Doom 3 (PC)

Recentemente escrevi para a PUSHSTART uma análise à edição “vanilla” do Doom 3, tal e qual como se estivéssemos em 2004, sem expansões ou “conversões HD”. Doom 3 é um jogo marcante na série, pois mistura 3 conceitos completamente distintos: uma maior atenção ao que se passa à nossa volta como em Half-Life, a escuridão e atmosfera constantemente tensa e imprópria para cardíacos e, embora mais contida, a acção e violência frenética pela qual os primeiros jogos ficaram sobejamente conhecidos. A minha cópia é uma versão ainda em CD ROM, numa altura em que ter um leitor de DVD no PC ainda não era para todos. Foi comprada algures neste ano na feira da Ladra em Lisboa por 1€.

Doom 3 - PC
Jogo com 3 CDs, caixa e manual

Poderão ler a minha análise na íntegra aqui.

VVVVVV (PC)

De volta para as análises indie, com mais um jogo de plataformas/metroidvania que apesar de ser brutalmente sádico, não deixa de ser extremamente viciante. VVVVVV é um jogo desenvolvido pela malta da Distractionware e que, tal como muitos jogos indie, projectos de mesinha de cabeceira, teve o seu início como um jogo flash, até que alguém decide converter o mesmo para C++, com uma série de novidades. Essa versão acabou por o levar à sua inclusão no Humble Indie Bundle III, bundle esse que me foi oferecido.

VVVVVVA história é simples: nós encarnamos na personagem Captain Viridian, capitão de uma nave espacial com mais 5 tripulantes cujos nomes são também começados por V. Daí o nome do jogo ser VVVVVV, penso eu. Ora a nave a certa altura encontra uma forte “interferência dimensional” e Viridian, tal como o resto da sua tripulação, tentam evacuar a nave, escapando através de um portal de teletransporte. No entanto Viridian encontra-se perdido numa dimensão bastante estranha e para piorar as coisas, não encontra nenhum dos seus outros tripulantes. Assim sendo somos largados neste estranho mundo e tal como num metroidvania, teremos de o explorar, de forma a descobrir os amigos de Viridian e se possível escapar em segurança.

screenshot
Podemos salvar o jogo em qualquer sala com o teletransporte

Sem dúvida que o grande ás na manga deste jogo é mesmo a habilidade de trocar a gravidade, sempre que estamos em contacto com uma superfície. Sem mais nenhuma habilidade, nem sequer a de saltar, será apenas alternando a gravidade e nos movimentarmos para a esquerda e direita que conseguiremos progredir no jogo. Claro que o que não falta são obstáculos, espinhos e criaturas a atrapalharem-nos a vida. O jogo está dividido em várias salas estratégicamente pensadas a que as consigamos atravessar com movimentos simples, mas que demorem uma eternidade a serem apreendidos. Isso porque a certa altura começam a brincar com barreiras que invertem a gravidade a meio dos saltos, tapetes rolantes, portais, salas em que se saires pela direita apareces na mesma posição na esquerda, entre muitos outros. Como não poderia deixar de ser, morremos mal nos deixemos tocar por alguma das criaturas, ou nos espetemos num espinho. No entanto, com vidas infinitas e vários itens com um C estampado que servem de checkpoints, fazem com que o jogo apesar de ser difícil e algo frustrante, continue viciante na sua jogabilidade de tentativa-erro. Em alguns segmentos teremos até umas “escort missions”, onde teremos de guiar não só Viridian, mas também outra personagem, por meio de armadilhas mortíferas.

screenshot
Cada sala tem uma descrição própria, por vezes com humor negro ou bizarrices

Para além da aventura principal de descobrir os 5 restantes membros da tripulação e descobrir o que está a causar essa interferência dimensional, poderemos explorar os mundos de VVVVVV livremente, mesmo depois de termos passado o jogo normal. Isto porque existem muitos caminhos alternativos e escondidos, não fosse este um Metroidvania, e vários coleccionáveis para apanhar. E se forem dos que não têm paciência para esta jogabilidade de tentativa-erro, esta versão 2.0 vem também com alguns cheat codes embutidos, como a capacidade de nos movimentarmos em câmara lenta, para melhor fugir dos obstáculos, ou tornar-nos mesmo invencíveis, tirando assim o desafio por completo do jogo, ficando só o apelo para explorar mais e mais.

Graficamente é um jogo bastante simples. Como muitos jogos desta “new wave of retrogaming“, o jogo tem um aspecto retro, mas em vez de apostar em visuais 8bit à lá NES ou 16bit como na SNES/Mega Drive, este VVVVVV vai ainda mais além, com os seus gráficos completamente lo-fi como se uma Commodore 64 ou ZX Spectrum se tratasse. Para além do ecrã de introdução imitar o mesmo da C64, temos sprites bastante simplistas e cenários quase monocromáticos. Obviamente que isto foi tudo intencional, mas faz todo o sentido no contexto do jogo. Os efeitos sonoros também são do mais primitivo possível, no entanto as músicas já são num chiptune bem “potente” e são bem viciantes. Uma outra coisa que gostei bastante são as descrições dadas a cada sala, e que podem ser lidas no fundo do ecrã. Essas descrições estão cheias de referências escondidas ou humor negro, perfeitamente adequado a um jogo em que se morre entre cada poucos segundos.

screenshot
Podemos dialogar com as personagens para ver o desenrolar da história

No fim de contas, VVVVVV é um dos jogos indie que assentam num dos seus nichos mais populares: o retrogaming. Mas é certamente um dos melhores, num oceano povoado por jogos de plataforma. A sua jogabilidade simples, mas com um level design muito bem pensado e desafiante, tornam VVVVVV num excelente jogo de plataformas e exploração. Se gostam de metroidvanias e jogos difíceis de tentativa-erro como Super Meat Boy, então este VVVVVV é uma excelente escolha.

 

Sniper Elite (PC)

Sniper EliteVoltando às análises mais extensas, desta vez para um jogo de PC desenvolvido pela Rebellion cuja sequela acabou por ter um bom sucesso, o Sniper Elite V2.  Este Sniper Elite, tal como o nome indica é um shooter táctico em que encarnamos no papel de um sniper em cenário de guerra, mais uma vez na segunda guerra mundial, algo que em 2005 ainda estava bem na moda. O jogo entrou na minha colecção há poucos meses atrás, após ter sido comprado na feira da Ladra em Lisboa por 1€, faltando-lhe apenas o manual. Na altura não me lembrei que poderia necessitar de uma CDkey para instalar o jogo, mas felizmente não foi necessário. Infelizmente isso deveu-se ao uso do DRM terrível que é o Star-Force, mas mais lá para a frente falarei melhor disso.

Sniper Elite - PC
Jogo com caixa

O jogo coloca-nos então no papel de Karl Fairburne, um agente norte-americano da OSS na batalha de Berlim em 1945, mesmo nos tempos antes de a nação alemã capitular após ter sido invadida pelo exército vermelho. O objectivo de Karl é obter os segredos nucleares dos alemães nazis antes que os soviéticos lhes deitem a mão, então iremos enfrentar ambos os exércitos ao longo de várias missões espalhadas pela cidade alemã, embora Karl esteja uniformizado de Nazi, de forma a que os Soviéticos não desconfiem do seu real propósito.

Desde cedo vemos que este é um jogo bem mais táctico que muitos outros shooters da segunda guerra mundial, como Call of Duty ou Medal of Honor. Em primeiro lugar, este é um jogo com uma vertente bem maior de stealth, com as suas armas silenciosas, a possibilidade de esconder os corpos dos inimigos e o indicador de camuflagem à semelhança do que foi visto no Metal Gear Solid 3. E se formos descobertos pelo inimigo, em muitas situações isso poderá ser fatal, até porque muitos dos mapas estão também repletos de outros snipers, pelo que avançar com o maior cuidado possível é sempre boa política. A outra grande diferença deste Sniper Elite face aos demais é a sua balística mais realista, com as balas a ganharem peso e serem afectadas pelo vento ou mesmo pela respiração de Karl. Detalhes interessantes como rebentar granadas ou tanques através de disparos certeiros nos seus depósitos de combustível foram adições muito benvindas, ao invés de andarmos sempre à procura de uma Panzerfaust ou Bazooka.

screenshot
Destroços, destroços e destroços de partes não tão desertas assim da cidade. Vamos ver isso muitas vezes.

O jogo possui mapas gigantescos comparativamente com outros jogos similares da época e se tivermos o cuidado de ser o mais stealth possível, essas missões acabarão por demorar muito tempo a serem completadas. Mas como as missões vão tendo objectivos pouco distintos entre si, seja assassinar oficiais nazis importantes, recuperar documentos secretos, resgatar soldados aliados ou outras personalidades importantes, esse cuidado todo que temos de ter acaba por se tornar algo aborrecido, o que é pena, pois o jogo faz um bom trabalho com toda a atmosfera de tensão que nos envolve, sem sabermos se haverá um sniper escondido numa janela de um edifício no fundo da rua e que nos pode limpar o sebo num ápice. Muitas vezes teremos de ter uma abordagem de tentativa-erro ao encarar diversas situações, como descobrir qual o melhor caminho a tomar de forma a ter vantagem sobre os inimigos, ou mesmo adivinhar de onde eles vêm.

screenshot
Nem todas as missões são jogadas durante o dia.

A inteligência artificial está bem implementada. Se um grupo de inimigos descobre a nossa posição, eles procuram abrigo e vão-nos atacando de forma cuidada, bem como outros grupos nos começam a flanquear de forma a tentar apanhar-nos de surpresa. Mas outras coisas também podem ser utilizadas a nosso favor, como ferir não mortalmente um inimigo e ele ficar a contorcer-se com dores no chão, chamando os seus companheiros para o virem ajudar, deixando-nos assim com mais um alvo a abater. De resto, para além das sniper rifles existem uma variedade de armas que podemos recolher, convém ter sempre umas metralhadorazinhas preparadas para encontros próximos.

Na maior parte do tempo vamos jogar numa perspectiva de terceira pessoa, mudando apenas para a primeira pessoa quando utilizarmos a . Uma outra coisa que não gostei foi a maneira como a Rebellion implementou os controlos standard do jogo nesta versão PC, que estão na minha opinião desnecessariamente complicados, como a velocidade de movimento, por exemplo, ou a interacção com o nosso inventário de items. Para além de granadas, binóculos, bombas e afins, um item interessante que podemos utilizar é uma simples pedra, ideal para distrair os inimigos temporariamente.

screenshot
Como seria de esperar, a interface de disparo no modo sniping está cheia de informação

Para além da longa e competente campanha singleplayer, temos também uma vertente online, não fosse este um shooter para PC. Infelizmente, não existe assim uma grande variedade de modos de jogo, com os mesmos a assentar essencialmente em variantes dos já conhecidos deathmatchs. Sobra então o modo Assassination, onde as equipas são divididas entre soviéticos e nazis, com os soviéticos incumbidos com a missão de assassinar um determinado alvo alemão e estes terão de o proteger a todo o custo.

De resto, graficamente é um jogo competente para os padrões de 2005. Tal como referi há pouco os níveis vão sendo bastante grandes, com áreas abertas enormes, mas infelizmente não há uma grande variedade de cenários. Tirando um ou outro caso, vamos andar sempre a vaguear pelas ruas de Berlim, com todos os seus destroços de guerra. O que me impressionou, e ficou certamente uma imagem de marca na série, foram as kill cams para headshots estilosos, onde vemos em câmara lenta a bala a sair do cano da nossa arma e ir direitinha à cabeça do pobre soldado em questão. Naturalmente que na sequela este mimo foi bem melhorado. O som é misto. As músicas quando existem vão sendo épicas como manda a lei, os efeitos sonoros são competentes e realistas, porém o voice acting na minha opinião é fraquinho, assim como toda a história no geral, com muitas missões a serem algo anti-climáticas. No entanto, os efeitos sonoros são bons como eu já disse, e o barulho das explosões de artilharia que vamos ouvindo em background pode ser aproveitado para mascarar o barulho dos nossos disparos, mais um detalhe interessante.

screenshot
As kill cams são sem dúvida uma mais valia para desanuviar um pouco

No entanto, no fim de contas apenas posso recomendar que comprem a versão steam deste jogo. Ou caso encontrem a versão retail deste jogo bem baratinha como eu, tentem acabar por comprar mais tarde a versão steam. Isto porque o jogo vem incluido com o Star-Force, um sistema de protecção antipirataria vindo dos infernos, que já na altura em que foi desenvolvido trazia problemas a vários PCs, nos PCs modernos ainda traz mais. É possível jogar isto sem o Star-Force, mas depois terão problemas a desinstalar o jogo, como me aconteceu a mim e tive de recorrer a uma daquelas aplicações manhosas para desinstalar programas, que me deixou o Windows um pouco lixado. A versão steam que eu saiba já não traz essas dores de cabeça.

Ether Vapor Remaster (PC)

Bora lá para mais uma rapidinha a um shooter de naves espaciais, esse género tão mal-amado por mim. Acho-lhes piada a todas as armas high-tech, explosões e luzes coloridas, mas não tenho mesmo a habilidade suficiente para me divertir a sério com este tipo de jogos, pelo que acabo por os encostar mais tarde ou mais cedo. Este Ether Vapor Remaster é mais um doujin, ou seja, um indie japonês que acabou por ser também localizado pela nyu-media e a própria Capcom para o seu lançamento ocidental no Steam. A minha cópia entrou na conta do steam através do Indie Gala de Outubro, tendo sido comprado por uma ninharia como de costume.

Ether Vapor Remaster (1)A história é mais uma vez contada através de diálogos intercalados entre cada nível, ou antes dos combates com os bosses e tem os clichés do costume: Um império superpoderoso de um lado e uma força rebelde a lutar contra a corrente, são as nações de Chaldea e Lydia. Mas o protagonista do jogo, um jovem de 17 anos chamado Luca Earlgray aparentemente não pertence a nenhuma das facções do conflito, o que acaba por causar alguma confusão tanto pelos protagonistas de um lado como do outro. Mas o que interessa no meio disto tudo é disparar em tudo o que mexa.

screenshot
O que mais gostei no jogo foram as mudanças de perspectiva que iam acontecendo

Ao contrário de Ikaruga e outros shooters, aqui não temos nenhum esquema especial de jogabilidade ou combos manhosas. Existem 3 modos de disparo e a nave de Luca está sempre acompanhada de 2 “apêndices” secundários que voam a seu lado. O primeiro modo de disparo é chamado Gatling e basicamente são rajadas de metralhadora, o segundo, o Winder, dispara projécteis de forma mais abrangente e por fim temos o lock-on, que pode ser usado para isso mesmo, fazer lock nos inimigos e disparar uns mísseis que não falham o alvo. Naturalmente existem algumas restrições com este modo de fogo, na medida em que as naves secundárias não o disparam. Estes modos de disparo podem ser alternados livremente entre si e existem também modos secundários para cada um, que poderão ser úteis em certas situações, como o escudo gerado pelo Winder. De resto o que o jogo tem de bom é a vertente mais cinemática pela qual a acção se vai desenrolando. A câmara muda de ângulo em vários pontos no jogo e onde antes era um shooter vertical, passa a horizontal ou mesmo numa perspectiva mais tri-dimensional.

screenshot
Os diálogos e artwork utilizada poderiam ser melhor aproveitados

Esta versão remaster possui gráficos melhorados face ao lançamento original. O jogo suporta resoluções mais altas (até 1600×1200), antialiasing e melhores texturas e modelos poligonais no geral. Continua a não ser um eyecandy total, mas cumpre bem o seu papel. Já nos diálogos aparecem desenhos em anime das personagens, mas esses já acho que poderiam ser melhor trabalhados. As músicas vão sendo variadas e épicas, acho que são boas para o género em questão. No fim de contas, parece-me ser um jogo bem competente para quem gosta do género e não é um bullet-hell, o que para mim é sempre bom, pois não sou masoquista.

Ultima IV: Quest of the Avatar (PC / Sega Master System)

Ultima IV - SMSMais uma análise a um jogo da série Ultima, uma das grandes pioneiras dos RPGs no geral, mas nos RPGs ocidentais em particular. O Ultima IV é um jogo bastante peculiar pois trata-se de uma jornada onde não existe nenhum vilão a querer dominar o mundo nem nenhum dragão a guardar uma princesa à espera de ser salva, mas sim uma viagem de renovação espiritual, onde o objectivo é tornar o jogador num Avatar, um herói que personifica as 8 virtudes e 3 princípios. Mas mais sobre isso nos parágrafos seguintes. Este artigo vai-se incidir principalmente para a versão PC, cuja eu possuo em formato digital, tanto como jogo standalone, oferecido a qualquer pessoa que crie conta no GoG, como em compilação com os Ultima V e VI que comprei numa das sales que o site lá vai fazendo de vez em quando. Fisicamente possuo a versão Master System, que se a memória não me falha foi comprada algures no início do milénio numa loja de videojogos já extinta na Maia, por 5€. Está “completo”, faltando-lhe um livrinho que sinceramente não sei se chegou a ser lançado juntamente com o jogo em Portugal. Este artigo irá-se incidir maioritariamente na versão PC, embora irei mencionar algumas referências à versão Master System assim que necessário.

screenshot
Jogo com caixa, manual, mapa do jogo e catálogo. Falta-lhe o livrinho que sinceramente nem sei se chegou a sair em PT.

Ultima IV é o primeiro jogo de uma nova era para a série Ultima: o legado do vilão Mondain está finalmente extinto, o outrora mundo de Sosaria teve modificações profundas à sua geologia e Lord British resolveu chamar-lhe de Britannia, unificando todos os povos sobre o seu poder. E ao fazê-lo incutiu uma série de 3 princípios e 8 virtudes, em todo o seu povo: os princípios da Verdade, Justiça e Coragem e as virtudes honestidade, compaixão, valentia, justiça, honra, espiritualidade, sacrifício e humildade. Mais uma vez nós encarnamos num aventureiro de um outro mundo que inadvertidamente encontra um portal para o mundo de Britannia onde teremos a possibilidade de participar em mais uma grande aventura. Desta vez não temos um feiticeiro malvado que quer dominar o mundo para derrotar, mas Lord British pretende que nos tornemos um paladino destes princípios e virtudes, de forma a tornar-nos num Avatar, um herói e exemplo a seguir por todo o seu povo. E isso acaba por mudar bastante as mecânicas de jogo: para nos tornarmos um Avatar em primeiro lugar teremos de viver de acordo com as virtudes e tomar as decisões certas para isso. Após nos tornarmos num Avatar lá teremos também de partir em busca do Codex of Ultimate Wisdom que está nos confins de uma dungeon complexa – esse será o nosso objectivo final.

screenshot
Os diálogos na versão pc são livres: podemos escrever o que quisermos e os NPCs reconhecem algumas palavras chave

Ao contrário dos Ultimas anteriores, começamos o jogo não a escolher raça, classe e afins ao distribuir os vários pontos de atributos, mas sim a responder uma série de perguntas que nos colocam com afinidades a algumas destas virtudes. Mediante as nossas respostas é que será escolhida a nossa classe. Depois para viver de acordo com cada virtude teremos de ter algum cuidado com as nossas acções. Matar criaturas não maldosas como animais selvagens conta negativamente para a compaixão, roubar ou matar guardas ou inocentes também não é muito abonatório, dar esmolas a pedintes aumenta a nossa compaixão, fugir de combates é prejudicial para a valentia, se dermos sangue nalgum “hospital” aumenta o nosso sacrifício e por aí fora. Até nos diálogos temos de tentar ser humildes e honestos. Os diálogos por si só também apresentam um interessante (embora primitivo) sistema de árvore. Ao meter conversa com qualquer pessoa, podemos perguntar-lhes o que quisermos, desde name, job e palavras chave com base nas suas respostas, como “rune”, “mantra” e afins. Isto porque para alcançar a “Avatarhood” em cada virtude não é só necessário ganhar pontos suficientes, mas descobrir o mantra e templo associados a essa virtude, para depois meditar e masterizar essa virtude. Para isso teremos de ir perguntando aos locais onde essas coisas estão e não só. Na versão Master System como seria de esperar este sistema de diálogos está mais simplificado e apenas podemos perguntar por coisas que já tinhamos ouvido falar antes.

screenshot
Já na versão Master System apenas podemos escolher para os diálogos uma série de termos que já tenhamos conhecido

Neste jogo vamos também poder recrutar uma série de companheiros especialistas em cada uma das outras virtudes (o jogador “nasce” sempre com afinidade a uma virtude em específico), resultando numa party que poderá ir até 8 personagens. E se por um lado nós somos sempre “julgados” pelas nossas acções, as restantes personagens não, portanto se quisermos fazer maroscas na mesma é melhor mandar os outros. Neste jogo também mudaram as magias: agora temos de comprar uma série de reagentes e com base em várias receitas podemos fabricar uma série de feitiços, mais uma grande razão para o habitual grinding para arranjar ouro para suportar tudo isto. De resto, tal como os outros jogos da série, para subir de nível teremos de falar com Lord British, que por sua vez também nos poderá curar. Outra coisa que foi mudada radicalmente com este jogo é a questão das dungeons. Elas ainda existem e são exploradas de forma a encontrar itens que nos permitam avançar na dungeon final. A diferença é que deixaram de ser inteiramente na primeira pessoa. Agora apenas os corredores são jogados na primeira pessoa, com as dungeons a terem também diversas salas. Essas salas já são jogadas numa perspectiva de overhead normal, visto quase sempre terem batalhas associadas e não só, como puzzles e imensas passagens secretas. Nos corredores em primeira pessoa é também possível ter encontros aleatórios com inimigos, com as batalhas mais uma vez a passarem para a perspectiva habitual. A versão Master System tem as dungeons todas com essa perspectiva overhead, embora a consola seja bem capaz de renderizar dungeons na primeira pessoa, como pode ser visto em Phantasy Star.

screenshot
As dungeons na primeira pessoa ainda têm um aspecto simples, mas ao menos já não são apenas arames.

Graficamente o jogo está mais detalhado que os anteriores, em especial a versão PC que agora já está naturalmente mais colorida, devido ao utilizarem o standard de vídeo EGA que permitia 16 cores, ao contrário do primitivo CGA das conversões anteriores. Era 1985, os IBM PC não eram propriamente máquinas de gaming ainda, até porque mais uma vez o jogo ficou sem música e os efeitos sonoros eram limitados aos “bips” da PC-Speaker. Placas como a Ad-lib ou soundblaster ainda eram uma miragem. Felizmente a conversão para a Master System, tendo saído bem mais tarde acabou por herdar uns gráficos bem mais coloridos e música, mas ainda com sprites bem próximas das originais, ao contrário da conversão para a NES que foi mutilada em imensos aspectos.

screenshot
Este Ultima tem uma introdução bastante longa e colorida, em todas as versões

No final de contas Ultima IV é um jogo bastante peculiar na série, precisamente por todo este foco numa “quest” de introspecção e espiritual. É também o jogo que marca o nascer de uma nova era para Lord British e o mundo de Britannia, com imensas caras conhecidas e cidades que vamos ver evoluindo ao longo dos próximos jogos da série. Não deixa de ter uma jogabilidade ainda algo primitiva, afinal o jogo foi lançado originalmente em 1985, mas tenho visto uma evolução muito interessante desde o primeiro jogo. A versão Master System parece-me ser também uma excelente conversão, embora para quem estiver habituado a jogar os habituais JRPGs que as consolas sempre tiveram, não vão gostar lá muito do jogo.