Nicolas Eymerich – The Inquisitor (PC)

Aproveitando para voltar ao PC e aos jogos indie, já que tinha na minha conta Steam os primeiros dois capítulos da aventura gráfica Nicolas Eymerich – The Inquisitor, cujos exemplares digitais terão chegado à minha conta do steam algures num indie bundle ao desbarato. Publicados pela Microids, e desenvolvidos pelos italianos da TiconBlu, estes dois jogos são exemplos de um produto com excelentes ideias, mas cuja execução ficou muito aquém do seu potencial, seja por falta de recursos financeiros, tempo, ou pura e simplesmente, talento. Tendo em conta que é um produto de um estúdio indie, provavelmente aplicam-se as três razões.

Basicamente este é um jogo cuja história é fictícia, mas encarnamos numa personagem histórica: Nicolau Eimeric, um dos líderes da inquisição ibérica em pleno século XIV. Nicolau é chamado pelo inquisitor da região de Carcassona (sul de França) para investigar o desaparecimento do padre da paróquia de Calcares, e o padre Jacinto, seu amigo e inquisidor, que foi para a mesma vila investigar o que se passava e nunca mais deu notícias. O primeiro capítulo é quase todo passado ainda em Carcassona, onde iremos investigar um pouco mais do que se estará a passar na tal aldeia de Calcares, com rumores a apontar que a terra foi assolada pela Peste Negra, rituais pagãos por hereges andam lá a ser praticados, bem como aparições demoníacas têm vindo a ser reportadas. Pelo meio vamos também desmascarar podres de vários monges que lá andam e revelar os seus segredos. A parte final do primeiro capítulo e todo o segundo capítulo já são passados na tal vila de Calcares.

Alguns dos cenários, principalmente aqueles pré-renderizados, até resultam bem em apresentar uma atmosfera convincente

O jogo em si é uma aventura gráfica point and click com as mecânicas de jogo habitualmente associadas a este género: falar com pessoas, explorar os cenários até à exaustão, coleccionar objectos, combinar objectos entre si, usar objectos em certos locais ou circunstâncias e eventualmente resolver também alguns puzzles propriamente ditos, como destrancar certos tipos de fechaduras mais sofisticadas, por exemplo. Um dos problemas é que o jogo é um autêntico pixel hunt, com alguns desafios a não serem lá muito óbvios e os objectos que necessitamos de encontrar estão muitas vezes perfeitamente escondidos nos cenários, o que torna as coisas algo frustrantes, a menos que sigamos um guia. A interface também poderia ser mais simples, visto que o botão direito do rato não é usado para nada, mas sim apenas o esquerdo. Quando clicamos em algum local passível de ser interagido, ou é uma superfície para onde o Nicolau se pode mover e começa andar automaticamente para lá, ou então lá surgem ícones adicionais para cada acção: observar, interagir/pegar, observar de perto, falar são alguns dos exemplos.

Mas depois as personagens nos seus diálogos, apesar de terem algumas animações interessantes de expressões faciais, denotam uma qualidade gráfica muito fraca como um todo

Mas já disse que o jogo é um pixel hunt e se torna chato por isso, não já? No entanto, um dos itens no ecrã de jogo é um crucifixo, que pode ser clicado para avançar no jogo e saltar alguns puzzles ou segmentos, por exemplo. Um detalhe interessante é o diário de Nicolas que poderemos consultar que por sua vez está dividido em 3 secções. A primeira é um guia que nos indica os objectivos actuais que teremos de cumprir. A segunda são uma série de desenhos que ilustram o progresso da história. A terceira parte são umas quantas páginas das suas notas de casos anteriores, é uma espécie de glossário para vários tipos de demónios, cultos pagãos, etc. Mas como a cada coisa boa neste jogo, é também acompanhado de uma má, os bugs são frequentes e por vezes certos eventos não desbloqueavam, por muito que tentasse. Em todas essas situações, felizmente, bastou sair do jogo e voltar a entrar para as coisas se resolverem.

Como não poderia deixar de ser, temos também alguns puzzles para resolver

A nível audiovisual este é outro prato misto. Os gráficos são todos em 3D poligonal para as personagens e alternam entre o 3D poligonal e gráficos pré renderizados para os diferentes cenários. No que diz respeito às personagens, detalhes de expressões faciais impressionantes… se este fosse um jogo de 2004 em vez de 2014. As mesmas são também representadas por modelos poligonais simples e com texturas algo pobres. Por outro lado, temos alguns bons momentos visuais, principalmente quando envolvem alguma arte pré-renderizada e mais estática. O segundo jogo, lançado em 2015, já melhora um pouco os gráficos em 3D poligonal, mas continuam abaixo da média. Ainda assim, achei que o segundo jogo tinha mais momentos visualmente muito bem conseguidas, precisamente por contrastarem mais com arte pré-renderizada. Mas maus gráficos não fazem necessariamente um jogo mau e a atmosfera no geral acho que até está bem conseguida.

Um exemplo de alguma “bonita” arte pré-renderizada com a qual podemos interagir: o cadáver de uma vítima da peste

No que diz respeito ao som e banda sonora, bom, infelizmente temos mais resultados mistos. A excelente surpresa é o voice acting. Isto porque sempre que começo um jogo novo, a primeira coisa que faço é explorar as suas opções. E qual foi a minha surpresa quando vi que o jogo estava narrado em inglês, italiano (devido à nacionalidade da equipa que o desenvolveu) e… latim! Claro que imediatamente activei essa opção e foi muito interessante jogar todo o primeiro capítulo em latim. O segundo capítulo infelizmente já só teve narração em inglês e italiano, mais um indicador que o orçamento disponível na sequela não foi o melhor. A narração em si não está nada má, o Nicolau é uma personagem calculista, arrogante, sádica e inteligente. Toda essa agressividade e restantes traços da sua personalidade foram bem passados para o voice acting. Depois temos claro, uma coisa má: a banda sonora. A música por vezes é inexistente, onde ouvimos apenas certos ruídos ambientais como o som da chuva ou as vozes longínquas de outros monges a conversar. Outras vezes ouvimos músicas muito discretas e ambientais. Outras vezes, quando Nicolau tenta ser um badass, como bater noutros monges, a música salta para rock e metal (de qualidade de banda de garagem), o que acaba por ser uma quebra total da atmosfera onde nos encontramos e sinceramente desnecessária para a aventura.

Ao consultar o diário à medida que vamos progredindo na história, podemos ver estas gravuras que vão resumindo os acontecimentos onde, ao clicar neles, Nicolas os vai narrando.

Portanto, este Nicolas Eymerich The Inquisitor é um conjunto de duas aventuras gráficas que têm uma potencialidade incrível, particularmente se gostarem daquele período mais negro da nossa história Europeia. A história em si é boa, a personagem principal também, mas os seus inúmeros problemas técnicos, bugs, gráficos e som altamente inconsistentes tornam este conjunto de aventuras gráficas em títulos medianos, infelizmente. A ideia original era dividir a história em quatro lançamentos. O segundo, já sem voice acting em latim, achievements e outros easter eggs denotam que a equipa estava com problemas em manter um orçamento para lançarem um producto de qualidade, no entanto, aparentemente inclui também conteúdo que pertenceria ao terceiro capítulo. Esse terceiro capítulo está (ou esteve) apenas disponível na forma de um audiogame (que presumo que seja uma espécie de audiobook interactivo) e o que seria o quarto capítulo (agora terceiro), acabou por ser lançado no steam em 2019, algo que só muito recentemente me apercebi. Esse último capítulo poderá ser também jogado como audiogame ou com modo vídeo, que sempre achei que fosse uma visual novel num estilo monocromático, mas pelos vistos tem também elementos de RPG e de roguelike. Devo dizer que estou curioso, devo jogá-lo assim que o apanhar numa boa promoção.

Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
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