Ys: The Ark of Napishtim (Sony Playstation 2 / Portable)

Vamos finalmente voltar à série Ys, já que aproveitei esta semana de férias para jogar mais um RPG que tinha em backlog. Lançado originalmente em 2003 para o PC, o sexto Ys foi o primeiro a utilizar um novo motor de jogo que viria posteriormente a ser utilizado em títulos como o Ys Origin ou Oath in Felghana (remake do Ys III). Em 2005 a Konami decide publicar esse jogo no ocidente, primeiro para a Playstation 2, no ano seguinte para a PSP, cada versão com conteúdo adicional distinto. Apesar de eu possuir ambas as versões na minha colecção, este artigo irá se incidir principalmente para a versão PS2 que foi a que terminei. Irei, no entanto detalhar as suas principais diferenças sempre que possível. A versão PSP foi a primeira que comprei, já não sei precisar quando nem onde mas creio que me custou algo em volta dos 20€. Anos mais tarde, quando me apercebi que a versão PS2 era supostamente superior, lá comecei a procurar essa versão também mas infelizmente os seus preços já tinham subido consideravelmente. Este meu exemplar veio então de uma loja alemã por 30€ em Agosto de 2021. Caixa e manual em alemão, mas era isso ou pagar o dobro por uma versão inteiramente em inglês.

Jogo com caixa, papelada e manual a cores! Pena que esteja em alemão.

A história segue uma vez mais as aventuras do espadachim de cabelos vermelhos, Adol Christin, que se encontrava a beber uns copos com o seu amigo Dogi quando ambos são surpreendidos por soldados do império de Romun e têm de fugir repentinamente. Então metem-se num barco com piratas seus amigos mas que acabam por ser perseguidos pela armada imperial. Aproximam-se perigosamente das ilhas de Canaan que estão rodeadas por uma enorme tempestade, um vórtice que suga tudo o que se aproxima e, naturalmente, Adol acaba por cair ao mar e chegar a uma praia próxima, naquele que é um cliché habitual nesta saga. Lá conhecemos os membros da tribo Rehda, uma espécie de elfos com caudas que nos contam que na ilha vizinha existe uma população humana, formada por várias pessoas que ali também naufragaram. As tensões entre ambos os povos estão altas pois a ponte que os unia foi destruída e um artefacto importante dos Rehda foi roubado. Inicialmente teremos então de tentar apaziguar as coisas entre ambos os povos bem como explorar a ilha e suas ruínas em busca de uma forma de parar o tal vórtice que previne barcos de entrar ou sair das ilhas em segurança. Mais lá para a frente as coisas acabam por escalar como é habitual.

Jogo com caixa e manual, versão norte americana já que o jogo não saiu cá.

Este é mais um action RPG e se jogaram o Ys Origin, Oath in Felghana ou qualquer outro Ys mais recente já sabem mais ou menos com o que contar. Com o novo motor gráfico inteiramente em 3D, os controlos foram adaptados para o combate ser mais dinâmico como a inclusão de combos. Uma habilidade que aqui introduziram foi o jump dash, que consiste em pressionar o d-pad numa direcção e, uma fracção de segundo depois, pressionar os botões de ataque e salto em simultâneo. Isto faz com que saltemos mais longe e embora não seja necessário para terminar o jogo, caso o queiramos completar a 100% e coleccionar todos os itens e power ups teremos alguns desafios de platforming que nos obrigam a usar esta habilidade consecutivamente. O problema é que para a despoletar é um martírio pois nem sempre conseguimos acertar com o timing exigente.

A versão PS2 possui todos os diálogos com voice acting. Infelizmente na versão europeia removeram a opção de ouvir o voice acting original japonês, talvez por terem incluído texto noutras línguas também.

De resto, para além de novo equipamento e armas que poderemos eventualmente encontrar, poderemos também equipar certos acessórios que nos dão importantes benefícios como imunidade a estados como envenenamento, paralisia ou confusão, receber mais experiência, dinheiro ou os cristais emel, uma novidade aqui introduzida. Isto porque Adol vai possuindo espadas feitas com esse material e que possuem também propriedades mágicas. Ao longo do jogo, na aldeia humana, temos quem nos possa melhorar essas espadas a troco desses cristais. Outros itens regenerativos podem também ser coleccionados assim a possibilidade de os assignar a um botão (triângulo) para rápido uso. Tal como referi acima as espadas têm propriedades mágicas que nos permitem executar ataques mágicos. Mas para estes serem usados é necessário que a barra de magia esteja cheia. Felizmente esta vai-se enchendo com o combate ou, à medida que melhoremos as espadas com o emel recolhido, a barra de magia irá-se regenerando sozinha.

O combate continua super intenso como habitual nos Ys e teremos também uns quantos bosses grandes e bem detalhados para combater

A nível audiovisual e também como já referi acima, este é o primeiro jogo da Falcom que utiliza um novo motor gráfico que foi posteriormente utilizado no Ys Origin e Oath in Felghana. A nível poligonal não esperem um motor muito avançado, mas tudo isso é recompensado com texturas bem detalhadas e uma arte muito bem conseguida. Enquanto o original de PC mantinha ainda personagens e inimigos em 2D, estas foram agora mudadas para gráficos poligonais na versão PS2, mas sinceramente não têm o mesmo charme. O facto de a versão PC suportar resoluções muito maiores acaba também por ser um factor importante pois mantêm os gráficos bastante limpinhos. A versão PS2 acrescenta também algumas cutscenes em CGI. A banda sonora é, como vem sendo habitual, agradável e bastante eclética, embora eu sinta saudade dos temas mais hard rock e repletos de grandes guitarradas de outros títulos. Atenção, esses temas mais pesadinhos estão também aqui presentes, sendo tipicamente guardados para alguns bosses, pelo que são músicas que não vamos ouvir muitas vezes. A versão PS2 tem também voice acting para todos os diálogos. No caso da versão norte-americana teríamos inclusivamente a opção de alternar entre o voice acting japonês e inglês, já na versão europeia estamos presos ao em inglês que sejamos sinceros, não é muito bom e repleto de vozes irritantes. Estão a ver quando uma pessoa tem que dar vozes a várias personagens diferentes e então inventa vozes estranhas? É isso que temos aqui. Mas não deixa de ter sido um passo ambicioso o facto de TODAS as personagens terem voz, excepto o Adol, claro.

Estes monumentos azuis servem para nos curar e gravar o progresso no jogo. Na versão PC relançada pela XSeed em 2015 podemos inclusivamente teletransportar entre todos estes marcos já desbloqueados, o que ajuda imenso no backtracking.

Mas quais são as restantes diferenças introduzidas tanto nas versões PS2 e PSP tendo em conta o lançamento original de PC? Na PS2 temos as Alma’s Trials, um conjunto de dungeons adicionais com alguns puzzles, muito dash jumping e alguns bosses reciclados. A versão PSP não inclui as Alma’s Trials mas traz outros extras como uma nova dungeon e uma biblioteca onde poderemos coleccionar imagens e biografias das personagens envolvidas. Apesar de manter as sprites 2D e manter as cut-scenes anime da versão PC, por outro lado não tem o voice acting, e como um todo é uma versão que se joga pior, com loadings frequentes e muito longos, constantemente quebram a acção. Mas sejamos sinceros e coleccionismos à parte, de longe a melhor versão é a que a XSeed trouxe para o PC (steam) em 2015. Para além de melhorias técnicas como o suporte a widescreen e novos modos de dificuldade, há uma mecânica nessa versão que dá um aumento drástico da qualidade de vida: a possibilidade de nos teletransportarmos entre zonas, enquanto que na versão PS2 podemos apenas teletransportar dentro de uma dungeon para o seu início. Com todo o backtracking que teremos de fazer, quanto mais não seja para comprar mantimentos, essa é uma funcionalidade muito benvinda.

Na versão PS2 temos direito a uma cutscene em CGI que conta um pouco do porquê de Adol ter, uma vez mais, naufragado e acordar numa praia aleatória.

Portanto este Ys The Ark of Napishtim é mais uma sólida entrada na série, que, tirando todos os ports e remakes que foram feitos no final dos anos 90 ou inícios de 2000, tinha entrado num longo período de pausa de novos lançamentos. Mas felizmente a Falcom veio com tudo e modernizou a série de forma a torná-la mais atractiva para uma nova geração e este Ark of Napishtm serviu de base para os lançamentos que surgiram nos anos seguintes. E é um jogo bem sólido, embora eu recomende vivamente que joguem antes a versão PC. Os extras introduzidos tanto nas versões PS2 ou PSP não compensam as melhorias de qualidade de vida introduzidas na versão da XSeed de 2015. E os gráficos mais limpos, claro!

Ys V: Lost Kefin, Kingdom of Sand (Super Nintendo)

O Ys V é o primeiro em vários pontos: é o primeiro Ys a ser desenvolvido pela Falcom exclusivamente a pensar em consolas (até porque saiu exclusivamente para a Super Famicom e anos mais tarde recebeu um remake por parte da Taito que se ficou na PS2 no Japão), enquanto os seus predecessores foram desenvolvidos para computadores nipónicos e posteriormente convertidos para outros sistemas. Os Ys IV, apesar de originalmente terem sido lançadas versões para a Super Famicom e PC Engine CD, ao menos tinham sido inicialmente planeados pela Falcom para saírem em computadores, o que acabou por não acontecer. Ys V é também o primeiro jogo da série, pelo menos com este tipo de perspectiva vista de cima, onde temos um botão de ataque, em vez de irmos contra os inimigos. O meu exemplar foi importado directamente do Japão algures em Fevereiro deste ano, tendo-me custado uns 30€ mais portes e custos alfandegários.

Jogo com caixa, manual e papelada diversa. Versão japonesa, naturalmente

A história leva-nos pela primeira vez na série Ys ao continente de Afroca e à cidade de Xandria (um paralelismo entre África e Alexandria), onde Adol Christin procura uma nova aventura. A sua fama de aventureiro atravessou todas as fronteiras pelo que, quando Adol lá chega é rapidamente recrutado por Dorman, um ricalhaço da cidade, que o incumbe da missão de procurar uma série de cristais mágicos. Cristais esses que possuem o poder de restaurar a cidade perdida de Kefin, desaparecida há mais de 500 anos e Kefin aparentemente possui todo um conhecimento perdido de alquimia (a magia deste jogo) que ajudará a salvar Xandria e localidades próximas do implacável avanço da desertificação que os tem estado a assolar. A partir daí lá teremos de partir à exploração e à medida que vamos coleccionado os tais cristais, a própria história vai-se desenvolvendo e revelando os seus vilões e suas reais aspirações.

O facto de termos agora um botão de salto obriga-nos a ter uns segmentos de plataformas que são ainda um pouco frustrantes nalgumas partes

No que diz respeito à jogabilidade, esta é relativamente simples. Os botões faciais servem para atacar, saltar, defender (caso tenhamos algum escudo equipado) ou abrir o menu. O select serve para abrir o mapa e os botões L e R servem para seleccionar magias e carregá-las, para posteriormente serem usadas com o botão de ataque. As magias no entanto são muito diferentes neste jogo, pois são todas baseadas em alquimia e para aprendermos novos feitiços temos de explorar o mundo de forma exaustiva e ir encontrando pedras elementais (água, fogo, terra, etc), que por sua vez podem ser combinadas entre si através de um alquimista para formar uma pedra mágica (fluxstone) capaz de desencadear um ataque mágico. A primeira magia aprendemos com o decorrer da história e chama-se Sexta (sim, isso mesmo) e consiste numa combinação de terra, fogo e água, mas as restantes só as desbloqueamos ao experimentar diferentes combinações de pedras elementais através de um alquimista, tipicamente todas as localizações chave possuem um. Um outro detalhe interessante a mencionar é que podemos subir de nível em duas categorias, física e mágica. Ao destruir inimigos com ataques físicos ganhamos pontos de experiência nessa categoria, que por sua vez nos permite melhorar atributos como ataque, defesa ou vida, enquanto que se os destruirmos com ataques mágicos iremos eventualmente melhorar atributos como mana points, ataque ou defesa mágicos. É um sistema interessante, que nos dá um total de 18 magias distintas que poderão ser desbloqueadas, mas acho que poderia ser um pouco mais flexível, nomeadamente a possibilidade de desmontar as fluxstones em pedras elementais e construir um feitiço diferente, se não estivermos contentes com o resultado final.

O sistema de menus é muito parecido aos dos RPGs da época

A nível audiovisual é também um jogo muito distinto dos restantes Ys que haviam sido lançados até então. O facto de decorrer numa terra inspirada pelo norte de África, leva-nos a explorar cidades com alguma influência mediterrânica e árabe também. Sinceramente achei que o jogo tem gráficos com um bom nível de detalhe e não fica atrás dos grandes RPGs clássicos da Super Nintendo nesse aspecto. Já a banda sonora tira partido da capacidade do chip de som da Super Nintendo, que é muito bom em emular temas mais orquestrais, o que acontece neste Ys V. É um contraste com o que estou habituado na série, que tipicamente possui sempre algumas faixas rock bastante sonantes, mas não é uma má banda sonora de todo.

Como é de esperar, teremos uns quantos bosses para enfrentar

Portanto este Ys V é mais um bom action RPG desta já longa série da Falcom. Tem algumas ideias novas, como a muito esperada inclusão de um botão de ataque (embora a nossa primeira espada possua um alcance muito curto que nos vai causar algumas dificuldades) e um sistema de magia que nos obriga a alguma experimentação. Creio que o facto de ter saído já na ponta final de 1995 no Japão matou qualquer possibilidade de o jogo receber alguma localização oficial em inglês, mas isso não impediu a Falcom de lançar, meros meses depois, uma nova versão também para a Super Famicom intitulada de Ys V Expert. Aparentemente é uma versão mais difícil, com algumas mudanças no layout dos cenários, uma nova dungeon e um modo time attack. Mas essa versão não recebeu, até à data, qualquer patch de tradução, pelo que nem sequer a experimentei. Anos depois sai um remake, pelas mãos da Taito, para a PS2 que se fica também pelo Japão, pelo que creio que este é um óptimo candidato a receber um remake pelas mãos da Falcom, tal como fizeram com alguns jogos antigos da série, sendo o último o Memories of Celceta.

Dragon Slayer: The Legend of Heroes (PC-Engine CD)

Vamos ficar agora na PC-Engine CD, para um dos muitos RPGs existentes na sua biblioteca, mas dos pouquíssimos que tiveram um lançamento oficial fora do Japão, ou que até tenham recebido traduções feitas por fãs. A série Dragon Slayer é muito peculiar da Falcom. O seu primeiro jogo (de 1984) é um dos precursores dos JRPGs como um todo, mas após esse primeiro lançamento, curiosamente todas as suas sequelas deram origem a outras séries completamente distintas entre si. Sorcerian, Lord Monarch ou Xanadu são apenas alguns dos exemplos em que o primeiro jogo de cada uma dessas séries, possui Dragon Slayer no nome. The Legend of Heroes é mais um desses casos, com a série a receber inúmeras sequelas, até se tornar mais popular no ocidente com o lançamento das sagas Trails of the Sky ou Trails of the Cold Steel. O meu exemplar é a versão Japonesa de PC-Engine, pelo que joguei antes a versão Norte-Americana por emulação. Comprei-o no ebay em bundle com vários outros jogos algures em Fevereiro deste ano, creio que me terá custado à volta dos 10/15€.

Jogo com caixa, manual, spinecard e poster/mapa

A história deste primeiro The Legend of Heroes é simples e começa por mostrar-nos uma cutscene anime que conta que há 10 anos atrás, o reino de Farlayne foi invadido por monstros e na batalha da sua defesa o Rei acabou por morrer. Como o seu único herdeiro, o príncipe Logan, tinha apenas 6 anos de idade e ainda não podia governar, o Barão Drax acabou por se tornar regente. Para a “segurança” de Logan, o pequeno príncipe foi exilado numa aldeia onde iria viver em segurança até aos 16 anos, altura em que poderia reclamar o trono para si. E é precisamente na data em que Logan faz 16 anos que começamos a aventura. Quando o jovem príncipe se prepara para voltar ao seu reino, o Barão Drax ataca a aldeia e tenta matá-lo! Felizmente não o consegue fazer e naturalmente iremos perseguir Drax e procurar vingança. Também naturalmente que, à medida que vamos avançando na história e conhecer novas terras e pessoas, a narrativa vai lentamente revelando que há algo sinistro à espreita e eventualmente lá teremos de salvar o mundo também.

Apesar da narrativa estar dividida em capítulos, vamos poder explorar as regiões anteriores livremente. Eventualmente.

Já no que diz respeito às mecânicas de jogo, não esperem por nada de muito complicado. Este é então um JRPG típico com batalhas por turnos e encontros (algo) aleatórios. Digo algo aleatórios pois os inimigos estão presentes no ecrã do mapa mundo ou dungeons, mas estão invisíveis a menos que usemos algum item para revelar a sua localização. E mesmo que revelem a sua localização, os inimigos que vagueiam pelo ecrã possuem todos a mesma sprite genérica, pelo que só ficam a saber quem são quando entram num combate. Os combates são por turnos onde no nosso turno temos as típicas acções que podemos desempenhar: ataque físico, defender, usar item, usar magia, fugir, entre outros. Uma das acções que podemos definir são as batalhas automáticas, o que é uma óptima maneira de acelerar o processo de grinding. Uma das outras particularidades a mencionar é o facto de, cada vez que uma das nossas personagens sobe de nível, poderemos assignar os skill points ganhos livremente em categorias de força, inteligência, velocidade e sorte. O sistema de magias também é algo fora do convencional neste jogo, na medida em que não há propriamente classes no jogo, cada personagem pode aprender as magias que quiser. E estas não são aprendidas à medida em que subimos de nível, mas sim, devem ir sendo compradas ao longo do jogo. Na verdade nem são compradas, as magias vão sendo oferecidas por alguns NPCs específicos e poderemos assigná-las livremente ao nosso grupo, tendo em conta que cada personagem possui 7 slots disponíveis.

As batalhas são travadas na primeira pessoa e temos sempre a possibilidade de as automatizar para tornar o grinding menos moroso

A nível gráfico este é ainda um jogo muito simples. Estava à espera de ver mais cutscenes, mas infelizmente estas só existem no início e fim do jogo. De resto, as cidades, dungeons e mapa mundo no geral são compostas por visuais típicos de JRPGs do final da década de 80. As batalhas já são travadas na primeira pessoa e os inimigos já vão sendo algo variados entre si e possuem designs que pessoalmente me agradam. No entanto não esperem por visuais “full screen“, pois o ecrã está constantemente dividido em duas janelas, tanto na exploração, como no combate. À direita temos sempre um resumo do estado de cada uma das personagens do nosso grupo, bem como informação do dinheiro amealhado. A janela da esquerda é a que mostra os gráficos do jogo. Este tipo de disposição visual é muito típica de RPGs nipónicos que tenham surgido em computadores, o que é o caso deste. Já no que diz respeito à banda sonora, bom, essa é excelente, tal como a Falcom nos habituou. A versão PC Engine possui músicas no formato CD audio ou em chiptune (podemos optar por ouvir quais quisermos nas opções) e estas foram naturalmente rearranjadas para esta versão. Podem então ouvir uma banda sonora repleta de músicas de vários géneros musicais, desde o rock, electrónica, jazz, funk, sempre com aqueles sintetizadores típicos da segunda metade dos anos 80! Aliás, a banda sonora desta versão fez-me lembrar bastante a banda sonora do Ys IV: The Dawn of Ys, até porque quem fez os arranjos PC-Engine CD dos dois jogos foi o mesmo senhor: Ryo Yonemitsu. De resto podem também ouvir imensos diálogos falados com voice acting em Japonês ou Inglês, dependendo da versão que estejam a jogar. O voice acting em si (pelo menos da versão norte americana) é francamente mau mas hey, eles tentaram! No entanto, é pena que, quando ouvimos o voice acting, não existam quaisquer legendas ou indicações visuais sobre que personagem está a falar no momento.

Pena que o jogo não tenha tido mais cutscenes para além da introdução e final

Portanto este Dragon Slayer: The Legend of Heroes acaba por ser um RPG decente. Não reinventa a roda, mas não deixa de ser bastante sólido na aventura que nos apresenta. Foi um jogo que foi lançado originalmente para uma série de computadores nipónicos entre 1989 e 1990, mas acabou por ser convertido para outras consolas também como a Super Famicom ou esta versão PC-Engine CD, que ganha precisamente pelo seu suporte CD com o voice acting e músicas em qualidade CD Audio. A versão Mega Drive, convertida pela Sega em 1994 também me parece interessante! De resto este primeiro The Legend of Heroes recebeu uma sequela directa em 1992, também lançado para uma multitude de diferentes sistemas, incluindo a PC-Engine CD, mas infelizmente este ainda não recebeu qualquer tradução para inglês, oficial, ou por fãs.

Ys: Memories of Celceta (Sony Playstation Vita)

Quando escrevi o artigo do Ys IV: The Dawn of Ys, mencionei que nessa altura a Falcom, por falta de pessoal, não conseguiu desenvolver o seu Ys IV, tendo entregue o design document do que haviam já definido para esse jogo e as suas músicas a várias empresas diferentes para estas produzirem um Ys IV nas diversas plataformas 16bit da época. Dessa iniciativa sairam jogos para a PC-Engine CD e Super Nintendo que, apesar de possuirem algumas semelhanças entre si, eram jogos muito diferentes. E anos mais tarde, pela Taito, que também produziu um remake do Ys IV para a PS2, onde muitas liberdades foram tomadas na história. Então a Falcom, muito mais tarde, decidiu tomar as rédeas e produziram eles próprios um novo remake do Ys IV, que substituiu canonicamente as entradas anteriores. O meu exemplar da PS Vita foi comprado há uns anos atrás numa CeX do norte, creio que por 15€ ou algo próximo disso.

Jogo com caixa na sua versão norte-americana

A história foi completamente revista e expandida, tendo em conta a versão de PC-Engine CD. As versões de Super Famicom e PS2 não posso comentar, pois nunca as joguei. De qualquer das formas a história leva-nos ao reino de Celceta, onde Adol surge, às portas da cidade de Casnan, amnésico e enfraquecido após explorar a misteriosa e perigosa Forest of Dawn. Ainda assim, acaba por ser recrutado pelo exército de Romun, para voltar a explorar e mapear toda a floresta, pois sempre houve o mito que as ruínas de uma antiga civilização estariam algures no meio da floresta, e a hipótese de por lá haverem tesouros escondidos é sempre um chamariz irresistível. E, acompanhados inicialmente por Duren, lá começamos a explorar a floresta e suas dungeons, vamos descobrindo algumas aldeias, novas personagens jogáveis e eventualmente também lá nos cruzamos com uma série de vilões misteriosos. Claro que mais tarde ou mais cedo os conlitos irão escalar bastante, mas deixo isso para o leitor descobrir quando jogar. Algumas diferenças notáveis são o facto de não revisitarmos Esteria nesta versão, os soldados de Romun não serem necessariamente vilões, bem como todas as novas personagens jogáveis que viremos a conhecer.

Cada personagem vai aprendendo (e evoluindo!) diferentes skills que podem ser assignadas aos botões faciais e usadas nos combates.

A nível de jogabilidade esta também foi bastante expandida perante os lançamentos originais. O Ys IV da PC-Engine é um simples action RPG com mecânicas de jogo muito próximas das do Ys II, ou seja, não temos um botão de ataque, para combater os inimigos temos de ir contra eles, de preferência num ângulo descentrado para não sofrer dano. Eventualmente iriamos desbloquear também algumas magias, bem como poder equipar anéis mágicos que nos conferissem alguns stat boosts ou outras habilidades. Aqui já temos uma jogabilidade muito mais refinada, pois para além de termos um botão de ataque, vamos aprender várias skills que podem ser assignadas a outros botões faciais e usadas em combate, sendo que estas também gastam skill points sempre que sejam usadas. À medida que vamos combatendo, há uma barra de energia que se vai enchendo também e, assim que estiver cheia, permite-nos desencadear um poderoso ataque! Podemos ter uma party activa com 3 personagens em simultâneo, sendo que poderemos controlar directamente uma de cada vez, alternando de personagens muito facilmente com um simples toque de botão. De resto esperem por ter muito por onde explorar, imensas dungeons com bosses para defrontar, bastantes sidequests opcionais e um sistema de crafting que nos permite melhorar armas ou criar acessórios que possam ser posteriormente equipados.

Como é habitual na série teremos múltiplos bosses para enfrentar, onde teremos de aprender os seus padrões de ataque.

A nível audiovisual confesso que este Ys me deixou um nadinha desiludido. Por um lado a nível gráfico é verdade que há um salto bastante notório quando comparando com as versões originais das consolas 16-bit, pois os gráficos são agora em 3D poligonal, com uma boa variedade de inimigos e cenários. Só que o jogo parece usar o mesmo motor gráfico do Ys Seven que, para a PSP é excelente, mas a PSVita parece que consegue fazer um pouco melhor. Em relação ao som, reconheci muitas das melodias que ouvi na versão PC-Engine, estando portanto perante uma banda sonora bastante diversificada nos seus géneros musicais mas que, para mim, os temas mais rock acabam por levar sempre a melhor. Ainda assim, a banda sonora da versão PC-Engine, especialmente nalgumas das músicas em formato redbook, também tem as suas valências, pois há um certo toque jazzy e/ou synth naquelas interpretações que resultou muito bem e isso perdeu-se aqui um pouco. Já no que diz respeito ao voice acting, estava à espera que houvesse muito mais do que as reduzidas frases que ouvimos ocasionalmente nesta versão. E apenas em inglês!

Infelizmente o voice acting quase não existe e apenas está em inglês nesta versão

Portanto este Ys: Memories of Celceta apesar de não ser o jogo mais impressionante do catálogo da PS Vita, não deixa de ser um óptimo RPG de acção. Foi muito bom por parte da Falcom ter revisitado o Ys IV e lhe ter dado um merecido remake, que expandiu grandemente a história do original e modernizou a sua jogabilidade, a par do que foi feito com o Ys: Oath in Felghana. Espero que façam o mesmo com o Ys V, pois tanto a sua versão da SNES, ou o remake da Taito para a PS2 ficaram-se apenas pelo Japão e possuem preços muito proibitivos. Ainda assim, e voltando para este Memories of Celceta, convém relembrar que esta versão foi relançada para o PC e PS4, tendo gráficos ligeiramente melhorados (melhor framerate, maiores resoluções e texturas melhoradas), para além de permitir optar por entre voice acting em inglês e japonês, pelo que são certamente versões a ter em conta.

Ys IV: The Dawn of Ys (PC-Engine CD)

Voltando à série Ys, vamos ficar agora com a versão PC-Engine CD do Ys IV, aqui intitulado de The Dawn of Ys. O meu exemplar foi comprado algures em Fevereiro deste ano a um particular no eBay, creio que me custou algo próximo dos 15€. Sendo a versão japonesa, acabei uma vez mais por o jogar em emulação, visto que o jogo recebeu dois patches de tradução feitos por fãs. Um é um patch que traduz todos os diálogos em texto para inglês, enquanto o outro é um patch que substitui na íntegra o áudio dos diálogos de todas as cutscenes, por vozes em inglês, todas elas regravadas por fãs. Foi sem dúvida um trabalho muito interessante da comunidade!

Jogo com caixa e manual embutido na capa

Mas antes de começar a analisar o jogo mais a sério, é curioso abordar a sua origem, pois existem vários Ys IV que são jogos muito diferentes entre si. Até então, todos os Ys foram produzidos originalmente pela Falcom para uma série de computadores nipónicos e convertidos posteriormente para outras plataformas por outros estúdios. Visto que os 3 primeiros Ys para a PC-Engine, que haviam sido convertidos pela Alfa System e publicados pela Hudson, aparentemente foram um sucesso comercial, a Hudson pediu à Falcom a licença para lançarem o eventual Ys IV para a PC-Engine CD novamente. No entanto, algures em 1992/1993 a Falcom estava a passar por um mau período, quando muito do seu talento saiu da empresa. Não havia ainda Ys IV, tudo o que tinham era um design document que esboçava a história, cenários, músicas e elementos de jogabilidade e a Falcom acabou por entregar esses documentos à Hudson para eles produzirem um Ys IV. Mas a Falcom entregou os mesmos documentos também à Sega e Tonkin House, que havia convertido o YS III para a Super Nintendo. No caso da Sega infelizmente isto acabou por não dar em nada, mas a Tonkin House produziu o Ys IV: Mask of the Sun que é um jogo que possui muitas similaridades com este Dawn of Ys, mas é também substancialmente um jogo diferente. Anos mais tarde, quando a Taito estava a produzir remakes em 3D dos primeiros Ys para a PS2, pegaram na versão SNES do Ys IV por base e lançaram um novo jogo, este também substancialmente diferente. Então, em 2012 a Falcom decidiu produzir finalmente um Ys IV por eles próprios, dando origem ao Ys: Memories of Celceta, que planeio jogar muito em breve.

Apesar de não serem ainda em FMV, o facto deste ser um jogo no formato Super CD-Rom² permitiu a existência de cutscenes bem mais detalhadas!

Ora este jogo decorre algures entre os eventos do Ys II e os de Ys III. Apesar de começarmos a aventura na já conhecida terra de Esteria, a grande parte do jogo será passado na terra de Celceta, onde Adol é “convidado” a visitar aquela região e ajudar os seus habitantes, que estavam a ser incomodados pelas forças do império de Romn (certamente uma alusão ao império Romano), bem como os membros do Clan of Darkness, que procuravam ressuscitar uma grande entidade maléfica. A jogabilidade é muito próxima à de Ys II, ou seja, há um regresso à perspectiva vista de cima (abandonando a perspectiva sidescroller de Ys III), com o sistema de combate clássico, onde Adol não possui um botão de ataque, mas sim para combater os inimigos teremos de ir contra eles, de preferência num ângulo não centrado, para evitar sofrer dano. Eventualmente ganhamos também a habilidade de executar algumas magias tal como no Ys II. Tal como nos Ys clássicos iremos ter várias dungeons e cidades para explorar, onde iremos desbloquear alguns itens que eventualmente nos darão novas habilidades ou simplesmente desbloquear o progresso no jogo para explorar novas áreas.

Em alguns diálogos importantes também somos presenteados com um retrato de alta qualidade da personagem com a qual conversamos

O sistema de experiência é idêntico aos clássicos, com os inimigos a darem-nos cada vez menos experiência consoante o nosso nível vai aumentando, para evitar o grinding em demasia e tornarmo-nos overpowered rapidamente. Ainda assim, vamos precisar de fazer algum grinding pois existem imensos bosses para serem derrotados e por vezes um nível de experiência faz uma grande diferença no combate. Procurar equipamento e habilidades mais poderosas é também um must, pois vamos encontrar inimigos que podem ser imunes a dano causado por equipamento mais fraco, por exemplo. Anéis que nos conferem habilidades adicionais, como melhor ataque, defesa ou a possibilidade de regenerar vida em qualquer momento do jogo também podem ser encontrados e devemos usá-los de forma inteligente Tal como nos Ys antigos apenas podemos equipar 1 herb ou outros itens regenerativos de cada vez e, a menos que tenhamos o tal healing ring equipado, a nossa vida apenas pode ser regenerada nos exteriores.

Como é habitual, vamos tendo também vários bosses para derrotar, onde teremos de memorizar os seus padrões de ataque

A nível audiovisual este é de facto um jogo muito bom. Sendo um jogo de PC-Engine que usa a tecnologia Super CD-Rom², vamos ter inúmeras cutscenes que, ainda que não sejam em full motion video, apresentam muito mais detalhe gráfico do que em qualquer outro jogo de PC-Engine em CD-Rom² normal. Mesmo em diálogos normais, somos muitas vezes surpreendidos com retratos em “alta definição” das personagens com as quais vamos interagindo. Fora essas cutscenes e diálogos, é um RPG típico de 16bit e a PC-Engine sendo um sistema algo híbrido entre tecnologia 8 e 16bit, não esperem por nada do outro mundo. Nada de especial a apontar aos efeitos sonoros, já as músicas… essas continuam muito boas. Vamos tendo alguns remixes de músicas conhecidas na série (até porque revisitamos alguns locais de jogos anteriores) bem como uma série de novas melodias. Estas, tal como vem sendo habitual, tanto são melodias bem alegres, outras mais calmas e, as minhas preferidas, algumas músicas bastante rock, cheias de riffs enérgicos e solos de guitarra por todo o lado, sintetizadores ou até saxofones! Mas as palavras finais teriam mesmo de ficar para o voice acting. Bom, eu não sei se foi um problema do emulador que usei, mas infelizmente o volume das vozes ficou muito baixo comparando com as músicas que iam tocando em fundo, e isto tornava os diálogos bem mais imperceptíveis, obrigando-me a usar phones para tentar entender melhor o que ia sendo dito. Tirando este “pequeno” inconveniente que uma vez mais assumo, poderá ser problema do emulador que usei, é realmente de louvar o esforço que os fãs fizeram ao regravar todos os diálogos áudio com vozes em inglês. Não são performances dignas de hollywood, mas o trabalho final não ficou nada mau, sendo até superior em muitos lançamentos profissionais da época.

Por vezes vamos tendo alguns NPCs que nos seguem e ajundam-nos com o combate.

Portanto este Ys IV foi uma surpresa muito agradável. Já os primeiros Ys não tinham ficado nada mal na PC-Engine CD, mas este Ys IV leva as coisas realemente a um outro nível. O facto de usar a RAM adicional introduzida pelo uso da tecnologia Super CD-Rom² permite-lhe ter cutscenes bem mais detalhadas e, em conjunto com todos os diálogos narrados, a experiência de jogar um JRPG assim era de facto de outro nível, quando comparado com a Mega Drive ou Super Nintendo. E isto juntando-lhe à jogabilidade sólida dos Ys, mas a sua óptima banda sonora, torna este Dawn of Ys um clássico. Acredito que esta conversão tenha dado um trabalho tremendo, mas visto que ainda existem uns quantos JRPGs de culto perdidos no catálogo da PC-Engine CD, seria muito bom ver mais traduções assim surgirem. Mas, voltando aos Ys, não planeio jogar a versão Super Nintendo (Ys IV: Mask of Sun), mas sim o remake oficial Memories of Celceta.