The Story of Thor 2 (Sega Saturn)

The Story of Thor para a Mega Drive foi um óptimo jogo que misturava a jogabilidade de acção/aventura com elementos de RPG, um pouco como na série  The Legend of Zelda. E apesar de ter Thor no nome, que me recorde não há qualquer referência ao Deus da mitologia nórdica no jogo, até porque o mesmo é passado num mundo inspirado em civilizações árabes. Bom, anos mais tarde a Ancient decide repetir a dose com mais um bom jogo, desta vez para a Sega Saturn e uma vez mais sem qualquer referência a Thor. Mistérios, mistérios… Mas adiante, o meu exemplar foi comprado a um particular em Outubro de 2018, tendo-me custado cerca de 20€ se bem me recordo.

Jogo com caixa e manual

Apesar de o jogo por cá se chamar “The Story of Thor 2” é na verdade uma prequela do primeiro jogo, onde uma vez mais encarnamos num jovem guerreiro que, equipado com uma mágica bracelete dourada, terá de enfrentar o feiticeiro Agito, que por sua vez também possui um artefacto semelhante, mas prateado e igualmente poderoso. Para isso teremos primeiro de explorar a região à nossa volta, visitar algumas dungeons e despertar uma série de espíritos que nos auxiliem nesta batalha. Cada espírito possui diferentes poderes, desde poderes ofensivos, regenerativos ou até outros que nos ajudam a resolver alguns puzzles.

Uma vez mais vamos ter de recrutar espíritos e derrotar um vilão que tem uma bracelete parecida com a nossa.

Tal como o seu predecessor, o combate é fluído e permite-nos desencadear uma série de combos quase como se um beat’em up se tratasse. Podemos também equipar uma série de diferentes armas ou explosivos para usar. Mas o grande diferencial na jogabilidade, tal como no seu predecessor, está nos diferentes espíritos que encontramos e podemos invocar ao longo do jogo, tal como já referido acima. A maior parte dos espíritos já se encontravam no jogo anterior, como é o caso da fada Dytto (antes chamada de Dryad), com os seus poderes regenerativos e ataques baseados em água ou gelo, Efreet, o espírito do fogo capaz de desencadear alguns ataques devastadores, Shade, o espírito de sombra que, entre outras coisas, salva-nos de cair em abismos, e Bawu, antes Bow, uma planta gigante com a particularidade de encontrar itens debaixo da terra. Os novos espíritos são Brass, o espírito do som que mais parece um robot e Airl, o espírito do vento/electricidade que possui uma habilidade muito útil ao servir como uma espécie de tapete voador, transportando-nos de um lado para o outro.

Como é habitual, vamos tendo alguns bosses para defrontar.

A maneira como chamamos os espíritos é também muito interessante, pois usamos o poder mágico da bracelete dourada para disparar uma bola de energia e, dependendo do que essa bola de energia atingir, poderemos invocar algum dos espíritos. Por exemplo, se dispararmos contra água, invocamos Dytto. Por outro lado se dispararmos contra o fogo, ou mesmo, invocamos Efreet, e por aí fora. E vamos ter de usar bastante estas diferentes habilidades de cada espírito para avançar no jogo! Por exemplo, com Dytto podemos extinguir paredes de fogo que bloqueiam o nosso caminho, já com Efreet podemos extinguir blocos de gelo. Por outro lado, se chegarmos fogo a uma poça de água, essa mesma transforma-se em vapor e com isso conseguimos invocar Airl… Dytto tem poderes regenerativos que podem ressuscitar velhas plantas, que por sua vez passam a servir de plataformas para alcançarmos locais de outra forma inacessíveis… há mesmo muitos puzzles diferentes e por vezes não é fácil descobrir o que temos de fazer para avançar numa dungeon. Até porque as armas também têm diferentes usos não só no combate, por exemplo, as flechas podem interagir com alavancas.

Uma coisa que me agradou face ao primeiro jogo: desta vez as armas não partem!

Para além disso há inúmeros itens úteis espalhados pelo jogo, onde teremos uma vez mais de usar as habilidades que temos ao nosso dispor para os alcançar. Estes podem ser pergaminhos que permitem aos nossos espíritos encantar as armas com os seus poderes elementais (algo útil não só para defrontar certos inimigos mas também para resolver alguns puzzles), pedras preciosas como rubis ou esmeraldas que, para além de fortalecerem os espíritos respectivos, também contribuem para a nossa barra de pontos de magia crescer. Falando nisso, inicialmente começamos a aventura com poucos pontos de vida e magia, mas à medida que vamos coleccionando espíritos e estas tais pedras preciosas, a mesma vai aumentando. A barra de vida também vai crescendo à medida que vamos avançando no jogo.

Tudo isto tornam este jogo com um foco muito maior na exploração (até porque teremos de fazer muito backtracking) do que propriamente no combate. Acho que o jogo da Mega Drive tinha um maior balanço entre as duas vertentes, aqui infelizmente a narrativa não é tão boa quanto noutros RPGs/Aventura da época, pelo que vamos dar connosco muitas vezes a vaguear pelo mundo de Oasis sem saber muito bem o que fazer a seguir. É verdade que temos algumas estátuas ou meniscos que podemos interagir e ler algumas dicas, mas o jogo tinha mais a ganhar se houvesse um maior foco na narrativa, o que é pena.

Apesar de eu gostar bastante do grafismo 2D que aqui temos, na verdade fiquei um pouco decepcionado pela maioria dos inimigos serem practicamente iguais aos do primeiro jogo na Mega Drive.

De resto, a nível de audiovisuais, podem contar com uma aventura muito bem construída, na minha opinião. A Ancient soube resistir à tentação de se voltar para o 3D numa altura em que era quase proibitivo haverem jogos “grandes” nas plataformas 32bit ainda em 2D. Ainda bem que o fizeram, pois este Story of Thor 2 possui gráficos 2D muito bem detalhados. Eu já tinha gostado bastante do grafismo do original da Mega Drive, aqui estão ainda melhores, principalmente nos cenários, mas ainda acho que as sprites poderiam ser mais trabalhadas, pois muitas estão quase idênticas às da Mega Drive. A música, uma vez mais produzida por Yuzo Koshiro tem qualidade, mas ao contrário das bandas sonoras que o tornaram famoso (Streets of Rage, Shinobi III, etc), esta é muito mais épica e orquestral, algo que não estava habituado. Não é que resultem mal, tendo em conta a temática do jogo, mas prefiro as batidas mais mexidas que Koshiro nos habituou noutros clássicos.

Portanto, este Story of Thor 2, em conjunto com o primeiro jogo da Mega Drive, são, na minha opinião, dois títulos muito interessantes e que passaram ao lado de muita gente. É pena que a Sega Saturn tenha sido um flop mundial, pois este é um dos seus exclusivos que eu gostaria um dia de ver remasterizado.

Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
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