Shenmue III (Sony Playstation 4)

Ah, o Shenmue III. Um jogo tão pedido pelos fãs da Sega desde que quem jogou os primeiros na Dreamcast e ficou pendurado naquele cliffhanger no final do segundo jogo. Entretanto muita coisa mudou na Sega desde 2001, o próprio Yu Suzuki acabou por sair da gigante nipónica para fundar o seu estúdio, portanto as possibilidades de vermos uma sequela eram cada vez mais diminutas. Eis que chega a mítica E3 de 2015, onde surpreendentemente, na conferência da Sony, Yu Suzuki sobe ao palco e anuncia um kickstarter para ajudar a financiar o muito esperado Shenmue III. Rapidamente o projecto atingiu as metas estabelecidas e ainda as ultrapassou e depois foi uma questão de esperar que o seu desenvolvimento terminasse (entretanto ainda houveram alguns atrasos pelo meio e mais algum financiamento adicional pela Deep Silver, empresa que acabou por o publicar). O jogo foi lançado algures em 2019 e eu comprei o meu exemplar no ano seguinte, após ter aproveitado uma promoção na Worten onde o arranjei por 20€.

Jogo com caixa, manual e papelada

O jogo começa logo após os eventos que presenciamos no final do Shenmue II, com Ryo a juntar-se à jovem Shenhua na sua caminhada para a aldeia de Bailu, mesmo no interior rural chinês. O nosso objectivo é o de descobrir o paradeiro de Yuan, pai de Shenhua, um pedreiro que saberá algo mais sobre os misteriosos espelhos do Dragão e Fénix e que foram também o motivo de Lan Di ter assassinado o pai de Ryo. Para além da aldeia de Bailu, iremos também explorar mais tarde uma cidade maior, Niaowu.

Pescar acaba por ser uma das melhor formas de fazer dinheiro, se encontrarmos um local que nos renda muito peixe e particularmente graúdo

Os primeiros Shenmue foram jogos completamente revolucionários quando foram lançados na viragem do milénio. Possuiam um mundo aberto que poderíamos explorar livremente, repletos de NPCs com as suas próprias rotinas, imensas lojas e outros locais a explorar e pessoas com as quais interagir. Era também um jogo com um sistema metereológico e ciclos de dia e noite, pelo que teríamos localizações que apenas abriam a certas horas do dia. Não podíamos andar na rua até muito tarde, teríamos de arranjar pequenos empregos para nos sustentarmos economicamente e ainda teríamos de ir treinando artes marciais nos tempos livres, para melhor nos preparar para os confrontos que se avizinhavam. Entretanto, por muito revolucionários que os Shenmue tenham sido, a indústria e o estado da arte de jogos open world evoluiram muito nestes 20 anos. Shenmue III sai com as mesmas mecânicas base dos seus predecessores, o que acabou por não agradar a muita gente, particularmente para quem nunca tinha jogado um Shenmue antes. E de facto há muitos quality of life improvements que poderiam ser feitos nesta sequela, mas por outro lado também sinto que parte do charme e da identidade de Shenmue se perderiam. Por exemplo, não temos um auto mapa com objectivos e outros pontos de interesse assinalados. Se o jogo nos indica que temos de falar com o Zé Manel para avançar na história, temos mesmo de ir perguntando aos NPCs se conhecem algum Zé Manel e onde ele mora e seguir as indicações que vamos recebendo.

A cidade de Niaowu tem bastante por explorar, mas estava à espera que fosse mais habitada

Algumas novidades foram introduzidas no entanto, nem todas assim tão agradáveis. O facto de a nossa barra de vida ir decrescendo continuamente é uma delas, o que nos obrigará a comer regularmente. Isto obriga-nos logo desde o início a procurar pequenos empregos para que possamos sustentar a comida que teremos inevitavelmente de comprar. Ao treinar as artes marciais, não só iremos melhorar o nosso ataque (ao practicar combates e os diferentes combos que vamos aprendendo – que por sua vez também devem ser comprados como skill scrolls e são dispendiosos), mas também ao treinar certos tipos de exercício que nos irão extender a nossa barra de vida. Portanto tudo isto obriga-nos a criar a nossa própria rotina, onde teremos de arranjar sempre algum tempo do dia para trabalhar em pequenos empregos (ou pescar, visto vendemos os peixes em seguida), ou mesmo arriscar em gambling, para ir melhorando as nossas finanças. Treinar artes marciais também deve fazer parte da nossa rotina e ainda nos sobrarão algumas horas do dia para explorar, avançar com a história e fazer algumas side quests. Existem muitas outras distracções, como jogar em diversas arcades onde infelizmente não tivemos nenhuma arcade da Sega desta vez, sendo na sua maioria diversões electromecânicas, ou coleccionar bonequinhos espalhados por imensas máquinas nas duas diferentes localizações que iremos explorar. Uma das outras coisas que não gostei muito foram os quick time events, que neste jogo possuem um tempo de reação incrivelmente curto. Felizmente, ao contrário dos seus predecessores, se falharmos alguma QTE a mesma repete-se infinitamente até que acertemos na combinação pedida. Mas vai haver algumas partes do jogo onde vamos ter de apanhar galinhas ou patos e os tempos de reacção das QTEs vão-nos irritar um pouco.

Existem vários locais onde podemos practicar exercícios que nos fazem aumentar a nossa barra de vida. Já practicar confrontos físicos melhoram o nosso poder de ataque e os diferentes golpes que vamos practicando

Do ponto de vista gráfico é um jogo minimamente competente. Acho que os cenários foram bem implementados, com Bailu como uma aldeia rural no interior da China e Niaowu já como uma pequena cidade. As paisagens são lindíssimas, mas estava à espera de ver a cidade de Niaowu bem mais habitada. Mas visto que todos os NPCs, para além de terem a sua rotina, podem ser interagidos e possuem frases e voice acting distintos, certamente que não houve orçamento para popular mais a cidade. As personagens em si nem sempre estão bem detalhadas, particularmente aquelas que possuem penteados mais complexos ou pêlo facial, mas sinceramente isso é o menos. Sei que o orçamento foi mais apertado, bem como os recursos humanos que trabalharam neste jogo foram em muito menor número quando comparado com os anteriores, portanto nunca estive à espera que o Shenmue III fosse ter visuais do estado da arte. Por outro lado, a banda sonora é bastante agradável, possuindo, na sua maioria, músicas com leves melodias orientais e algo atmosféricas, existindo no entanto outras músicas mais mexidas ou tensas para aqueles momentos de maior acção ou pura investigação. O voice acting está disponível entre o original japonês e vozes em inglês. Pessoalmente eu joguei com vozes em Japonês e legendas em inglês e achei o voice acting competente. Vi no entanto algum gameplay com as vozes em inglês e achei-as horríveis. Mas visto que o Yu Suzuki conseguiu recuperar vários dos actores que deram as vozes a personagens principais nos jogos anteriores, essa poderá também ser uma boa opção para quem tiver nostalgia pelas vozes em inglês.

Para quem o quiser completar a 100%, há muito que fazer, incluindo coleccionar dezenas destas miniaturas

Portanto este Shenmue III é um jogo que me desperta alguns sentimentos mistos. Por um lado, do ponto de vista meramente técnico, visto que o jogo teve um desenvolvimento com um orçamento e recursos humanos bem mais restritos que os originais, não esperava que viesse a ser uma obra prima. Já do ponto de vista da jogabilidade não sabia bem o que pensar. Por um lado fiquei desapontado ao ver que Shenmue III manteve-se practicamente estático enquanto todos os restantes jogos open world evoluiram, por outro lado se muinta coisa fosse mudada, acho que este Shenmue 3 também perderia alguma da identidade da série. Portanto no fim de contas fiquei contente por o jogo ter finalmente saído e no fim de contas o saldo foi positivo, pelo menos para mim. Esperava também que a narrativa evoluísse um pouco mais do que evoluiu neste jogo, mas estou curioso em ver o que o Yu Suzuki tem planeado para um eventual sucessor, tanto na história, como na jogabilidade.

Sobre cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.
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