Tempo de voltar à Super Nintendo para rejogar algo que havia experimentado em emulação há mais de 20 anos e que só agora consegui finalmente arranjar para a colecção. ActRaiser é um interessantíssimo híbrido entre SimCity e um jogo de acção, sendo também notório por ter sido o primeiro trabalho da Quintet, que viria mais tarde a produzir outros videojogos como Illusion of Time ou Terranigma, também para a Super Nintendo. O meu exemplar foi comprado em Março na Wallapop. Infelizmente não foi um jogo barato, embora uma parte bastante considerável da despesa tenha sido abatida com saldo que tinha em carteira.
Em ActRaiser controlamos uma divindade, simplesmente apelidada de Master nas versões ocidentais, que desperta no seu palácio celestial após um interregno de várias centenas de anos. O mundo ficou em ruínas após um confronto entre Deus e o demónio Tanzra, pelo que nos cabe “reconquistar” o território perdido e ajudar a humanidade a reencontrar o seu caminho.
ActRaiser possui duas mecânicas de jogo distintas. Em cada território começamos por explorar um nível de acção em 2D sidescroller, onde a nossa divindade possui a estátua de um guerreiro munido de espada. Teremos então de atravessar o nível, derrotando todas as criaturas que encontramos pelo caminho, culminando num confronto contra um boss. Uma vez derrotado, somos levados para uma vista aérea desse território, onde controlamos agora um anjo que serve de interlocutor entre o jogador (Deus) e a população local.
É aqui que entra toda a componente de simulação, pois teremos de auxiliar a civilização a evoluir, desde preparar o terreno através de “milagres”, como usar trovoadas para limpar florestas, chuva intensa para devolver fertilidade a desertos, raios de sol para secar pântanos ou derreter neve, entre outros. Para além disso, deveremos também indicar a direcção em que queremos que a civilização se desenvolva, com estradas e habitações a serem construídas nesse sentido. Mas mesmo nestas fases teremos inimigos para combater, o que é feito através das setas que o nosso anjo pode disparar. Cada território possui várias bases inimigas de onde os demónios surgem constantemente, raptando pessoas e destruindo edifícios, pelo que uma das primeiras prioridades passa por encaminhar a população para cada uma dessas bases, para que as consigam selar. Sempre que o fazemos, o nível de civilização dessa povoação avança, os edifícios tornam-se mais resistentes e a capacidade máxima da população também aumenta.

À medida que a população global vai crescendo, a nossa personagem também se torna mais forte, ganhando mais SP, o que por sua vez nos permite executar cada vez mais milagres. O mais poderoso é o terramoto, essencial não só para desbloquear certas situações, mas também para mandar todas as casas abaixo, permitindo à população reconstruí-las numa forma mais resistente. Isto acaba por aumentar ainda mais a população máxima de cada região. Devemos igualmente estar atentos aos favores que as povoações nos vão pedindo. Ao ajudá-las contribuímos para um aumento populacional, o que por outro lado também nos fortalece. Os povos fazem-nos toda uma série de oferendas e nós podemos retribuir esses favores. Por exemplo, num dos territórios a população local descobre o dom da música e oferece-o para ser partilhado com outros povos. Calha bem, pois numa das outras cidades existe um clima de grande mal-estar que é apaziguado ao introduzir essa mesma música à população local. Há toda uma série de pequenos sistemas que acabei por achar muito interessantes.
No que toca aos audiovisuais, ActRaiser é um jogo curioso. Por um lado, nota-se que é uma obra dos primeiros tempos da Super Nintendo, com sprites que não são particularmente detalhadas. No entanto, os cenários impressionam pelos belos efeitos de parallax scrolling visíveis nos planos de fundo, bem como os habituais efeitos de mode 7 em certas transições. A banda sonora é também bastante agradável, tendo sido composta pelo inigualável Yuzo Koshiro. Se estão à espera de algo mais enérgico, com influências rock ou electrónicas, como em Ys, Revenge of Shinobi ou Streets of Rage, então poderão ficar tão surpreendidos quanto eu ao ver o seu nome nos créditos. A banda sonora de ActRaiser é muito mais orquestral e solene, contrastando bastante com o estilo pelo qual o compositor é mais conhecido.

Em suma, ActRaiser é um jogo bastante interessante pela forma como mistura elementos de acção e simulação. Alguns anos mais tarde, a Enix lançaria uma sequela inteiramente focada na acção, abandonando por completo as mecânicas de gestão e desenvolvimento das povoações. Independentemente das razões por detrás dessa decisão, a verdade é que em 2021 a Square Enix lançou um verdadeiro remake desta obra, intitulado ActRaiser Renaissance. Planeio jogá-lo em breve!



