Spec Ops: The Line (PC)

Mais um jogo há muito preso no meu backlog. Spec Ops: The Line é um reboot da série Spec Ops, uma franquia de shooters militares com uma forte componente táctica e origem no PC. Apesar de os primeiros jogos terem conseguido algum sucesso comercial, as inúmeras sequelas que lhes seguiram nem por isso, particularmente a partir de Spec Ops: Stealth Patrol, cujo lançamento, tal como o dos títulos que se lhe seguiram, foi exclusivo da primeira PlayStation. Sempre foram jogos que via ao desbarato em feiras ou lojas de velharias e que ninguém queria levar, o que seguramente não era bom sinal. Mas tudo mudou anos mais tarde: o estúdio alemão Yager Development teve a oportunidade de criar um novo jogo para esta série e o resultado final foi este Spec Ops: The Line, lançado originalmente em 2012. Já não me recordo quando o meu exemplar foi comprado, muito menos onde ou quanto custou. Há-de ter sido numa Worten, MediaMarkt ou loja GAME, numa altura em que os jogos físicos para PC eram ainda abundantes e rapidamente baixavam de preço para valores bastante convidativos.

JOgo com caixa, manual e papelada.

A história leva-nos a controlar o Capitão Martin Walker, líder de uma equipa de três operacionais da Delta Force incumbida de uma missão secreta: infiltrar-se na moderna cidade do Dubai para uma missão de reconhecimento e posteriormente regressar à base para reportar as suas observações. Mas porquê? Acontece que a cidade tem vindo a ser devastada, ao longo dos últimos meses, por tempestades de areia extremas que a deixaram incontactável com o mundo exterior. A elite civil abandonou a cidade antes da situação se deteriorar por completo e a 33.ª Divisão do Exército dos EUA, liderada pelo carismático Coronel John Konrad, que estava de passagem pelo Dubai após uma missão no teatro de guerra do Afeganistão, decidiu desobedecer às ordens do governo norte-americano para evacuar, permanecendo na cidade para ajudar os civis. Mas as tempestades continuaram e os poucos rumores que saíam da cidade não eram muito favoráveis. Daí este pequeno grupo de reconhecimento precisar de avaliar a situação. E mais não digo, pois o ponto mais forte deste jogo é sem dúvida a sua narrativa, que muito me fez lembrar filmes como Apocalypse Now, onde não só o lado mais feio e sujo das guerras é mostrado, mas também o efeito que isso tem na psique humana.

Muitas vezes o jogo coloca-nos desafios moralmente difíceis de avançar. Faz parte da experiência.

E se por um lado a narrativa é excelente, a jogabilidade desiludiu-me bastante. Spec Ops: The Line é então um shooter na terceira pessoa com mecânicas de abrigo, algo muito comum nas consolas desta geração. É também um jogo com vida regenerativa e, apesar da grande variedade de armas de fogo que poderemos vir a utilizar, apenas poderemos transportar duas de cada vez, para além de diferentes tipos de granadas. A série Spec Ops original demarcava-se pela sua vertente mais táctica e realista, mas aqui essas mecânicas são bastante simplificadas. Estando quase sempre acompanhados por dois colegas, podemos dar-lhes ordens para atacar alvos específicos, lançar granadas de atordoamento ou socorrerem-se mutuamente caso algum esteja em apuros. Nós próprios também podemos ajudar os nossos companheiros quando estes ficam incapacitados. A principal componente estratégica acaba por resultar da escassez de munições, pelo que muitas vezes abusei da mecânica de pedir aos meus colegas para eliminarem os alvos mais perigosos, visto que as suas munições são infinitas.

Esta secção em particular é uma das mais pesadas do jogo

O meu outro problema teve a ver com os controlos, que nem sempre resultam bem, particularmente nas mecânicas de entrada e saída dos abrigos, que nem sempre respondem como deveriam. Para mim, igualmente frustrante, foi o mapeamento por defeito das teclas (joguei com rato e teclado), particularmente das teclas Q e E. Aqui, a tecla Q serve para atirar granadas, enquanto a E serve para alternarmos rapidamente entre as duas armas de fogo que possuímos. Ora, para mim o Q sempre teve a função de quick load, pelo que acabei por desperdiçar imensas granadas sem querer. Também confesso que houve alguma preguiça da minha parte em alterar o mapeamento das teclas, pois acredito que essa possibilidade existia nas opções. De resto, o jogo conta também com componentes multiplayer cooperativas e competitivas, mas não as cheguei a experimentar sequer, pelo que não me irei alongar nesse aspecto.

Acho a versão PC visualmente muito actual ainda!

Já no que diz respeito aos audiovisuais, confesso que fiquei agradavelmente surpreendido. Pelo menos nesta versão PC, jogando com os gráficos no máximo, o resultado foi uma agradável surpresa, com personagens e cenários muito bem detalhados e também bem animados. É um jogo que envelheceu bastante melhor do que esperava! Já no que toca ao som, acho que também aqui se tocou num ponto forte. Para além da narração estar no ponto, a escolha da banda sonora parece também reforçar algumas das influências narrativas do jogo. Tal como Apocalypse Now utilizava clássicos do rock e peças de música clássica para ajudar a definir a identidade da sua viagem pelo coração das trevas, Spec Ops: The Line recorre a artistas como Jimi Hendrix, Deep Purple, Mogwai ou Björk para complementar a atmosfera única do Dubai devastado que exploramos. A presença recorrente da melodia Dies Irae acaba por funcionar como mais um elemento a reforçar o tom sombrio e inquietante que acompanha toda a experiência.

Como jogo táctico, infelizmente deixa muito a desejar nesse departamento.

Portanto, em suma, Spec Ops: The Line apresenta-nos uma excelente narrativa, mas enquanto videojogo nem sempre consegue acompanhar a qualidade da sua história. As mecânicas de jogo e os controlos não são dos mais bem implementados e uma série tradicionalmente associada a uma vertente mais táctica acaba por deixar algo a desejar nesse departamento. Ainda assim recomendo vivamente que procurem uma cópia física, seja para PC ou consolas. É que infelizmente, devido à banda sonora com música licenciada, o jogo foi retirado das lojas digitais.