Policenauts (Sega Saturn)

Há uns tempos atrás decidi rejogar o Snatcher após finalmente ter desistido de comprar a versão Mega CD que anda caríssima e ter ficado antes com as versões PC-Engine (da qual a versão Mega CD deriva) e Sega Saturn. É um jogo de aventura cyberpunk com uma narrativa bem madura e empolgante como Kojima nos tem vindo a habituar. Mas para além deste e dos dois primeiros Metal Gear, Kojima decidiu desde cedo criar uma espécie de sucessor espiritual de Snatcher e o resultado foi este Policenauts, lançado originalmente em 1994 para o sistema nipónico PC-98. Presumo que tenha sido outro sucesso pois nos anos seguintes saíram também, exclusivamente no mercado japonês, versões para a 3DO, Playstation e Sega Saturn cuja trago hoje. Tanto esta versão como a da PS1 felizmente receberam um patch de tradução feito por fãs já há uns bons anos atrás, pelo que a acabei finalmente por jogar em emulação. O meu exemplar foi comprado algures em Abril de 2020 no ebay por 40 libras.

Jogo com sleeve de cartão, caixa, livro de arte, manual, 3 discos e papelada diversa

Sim, o espaço é um dos elementos centrais deste Policenauts. A personagem que nós controlamos, Jonathan Ingram, foi um dos cinco elementos que fundou essa força policial, a primeira a trabalhar numa colónia espacial gigante chamada Beyond. A introdução leva-nos ao ano de 2013 onde Jonathan, numa operação de rotina, vê o seu fato espacial a avariar o que o leva a ficar à deriva no espaço e presumivelmente morto para os seus colegas. Mas felizmente ele tinha um sistema de preservação de vida que o coloca em hibernação e à deriva no espaço, até que, 25 anos depois, é encontrado e trazido de volta à Terra. A sua vida mudou radicalmente e perdeu todo o contacto com os seus antigos colegas e família, tornando-se agora numa espécie de detective privado, num mundo cada vez mais violento e perigoso. Eis que chega o ano de 2040 e entra pelo seu escritório a sua ex-mulher Lorraine, com a qual ele já não falava há mais de 30 anos. Lorraine está aflita e pede a ajuda de Jonathan pois o seu actual marido, um cientista de uma mega corporação, está desaparecido há semanas sem qualquer rasto. Jonathan nessa altura fica algo hesitante em aceitar o seu pedido de ajuda, mas mal Lorraine entra de volta no seu carro, este explode, matando a senhora. Cheio de raiva, Jonathan lá decide viajar para a colónia espacial, reencontrar os seus antigos colegas e averiguar o mistério do assassinato da sua ex-mulher e desaparecimento do marido. Naturalmente que iremos aos poucos descobrir uma grande conspiração e deixo o resto para quem vier a jogar este Policenauts o descobrir!

Quaisquer semelhanças com o Lethal Weapon não são mera coincidência

O jogo é uma aventura gráfica quase ao estilo dos point and clicks, onde teremos imensos cenários para explorar e pessoas para conversar. A jogabilidade em si é simples. No ecrã controlamos um cursor e podemos clicar onde quisermos no cenário em questão, com diferentes opções a surgirem para escolhermos, mediante o local onde clicamos. Poderemos observar, interagir com objectos ou, caso cliquemos nalguma pessoa o ecrã transita para uma perspectiva mais próxima da pessoa em si, onde a poderemos observar em mais detalhe, assim como alguns dos objectos nas suas imediações e claro, dialogar. A janela de diálogo permite-nos explorar diferentes linhas de conversa que muitas vezes têm de ser levadas à exaustão para a história avançar. Para além da história e exploração, teremos também alguns segmentos de acção onde, tal como no Snatcher, temos de disparar sobre alguns bandidos que vão surgindo no ecrã, tal como num light gun shooter. Enquanto que no Snatcher o ecrã de batalha se dividia numa espécie de matriz, com a mira a alternar entre várias posições dessa matriz, aqui os combates são mais intensos e dinâmicos. Um dos pontos fortes da versão Sega Saturn é precisamente o suporte a light gun, que tornam estes segmentos bem mais interessantes para se jogar. Para além disso, e sendo este um jogo do Kojima, existe uma quantidade absurda de informação e terminologias novas. Basicamente, todas as palavras ou expressões que surgem nos diálogos acompanhadas de um asterisco, podem ser consultadas num glossário que Kojima preparou. Glossário esse que aparentemente apenas existia em discos bónus lançados separadamente do jogo principal noutras plataformas, mas na versão Saturn está incluído com o jogo base também e pode ser consultado em qualquer fase de exploração.

Referências a outros jogos do Kojima não são incomuns, com a presença de Meryl a ser a mais gritante

A narrativa é muito boa e se Snatcher era fortemente influenciado por filmes como Blade Runner e The Terminator, este Policenauts é uma espécie de Lethal Weapon futurista. Aliás, se não fosse o cabelo azul de Jonathan este seria uma réplica perfeita de Mel Gibson, assim como Ed, o seu parceiro, é uma réplica quase perfeita de Danny Glover. A narrativa começa em alto tom, com a introdução e os eventos que levam Jonathan a viajar para a colónia espacial em busca de resolver o mistério. Mas assim que lá chegamos a narrativa abranda um pouco, pois iremos aproveitar esse tempo para explorar novos locais, conhecer novas personagens e reencontrar os antigos companheiros de Jonathan nos Policenauts, incluindo o tal Ed que nos irá acompanhar ao longo de todo o restante jogo. Mas a partir da segunda metade do jogo a narrativa volta uma vez mais a tornar-se bem mais intensa, com uma enorme conspiração a ser descoberta aos poucos e muitos volte-faces vão-nos fazer ficar agarrados ao comando só para ver o que irá acontecer a seguir!

Bom, digamos que Jonathan é um pervertido

Visualmente é um jogo interessante, parecendo quase um anime interactivo. No entanto, tal como muitas visual novels nipónicas os cenários ainda são estáticos durante a exploração e mesmo nos diálogos, com a câmara mais próxima da personagem em questão, continua a não haver muito movimento. Ainda assim teremos várias cutscenes pelo meio, tanto em CGI, como em animação mais tradicional e mesmo os cenários mais estáticos têm um look anime que resulta bastante bem. A banda sonora é bastante eclética, com músicas para todos os momentos da narrativa, desde os mais alegres, para aqueles mais tensos e cheios de suspense. E sim, mais um piscar de olho aos típicos filmes policiais dos quais o jogo se inspira: músicas com saxofone. O voice acting é todo em japonês e parece-me bastante competente. E claro, sendo este um jogo do Kojima, esperem também por várias referências a outros dos seus jogos lançados até à data. A mais gritante é mesmo a presença da Meryl de Metal Gear como personagem com alguma importância na história, mas ocasionalmente encontraremos também várias referências a Snatcher.

A versão Saturn inclui bastante conteúdo adicional que estaria apenas disponível em discos separados nas outras plataformas

Em conclusão devo dizer que continuo a gostar mais do Snatcher, pois tinha um melhor balanço entre momentos sérios e cómicos. Aqui o humor quando existe é bastante pervertido: sempre que interagimos com uma personagem feminina, caso cliquemos nos seus seios existe sempre a opção de os tocar e se o fizermos (repetidamente até), é aí que entram os momentos de bom humor por todo o absurdo da situação. Mas tirando isso, o Policenauts não deixa de ser uma excelente aventura, com uma óptima narrativa. A versão Sega Saturn é, até ao momento, a melhor versão do jogo. Para além de incluir suporte a light gun para os tiroteios, tem também o tal glossário incluído no jogo, assim como muito outro conteúdo extra como entrevistas, trailers e pequenos vídeos de making of, tudo coisas que noutras plataformas estaria apenas disponível em discos à parte. Para além disso a versão Saturn por incrível que pareça é a que tem os vídeos com o melhor framerate, pecando no entanto na qualidade da imagem, bem como algumas cenas e diálogos adicionais, não presentes noutras versões. Aparentemente em 1996 a Konami chegou a considerar um lançamento ocidental desta versão, mas tal acabou por não se concretizar, infelizmente. Ainda assim só temos a agradecer aos fãs devotos que lançaram patches de tradução para as versões PS1 (em 2009) e Saturn (em 2016).

Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
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