Nintendo GameCube

Foi em 1996 que tive a minha primeira consola: uma Sega Master System III conforme mencionado uns posts atrás. Nessa altura a consola já era bastante ultrapassada e até 2002, juntamente com um PC bastante modesto (Pentium 133Mhz com 32MB de RAM) foi a minha única plataforma de gaming. Claro que quando descobri o maravilhoso mundo da emulação em 1998, o meu PC também me foi dando bastantes alegrias. No verão de 2002 aproveitei o tempo de férias para dar uma ajuda num negócio de família, o que me rendeu alguns cobres. Aproveitei esse dinheiro para comprar uma consola nova, e eu, grande fã de Sega desde que me lembro, e um fã cada vez mais interessado na Nintendo graças aos emuladores, deparava-me com uma escolha dura. Ou comprava uma Dreamcast por 150€ já com 5 jogos, e comprava mais alguns jogos à parte, ou então comprava a GameCube por 200€ e ainda me sobrava dinheiro para um jogo apenas (não tinha fé na Xbox e Sony na altura nem pensar). Ora a Dreamcast estava com um preço muito apetecível, vinha com 5 jogos, e haviam montes de jogos baratos em todas as lojas mas… a consola já tinha sido enterrada pela Sega e poucos jogos ainda iriam sair no mercado Europeu. A Nintendo GameCube prometia imenso e de bónus iria ter ports de alguns dos jogos mais interessantes da Dreamcast, pelo que acabei por optar por aí. Hoje em dia todos sabemos que a GameCube acabou por deixar muito a desejar face à concorrência, mas eu não estou nem um bocadinho arrependido da compra que fiz.

Gamecube

A minha GameCube

A GameCube foi apresentada oficialmente junto da Gameboy Advance no evento Nintendo Spaceworld 2000, no Japão. Demos técnicas mostrando 128 Marios movendo-se em tempo-real, ou um épico combate entre Link e Ganondorf fizeram as delícias de todos os fãs. A consola apresenta um bom hardware para a época, perdendo apenas para a Xbox. O design na minha opinião também é bastante apelativo, embora acho que a Nintendo errou ao ter apostado na cor roxa como a cor principal da consola. Vá lá que pelo menos no lançamento PAL também tinham a cor preta… A cor roxa e a pega na parte traseira da consola fizeram-na ser apelidada de “lancheira”, mais uma acha para a fogueira de “A Nintendo é para crianças” que muito se ouvia na época.

Ainda a nível de hardware, a Nintendo assumiu o erro de terem adoptado o formato de cartuchos como “media” principal na Nintendo 64 e introduziram uma variante proprietária do DVD. Os Nintendo Optical Disk, semelhantes aos mini-DVD, conseguem suportar 1.5GB de informação, ainda assim inferior aos DVDs, tecnologia utilizada nos seus concorrentes. A Nintendo optou por este meio de modo a reduzir a pirataria na consola e de certo modo conseguiram, só bem mais tarde é que surgiram os primeiros modchips que ofereciam a habilidade de correr cópias piratas de uma maneira confortável. Contudo esta escolha teve outra consequência pior, aos olhos dos consumidores. Não permitia correr DVDs, nem sequer ouvir CDs de música, algo que já desde a velhinha Mega CD se fazia (não que a mim fizesse falta). Uma outra funcionalidade interessante anunciada era a  interacção com a GameBoy Advance. Utilizando um cabo especial, seria possível ver no ecrã da GBA várias informações relativas ao jogo, ou até descarregar alguns mini-jogos para serem jogados na portátil. Uma jogada semelhante à que a Sega tinha apresentado com a ligação Dreamcast – VMU.

Ligação GC-GBA

Aos poucos e poucos foram sendo anunciados mais jogos para a consola e em 2002 já prometia bastante. Por parte da Nintendo já havia no mercado, ou então anunciado: Luigi’s Mansion, Super Smash Bros. Melee, o fenomenal Metroid Prime, Zelda, Wave Race, StarFox Adventures, Pikmin… só estes jogos já eram um alinhamento de luxo. Juntando-se ao graficamente impressionante Star Wars Rogue Squadron II, Sonic Adventure 2, Phantasy Star Online, Skies of Arcadia entre outras conversões de jogos da Dreamcast seriam mais entradas de peso no catálogo desta consola. Apesar de a Nintendo ter apostado numa cor mais “infantil”, lutaram um pouco para mudar essa imagem, principalmente nos primeiros tempos. Lançaram por intermédio da Silicon Knights um excelente survival horror “Eternal Darkness” e conseguiram trazer toda a série principal Resident Evil para a sua plataforma: um remake fantástico do primeiro jogo da série, um capítulo “zero” usando a mesma engine do remake, conversões directas de Resident Evil 2, 3 e Code Veronica e o novíssimo Resident Evil 4, então exclusivo, que só veria a luz do dia em 2005. Todo este catálogo pesou na minha escolha desta consola, pena que tenha passado ao lado de muita gente.

Ao longo do ciclo de vida desta consola foram sendo anunciadas várias outras cores e packs especiais (embora a maior parte não tenha saído do Japão). Também foram havendo algumas surpresas, umas melhores que outras. De mau, a venda da RARE a um rival directo, um estúdio muito talentoso que ao lado da própria Nintendo lançou alguns dos melhores jogos para as suas plataformas. O abandono da Silicon Knights e da Factor 5 também foram marcantes, embora tenham sucedido mais tarde. De bom recordo-me do anúncio dos Capcom 5, uma série de supostos exclusivos da Capcom para a consola, o “regresso” da SquareEnix às plataformas da Nintendo, o remake exclusivo de Metal Gear Solid, Zelda Twilight Princess…

O que falhou nesta consola? A Sony tinha um domínio impressionante com a Playstation 2, que tanto a Xbox como a GC tinham uma grande dificuldade em alcançar. Mas mesmo assim muitos jogos multi-plataforma apenas acabaram por sair na PS2 e Xbox. A Nintendo terá falhado ao cativar as software houses para desenvolverem para o seu sistema? A Nintendo terá falhado o marketing ao público? Penso que sim nas duas questões. Provavelmente o facto de terem novamente adoptado um formato inferior ao da concorrência (DVD) terá pesado? Recordo-me que muitos dos jogos multi-plataforma só saiam na Gamecube uns meses depois, o que obviamente se reflectia nas vendas. Ninguém ia comprar um jogo para a GameCube que já tinham comprado para PS2 ou Xbox uns meses antes…

Outro quesito redondamente falhado pela Nintendo foi o apoio ao jogo online. Com o lançamento da consola, foram disponibilizados no mercado um modem de 56kb/s ou um adaptador de banda larga para correr jogos online (ou em LAN para o último), e no entanto a Nintendo nunca adoptou esta tecnologia. Apenas a Sega (que lançou 3 versões diferentes do Phantasy Star Online) e a ChunSoft que lançou exclusivamente no Japão o RPG Homeland, é que aproveitaram esta funcionalidade. A Nintendo assumiu que não apoiou o jogo online pela insegurança que esta apresentava face aos menores (daí os infames “friend codes” utilizados posteriormente na DS e Wii). Uma decisão de tamanha estupidez. A Nintendo é uma excelente produtora de videojogos, mas é uma empresa muito teimosa que insiste em meter o pé na argola para levar as suas ideias à frente. Jogos como Super Smash Bros, Metroid Prime, Mario Kart, F-Zero tinham tudo para ser um sucesso online e a Nintendo desperdiçou. Talvez por isso as outras produtoras não tenham incluído os modos online existentes nos jogos multi-plataforma da Xbox e PS2. No entanto jogos como Mario Kart acabaram por receber suporte a jogar em LAN até 16 jogadores.

Em Portugal o marketing foi uma miséria. A Concentra sempre foi bastante incompetente face à Ecofilmes nos tempos da Sega e à própria Sony Portugal. As revistas de videojogos muitas vezes ignoravam a Gamecube quando analisavam os jogos multiplataforma, eu cheguei a escrever para uma delas e a razão que me deram foi que não tinham recebido a versão de Gamecube para analisar. Patético. Com toda esta incompetência, alguns dos últimos jogos da consola acabaram por não ter lançamento oficial cá. Uma pena, mas consegui na mesma o meu Zelda Twilight Princess através do miau.pt numa altura em que não custava um rim e 2 dedos do pé. Ainda bem que hoje em dia as coisas melhoraram (embora infelizmente devido ao boom do casual gaming).

Ainda assim, a Gamecube teve vários jogos muito bons, desde exclusivos produzidos pela Nintendo ou estúdios ligados à mesma, passando por um bom apoio de algumas companhias como a Capcom, Namco e Ubi Soft. O legado da GameCube passou para a Nintendo Wii, que basicamente apresenta uma arquitectura interna muito semelhante, o que permite a Nintendo Wii correr nativamente software GameCube. Infelizmente a Nintendo teve a triste decisão de por a Wii à venda por 250€, o que é um absurdo para hardware que em 2002 saiu na Europa a custar 200€ e ainda assim a Nintendo lucrava.

A GameCube tem uma série de software que todo o fã de Nintendo (e não só) deveria conhecer. Ainda hoje continuo a jogar bastante e tenho vários jogos para terminar. Se não gostarem da Nintendo Wii, ou não tiverem muito dinheiro para gastar numa, encontram-se GCs muito facilmente em sites de leilões por essa internet fora a preços bastante razoáveis. De outra forma, recomendaria comprar a Wii para correr os jogos de GameCube, pela simples razão de ser uma plataforma mais actual e com suporte a mais jogos.

Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
Esta entrada foi publicada em GameCube, Nintendo. ligação permanente.

5 respostas a Nintendo GameCube

  1. Gostei do que li aqui, todos os pontos negativos e positivos da consola em questão foram bem focados e só é pena que a Nintendo não tenha sido mais agressiva na sua postura face à concorrência pois era a máquina com melhor hardware na minha opinião. A Concentra sempre fez um trabalho de caca, desde que a Nintendo apareceu em Portugal, sendo que só no início é que apostou em grande mas gradualmente foi tudo por água abaixo. O que vale é que felizmente apanhei todas as coisas boas desta consola, no seu devido tempo. 🙂

    • cyberquake diz:

      Obrigado pelo comentário!
      Não percebi foi se te estavas a referir quando apareceram produtos da Nintendo em Portugal, no tempo da NES e GameBoy, ou se te estás a referir ao surgimento da Nintendo “Portugal” há meia duzia de anos. É que hoje em dia vejo mais publicidade da Wii na TV do que desde os tempos da SNES até GC.

      • Referia-me ao tempo da NES/GB/SNES, anos 90 e posteriormente N64/GC. A Concentra como representante deixou muito a desejar. Agora com a existência da Nintendo Portugal, as coisas estão muito melhores, bastando ver a publicidade que existe um pouco por todo os meios, até na TV como referiste. 🙂

  2. JoaoM diz:

    Nunca joguei ou sequer vi uma Gamecube ao vivo, já ps2, eram às paletes, mas a minha consola dessa geração foi a xbox. Eu não sei como é que foi no teu caso, mas no meu, dentro do grupo de amigos, haviam aí dez que tinham a ps2 e eu tinha apenas um colega com quem podia trocar jogos, o que era frustrante. Mas também tinha o seu lado bom quando esse dez ficavam roídos de inveja quando eu falava de halo 2 ou jet set radio. Bons tempos.

    • cyberquake diz:

      No meu caso era parecido, tinha apenas um ou outro amigo/familiar com quem podia trocar jogos de GC… já a inveja era mesmo só com os Resident Evils e pouco mais. Bah, nem sabem o que perderam 😛

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