos: pode ser jogado integralmente com um esquema de controlo tradicional, embora existam opções de controlo por touch screen que simplificam algumas acções, sem nunca serem impostas ao jogador. O ecrã do GamePad apenas replica o que vemos na televisão, mas com uma resolução inferior, o que, na minha opinião, não é de todo a melhor forma de se experienciar este jogo. Há também algumas opções de acessibilidade pensadas para jogadores menos experientes, incluindo formas simplificadas de executar quick time events. Uma outra coisa que não consigo deixar de referir são as homenagens a outros videojogos. A mais evidente é, sem dúvida, a After Burner, com um dos últimos níveis a colocar-nos em cima de um jacto, recorrendo a mecânicas muito semelhantes às do clássico da Sega. Existem também muitas outras referências mais subtis, não só à Sega, mas também à Capcom e, claro, à própria Nintendo. Estas surgem sobretudo nas roupas alternativas desbloqueáveis e em certos efeitos sonoros adaptados, funcionando como pequenos easter eggs para os fãs mais atentos.

Os ataques especiais de tortura que podemos executar em alguns inimigos continuam a ser uma delícia!

De resto, para além do modo história, temos alguns desafios adicionais que se desbloqueiam após a campanha principal. Foi também incluído um modo multiplayer, onde dois jogadores cooperam em batalhas contra inimigos comuns, embora com um toque competitivo, já que no final é atribuído um vencedor com base na pontuação (pensem um pouco como se fazia nos Zelda Four Swords). Confesso, no entanto, que não cheguei a experimentar este modo (até porque o mesmo já se encontra descontinuado na WiiU), mas pareceu-me ser essa a premissa. Há ainda um conjunto respeitável de desbloqueáveis, como roupas alternativas, itens e armas que se podem adquirir na loja. Completar o jogo também nos brinda com galerias de arte (algo que sempre apreciei) e modelos 3D das personagens, embora nem todos fiquem disponíveis logo à partida.

Bayonetta 2 é um jogo lindíssimo para o hardware onde sai. E a performance é bem melhor que a da versão PS3 do primeiro jogo

Visualmente, devo dizer que Bayonetta 2 me encheu as medidas. Os cenários levam-nos por diversas localidades claramente inspiradas em cidades europeias icónicas, com uma arquitectura que remete ao Renascimento. Uma das novas zonas visitadas é o Inferno, com um aspecto mais árido e decrépito, o que, embora coerente com a temática, não se revela tão apelativo em termos visuais. Já perto da recta final, revisitamos algumas das áreas do primeiro jogo, o que serve tanto de homenagem como de ponto de comparação. Os inimigos mantêm o seu design peculiar e criativo, sendo que desta vez enfrentamos também criaturas infernais, com um estilo distinto das entidades angelicais a que o primeiro título nos habituara. O que mais me impressionou, no entanto, foi a performance. Para quem jogou o Bayonetta original na PS3, as quebras de framerate eram bastante severas, afectando negativamente a fluidez da acção. Aqui, na WiiU, notei apenas alguns “engasgos” em momentos particularmente caóticos, com muito a acontecer em simultâneo no ecrã, nada que afecte de forma significativa a experiência. As cutscenes mantêm-se intensas e cinematográficas, sempre repletas de adrenalina, tal como já é imagem de marca da Platinum. No entanto, os momentos mais sexualizados (que tanto deram que falar no primeiro jogo) estão aqui consideravelmente mais atenuados. Talvez por imposição da Nintendo? Por outro lado, o voice acting continua em excelente forma, com destaque, uma vez mais, para a actriz que dá voz a Bayonetta, que imprime carisma e personalidade à personagem. O jogo permite optar por vozes em japonês (algo que normalmente activo sempre que jogo títulos oriundos de estúdios nipónicos), mas neste caso abri uma excepção. A banda sonora também mantém um bom nível, com vários temas a enveredar por uma toada jazz festiva que assenta bem ao tom estilizado do jogo.

Tal como no primeiro jogo, Bayonetta 2 possui um sistema de combos consideravelmente grande e variado

Em suma, Bayonetta 2 é um excelente jogo de acção e uma sequela digna para quem apreciou a primeira aventura. Enquanto a Sega se mostrava reticente em financiar uma continuação, dado que o original ficou aquém das expectativas em termos de vendas, foi a Nintendo que surpreendeu ao assegurar uma das propriedades intelectuais mais interessantes da Platinum para os seus sistemas. Apesar de a WiiU não ter sido um sucesso comercial considerável, Bayonetta 2 (tal como o seu antecessor) acabou por ser relançado na Nintendo Switch, onde, muito provavelmente, encontrou um público mais alargado e vendas mais robustas. Até porque, entre 2022 e 2023, a Platinum viria a lançar mais dois títulos deste universo na consola da Nintendo, os quais planeio jogar em breve.

The Legend of Zelda: Twilight Princess (Nintendo Gamecube / Wii U)

Lembro-me bem da E3 de 2004 pois estava a acompanhar a conferência da Nintendo num cyber café perto da minha escola secundária. Foi a primeira aparição de Reggie Fils-Aime enquanto manda chuva da Nintendo of America, jogos como Metroid Prime 2 e Resident Evil 4 a ganharem destaque, a Nintendo DS é oficialmente apresentada e no fim… no fim vemos um pequeno trailer que mostra um mundo de fantasia medieval algo sinistro… e um Link adulto e “realista”. Foi o caos na audiência e eu também dei um berro no cyber café! O que a Nintendo havia anunciado foi mesmo este The Legend of Zelda Twilight Princess, que acabou por ser lançado apenas em 2006 para coincidir também com o lançamento da Nintendo Wii. Apesar da versão da Wii ser a mais popular, sempre apreciei o facto de a Nintendo ter assegurado que mantinha o lançamento original da GameCube, mesmo que esse sistema já estivesse mais que moribundo em 2006. No entanto essa versão não chegou a ser oficialmente comercializada em Portugal, mas isso já foi decisão da Concentra. O meu exemplar foi comprado ainda em 2006 no saudoso miau.pt, a um vendedor que já me tinha vendido uns quantos jogos de GameCube. Custou-me 40€. Entretanto, anos mais tarde a Nintendo lança uma versão remasterizada em HD deste jogo para a WiiU, que acabou por vir parar à colecção através de um amigo meu, algures por 2018, a um preço bem convidativo que sinceramente já não me recordo. Eu terminei o Twilight Princess ainda em 2006 na GameCube, na altura em que o comprei. Comecei este blogue anos mais tarde e sempre quis jogá-lo novamente para que depois pudesse escrever um artigo em que a memória do jogo estivesse mais fresca, mas isso acabou por não acontecer. Aproveitei no entanto este remaster da WiiU para o jogar novamente mas agora nessa plataforma, pelo que aproveitarei este artigo para referir algumas das diferenças entre as versões existentes.

Versão Gamecube completíssima com caixa, manual e papelada

Começando pela história, devo dizer que este Twilight Princess começa de uma forma algo lenta. Primeiro somos introduzidos à personagem Link e os restantes habitantes da aldeia de Ordon. A vila está tranquila, nós até temos de ajudar a pastorear o gado e, nas vésperas de uma importante viagem ao castelo de Hyrule, a aldeia é invadida por goblins que raptam todas as suas crianças. No encalço dos bandidos, Link atravessa uma barreira mágica que o leva para uma outra dimensão onde o crepúsculo é perpétuo e pior que isso, Link é transformado num lobo. É aí que nos apercebemos que toda a Hyrule foi envolvida por esse crepúsculo eterno, que trouxe consigo vários monstros e é também onde conhecemos Midna, uma pequena e misteriosa criatura dessa dimensão e que nos oferece ajuda, com a condição de a ajudarmos também. Ao longo do resto do jogo iremos explorar toda a Hyrule e libertar cada uma das suas regiões do crepúsculo. Naturalmente outras coisas vão acontecendo na história que envolvem também a princesa Zelda e uns certos vilões, mas deixo essa descoberta para quem for jogar o jogo.

Versão WiiU com caixa e papelada. Saudades dos manuais!

O que é importante de notar é que iremos alternar regularmente entre a forma humana de Link e a sua forma de lobo. Mais lá para a frente na história ganhamos inclusivamente a liberdade de alternar livremente entre ambas as formas, o que será inclusivamente necessário para resolver certos puzzles. A jogabilidade de Link na sua forma humana não muda muito perante os TLoZ em 3D que foram saíndo desde o Ocarina of Time. Os botões A e B servem para saltar e atacar com a espada, enquanto os restantes botões faciais (na verdade três com o R na versão WiiU) servem para equiparmos diferentes outros itens que poderemos utilizar sempre que necessário, como arco e flecha, bombas, canas de pesca entre muitos outros. Sim, existe aqui um mini jogo de pesca. Para além de itens já conhecidos de outros jogos teremos também algumas novidades, assim como mais alguns golpes que poderemos utilizar nos combates, se bem que esses devem ser aprendidos com algumas sidequests em particular. Também de regresso está a Epona e a possibilidade de atravessar quase todo o mundo de Hyrule a cavalo, podendo inclusivamente combater dessa forma, algo que o jogo nos obrigará a fazer em certas alturas. Mas confesso que achei o combate a cavalo não tão bem implementado, pelo menos eu senti algumas dificuldades.

Aquilo no céu são portais de teletransporte que eventualmente poderemos vir a utilizar e muito jeito dão para encurtar distâncias

Quando jogamos como um lobo há muito mais a ter em conta. Não podemos utilizar quaisquer itens, pelo que para os combates apenas temos de recorrer às mandíbulas de Link enquanto lobo. Bom, na verdade podemos também usar os poderes de Midna, que viaja às nossas costas quando estamos nesta forma. Da mesma forma que o Link humano pode fazer o spin attack, ou seja, mantendo o botão B pressionado durante alguns segundos e depois largá-lo, aqui Midna abre um círculo de energia à nossa volta, causando depois dano a todos os inimigos que sejam lá apanhados. Para além do combate, o lobo pode também escavar o chão, algo usado não só em busca de tesouros escondidos debaixo da terra, mas também para nos esgueirarmos por algumas passagens secretas. Pressionando o botão X podemos também activar os sentidos apurados de Link enquanto lobo. Isto permite-nos ver fantasmas que não sejam visíveis ao olho nu (assim como os locais onde podemos cavar e que acabei de mencionar), mas também registar cheiros e seguir o seu rastro, algo que iremos fazer bastantes vezes especialmente na primeira metade do jogo. De resto há muito a explorar neste Twilight Princess. Para além das habituais dungeons que nos vão apresentando puzzles e bosses onde teremos de utilizar exaustivamente mecânicas introduzidas por itens que vamos coleccionando, existem também todo um conjunto de side quests perfeitamente opcionais para fazer, mas onde tipicamente vamos tendo boas recompensas, como expandir a capacidade carregar bombas, flechas, desbloquear melhores carteiras, heart pieces, dinheiro, entre outros. Muitas dessas side quests envolvem também mini-jogos opcionais que acabam sempre por ser um desafio adicional a quem os quiser explorar.

O combate não é complexo, mas poderemos vir a aprender várias novas técnicas a utilizar, que serão bem úteis perante inimigos mais poderosos

A nível audiovisual acho este um jogo interessante para os padrões de 2006 e tendo em conta que o seu lançamento original foi o da GameCube, uma consola da sexta geração. Mas o porquê da escolha deste estilo visual convém também ser aprofundada. E tudo começa com a Nintendo Spaceworld de 2000, onde a Gamecube é oficialmente apresentada ao público e uma das demos técnicas mostrava um duelo de espadas entre um Link adulto e o Ganondorf. Um novo Zelda estava então em produção para essa consola, mas quando a Nintendo o anuncia como The Legend of Zelda: The Wind Waker, com os seus lindíssimos visuais em cel shading, a recepção não foi a melhor, pois todos esperavam uma aventura mais adulta e um Zelda mais realista. Para além disso recordo-me bem de bandas de estilo gótico como Nightwish ou Within Temptation estarem bastante na ribalta nessa época e os filmes do Senhor dos Anéis realizados pelo Peter Jackson não estavam num passado muito distante, pelo que o resultado final deste Twilight Princess incorpora um pouco de ambos os mundos. Link é um adolescente já prestes a entrar na idade adulta, o castelo de Hyrule tem um estilo gótico, alguns inimigos como os goblins ou diversos cavaleiros têm agora um aspecto mais ocidental e aproximam-se mais de um jogo dark fantasy. Já para não falar de toda a estética arrojada da outra dimensão do Twilight e seus habitantes! Mas para além destes visuais mais sinistros e maduros, o jogo vai também buscar outras influências. Um exemplo disso é a povoação de Kakariko, perto da Death Mountain habitada pelos Gorons. Esta povoação tem todo um aspecto de western, que difere bastante dos restantes visuais aqui introduzidos. É portanto um Zelda diferente, mas confesso que, mesmo tendo gostado dos visuais deste jogo, tanto em 2006 quando o joguei pela primeira vez como agora, acho que o estilo gráfico do Wind Waker é muito mais carismático e envelheceu bem melhor. De resto nada de especial a apontar ao som. Ainda não existe qualquer voice acting a não ser pequeníssimas falas sem grande sentido o que a meu ver sempre foi um dos pontos fracos desta série ao longo do tempo, até porque a história como um todo é bastante interessante. Já as músicas são excelentes, com a banda sonora a consistir entre remixes de alguns temas já conhecidos, ou outros inteiramente novos, muitas vezes com deliciosos segmentos orquestrais. A música que toca sempre que chegamos ao lago de Hylia durante o dia é especialmente relaxante, por exemplo.

Quando estamos na forma de lobo, Midna materializa-se e pode-nos ajudar tanto no combate como na exploração

Já no que diz respeito às diferenças entre versões, há duas grandes diferenças que a versão Wii introduz. A primeira é a obrigação de se utilizarem controlos de movimento, mesmo para movimentos simples como atacar, algo que iremos ter de fazer vezes sem conta. Devido a não ser necessário um botão próprio para usar a espada, a versão Wii permite-nos no entanto ter mais equipamento mapeado para botões. No entanto, Link é tradicionalmente esquerdino, enquanto a maioria das pessoas são destras. Supostamente abanar o wiimote com a mão direita para que o Link atacasse com a esquerda fazia confusão nalgumas pessoas, incluindo para o próprio Eiji Aonuma, produtor do jogo. Mas com este já bem avançado no seu ciclo de desenvolvimento, a solução da Nintendo foi espelhar todo o jogo na versão da Wii. Ou seja, enquanto na Gamecube se para ir do ponto A ao B temos de nos deslocar para Oeste, na Wii teríamos de ir para Leste. Felizmente esta versão WiiU não tem esse problema, o jogo corre nativamente com a orientação original da versão Gamecube, a menos que escolham o Hero Mode, uma versão mais difícil do jogo onde o mundo está também espelhado tal como na Wii.

O que não faltam aqui são mini jogos onde poderemos gastar mais algum tempo, incluindo uma enorme lagoa com imensos peixes para pescar.

Que mais diferenças traz esta versão WiiU? Bom, sendo um HD remaster podemos contar com uma maior resolução e ligeiras melhorias gráficas como um todo, principalmente nos modelos poligonais dos personagens principais, que aparecem agora com um maior detalhe. Para além do update gráfico a outra grande diferença está mesmo no suporte ao comando da WiiU. É através do ecrã do comando da WiiU onde podemos mudar os itens escolhidos, bem como consultar um mapa a qualquer momento do jogo sem ter a necessidade de pausar a acção. Os controlos foram também adaptados para o layout de botões deste comando e resultam muito bem. Motion controls são também possíveis de serem utilizados, particularmente quando precisamos de utilizar certos itens na primeira pessoa, como é o caso do arco e flecha, por exemplo. Mas sinceramente eu preferi jogar com os controlos de movimento desligados. Outra das novidades está num conjunto de coleccionáveis adicionais (carimbos para serem posteriormente utilizados no Miiverse, serviço entretanto descontinuado), assim como suporte aos amiibos. O amiibo do Link lobo que vinha com a edição especial deste jogo desbloqueia uma dungeon adicional, mas amiibos de outras personagens do universo Zelda poderão ser usadas para outros benefícios, como regenerar vida, restaurar bombas, flechas ou até tornar-nos mais fracos caso usemos o amiibo do Ganondorf. Como nunca fui muito à bola com essa febre dos amiibos, essa foi uma funcionalidade que me passou completamente ao lado. Este remaster sofreu também algumas alterações no seu conteúdo original: agora podemos carregar mais rupees e algumas das partes mais enfadonhas foram encurtadas (coleccionar as lágrimas para salvar cada um dos espíritos, por exemplo). De resto temos também a possibilidade de transferir toda a acção do jogo para o comando da Wii U, algo que eu acabei por usar por necessidade já perto do final do jogo. E sinceramente notei imensas quebras de frame rate, mesmo estando bem próximo da consola. A experiência não foi a melhor e assim que pude voltei a jogar na TV.

Apesar desta direcção artística mais madura e sinistra não ser tão consistente em Hyrule, adorei o design dos Twili!

Portanto estamos aqui perante mais um excelente The Legend of Zelda. A Nintendo até que foi bastante audaz e original ao incluir este Link licantropo, e com isso introduzir também toda uma série de novas mecânicas de jogo. Para quem gostar de Zeldas pós-Ocarina of Time, está aqui mais um jogo bem competente nesse aspecto e com muito para explorar se o quisermos completar a 100%. Sim, está longe do que a Nintendo viria posteriormente a fazer com o Breath of the Wild e Tears of the Kingdom, mas eventualmente lá chegarei a esses. Já no que diz respeito aos visuais um pouco mais sinistros e maduros, confesso que na altura até foi uma decisão que apreciei. Mas hoje em dia acho que este estilo gráfico não é lá muito consistente, para ser sincero. E os visuais mais cartoon do Wind Waker são bem mais carismáticos e resistiram melhor ao teste do tempo.