Panzer Dragoon Orta (Microsoft X-Box)

Já há algum tempo que não dava nenhuma atenção à primeira Xbox. Até agora, a única referência a esse sistema que trouxe cá foi uma breve menção quando joguei o Shenmue II, pois apesar de ter jogado a versão remastered na Playstation 4, possuo também na colecção o lançamento original da Dreamcast e a versão Xbox. Apesar de nunca ter passado muito tempo com este primeiro sistema da Microsoft, na verdade a consola possui alguns exclusivos que muito me interessam, como é o caso deste Panzer Dragoon Orta, lançado exclusivamente nesse sistema algures nos anos de 2002/2003 dependendo da região. O meu exemplar sinceramente já não me recordo muito bem onde terá sido comprado nem por quanto, mas fico muito contente por o ter.

Jogo com caixa, manual e papelada

A história leva-nos vários anos após os acontecimentos do Panzer Dragoon Saga da Sega Saturn, onde encarnamos na jovem Orta, que viveu como prisioneira durante grande parte da sua vida. A certa altura o império ataca a povoação dos Seekers que a mantinham em cativeiro, mas no último minuto Orta é salva por um dragão e o resto do jogo será passado não só a combater as forças imperiais que a querem assassinar, mas também em busca da verdade sobre o seu passado.

O jogo coloca-nos no papel de Orta, uma jovem adolescente que viveu como prisioneira toda a sua vida, até que o império decide atacar e destruir a população que a deteve

No que diz respeito aos controlos, este é mais um on-rails shooter onde voamos nas costas de um dragão e o jogo herda várias mecânicas não só dos primeiros 2 Panzer Dragoon, como do próprio Saga. Ao longo do jogo iremos viajar por uma série de níveis muito bem detalhados e com o objectivo de destruir tudo o que nos apareça à frente, desde bizarras máquinas voadoras do império, como várias outras estranhas criaturas que habitam aquele mundo. Os controlos são simples, com os botões faciais a servirem para disparar (botão A) que por sua vez se o mantivermos pressionado em conjunto com o direccional permite-nos trancar vários alvos que serão atingidos por lasers teleguiados disparados pelo dragão assim que largarmos o botão. Por outro lado, se apontarmos a mira e pressionarmos várias vezes esse mesmo botão, Orta dispara a sua arma. Existem alguns alvos, como os projécteis disparados pelos inimigos que não podem ser atingidos pelos lasers teleguiados do dragão, pelo que teremos de alternar de forma inteligente entre ambas as formas de fogo ao longo de todo o jogo. Os triggers L e R servem para rodar a câmara 45º na direcção pretendida, o que nos ajudará a combater todos os perigos que vão surgindo em várias direcções.

Neste jogo podemos alternar entre 3 distintas formas para o nosso dragão. O Heavy Wing é a forma que causa mais dano, embora seja a menos ágil e a que nos permite fazer lock-on a menos alvos

No canto inferior esquerdo, para além da nossa barra de vida temos também de ter em conta duas outras barras distintas. A amarela é uma barra que nos permite usar a habilidade de acelerar ou travar o nosso movimento (X e B), que pode ser usado, entre outros, para evadir de alguns ataques inimigos. Uma outra barra de cor verde quando cheia permite-nos desencadear os ataques berserk, capazes de causar dano em todos os inimigos presentes no ecrã. Tanto uma barra como a outra vão sendo regeneradas ao longo do tempo. Um outro aspecto importante a ter em conta é a possibilidade de transformarmos o nosso dragão durante o jogo recorrendo ao botão Y. Digamos que a forma como começamos é a normal e com o botão Y podemos alternar entre essa forma, a pesada e a ligeira. A forma pesada do dragão possui lasers teleguiados bem mais poderosos, embora o número de alvos dos quais podemos fazer lock é bem mais reduzido e o dragão também não é muito ágil. A forma mais ligeira, com um dragão de asa curta é bem mais ágil e temos mais oportunidades de usar o glide attack quando aceleramos, mas perdemos a possibilidade de usar os lasers teleguiados do dragão, embora possamos usar de forma bem mais eficiente as armas de Orta. De resto, à medida que vamos jogando poderemos vir a apanhar alguns power ups que melhorarão a performance do nosso dragão, mediante a forma que estejamos a utilizar no momento.

Por outro lado o glide wing é o mais ágil e apesar de não podermos fazer lock-on nos inimigos, é a forma que nos permite ter uma espécie de autofire das armas de Orta

Panzer Dragoon Orta é uma óptima evolução do Panzer Dragoon e Panzer Dragoon II Zwei da Sega Saturn, mantendo a jogabilidade bastante directa de um shooter on rails, acompanhado por níveis bastante diversificados e com uma direcção artística fantástica como a série bem nos habituou. O jogo em si não é muito longo, mas mediante a nossa performance e tempo de jogo, poderemos vir a desbloquear muito conteúdo adicional numa categoria intitulada Pandora’s Box. Aqui desbloqueamos missões secundárias e toda uma segunda história sob os olhos de Iva, uma criança orfã que luta pelo império, assim como uma espécie de enciclopédia daquele mundo, galerias de arte e uma conversão do primeiríssimo Panzer Dragoon. Todo este conteúdo pode no entanto ser também desbloqueado ao fim de 20h de jogo.

O facto de ser um jogo de Xbox permite-nos atravessar cenários lindíssimos e muito bem detalhados

A nível audiovisual, este Panzer Dragoon Orta é um jogo excelente. Sempre que escrevo sobre um Panzer Dragoon é impossível não referir toda a visão artística envolvida para criar todo aquele mundo fantasioso, uma espécie de híbrido entre fantasia, ficção científica e um cenário pós apocalíptico, onde não só enfrentamos criaturas estranhas, mas também inúmeras máquinas de uma tecnologia algo surreal e quase alienígena, artefactos deixados por uma civilização antiga e extinta. O Panzer Dragoon Orta tem tudo isso, mas agora num sistema tecnologicamente bem mais capaz que a velhinha máquina 32bit da Sega. É por isso que acredito que um remake ou reboot desta série nas mãos dos seus criadores originais daria muitos bons frutos, algo que o Panzer Dragoon Remake não conseguiu alcançar. A banda sonora segue o mesmo registo dos títulos anteriores, com músicas algo ambientais e operáticas e que bem complementam toda a visão artística desta série.

Os bosses são combates longos e tal como no Panzer Dragoon Saga obrigam-nos a procurar os seus pontos fracos

Portanto este Panzer Dragoon Orta é mais um excelente jogo desta série, tendo pecado apenas por ter saído numa plataforma que, apesar de tecnologicamente bastante superior à sua concorrência, não conseguiu catapultar esta série para a ribalta, mantendo-a num estatuto de culto. É um óptimo jogo e apesar de curto, todos os extras que inclui acrescentam bastante à sua longevidade, no que se inclui uma conversão do primeiro Panzer Dragoon também.

Shenmue II (Sega Dreamcast, Microsoft Xbox, Sony Playstation 4)

Justamente na semana em que Shenmue III é finalmente lançado, lá consegui finalizar o Shenmue II. Não que planeie comprar o Shenmue III a full price, mas com as promoções que se avizinham de Black Fridays e Natal, nunca se sabe! Tenho este jogo em várias plataformas, mas tal como no primeiro, foi no HD Remaster para a PS4 onde o joguei até ao fim. A versão Dreamcast foi comprada por 20€ na Cash Converters de Alfragide, já há uns bons anos atrás, provavelmente 2014 ou 2015. A versão Xbox também não consigo precisar quando a arranjei, visto que já me passaram diversos exemplares pelas mãos, mas esta veio de uma feira de velharias e está completa e em bom estado. O remaster para a PS4, também como já referi no outro artigo, veio de uma Worten algures neste ano, numa das suas promoções de “leve 3 pague 2”.

Jogo completo com manuais, sleeve exterior e papelada

Tal como no artigo anterior, começo por abordar as diferenças entre versões. A versão Dreamcast é a original, e visto não ter saído nos Estados Unidos, a versão que nos chegou até à Europa contém todo o voice acting original em japonês, com legendas em Inglês. A versão Xbox, já vem com o voice acting em inglês. Inclui algumas ligeiras melhorias gráficas e de performance, para além de incluir alguns extras como a possibilidade de gravar o progresso no jogo em qualquer altura, ou tirar screenshots a qualquer instante. Para além disso traz um DVD bónus com um filme que resume a história do primeiro jogo e os seus momentos chave. Já o remaster HD, transcrevo o que disse sobre o primeiro jogo: “o remaster HD foi upscaled para 1080p, com algumas melhorias nos gráficos, apresentando no entanto a possibilidade de optarmos pelo voice acting em japonês ou inglês. Sinceramente prefiro jogar com o voice acting original, logo aqui está uma óptima melhoria! Os controlos, apesar de estarem longe de perfeitos, foram revistos, incluindo suporte aos analógicos e a algum controlo de câmara adicional . Podemos também salvar o nosso progresso no jogo a qualquer momento, para além de mais alguns pequenos extras como o suporte a troféus”. A possibilidade de tirar screenshots também se mantém.

Versão Xbox com caixa, manual e disco bónus. Não gosto muito da arte desta versão.

E este Shenmue II começa logo após os eventos do jogo anterior, logo no início de 1987, onde partimos para Hong Kong no encalço de Lan Di, não só para procurar vingança pelo assassinato do pai de Ryo Hazuki, mas também para desvendar o porquê de todos os acontecimentos que se têm vindo a desenrolar. A primeira melhoria a denotar é precisamente na área a explorar. O distrito de Wan Chai em Hong Kong só por si já possui muito mais áreas de jogo, repletas de lojas e outros edifícios que poderemos explorar. Mais lá para a frente, ainda em Hong Kong vamos explorar também a cidade degradada de Kowloon, que apesar de mais pequena em àrea horizontal, está repleta de grandes prédios, cheios de interligações entre si, e com muitos elevadores avariados e escadas fechadas, tornando a sua navegação algo labiríntica. Por fim acabamos por explorar parte do interior da China, quando caminhamos rumo à vila de Bailu, que servirá de ponto de arranque do Shenmue III.

Remaster dois dois Shenmues para a Playstation 4

Tal como o seu predecessor, Shenmue II é um jogo de natureza open-world, que assenta em três mecânicas de jogo principais. As free quests representam toda a natureza de exploração, onde podemos navegar livremente pelo mapa, interagir com NPCs e inclusivamente jogar alguns mini-jogos como coleccionar pequenas figuras, jogar arcadas ou participar em jogos de azar. Ocasionalmente lá teremos de participar nalguns combates de rua (e não só), com o jogo a assumir algumas mecânicas semelhantes aos Virtua Fighter, onde podemos por em prática diferentes golpes e muitas vezes teremos de defrontar mais que um oponente em simultâneo. Por fim temos várias outras cutscenes repletas de quick time events. Desta vez não temos condução de veículos (saudades das corridas de empilhadoras!).

A versão Xbox por si só já vinha com alguns melhoramentos gráficos

A parte de exploração é sem dúvida onde passamos mais tempo e é aqui que as quests principais se vão desenvolvendo. Tal como no seu predecessor, o jogo possui um relógio niterno,  com transições entre dia e noite. As localizações que podemos/devemos visitar, como as diferentes lojas, têm horários próprios de funcionamento que devemos ter em conta, bem como todos os NPCs seguirem rotinas próprias, o que é muito interessante e tecnicamente impressionante para a altura em que o jogo foi desenvolvido. Outros detalhes como as diferentes condições metereológicas estão novamente aqui presentes. A nível de melhoramentos, a principal funcionalidade que achei muito benvinda é a o possibilidade de, em certas ocasiões, poder avançar rapidamente no tempo. Por exemplo, temos uma quest que nos obriga a estar no ponto A a uma certa hora. Enquanto no original tinhamos mesmo de esperar esse tempo todo, aqui vamos tendo a opção de avançar o tempo até à hora em questão. É certo que é fácil matar tempo: Nesta sequela temos muito mais por explorar, muitos mais minijogos como lutas por dinheiro, competições de braços de ferro, gambling, empregos, coleccionáveis, mas pura e simplesmente podemos não querer perder tempo com isso e avançar na história, pelo que esta opção é muito benvinda.

Espero que estas QTEs na Dreamcast não sejam tão frustrantes quanto na PS4

No que diz respeito aos combates, há aqui também mais algumas mudanças face ao original. No original Dreamcast, e no remaster, podemos importar todas as habilidades (e o seu nível) do primeiro jogo para a sequela, se bem que iremos também aprender novos golpes neste jogo. Para os nossos golpes serem mais eficazes, temos de os practicar e isto, no primeiro Shenmue, era algo que se podia fazer em qualquer altura do dia, em alguns espaços abertos, sendo uma óptima maneira de passar o tempo. Aqui não temos essa possibiliade, pelo que apenas podemos ir evoluindo os nossos golpes nas batalhas propriamente ditas. Outra possibilidade é desafiar alguns lutadores de rua, mas aí temos a desvantagem de poder perder dinheiro, caso percamos o combate.

Não temos de conduzir empilhadoras, mas vamos precisar de passar umas manhãs a carregar livros antigos

Por fim, no que diz respeito aos quick time events, este Shenmue II introduz alguns novos tipos de QTEs: sequências de botões que têm de ser pressionados rapidamente e sem falhas. Bom, para mim este é mesmo o ponto mais baixo em todo o jogo. Isto porque estas sequências para além de terem um timing muito próprio, não dão quaisquer margens para erros. Geralmente conseguimos gravar o nosso progresso no jogo antes de haverem estas  QTEs “especiais”, ou noutras situações o jogo deixa-nos tentar novamente sem nos prejudicar. Mas já na recta final de Kowloon, temos uma série de combates mais exigentes que terminam com QTEs deste género. E se falharmos, temos de recomeçar os combates de novo. Posso dizer que tentei seguramente mais de 20 vezes o combate contra o Baihu e falhava sempre uma destas QTEs. Não sei se é um problema do remaster, provavelmente na Dreamcast ou Xbox as coisas não são tão críticas, mas tive muitas dificuldades na PS4. A dica que posso dar é: se tiverem uma destas QTEs em que precisam de pressionar 2 direcções seguidas e depois um botão facial, usem o analógico, com toques firmes e na direcção certa, não necessariamente à velocidade da luz mas também não muito lento. Se tivermos de pressionar algumas direcções e botões faciais de forma alternada, aí já uso mais o D-pad: Com calma, mas uma vez mais relativamente rápido, toques firmes em cada botão. Creio que o meu problema era tentar fazer as sequências rápidas demais e/ou não pressionar devidamente nos botões certos, muitas vezes o sistema não aceitava as minhas combinações, mesmo eu tendo a certeza que pressionei os botões correctos. Em qualquer dos casos, foi muito, muito, muito frustrante. Espero que o Yu Suzuki tenha implementado um sistema melhor no Shenue III.

Podemos perguntar às pessoas por direcções e algumas até se disponibilizam em nos acompanhar aos destinos.

A nível audiovisual, tal como referi anteriormente, o original um jogo tecnicamente muito impressionante para a época em que foi lançado (finais de 1999). A sequela mantém a mesma qualidade, com cidades muito bem detalhadas, especialmente as personagens, as suas animações e expressões faciais. Para além disso há uma maior variedade de cenários a explorar, não só urbanos, e a representação das cidades parece-me muito realista para a época retratada. O remaster traz texturas em maior resolução, modelos poligonais ligeiramente mais detalhados e alguns efeitos de luz adicionais, embora tenha o mesmo problema de, à noite, o jogo ser bem mais escuro que o original. A nível de som, as músicas são muito ambientais (tirando se calhar o tema mais rock da Joy), indo buscar muitos temas orientais. As cidades estão repletas do burburinho de pessoas a falar, músicas das lojas a tocar em plano de fundo, enfim, cheias de vida! O voice acting original, em Japonês, é excelente para a sua época. Já o inglês… bom… sinceramente não acho que seja o mais interessante.

Depois dos acontecimentos frenéticos do terceiro disco, o quarto é literalmente um passeio

Portanto, este Shenmue II acaba por ser uma excelente sequela do clássico da Dreamcast, expandindo os seus conceitos de exploração ao adicionar muito mais conteúdo e território a explorar. Algumas novidades nas mecânicas de jogo como a possibilidade de avançar o tempo em determinadas situações foram muito benvindas, já os novos QTEs sequenciais não, de todo. Os controlos continuam a ser algo estranhos na movimentação de Ryo, mas são fruto do seu tempo. A narrativa está excelente e agora, ao fim destes anos todos, consigo entender perfeitamente o porquê dos fãs de Shenmue quererem tanto uma sequela, pois a história tem potencial e eu também estou bastante curioso em acompanhar o seu desfecho.