Wonder Boy Anniversary Collection (Sony Playstation 4)

O artigo de hoje será relativamente simples (mas não necessariamente curto!), mais para marcar presença no blogue enquanto continuo entretido com videojogos mais longos. Decidi escrever então sobre esta compilação Wonder Boy Anniversary Collection, da qual dispendi pouco mais de uma hora. Já joguei todos os títulos aqui presentes de uma forma ou de outra e, ainda por cima, já escrevi sobre todos eles no passado, pelo que podem contar com imensas hiperligações para as minhas análises anteriores. O meu exemplar foi comprado à Strictly Limited Games algures no início de 2024, por cerca de 50€.

Jogo com caixa e manual

Esta é mais uma das parcerias entre a Strictly Limited Games e a ININ Games, que têm colaborado com bastante regularidade em lançamentos de cariz retro. Um comportamento recorrente nessa parceria é a forma como tratam certas compilações: existe uma edição “limitada” mais completa e uma edição de retalho mais modesta, 100% a cargo da ININ. A Wonder Boy Anniversary Collection foi anunciada em 2022 pela Strictly Limited, assumindo-se como a compilação “definitiva” da série clássica Wonder Boy, reunindo todos os jogos principais lançados nas décadas de 80 e 90, incluindo múltiplas variantes regionais e alguns extras adicionais. No mesmo ano, a ININ Games lançou em retalho uma outra compilação simplesmente intitulada Wonder Boy Collection. Enquanto o lançamento limitado inclui seis jogos com várias variantes, num total de 21 versões, o lançamento de retalho normal contém apenas quatro títulos: os dois jogos arcade, Wonder Boy in Monster World na sua versão Mega Drive e o fantástico Monster World IV. Sem variantes, sem grande parte dos extras. A discrepância é evidente e pode facilmente apanhar desprevenido quem não esteja atento.

Isto já tinha acontecido com outras compilações, como JaJaMaru: Legendary Ninja Collection, precedida do lançamento de retalho Ninja JaJaMaru: The Great Yokai Battle + Hell , ou as Turrican Anthology, antecedidas pelo Turrican Flashback, também com menos conteúdo. A boa notícia, que infelizmente só descobri mais tarde, é que algumas destas edições “completas” da Strictly Limited acabaram por receber lançamentos de retalho no Japão e/ou noutros territórios asiáticos. Algumas dessas versões são multilíngua, tornando-se alternativas perfeitamente viáveis face à raridade e especulação associadas às edições limitadas. Esta compilação não é excepção: no Japão foi lançada como Ultimate Wonder Boy Collection para Switch e PS4. No entanto, não consegui confirmar se essas versões incluem inglês, pelo que convém ter isso em consideração.

Esta sim, a versão definitiva da compilação. Todos os jogos da série principal, nos seus lançamentos originais e diversas variantes.

Mas chega de divagações e vamos ao que interessa. Esta compilação reúne todos os lançamentos principais da série Wonder Boy publicados originalmente nas décadas de 80 e 90, bem como praticamente todas as suas variantes regionais, pelo menos aquelas que foram publicadas pela Sega. Não esperem encontrar aqui Adventure Island, nem as versões da Hudson para a PC Engine, ou outras versões como Saiyuuki World. A série Wonder Boy já é suficientemente confusa do ponto de vista legal e histórico, pelo que incluir também as versões reinterpretadas por outras editoras seria provavelmente inviável. Ficaram igualmente de fora as versões para computadores ocidentais dos anos 80, o que é compreensível.

Começando pelo Wonder Boy original, lançado nas arcadas em 1986, estamos perante um jogo de plataformas puro e duro. Ao contrário dos títulos da sub-série Monster World, que introduziram mecânicas de RPG e estruturas mais abertas, este é um jogo linear, algo repetitivo nos cenários, com uma jogabilidade exigente devido à inércia e à precisão necessária nos saltos. Estão incluídas a versão arcade original, a modesta adaptação para a SG-1000, e as versões Master System e Game Gear, todas com variantes japonesa e ocidental.

O Wonder Boy original é o jogo mais simples e repetitivo da colectânea. Mas está aqui presente em imensas versões distintas!

Segue-se Wonder Boy in Monster Land, lançado originalmente em arcade no ano de 1987. Este é um lançamento pivotal na série. Embora ainda seja relativamente linear, com progressão por níveis distintos, introduz mecânicas ligeiras de RPG, como a possibilidade de amealhar dinheiro para comprar equipamento, magias e outros itens em lojas. A compilação inclui as versões arcade e Master System, ambas nas suas variantes japonesa e ocidental.

Wonder Boy in Monster Land, a sua versão arcade em todo o seu esplendor

Depois temos Wonder Boy III: Monster Lair, outro lançamento arcade, de 1988. É um título peculiar dentro da série, misturando níveis de plataformas tradicionais com secções de shmup. É também o primeiro jogo da série concebido para hardware de 16 bits. Estão presentes a versão arcade internacional e a versão ocidental da Mega Drive. Ficou de fora a versão PC Engine CD o que é uma pena, pois é frequentemente apontada como uma conversão superior. Sendo um lançamento da Hudson, é provável que a inclusão dessa versão implicasse questões adicionais de licenciamento.

Wonder Boy III: Monster Lair é outro título algo distinto na série e o último a ter um lançamento arcade

O “outro” Wonder Boy III aqui presente é o The Dragons Trap, o primeiro título da série a sair exclusivamente em consolas, ainda no ano de 1989. Foi também o primeiro a adoptar uma estrutura de mundo interligado, com progressão não linear, assumindo claramente uma fórmula metroidvania. É um excelente jogo, dos melhores da Master System, e está aqui representado nas suas versões Master System e Game Gear, ambas com variantes japonesa e ocidental. Se gostarem deste jogo, recomendo fortemente que joguem também o seu remake recente, naturalmente não incluído nesta compilação.

Em The Dragon’s Trap, poderemos nos transformar em diversos animais que por si só nos dão habilidades distintas.

Segue-se o Wonder Boy in Monster World, lançado originalmente no Japão em 1991 para a Mega Drive e no Ocidente em 1992. Mantém a fórmula metroidvania do seu predecessor e,. apesar de ser um óptimo jogo, continuo a achar The Dragon’s Trap mais refinado em termos de design. Temos aqui presentes as versões Mega Drive, japonesa e ocidental, assim como a versão Master System, uma adaptação mais modesta lançada sobretudo no mercado europeu em 1993.

O seu sucessor é visualmente muito interessante, mas no que toca a mecânicas de jogo acho-o um nadinha mais fraco.

Por fim, temos Monster World IV, lançado exclusivamente no Japão para a Mega Drive em 1994. É um título icónico, introduzindo uma protagonista feminina e novas mecânicas, embora com uma progressão mais segmentada e não tão próxima da fórmula metroidvania. Está incluída a versão japonesa original, e a versão ocidental, lançada oficialmente apenas em 2012 para serviços digitais como a Virtual Console da Nintendo Wii, Xbox Live Arcade e PlayStation Network. Se gostarem deste jogo, também recomendo vivamente que explorem Asha in Monster World, um excelente remake disponível nos sistemas modernos e que naturalmente também não faz parte desta compilação.

Monster World IV, outrora um exclusivo japonês, está também aqui presente em inglês

De resto, convém mencionar, para além de todos estes jogos e suas variantes, o que mais traz esta compilação. Confesso que não joguei tempo suficiente de todos os jogos aqui presentes, muito menos todas as suas variantes, para afirmar com segurança que a emulação é perfeita. Ainda assim, temos sempre a possibilidade de usar mecanismos como save states ou rewind, algo particularmente útil nos títulos mais antigos e com jogabilidade mais castigadora. Existe também a opção de fast forward, embora sinceramente não lhe veja grande utilidade. Temos igualmente várias possibilidades de, em cada jogo, customizar os ecrãs de fundo, o aspect ratio da imagem, ou aplicar vários filtros gráficos que aproximem a qualidade visual das saudosas CRTs, activando e customizando funcionalidades como scanlines ou parâmetros que simulam a curvatura do ecrã dessas televisões.

Um dos extras aqui incluídos é a possibilidade de vermos um mapa de cada nível ou secção de jogo

Outros extras incluem mapas de cada nível ou cenário, disponíveis em todas as versões aqui presentes, o que acho bastante interessante. Temos também um pequeno museu, onde poderemos ver alguma arte, scans de caixas de jogos, cartuchos e respectivos manuais, nas suas diferentes regiões. Infelizmente, no entanto, nota-se alguma falta de brio e profissionalismo. Existem pequenos erros ortográficos em textos e manuais, bem como inconsistências no material de bónus. Por exemplo, o Wonder Boy da Master System inclui scans da versão europeia da caixa, mas o manual apresentado é o da versão norte-americana. Algumas variantes regionais têm também material em falta e, no caso de Monster World IV, é o único título onde nos é facultado material de arte do seu desenvolvimento. Fica a dúvida se nada mais sobreviveu dos lançamentos anteriores. É pena, se assim for.

Outro dos extras são as galerias de arte e scans de materiais de cada jogo presente

Concluindo, devo dizer que, tirando as pequenas inconsistências que assinalei anteriormente, considero esta compilação essencial para todos os fãs de Wonder Boy. Só tenho pena de o lançamento disponível em retalho normal, a Wonder Boy Collection, ser uma mera sombra do conteúdo disponível nesta versão. Os lançamentos originais da Strictly Limited esgotaram há muito e raramente surge algum à venda que não seja por valores claramente inflaccionados.

Mad Stalker: Full Metal Forth (Sega Mega Drive)

Vamos voltar à Mega Drive para um título muito peculiar. Produzido por um estúdio pequeno no ano de 1994 e originalmente lançado para o sistema nipónico Sharp X68000 e posteriormente convertido para outros sistemas, uma versão para a Mega Drive esteve mesmo quase para acontecer, tendo sido no entanto cancelada. Essa versão estava aparentemente practicamente finalizada, até que um grupo de entusiastas (Columbus Circle) meteram mãos à obra, ultimaram detalhes dessa versão com base num protótipo conhecido e lançaram a versão Mega Drive para o mercado em 2020. A Strictly Limited Games acaba também por lançar, em 2022, uma versão ocidental deste mesmo jogo, tendo o meu exemplar vindo precisamente da sua loja no mês passado. Infelizmente já só havia disponível esta versão com estética similar à Sega Genesis.

Jogo com caixa e manual, relançamento pela Strictly Limited.

E este é então um jogo de acção com mechas, com a acção a aproximar-se à de beat ‘em up totalmente em 2D e onde nos podemos mover num único plano (pensem em jogos tipo Kung-Fu ou Black Belt mas com robôs gigantes!) mas também com alguns elementos típicos de jogos de luta versus, o que a meu ver acaba por não resultar lá muito bem. Isto porque o direccional controla o nosso robô, incluindo cima para saltar, os botões A e C servem para desferir golpes fracos, enquanto o botão B serve para desferir golpes fortes. Ambos os botões pressionados em conjunto faz com que bloqueemos e pressionando os botões de ataque em conjunto com o direccional faz com que despoletemos diferentes tipos de golpes também. Existem no entanto alguns golpes especiais associados a combinações de botões ligeiramente mais complexas. Por exemplo, tentando executar um hadouken faz com que disparemos uma arma de fogo, pressionar frente, frente + ataque executa um dash attack, ou baixo, baixo + ataque um uppercut. Existem portanto várias possibilidades de golpes, mas num jogo de acção sidescroller preferia mecânicas de jogo mais próximas às de um beat ‘em up… com um botão próprio para saltar, por exemplo!

Todos os outros lançamentos deste jogo se chamam Full Metal Force ao contrário da versão original de X68000. Aparentemente Forth foi um erro ortográfico, mas a Columbus Circle achou bem prestar homenagem e manter esse nome neste lançamento de Mega Drive

De resto o jogo leva-nos a progredir ao longo de 6 níveis, sendo que cada nível vai ter várias secções que devem ser terminadas dentro de um tempo limite. No final de cada nível esperem sempre por um boss sendo que a excepção a essa regra é o último nível, que é basicamente um boss rush. Apesar de ocasionalmente termos direito a alguns itens que nos regenerem parcialmente a barra de vida, o jogo acaba por ser bastante desafiante, precisamente por esta mistura de jogabilidades entre um sidescroller, beat ‘em up e jogo de luta de 1 contra 1! Os confrontos contra os bosses poderão ser então bastante duros e temos apenas uma vida. Se perdermos, poderemos continuar desde o início do nível, no entanto. Por fim convém mencionar que o jogo possui também um modo versus que pode ser jogado contra o CPU ou contra um amigo.

O jogo é muito de combate corpo a corpo e muitas vezes teremos vários robots para enfrentar em simultâneo

A nível audiovisual este até que é um jogo interessante. É verdade que não há uma grande variedade de cenários, com o jogo a decorrer principalmente em várias áreas urbanas, com o quarto nível a decorrer nas ruínas de uma grande metrópole, já o quinto e sexto níveis decorrem numa gigante base aérea inimiga. Apesar de não ser um jogo incrivelmente bem detalhado graficamente, acaba por cumprir serviços mínimos e apresentar de vez em quando alguns efeitos de parallax scrolling, mas nada de mais. As músicas no entanto são excelentes! A banda sonora faz-me lembrar bastante temas rock dos anos 80 e a Mega Drive como sabemos, nas mãos de quem sabe o que está a fazer, é um sistema exímio em bandas sonoras deste género.

No final de cada nível espera-nos sempre um boss

Portanto este Mad Stalker é um lançamento interessante e de certa forma compreendo o porquê de terem cancelado o seu lançamento inicial na Mega Drive. Para um jogo de 1994 já era algo datado nas suas mecânicas e tendo em conta que a Mega Drive em 1994 estava numa posição muito desfavorável no mercado japonês, a decisão de não o terem lançado talvez tenha sido acertada. Existem no entanto outras versões para além do original X6800. As primeiras conversões foram para o também computador nipónico FM Towns e uma outra para a PC Engine CD também no ano de 1994, com a versão PC Engine a possuir algum conteúdo extra. Mais tarde em 1997 surge um outro lançamento para a Playstation que já me parece practicamente um remake. Um detalhe curioso é que todas essas versões chamam-se Mad Stalker: Full Metal Force pois o Forth é mesmo um erro ortográfico do lançamento original de X68000 e que a Columbus Circle preferiu manter nesta versão.