Rent A Hero (Sega Mega Drive)

O jogo de hoje leva-nos de volta à Mega Drive para visitarmos um RPG que, apesar de longe de ser um jogo perfeito, não deixa de ser um título curioso e original. Produzido pelo estúdio R&D #8, que mais tarde viria a ser conhecido por Sega AM2 e, naturalmente, com o envolvimento de Yu Suzuki, este Rent A Hero é um action RPG que decorre nos tempos modernos e com mecânicas de jogo muito distintas. O meu exemplar foi comprado numa loja francesa algures em Abril deste ano por cerca de 35€.

Jogo com caixa e manual

Neste jogo controlamos um jovem adolescente e a história é bastante bizarra: começamos por participar numa pequena festa em sua casa organizada pelos seus pais e com vários outros adultos convidados. Entretanto começa a faltar comida e o nosso pai dá-nos uma missão: toma lá uns trocos, liga para a SECA (SEnsational CAfeteria) e encomenda mais comida. No entanto, para entreter os convidados, o pai decide vestir um fato de godzilla e fazer algum teatro. Entretanto chega o estafeta do restaurante, mas em vez de comida, somos presenteados com um fato todo high-tech e que nos dá algumas habilidades sobre-humanas. Acontece que a SECA, para além de ser um restaurante de sucesso, tem uma fachada secreta. Os seus cientistas desenvolveram em segredo este fato e decidiram escolher-nos para o usar. O rapaz decide experimentá-lo e o seu pai, quando o vê naqueles preparos, entusiasma-se com a ideia e obriga-nos a representar uma batalha entre o Godzilla e um super herói e somos assim levados à primeira batalha do jogo. Bom, com um soco apenas o pobre coitado sai disparado contra a parede, pois o fato afinal era mesmo poderoso! E assim irá começar a nossa aventura de super herói. A SECA através de uma linha telefónica vai-nos dando uma série de trabalhos que serão recompensados monetariamente e as coisas começam de forma algo lenta, onde teremos não só de trabalhar num restaurante para entregar comida, entregar cartas de amor entre crianças, mas eventualmente começamos mesmo a lutar contra bandidos, empresas corruptas e crime organizado.

A narrativa tem sempre um tom ligeiro, com algumas bizarrices e bom humor à mistura

Bom, a nível de mecânicas de jogo há também muito a falar. A exploração é toda feita numa perspectiva vista de cima, o que é típico dos JRPGs desta época, mas quando transitamos para as batalhas (e sim, vamos ter também encontros aleatórios) a câmara transita para uma perspectiva sidescroller, com o jogo a assumir-se quase como um beat ‘em up simples. A AM2 já tinha brincado um pouco com esta ideia, precisamente com o primeiro RPG onde trabalharam, o Sword of Vermillion também da Mega Drive. Este misturava a exploração vista de cima das cidades, com a perspectiva a transitar para a primeira pessoa ao explorar o mundo e cavernas e as batalhas também eram numa perspectiva lateral. As batalhas normais tinham uma liberdade de movimento total, practicamente 3D, enquanto que os confrontos contra os bosses eram embates puramente em 2D sidescroller, tal como acontece neste jogo. Aqui usamos o d-pad para nos mover para a esquerda, direita ou agachar e os botões faciais para atacar com socos ou pontapés, saltar ou usar as habilidades especiais do nosso fato, que entretanto terão de ser desbloqueadas. No canto superior esquerdo vemos duas barras importantes. A de vida, assinalada a vermelho e a de energia, assinalada a azul. Se morrermos, acordamos num hospital com metade do nosso dinheiro a ir à vida. Se deixamos a energia se esgotar, deixamos de conseguir utilizar o fato, ficando muito mais fracos e lentos (o que é especialmente notório quando exploramos a cidade).

As batalhas são travadas numa perspectiva puramente 2D sidescroller, mas infelizmente acabam por ser bem mais frustrantes do que deveriam

Ora as mecânicas base de jogo estão apresentadas e, apesar de o conceito como um todo ser bastante original, infelizmente o jogo poderia ser muito melhor. A começar pelos combates que não são tão fluídos quanto os de um beat ‘em up e é muito fácil sofrermos dano. A história é bastante simples e os diálogos, a acreditar que a equipa que traduziu o jogo fez um trabalho fiel, são igualmente simples mas por vezes também um pouco bizarros. As missões tendem a ser algo chatas, pois a maioria, principalmente na primeira metade do jogo, são fetch quests aborrecidas e depois temos também de ter uma série de preocupações que ainda não referi. Vamos ter de comprar de forma recorrente bebidas energéticas e pilhas para recuperar a nossa vida ou energia. O fato que usamos não é propriedade nossa, mas sim alugado. Regularmente teremos de pagar uma renda para poder continuar a usá-lo e, caso o prazo de pagamento seja ultrapassado, ficamos logo sem a possibilidade de o utilizar. Para além disso, se quisermos melhorias para o nosso fato, temos de começar a fazer doações regularmente à SECA, pelo que teremos de gerir muito bem as nossas finanças, particularmente na primeira metade do jogo. Na segunda, já começamos a ter um melhor balanço financeiro, a menos que morramos nalgum combate, claro, o que não é nada difícil de acontecer.

Sendo este um jogo do mesmo estúdio que veio mais tarde ser conhecido como AM2, naturalmente que temos muitas referências aos seus jogos arcade

As doações que podemos fazer revertem ou para melhorar a nossa armadura, ou para desenvolver novas armas. No primeiro caso, ganhamos novas versões do fato que são cada vez mais resistentes, no entanto o preço da sua renda aumenta. No segundo caso lá ganharemos as tais habilidades especiais que podemos usar no combate. No entanto estas habilidades sempre que são utilizadas gastam uma certa percentagem da nossa barra de energia, pelo que têm de ser usadas com moderação. Para além disso, infelizmente, apenas podemos ter uma arma equipada. Portanto, a cada vez que desbloqueamos uma nova arma, esta substitui a anterior. E agora sim, já têm uma ideia completa das mecânicas de jogo que vos esperam.

A nível audiovisual continua a ser um jogo muito básico, tal como o Sword of Vermillion (e também o próprio Phantasy Star III, que utiliza este motor de jogo) o foi. Iremos na maior parte do tempo explorar cenários urbanos com casas modestas, edifícios maiores, armazéns, zonas de escritórios, mas também outros cenários como cavernas labirínticas. No entanto, as sprites bem como os cenários são pouco variadas, detalhadas e animadas. Gosto bem mais dos gráficos nas batalhas, embora uma vez mais não haja uma grande variedade de cenários e inimigos. Nada de especial a apontar aos efeitos sonoros, já as músicas tenho algo mais concreto a referir. Quando exploramos a cidade, ouvimos sempre as mesmas músicas, que por acaso são agradáveis, têm um bom groove e fazem mesmo lembrar aqueles filmes policiais dos anos 80. No entanto, no último terço da aventura, essa música é substituída por outra bem mais rock mas bem mais irritante. Existem outras músicas rock no jogo bem mais agradáveis, portanto não entendo o que a Sega estava a pensar quando decidiram usar essa música para a exploração no seu último terço. É que a vamos ouvir mesmo muitas vezes! Um outro detalhe interessante a referir é, visto ser este um produto da AM2, iremos naturalmente visitar algumas arcades que estão repletas de outros jogos do mesmo estúdio. E aí podemos ouvir pequenos clipes de músicas de títulos como Out Run, After Burner II, Space Harrier, entre outros! Um pequeno mimo para os fãs da Sega, seguramente!

Graficamente o jogo é muito simples, particularmente na perspectiva vista de cima quando exploramos a cidade e seus edifícios

Portanto este Rent A Hero é um jogo muito curioso e definitivamente bastante original no seu conceito. No entanto tinha potencial para ser muito melhor! A história, apesar de ter uma narrativa por vezes algo bizarra ou surreal, acaba por nunca nos prender muito e visto que a esmagadora maioria das missões são fetch quests, também abona muito a seu favor. O sistema de combate era algo onde o jogo poderia brilhar, pois a Sega sempre soube fazer excelentes jogos de acção e os constantes malabarismos financeiros para pagar rendas, baterias e doações para obter melhor equipamento ou habilidades também poderiam ter sido melhor pensados. É um jogo que sai em 1991 e de certa forma até entendo o porquê de a Sega ter tomado a decisão em não o lançar no ocidente, no entanto aparentemente até criou o seu nicho, pois a Sega lançou um remake para a Dreamcast em 2000, intitulado de Rent A Hero No.1, com um relançamento para a Xbox em 2003. Infelizmente, uma vez mais, nenhuma das versões chegou a sair no ocidente! Estou bastante curioso para entender como a Sega mudou as mecânicas de jogo nessas versões e felizmente há um conjunto de fãs a trabalhar actualmente na tradução da versão Dreamcast. Talvez a experimente um dia destes!

Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
Esta entrada foi publicada em Mega Drive, SEGA. ligação permanente.

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