Egypt 1156 B.C.: Tomb of the Pharaoh (PC)

A Cryo Interactive foi uma empresa francesa especialmente activa durante a década de 90 e os primeiros anos do novo milénio. Foi responsável pelo desenvolvimento do primeiro videojogo da série Dune e publicou também inúmeras aventuras gráficas, muitas delas de qualidade algo duvidosa ou que simplesmente envelheceram mal. O jogo que cá vos trago hoje é um desses casos, tendo sido desenvolvido pela Dreamcatcher Interactive, responsável também por títulos como Atlantis II, Dracula: The Resurrection ou Necronomicon.

Jewel case com CD

Egypt 1156 B.C. é, portanto, mais uma aventura gráfica na primeira pessoa ao estilo de Myst, mas que nos leva a viver um autêntico policial no antigo Egipto. Controlamos Ramose, um jovem cujo pai foi falsamente acusado de roubar tesouros do túmulo do faraó Seti I. Temos apenas três dias para provar a sua inocência, pelo que teremos de investigar aldeias, túmulos e templos, recolhendo provas que nos permitam identificar o verdadeiro culpado. Um dos aspectos mais interessantes deste jogo é o facto de ter sido desenvolvido em colaboração com a Réunion des Musées Nationaux, uma instituição pública francesa dedicada à valorização e divulgação do património cultural. Esta colaboração parece ter dado frutos, particularmente na atenção ao detalhe dos cenários e na componente educativa, que inclui uma extensa base de dados sobre a civilização egípcia, que pode ser consultada a qualquer momento.

Infelizmente as personagens são todas muito parecidas entre si

No que toca às mecânicas de jogo, estamos perante uma aventura gráfica tradicional, jogada na primeira pessoa, com uma movimentação algo limitada, bem ao estilo de Myst. Na prática, deslocamo-nos entre ecrãs estáticos através de cliques do rato nos locais certos. Os cenários são pré-renderizados e permitem-nos observar os ambientes à nossa volta com uma liberdade de 360º. Como seria de esperar, teremos de interagir com diversas personagens e inspeccionar os cenários ao mais ínfimo detalhe, em busca de pistas e objectos que nos permitam progredir na investigação. Pelo caminho, há também alguns puzzles para resolver, que nem sempre são tão óbvios quanto isso. Por vezes, será necessário aprender um pouco mais sobre a cultura egípcia ou, nos dias que correm, recorrer a um guia online caso fiquemos encravados. De salientar ainda que Egypt 1156 B.C. tem alguns cenários de game over, incluindo um puzzle final com um limite de tempo para ser resolvido. Por isso, gravar o jogo regularmente é altamente recomendável.

O problema dos gráficos pré-renderizados é que os cenários se tornam demasiado estáticos, o que é particularmente estranho quando temos outras personagens para interagir

Visualmente, é um produto do seu tempo. Graças aos gráficos pré-renderizados, Egypt 1156 B.C. é um jogo bastante bonito, embora esteja limitado a resoluções muito baixas para os padrões actuais. Ainda assim, há cenários impressionantes pelo seu nível de detalhe, particularmente no interior dos monumentos, com todas aquelas gravuras coloridas e repletas de pormenores. Foi aqui que a colaboração com os museus franceses deu os seus frutos! Infelizmente, muitos ambientes são também excessivamente escuros, dificultando a identificação de itens e outros detalhes. O resultado é uma verdadeira caça ao pixel sempre que precisamos de interagir com objectos mais escondidos.

Já no que toca ao som, a minha opinião é mais dividida. Por um lado, fico contente por a Dreamcatcher nos ter apresentado uma banda sonora inspirada na civilização egípcia. Por outro, apesar de as músicas serem agradáveis, nem sempre combinam com a atmosfera mais sombria, isoladora e contemplativa que o jogo procura transmitir. A dobragem, pelo menos na versão inglesa, também deixa bastante a desejar. Os diálogos não são particularmente inspirados e ouvir personagens de há 3000 anos a falar com um sotaque marcadamente britânico não deixa de ser um pouco estranho.

Para além do jogo, temos também acesso a uma autêntica enciclopédia sobre a civilização egípcia.

Portanto, Egypt 1156 B.C. é mais um daqueles jogos publicados pela Cryo que acabaram por ficar esquecidos no meio das muitas aventuras gráficas que a editora lançou durante aqueles anos. Ainda assim, acredito que tenha tido algum sucesso, sobretudo se tivermos em conta a sua vertente educativa. Afinal, em 2000, ano em que a PlayStation recebeu uma conversão deste jogo, a Cryo lançou também a sua sequela, Egypt II: The Heliopolis Prophecy.