Após um interregno para umas merecidas férias, é tempo de voltar à carga com uma rapidinha a um jogo indie de 2014 e do qual nunca tinha ouvido falar. Whispering Willows foi desenvolvido através de financiamento pela plataforma Kickstarter e lançado originalmente para a fracassada Ouya, chegando poucos meses depois ao PC, com versões para consolas e dispositivos móveis lançadas nos anos seguintes. Foi um jogo que veio parar à minha conta do GOG algures em 2024, após ter sido oferecido gratuitamente pela própria plataforma durante um período limitado.
Whispering Willows fez-me logo lembrar jogos como Lone Survivor, pela sua apresentação simples e algo minimalista, mas com uma atmosfera bastante tensa. Aqui controlamos a jovem Elena Elkhorn, que parte em busca do seu pai, aparentemente desaparecido numa mansão abandonada. Quando Elena chega ao local, é surpreendida pelo brilho do seu pendente, um amuleto mágico herdado do avô, outrora um shaman de uma tribo índia, que lhe confere um poder especial: o de projectar o seu espírito para fora do corpo, conseguindo assim interagir com outras entidades ou possuir objectos para resolver certos puzzles.
Quando o colar de Elena brilha nesta cor, significa que temos um espírito por perto com o qual podemos interagir. Se brilhar numa cor vermelha, significa perigo, há um inimigo por perto.
Esta é então uma aventura em 2D onde teremos uma área de jogo considerável para explorar, desde a gigantesca mansão até às áreas circundantes, como a casa de hóspedes, jardins, estufas, criptas, entre outras. Nem todas as zonas estarão imediatamente acessíveis, pelo que o jogo nos incentiva a explorar, falar com outros espíritos e ajudá-los com algumas sidequests. Ao fazê-lo, iremos desbloquear novas secções para explorar. Muitos dos puzzles obrigam-nos também a recorrer à forma espiritual de Elena, seja para nos esgueirarmos por passagens estreitas ou possuir objectos como interruptores e alavancas que nos permitam abrir novos caminhos. Ocasionalmente teremos também alguns inimigos com que nos preocupar e Elena é completamente indefesa, pelo que só nos resta fugir ou, nalguns casos, recorrer à furtividade para passarmos despercebidos.
É com a projecção astral que nos podemos esgueirar em várias passagens estreitas e melhor explorar a mansão
Visualmente é um jogo 2D simples, com um estilo artístico do qual pessoalmente não sou grande fã. No entanto, o som está bem conseguido, pois vamos ouvindo constantemente os ruídos da velha mansão e outros efeitos ambientais que contribuem de forma convincente para criar uma atmosfera bastante tensa.
Infelizmente não posso dizer que sou um grande fã da direcção artística
Portanto, Whispering Willows é um jogo bastante simples nas suas mecânicas, infelizmente até demais, visto que a habilidade de Elena em separar o espírito do corpo teria potencial para ser muito mais explorada. É também um jogo bastante curto, o que no meu caso acabou por resultar lindamente, pois era precisamente algo com uma duração a rondar as quatro horas que andava à procura.
Tempo de voltar ao PC para um jogo que já estava no meu backlog há anos e muito me arrependo de não o ter jogado mais cedo, pois foi uma excelente surpresa. Produzido pelo Ryu ga Gotoku Studio (os mesmos por detrás da também excelente série Yakuza / Like a Dragon), Binary Domain é um shooter futurista jogado na terceira pessoa, com uma jogabilidade bastante sólida, uma narrativa muito interessante e personagens igualmente memoráveis, como iremos ver em seguida. O meu exemplar foi comprado ao desbarato numa MediaMarkt algures em 2013 por menos de 3€, uma autêntica pechincha.
Jogo com caixa, manual e papelada
A história leva-nos ao ano de 2080, onde os efeitos das alterações climáticas fizeram com que o nível das águas dos oceanos subisse drasticamente, arrasando grande parte das maiores cidades costeiras e provocando inúmeras mortes. Isto levou a indústria robótica a ganhar um enorme protagonismo, com robots a assumirem a maior parte do trabalho pesado e não só. Este grande salto tecnológico na área da robótica levou ao surgimento de novas leis que impedissem as grandes empresas de criarem robots semelhantes a humanos, algo que inevitavelmente acabou por acontecer em pleno solo norte-americano. Estes hollow children eram robots tão avançados e com uma inteligência artificial tão sofisticada que eles próprios nem faziam ideia de que o eram. Receando que isto fosse um ataque por parte da Amada Corporation, uma outrora gigante tecnológica nipónica, uma aliança militar internacional decide enviar um pequeno esquadrão para se infiltrar no Japão (que se havia fechado sobre si mesmo uma vez mais), recolher provas do eventual envolvimento da Amada e capturar o seu líder, caso encontrassem provas incriminatórias. É aqui que entra a nossa personagem, o norte-americano Dan Marshall, acompanhado do seu colega de longa data Big Bo, enquanto tentam infiltrar-se no Japão sem serem descobertos. Naturalmente, as coisas não correm bem, mas eventualmente iremos cruzar-nos com os restantes membros dessa pequena força internacional: Charles Gregory e Rachel Townsend, ambos ex-MI6, a femme fatale chinesa Faye Lee e os franceses Jean e o seu carismático robot Cain. No Japão iremos também conhecer outras personagens, sejam do movimento de resistência local ou não, que eventualmente se juntarão a nós, como é o caso de Shindo ou do polícia Kurosawa.
O que não faltam aqui são momentos de acção frenética!
A sétima geração de consolas teve os cover based shooters como um dos géneros mais prolíferos e Binary Domain segue essa tendência. E devo dizer que, como shooter, é bastante competente. As mecânicas de nos protegermos em abrigos, disparar enquanto estivermos protegidos ou mesmo rebolar de um abrigo para o outro funcionam muito bem. Tal como em muitos outros jogos de acção da época, temos um grande leque de armas disponíveis, mas um número mais reduzido de armas que poderemos carregar em simultâneo. A vida é regenerativa até um certo ponto, sendo depois necessário utilizar medkits ou pedir a algum colega nosso que nos venha safar. E é aqui que entra uma mecânica de jogo muito interessante em teoria, mas que não foi particularmente bem executada: o sistema de confiança.
As interacções que vamos tendo com os nossos colegas fazem subir ou descer o seu nível de confiança para connosco, que poderão ter consequências na recta final
Basicamente, seja através de diálogos com os nossos colegas de equipa ou com base na nossa performance nos combates, vamos construindo um sistema de confiança que pode ser evoluído. O jogo possui também um sistema de ordens onde, com o pressionar de uma tecla, podemos comandar os nossos colegas de equipa e, se o nível de confiança for baixo, eles podem simplesmente desobedecer ou até nem se darem ao trabalho de nos vir ajudar caso não tenhamos nenhum medkit connosco. Dar as respostas certas nos momentos de diálogo aumenta a confiança, assim como derrotar inimigos rapidamente e de forma espectacular, através de headshots ou golpes vistosos de combate corpo-a-corpo. Dar respostas erradas, uma má performance em combate ou casos de fogo amigável fazem os níveis de confiança descer, sendo este último caso especialmente frustrante, pois os nossos colegas insistem em colocar-se à frente da nossa linha de fogo. Por outro lado, os diferentes níveis de confiança com os nossos companheiros terão também algumas consequências narrativas, particularmente nos capítulos finais.
Infelizmente, é também nestes momentos de interacção entre personagens que se nota algum potencial desperdiçado. Muitas das conversas abordam temas relativamente complexos ou pessoais, mas as respostas que podemos dar resumem-se frequentemente a uma ou duas palavras, sem grande nuance ou follow-up narrativo. A ideia de moldar relações entre personagens através do diálogo continua interessante, mas a execução acaba por soar demasiado simplista. É também nos momentos mais calmos entre missões que se nota que Binary Domain poderia ter ido mais longe. O jogo parece querer incentivar alguma exploração das áreas circundantes e uma maior interacção com o elenco, mas acaba por limitar demasiado o movimento do jogador, tornando essa exploração algo penosa. Pior ainda, raramente existe uma recompensa interessante para quem decide perder tempo a investigar os cenários. Isto acaba por ser particularmente estranho vindo do Ryu ga Gotoku Studio, cujos jogos da série Yakuza sempre recompensaram bastante bem a curiosidade do jogador, algo que até o experimental Yakuza: Dead Soulsconseguia fazer melhor.
O sistema de abrigos até que funciona bastante bem. Pena é pelos nossos colegas teimarem em meterem-se à nossa frente.
O sistema de comandar os nossos colegas é outra ideia interessante e, para quem usa headsets, o jogo possui mesmo um sistema de reconhecimento de voz, embora as críticas da altura indiquem que isso não funcionava particularmente bem. Apesar de ter um headset, nunca o usei enquanto jogava, pelo que as minhas opções eram bem mais limitadas. De resto, o jogo possui também um sistema de evolução de personagens. À medida que vamos destruindo robots, ganhamos créditos que podem ser gastos em várias vending machines espalhadas pelos níveis. Aqui podemos não só comprar diferentes armas secundárias e munições, mas também nanomachines capazes de melhorar atributos nossos ou dos nossos companheiros quando equipadas, assim como melhorar as armas principais de cada uma das personagens. Por fim, convém também mencionar que o jogo possui uma forte componente multiplayer, com vários modos de jogo disponíveis, mas como nem me dei ao trabalho de a explorar, não vale a pena alongar-me muito nesse departamento.
Também o que não falta aqui são bosses gigantes e autênticas esponjas de balas!
Visualmente o jogo é bastante apelativo, particularmente no detalhe das expressões faciais das personagens principais, algo que já acontecia nos Yakuza. Jogando Binary Domain no PC, mesmo sem quaisquer mods, continua a ser uma óptima experiência visual, pois os gráficos escalam perfeitamente para resoluções muito superiores e, com tudo no máximo, passaria facilmente por um videojogo da oitava geração de consolas. O voice acting, que por algum motivo na versão PC está trancado ao inglês, pelo menos no meu caso assim foi, funciona ainda assim bastante bem. Apesar de existir uma opção para escolher outras línguas, o jogo não me deixava fazê-lo. Gostaria de o ter jogado com a dobragem original em japonês, mas acho que a dobragem inglesa funciona perfeitamente e, tendo em conta que a maior parte das personagens que controlamos falam inglês, também não destoa. A banda sonora confesso que me passou algo despercebida no meio de tanto tiroteio, mas sempre que me despertava a atenção estava a ouvir algo numa toada electrónica e acelerada, o que encaixa bem num jogo com um ritmo bastante frenético.
Portanto, este Binary Domain foi uma excelente surpresa e é sem dúvida um jogo que merecia ter tido muito mais atenção por parte dos jogadores na sua altura. Apesar de não reinventar a roda e de ter alguns problemas menores a nível de controlos e ritmo narrativo, foi na mesma uma excelente aventura, com um elenco de personagens muitíssimo interessante (adorei o robot com sotaque francês ou o próprio Big Bo) e uma narrativa com potencial tremendo para eventuais sequelas. Agora que o estúdio Ryu ga Gotoku tem estado com a popularidade em alta nos últimos anos, seria interessante que a Sega repescasse este clássico para que tivesse finalmente a atenção merecida. Eu jogaria uma sequela ou remake/remaster sem quaisquer problemas!
Ora cá está um jogo que sempre me passou debaixo do radar. A sua versão para a PlayStation era um título que encontrava frequentemente ao desbarato em feiras de velharias, mas nunca cheguei a comprá-lo, pois outros jogos similares como Dracula: A Ressurreição ou Necronomicon sempre tiveram críticas algo negativas, particularmente nessas versões PS1. Recentemente surgiu-me a possibilidade de comprar (em promoção) o remake deste jogo, lançado há cerca de um ano, e foi então que percebi tratar-se de uma criação de Benoît Sokal, o autor da série Syberia. Segundo li algures na internet, aparentemente Amerzone decorre no mesmo universo de Syberia, pelo que acabei por comprar o remake. No entanto, antes de jogar essa versão moderna, quis experimentar o lançamento original, que a GOG disponibilizou gratuitamente algures em Março do ano passado, talvez em jeito de celebração do lançamento iminente do remake.
Nesta aventura controlamos um jornalista anónimo que se preparava para entrevistar Alexandre Valembois, outrora um grande explorador da Amerzone (uma região fictícia claramente inspirada pela floresta amazónica), mas cuja carreira foi levada à ruína após ter sido descredibilizado pelos seus pares no meio académico, na sequência da sua última expedição nos anos 30. Alexandre enamorou-se da flora e fauna local, particularmente das místicas aves brancas, com asas de grande envergadura, nativas daquela região. Durante essa última expedição, viveu algum tempo com uma tribo remota, onde entrou em contacto com um ovo gigante dessa mesma espécie. Movido pela ambição, Alexandre acaba por roubar o ovo e levou-o consigo para a Europa, onde acabou por ser desacreditado pelos seus colegas, convencidos de que se tratava apenas de um ovo de avestruz maior que o normal. Com o passar dos anos, Alexandre foi ficando cada vez mais atormentado pelos remorsos das suas acções, por ter traído o povo que o acolheu. Assim, no seu leito de morte, implora-nos que viajemos até à Amerzone e devolvamos o ovo ao seu habitat natural.
Tal como Myst, cada ecrã permite-nos observar o mundo à nossa volta numa perspectiva de 360º com gráficos pré-renderizados e bastante bonitos na sua época
Amerzone é, portanto, uma aventura gráfica na primeira pessoa, com mecânicas claramente inspiradas por títulos como Myst. Trata-se de um jogo onde temos liberdade de 360º para observar o mundo à nossa volta, com o cursor a mudar de forma consoante a zona para onde apontamos. Se o cursor se transformar numa seta, indica que nos podemos movimentar nessa direcção, com o ecrã seguinte a apresentar uma nova vista de 360º. Ícones como uma lupa assinalam zonas ampliáveis, enquanto uma mão indica objectos interactivos ou recolhíveis. Já um ícone com rodas dentadas representa elementos que apenas podem ser activados com recurso a outros objectos previamente adquiridos. Para aceder ao inventário, basta pressionar o botão direito do rato.
Para nos deslocar entre as várias regiões do jogo, somos obrigados a utilizar todas as formas de naveagação do nosso Hydraflot, o que nos obrigará a procurar combustível e disquetes para passar as próximas coordenadas.
É uma aventura gráfica interessante, embora seja notório que, a partir da segunda metade do jogo, os puzzles se tornam bem mais simples, o que acaba por encurtar consideravelmente a sua duração. Levei menos de quatro horas a terminá-lo e, por muito poucas vezes, senti necessidade de consultar um guia. Quando o fiz, foi sobretudo porque nem sempre era evidente quais os elementos interactivos no ecrã, muito por culpa dos gráficos pré-renderizados, que infelizmente não escalam bem para resoluções modernas. Noutros casos, a dificuldade residia numa interface pouco intuitiva, especialmente quando era necessário alterar configurações no computador de bordo do Hydraflot, um veículo híbrido com diferentes modos de voo e navegação aquática, entre os quais temos de alternar com alguma frequência. Infelizmente, a narrativa também não se revelou totalmente satisfatória, já que nunca chegamos a compreender plenamente o papel dessas aves místicas e da misteriosa tribo que as protege.
Tal como em vários outros jogos de aventura, também poderemos investigar documentos que melhor explicam a narrativa
No que diz respeito aos audiovisuais, Amerzone é claramente influenciado por Myst, na sua utilização de cenários pré-renderizados e numerosas sequências em CGI, o que explica o facto de ter sido originalmente distribuído em quatro CDs. No entanto, esta abordagem limita bastante qualquer tentativa de modernização técnica. Por defeito, o jogo corre a uma resolução de 640×480, que já não era particularmente elevada para os padrões de 1999, pelo que executá-lo num PC moderno pode revelar-se um desafio. Não consegui utilizar o dxWnd para forçar o jogo a correr em janela, mas, com recurso ao dgVoodoo, consegui pelo menos aumentar a resolução dentro do formato 4:3. Ainda assim, esse aumento não faz milagres em conteúdos pré-renderizados de baixa resolução, pelo que não se devem esperar visuais particularmente nítidos. Confesso também que não fiquei muito impressionado com as representações das personagens humanas, que considero bastante fracas, mesmo tendo em conta os padrões de CGI da época. Por outro lado, o som e a música são competentes, sem nada de particularmente negativo a apontar. De notar ainda que Amerzone foi um dos exemplos de jogos totalmente localizados para português, o que poderá ter contribuído para atrair algum público na altura.
Amerzone está repleto de estranhas criaturas, todas documentadas numa espécie de diário de bordo da expedição anterior.
Em suma, Amerzone é um jogo interessante e foi refrescante, ao fim de vários anos, regressar a uma aventura gráfica com mecânicas e controlos semelhantes aos de Myst. Nota-se que foi um projecto ambicioso para a sua época e consegue evocar, com sucesso, um forte sentimento de aventura, quase à Indiana Jones, enquanto exploramos as profundezas da selva sul-americana. Ainda assim, é evidente algum apressar na segunda metade do jogo, e o papel das tais aves místicas acaba por nunca ser devidamente aprofundado. Fico, por isso, curioso em perceber de que forma o recente remake irá expandir esta narrativa, sobretudo tendo em conta que o seu criador original, Benoît Sokal, nos deixou em 2021.
Depois de ter jogado Sherlock Holmes: The Devil’s Daughter, fiquei com vontade de continuar a explorar algo com uma temática de detective. Foi então que me lembrei de que tinha este L.A. Noire encostado na prateleira há já demasiado tempo. Com uma nova ronda do Backlog Battlers a aproximar-se, e sabendo que a pessoa a quem teria de escolher um jogo também o tinha no seu backlog, aproveitei a oportunidade para o desafiar com este título, comprometendo-me igualmente a jogá-lo. No entanto, como também me calhou um jogo longo, não tive oportunidade de o terminar mais cedo. Ainda assim, já tinha investido algumas boas horas para partilhar impressões preliminares, pelo que deixo abaixo o vídeo desse episódio para quem tiver curiosidade. Já agora, o meu exemplar de L.A. Noire veio de uma Worten algures em Julho de 2013, por menos de 15€.
L.A. Noire leva-nos até à cidade de Los Angeles em 1947, numa altura em que a sociedade norte-americana ainda se adaptava ao período pós-guerra, muito por força do regresso dos seus soldados a casa. O protagonista, Cole Phelps, é precisamente um desses casos: após ter servido no Pacífico como tenente de uma companhia de Marines, inicia agora a sua carreira civil na polícia local. As primeiras missões, onde Cole desempenha o papel de simples polícia de rua, funcionam como um tutorial às várias mecânicas introduzidas. Após resolver esses casos iniciais, é promovido a detective, começando na divisão de tráfego, onde investiga crimes relacionados com viaturas. O seu desempenho acaba por lhe valer uma promoção à divisão de homicídios e é aí, na minha opinião, que a narrativa começa verdadeiramente a ganhar interesse. Pelo meio, vamos assistindo a flashbacks do passado de Cole na guerra, bem como a pequenos recortes narrativos apresentados através de jornais espalhados pelo jogo. Naturalmente, tudo acabará por se interligar no final, mas deixo os detalhes o leitor descobrir por si mesmo.
Jogo com caixa e manual
Tipicamente, uma missão em L.A. Noire segue uma estrutura bem definida: somos informados de um crime, deslocamo-nos até ao local e começamos a investigação. No terreno, procuramos pistas e interrogamos testemunhas que nos conduzem a novas localizações e suspeitos. Pelo meio, não faltam confrontos físicos, tiroteios e perseguições, tanto a pé como de carro. As secções de investigação fazem lembrar Shenmue, na medida em que somos incentivados a examinar objectos manualmente, manipulando-os para descobrir pistas escondidas. O mesmo se aplica a documentos, que devemos analisar com atenção.
Apesar do foco do jogo serem investigações policiais, o que não falta são também tiroteios, porrada e perseguições!
O grande destaque de L.A. Noire está, no entanto, nos interrogatórios. Estes assentam fortemente na leitura das expressões faciais, sendo que, após cada pergunta, temos de decidir se acreditamos na pessoa (Truth), se duvidamos (Doubt), ou se o acusamos directamente de mentir (Lie). Esta última opção exige sempre que apresentemos provas concretas, com base nas pistas recolhidas. Curiosamente, falhar uma dedução ou até acusar a pessoa errada não tem consequências de maior, já que a narrativa prossegue independentemente disso. A nossa pontuação no final da missão é no entanto afectada, mas poderemos sempre rejogar novamente um caso antigo em busca de um resultado mais satisfatório.
As expressões faciais são um dos principais pontos fortes deste L.A. Noire
O jogo apresenta também um mundo aberto que procura recriar Los Angeles na segunda metade da década de 40. Ainda que detalhado, este espaço acaba por ser algo pobre em conteúdo adicional, sobretudo quando comparado com outros títulos da Rockstar. Para além de alguns coleccionáveis e pequenos street crimes (missões opcionais, mais simples e rápidas), pouco mais há para fazer. Ainda assim, parece-me que este mundo aberto serve essencialmente de palco para as perseguições policiais, o que, pessoalmente, não me incomodou.
A narrativa revela-se bastante envolvente, apesar de um início algo lento. É a partir da divisão de homicídios que tudo ganha maior intensidade. Gostei particularmente da personagem de Cole Phelps e da forma como a história se desenrola. Ao longo do jogo, vamos sendo acompanhados por diferentes parceiros, todos com personalidades bem definidas e distintas, o que contribui para enriquecer a experiência.
Esta cara parece-vos a de quem está a ser honesto?
Grande parte desta envolvência deve-se também ao excelente trabalho audiovisual da Team Bondi. As animações faciais são impressionantes, especialmente nos interrogatórios, onde desempenham um papel fundamental. É pena que a linguagem corporal não tenha recebido o mesmo nível de detalhe, pois pequenos gestos poderiam ter acrescentado ainda mais profundidade. Ainda assim, o resultado final é bastante convincente. A banda sonora, com forte inspiração no jazz e na música da época, ajuda a criar uma atmosfera noir muito coesa. Pequenos detalhes, como as melodias que surgem quando nos aproximamos de pistas, estão igualmente bem conseguidos.
A análise cuidada dos objectos e documentos que vamos ter acesso é outro dos pontos fortes do jogo.
Em suma, gostei bastante de ter jogado L.A. Noire. É verdade que, ao fim de algum tempo, a estrutura pode tornar-se algo repetitiva, devido à quantidade de casos a investigar. Ainda assim, a atmosfera, os visuais e a narrativa mantiveram sempre o meu interesse. Tanto assim é que, assim que terminar os restantes jogos da Remedy que tenho em vista, pretendo finalmente dar atenção a outros títulos da Rockstar que ainda tenho por explorar na minha colecção.
Há jogos que passam anos na nossa lista de pendentes até surgir finalmente o pretexto certo para lhes pegar. No meu caso, esse momento chegou algures no mês passado, quando fui desafiado pelos meus colegas do TheGamesTome, no âmbito da nossa rubrica mensal “Backlog Battlers”, a jogar o primeiro Mass Effect, o capítulo inaugural de uma das trilogias mais importantes da sétima geração de consolas. Lançado originalmente em 2007 em exclusivo para a Xbox 360, este primeiro jogo acabaria por receber uma versão para PC sensivelmente meio ano depois. Devido a uma parceria com a Microsoft Game Studios, a PlayStation 3 ficou inicialmente de fora, tendo recebido a sua versão apenas em 2012, já com a trilogia encerrada. Os meus exemplares chegaram à colecção por vias curiosas. Algures no verão de 2013, numa das minhas visitas à MediaMarkt de Alfragide, comprei entre outras pechinchas a edição física da trilogia de Mass Effect para PC por apenas 5€, juntamente com a edição de coleccionador de Mass Effect 3, também para PC, pelo mesmo preço. Ora, tendo o Mass Effect 3 “duplicado” na colecção, não resisti quando, anos mais tarde, encontrei numa feira de velharias os dois primeiros jogos da série ao desbarato, por um ou dois euros cada.
Este primeiro Mass Effect é um RPG de ficção científica, um território nada estranho para a Bioware, que já nos havia trazido no passado o excelente Star Wars: Knights of the Old Republic. Apesar de herdar algumas das mecânicas típicas dos RPGs ocidentais, como as escolhas nos diálogos que conduzem a diferentes consequências no decorrer da história, assim como influenciam a “moralidade” da nossa personagem principal, Mass Effect é também um jogo mais voltado para a acção, com uma interface mais simplificada e próxima de um shooter na terceira pessoa. Ainda assim, temos também a possibilidade de utilizar diferentes habilidades e definir estratégias durante os combates, algo que irei detalhar mais à frente.
Jogo com caixa e manual
No que toca à história, a mesma decorre num futuro em que a humanidade é ainda um recém-chegado ao palco político da galáxia. Décadas antes dos acontecimentos aqui narrados, o primeiro contacto da humanidade com uma civilização alienígena despoletou a chamada First Contact War, um marcante conflito com os turians. Desde então, os humanos foram integrados na comunidade galáctica, mas continuam a ocupar uma posição frágil num equilíbrio de poder dominado por raças tecnologicamente mais antigas, como os asari, os salarians e os próprios turians. Ambiciosa e desejosa de afirmar o seu peso político, a humanidade procura conquistar maior influência nas instituições da Citadel. Esse objectivo serve de pano de fundo para os acontecimentos que se desenrolam ao longo da aventura. É neste contexto que surge o Commander Shepard, a nossa personagem principal, que após os acontecimentos narrados no início do jogo acaba por ser promovido a Spectre. Estes são uma espécie de agentes especiais ao serviço do concelho galáctico, operando com ampla autonomia e autoridade para tomarem as suas próprias decisões. A nossa primeira missão passa por localizar e travar Saren, um outro Spectre que aparentemente se revoltou e está a preparar algo em grande escala que coloca toda a galáxia em risco.
Trilogia Mass Effect com caixas de cartão com ilustrações holográficas, dois discos por jogo e folhetos
Como seria de esperar num RPG desta natureza, começamos por criar a nossa personagem. Por defeito controlamos um Commander Shepard masculino e de cabeça rapada, mas podemos personalizar o seu género, aparência e o seu background militar, sendo que esta última escolha influencia certos diálogos e até algumas sidequests que irão surgir mais tarde. Mais importante que isso é a classe escolhida, que determina as habilidades disponíveis. Por exemplo, a classe Soldier, que foi a que escolhi, é focada essencialmente no combate com armas de fogo, não só tendo aptidão para utilizar com eficácia todo o armamento disponível, como podendo equipar armaduras mais pesadas e possuir mais pontos de vida. Os Adepts são classes cujo foco está inteiramente nos poderes bióticos, habilidades que funcionam essencialmente como capacidades psíquicas, como telequinese, por exemplo, sendo por isso fisicamente mais frágeis. Já os Engineers especializam-se em habilidades tecnológicas, como hacking de portas ou contentores com itens, para além de possuírem outras capacidades úteis em combate, como o overload, capaz de desactivar escudos inimigos. As restantes três classes, Vanguard, Sentinel e Infiltrator, combinam características destas especializações, e cada classe pode ainda evoluir posteriormente para uma de duas especialidades distintas.
Mecânicamente, o jogo funciona muito um shooter na terceira pessoa, mas mediante a classe escolhida poderemos ter outras habilidades especiais
Tal como já referi, Mass Effect apresenta uma interface relativamente simples que se aproxima bastante da de um jogo de acção na terceira pessoa, tendo inclusivamente introduzido mecânicas de abrigo, muito populares nos jogos de acção daquela época. No entanto, este não é necessariamente o melhor exemplo dessa tendência, pois achei sinceramente que essas mecânicas de abrigo não foram particularmente bem implementadas e até atrapalham um pouco a acção nos momentos mais intensos. Algo importante a destacar é o facto de controlarmos directamente apenas o Commander Shepard, sendo este acompanhado por um máximo de duas outras personagens que entretanto se tenham juntado à nossa party. Durante os combates é possível pausar a acção a qualquer momento para dar ordens directas aos companheiros, posicionando-os em locais mais vantajosos, escolhendo quais das suas habilidades utilizar, ou até alterando os comportamentos padrão das suas rotinas de inteligência artificial. No que toca ao próprio Shepard, podemos também equipar certas habilidades em hotkeys para uma utilização mais rápida.
O Soldier até pode não ter super poderes, mas é a única classe que consegue utilizar quaiquer armas de forma eficiente.
De resto, contem com um RPG bastante imponente, com uma narrativa repleta de intriga política e onde ocasionalmente teremos decisões importantes a tomar, que irão não só influenciar a forma como os restantes membros do grupo se relacionam connosco, mas também afectar os acontecimentos seguintes da história. É também um jogo repleto de sidequests e planetas para explorar. Toda a narrativa se passa na Via Láctea, onde poderemos visitar diferentes sectores, sistemas solares e, por fim, planetas. Felizmente não é um jogo tão vasto quanto inicialmente suspeitei ao abrir o Galaxy Map pela primeira vez, pois apenas existe um planeta explorável em cada sistema solar. Mesmo assim, a área disponível em cada planeta não é particularmente grande. Isto leva-me a outro dos pontos menos conseguidos do jogo, na minha opinião, a exploração planetária com o M35 Mako, um veículo de combate de infantaria que não se controla particularmente bem. Além disso, navegar pelos terrenos montanhosos de certos planetas revelou-se muitas vezes frustrante.
As personagens que o jogo nos apresenta são super interessantes, gostei particularmente dos Quarian e a sua cultura algo nómada!
Já no que toca aos audiovisuais, convém relembrar que joguei a versão original de Mass Effect para PC e não utilizei quaisquer mods, para além de alguns patches destinados a resolver problemas de estabilidade. Inicialmente o jogo crashava com bastante frequência, ao fim de cerca de uma hora de jogo, com mensagens de erro relacionadas com alocação de memória virtual, algo que acabei por resolver com um patch não oficial. Instalei também outro patch para corrigir alguns problemas de artefactos gráficos em GPUs AMD, que é o meu caso. Ainda assim, é inegável que o jogo não envelheceu particularmente bem do ponto de vista gráfico, com personagens que apresentam texturas faciais de baixa qualidade. Existe um workaround essencial descrito no PCGamingWiki que consiste em editar um ficheiro de configuração para aumentar a qualidade das texturas das personagens, o que pelo menos ajuda a melhorar bastante esse aspecto. Por outro lado, a exploração dos planetas é francamente pobre, sendo muitos deles praticamente desertos de qualquer tipo de vegetação, mesmo aqueles com atmosfera respirável. Existe também alguma falta de variedade nos cenários interiores, com muitas salas bastante semelhantes entre si, tanto no seu layout como no seu conteúdo. Ainda assim, devo dizer que gostei bastante da representação das diferentes raças alienígenas presentes no jogo, bem como do trabalho de dobragem, que é de elevada qualidade. A banda sonora acaba muitas vezes por ficar em segundo plano, particularmente durante as sidequests, mas ganha destaque com os seus temas mais épicos e orquestrais em certos momentos chave da história principal.
Diferentes escolhas têm por vezes diferentes consequências no desenrolar da história
No entanto, apesar de alguns pontos menos conseguidos, devo dizer que adorei este Mass Effect, muito por culpa de algo que a Bioware sempre soube fazer bem, a criação de universos ricos, povoados por personagens interessantes e sustentados por um vasto lore que vamos descobrindo à medida que avançamos na história e conversamos com outras personagens. Gostei particularmente de algumas das figuras introduzidas neste primeiro jogo, como Liara ou Tali, que me acompanharam durante grande parte da aventura graças às suas habilidades bióticas e tecnológicas, respectivamente. E pela forma como o jogo termina, apesar de não recorrer a um grande cliffhanger, deixa-me bastante curioso em ver como a trilogia se desenvolve nos capítulos seguintes, pelo que não me admiraria se daqui a uns meses acabasse mesmo por pegar no Mass Effect 2. Ainda assim, tendo em conta as várias dificuldades técnicas que encontrei ao jogar a versão original para PC, talvez faça mais sentido para novos jogadores optar antes pela Mass Effect Legendary Edition, um relançamento mais recente que reúne a trilogia e que, acredito, ofereça uma experiência bastante mais estável nos sistemas actuais.