Traysia (Sega Mega Drive)

Tempo de voltarmos à Mega Drive para um jogo que há muito já tinha curiosidade em experimentar. Isto porque seguramente há mais de 10 anos que dei por mim a comprar, por cerca de 5€, um cartucho da versão japonesa de Traysia, numa loja em Matosinhos que entretanto já fechou. Mais recentemente, apercebi-me de que uma empresa espanhola, a Shinyuden, relançou Traysia não só com uma nova localização para inglês, mas também com uma localização em castelhano. Ora, como o preço desta nova versão não ficava assim tão aquém do que é habitual encontrar pelas versões para Sega Genesis, decidi antes comprar um exemplar da localização original da Renovation, algo que aconteceu no início deste ano, depois de ter encontrado um bom negócio na Vinted.

Jogo com caixa e manual, versão norte-americana publicada pela Renovation

A história é simples. Nós encarnamos no papel de Roy, um jovem aventureiro que decide deixar a sua cidade natal de Johanna para explorar o mundo à sua volta. Para trás deixa também Traysia, a sua namorada de longa data que, antes da sua partida, lhe dá um pendente como recordação. E Traysia será, de certa forma, parte integrante da história, pois em momentos-chave Roy irá recordar-se dela e assim encontrar forças para ultrapassar os obstáculos que se vão atravessando no seu caminho. A narrativa está, no entanto, dividida em diversos capítulos, cada um com uma história relativamente contida, assim como as cidades e dungeons que poderemos explorar. E não querendo revelar muito da narrativa, que posso desde já dizer que não é nada de extraordinário, digamos apenas que há um certo vilão que vai aparecendo em todos os capítulos e ganhando cada vez mais protagonismo.

Cartucho solto da versão japonesa

No que toca à jogabilidade, Traysia é, acima de tudo, um JRPG com encontros aleatórios e batalhas por turnos, cujos intervenientes se podem mover por uma espécie de grelha, o que daria a este Traysia um certo elemento estratégico. Daria, porque na verdade o que acontece é que isto acaba por tornar as batalhas bem mais lentas e aborrecidas, pois cada personagem precisa de pelo menos um turno para conseguir aproximar-se dos inimigos. E verdade seja dita, o sistema de batalha é muito fácil de partir: cada cidade vai tendo uma série de lojas onde poderemos comprar mantimentos e novas armaduras, armas ou acessórios. Entre estes estão uma série de sticks, que podem aumentar as características das nossas personagens caso os equipemos. A questão é que o jogo permite-nos equipar tantos desses itens quanto o nosso espaço no inventário permitir, o que, por si só, nos pode deixar desde logo praticamente invencíveis. Felizmente, no entanto, este não é um jogo com encontros demasiado frequentes.

Mesmo quando não temos party members, o seu espaço fica sempre ocupado na parte direita do ecrã

Mas há muito mais onde Traysia deixa a desejar. Toda a interface, por exemplo, é um caso gritante de algo que precisava de ser melhorado. Cada personagem é personalizável e possui um inventário próprio, no entanto, para interagir com as mesmas, precisaremos de navegar por uma série de menus baseados em ícones que não são necessariamente muito intuitivos. Querem comprar armas ou armaduras novas? Boa sorte em perceber se o equipamento que pretendem comprar é mais forte do que aquele que já têm equipado, para além de saber quem o poderá utilizar.

O sistema de batalha tem um quê de tactico, na medida em que teremos de nos mover pelo ecrã e atacar os inimigos apenas quando estejam dentro do nosso alcance

Visualmente é também um jogo algo simples. Não há uma grande variedade de cenários e o jogo mantém a mesma perspectiva e câmara em todos os momentos, seja ao explorar cidades, dungeons ou as áreas abertas do mundo. Neste último caso, sinceramente, a câmara pareceu-me demasiado próxima, o que complica um pouco a nossa orientação. Aliás, esse é outro problema de Traysia: muitas vezes ficaremos sem saber como progredir, especialmente quando chegarmos ao capítulo onde teremos todo um complexo de cidades subterrâneas para explorar, pelo que uma ou outra visita a um guia será recomendada. Felizmente, as músicas até que são agradáveis, particularmente as dos combates. E, ocasionalmente, o jogo tem algumas cenas animadas que, sinceramente, até achei bastante bem conseguidas e que seguramente seriam aquilo que mais chamaria a atenção nos ecrãs das lojas ou revistas na altura.

Estas cenas animadas com a história até lhe dão um certo charme.

Portanto, Traysia é, infelizmente, um daqueles RPGs de terceira linha que passaram despercebidos a muita gente e, depois de o jogar, entende-se perfeitamente o porquê de isso ter acontecido. Ainda assim, tenho uma espécie de curiosidade mórbida em experimentar jogos desta geração que sofram do mesmo mal, pelo que esperem mais uns quantos títulos ao nível deste Traysia no futuro.

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Autor: cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.

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