Houve um artigo que escrevi para a PUSHSTART que ficou completamente esquecido aqui neste meu espaço: Gomo, publicado pela Daedalic Entertainment, a mesma produtora por detrás de vários outros jogos point and click de óptima qualidade como Deponia, The Dark Eye Chains of Satinav ou Memoria. Mas Gomo é um jogo bem curtinho e bizarro, fazendo lembrar por várias vezes o Machinarium.
Bom, sem mais demoras, poderão ler a minha crítica na íntegra aqui.
A Daedalic é uma produtora alemã que já tive o prazer de jogar e analisar muitos dos seus jogos de aventura point and click. O Edna & Harvey: The Breakout é inclusivamente o primeiro jogo que a Daedalic desenvolveu, cujo lançamento original já data de 2008. No entanto apenas chegou ao steam em 2013, se não estou em erro, bem depois de a sequela Edna & Harvey: Harvey’s New Eyes ter sido lançada. O jogo teve a sua origem como um projecto universitário e isso nota-se bem à medida em que vamos jogando. E lá veio parar à minha colecção num dos Humble Bundles, creio que foi no próprio Weekly Bundle dedicado à Daedalic, tendo ficado bem barato no conjunto.
Como seria de esperar pelo nome, neste jogo controlamos Edna e Harvey. Edna é uma rapariga aprisionada num asilo, por motivos inicialmente desconhecidos e Harvey é o seu coelho de peluche falante – que obviamente apenas fala na sua imaginação. A única coisa que sabemos é que Edna aparentemente é maltratada pelo director lá do sítio, o médico Dr. Marcel, que por acaso era seu vizinho de infância. Edna é orfã, o seu pai foi condenado à pena de morte por aparentemente ter assassinado o filho de Marcel, que também era “amigo” de Edna. A única coisa que Edna sabe é que todos os dias o Dr. Marcel tenta-lhe apagar a memória, suspeitando que o psiquiatra tenta encobrir alguma coisa do seu passado e sempre acreditando que o seu pai é inocente. O jogo todo consiste em levarmos a dupla de Edna e Harvey a fugir do asilo e tentar então encontrar o que aconteceu no seu passado, provar a inocência do seu pai e incriminar o Dr. Marcel.
Estes são os “gémeos siameses” lá do sítio
As mecânicas de jogo são algo arcaicas, mesmo como os grandes clássicos do género. Como qualquer point and click que se preze, temos de clicar em todos os objectos no ecrã, interagir e misturá-los, falar com todas as personagens e tentar resolver uma série de puzzles para progredir na história. Mas para isso, temos sempre de escolher uma de quatro acções, disponíveis na parte de baixo do ecrã: look to, talk to, use ou pick up. Existem vários jogos deste género que fazem estas opções de uma forma mais intuitiva, e isso foi algo que a Daedalic foi aprendendo ao longo dos seus jogos. Mas não deixa de ser interessante tentar fazer combinações estapafúrdias de itens e objectos só mesmo para ouvir a resposta, e no entanto algumas dessas coisas até funcionam! Sim, este é daqueles jogos em que alguns dos puzzles acabam por não ter lógica nenhuma mas hey, isto é passado num manicómio, portanto vale tudo. Existem também uma série de coisinhas que podemos fazer que não têm influência nenhuma na história, nomeadamente vandalizar com canetas, ketchup e mostarda o escritório do Dr. Marcel e outras salas, ou mesmo amassar e arranhar o seu caro carro.
Em algumas partes do jogo “voltamos ao passado” para relembrar algumas coisas do passado, nestes momentos a jogabilidade é um pouco diferente, podemos controlar também o Harvey
Visualmente é um jogo simples. Infelizmente a adaptação para computadores modernos, mesmo para os padrões de 2008 não é a melhor. Sendo assim eu acabei por preferir jogá-lo no modo janela, de outra forma a resolução tão baixa estragava um pouco as coisas. O jogo tem um aspecto cartoonish bastante insano, o que se adequa perfeitamente ao tema. No entanto nota-se perfeitamente que as animações simples, e em algumas situações até inexistentes foram mesmo fruto de este ser um jogo com origens num projecto académico. Aliás, mesmo no próprio jogo isso é ironizado por várias vezes pelos próprios criadores de jogo. Uma das secções que temos de atravessar é quando entramos numa sala de terapia de grupo. O tema? Terapia para Game Designers, onde o criador do jogo se lamenta por ter achado uma óptima ideia ter feito um jogo destes para o seu projecto de tese e ter de animar sozinho todas as possíveis animações num curto intervalo de tempo de alguns meses.
Esta é a cela de Edna, logo no início do jogo
Os diálogos são sempre bem humorados, e como conhecemos todos os outros pacientes daquele manicómio, não podem esperar personagens mentalmente muito estáveis, e com isso os diálogos também vão sendo bastante surreais. Infelizmente na recta final do jogo acontecem algumas coisas bem mais “sérias”, que me deixaram assim um pouco impressionado, por não estar mesmo nada à espera do tom que essas coisas tomaram. Prefiro não “spoilar” pormenores, mas quem já jogou este jogo até ao fim creio que sabe bem do que me refiro. De resto os diálogos (experimentei naturalmente o voice-acting em inglês) parecem-me competentes, mas lá está, a Daedalic depois acabou por fazer bem melhor. O mesmo para as músicas, que tirando a música título, bastante alegre e viciante, as restantes cumprem bem o seu papel, mas depois acabam por passar despercebidas.
Assim sendo, Edna & Harvey: The Breakout se calhar é um jogo um pouco caro para o preço base que vemos na loja do Steam. O facto de ter sido um projecto académico e o produto final ser inferior a muitos outros jogos que a Daedalic acabou por desenvolver, é uma razão pela qual eu venderia esse jogo mais barato como preço base. No entanto não deixa de ser divertido e bem humorado, pelo que se o voltarem a ver numa boa promoção e gostarem de jogos deste género, então certamente será uma boa compra.
Voltando às aventuras gráficas, vou agora escrever sobre o The Whispered World, um dos primeiros grandes trabalhos produzidos pela Daedalic neste campo, onde temos outros exemplos como Chains of Satinav, ou as séries Deponia ou Edna & Harvey. Este The Whispered World entrou na minha conta Steam por via do Humble Weekly Bundle da Daedalic, algures no ano passado, que me terá ficado por nem 5€. Ah, humble bundles e o meu backlog a crescer exponencialmente.
The Whispered World leva-nos para um mundo de fantasia, onde jogamos com Sadwick, o palhaço mais deprimente que já tive a infelicidade de conhecer. Não estou a inventar, a personagem principal da história é mesmo um palhaço/bobo com a pior auto-estima de sempre e sonhar constantemente com o final do mundo não deve melhorar muito a sua situação. The Whispered World decorre no mundo fantasioso medieval de Silentia, e Sadwick pertence a um pequeno circo itinerante, em conjunto com o seu irmão e o avô já bastante senil. Até que algures durante o início da aventura Sadwick consegue encontrar-se com Shana, uma serpente oráclo que profetiza que Sadwick irá um dia destruir o mundo. Disposto a reverter o seu destino, Sadwick vai viajando por diversas localidades até chegar à capital de Corona, encontrando-se pelo caminho com outras personagens carismáticas e também vilões como os guerreiros Asgil liderados por Loucaux. Não querendo “spoilar” a experiência para o jogador, devo dizer que o final é uma mistura de originalidade com cliché, e não estou bem a ver por onde a Daedalic vai pegar para fazer a sequela que sairá neste ano.
Sadwick e o seu animal de estimação Spot, na sua forma “ardente”.
Como habitual nos jogos da Daedalic, a jogabilidade é a standard de os jogos de aventura point and click -e começando a cansar de me repetir nestes jogos – consiste em movimentar-nos ao longo de vários cenários fixos, clicando em tudo o que seja sítio, de forma a falar/interagir com personagens, recolher/interagir com objectos e resolver vários puzzles de forma a progredir no jogo. O sistema de point and click consiste em deixar o dedo do rato clicado num determinado objecto/personagem e surge em seguida um pequeno menu circular, com 3 opções distintas: comentar, falar, ou pegar. O que o jogo tem também de diferente é a inclusão de um animal de estimação peculiar, spot, uma lagarta gigante capaz de tomar diferentes formas e habilidades, úteis para resolver diversos puzzles. Essas formas vão sendo adquiridas também ao longo do jogo, que tornam Spot gordo e pesado, em chamas, dividido em 5 pequenas bolas, ou “esmagado” numa tira.
Para não variar, os cenários pintados à mão são sempre bem bonitos.
Graficamente é um jogo bonito, com os já tradicionais cenários e personagens pintadas à mão. As cutscenes são inteiramente animadas, fazendo-me lembrar vários desenhos animados europeus das décadas de 80 ou 90. Infelizmente achei-as uns furos abaixo de jogos mais recentes como The Night of the Rabbit ou Memoria, mas é bom ver a Daedalic a evoluir nesse aspecto. As músicas vão sendo variadas, com alguns bons temas, como a faixa-título e variantes, mas outros sinceramente não achei assim tão bons. Algo que também não está tão bom como em outros jogos da Daedalic é o voice-acting. Para além de a personalidade de Sadwick já ter uma auto-estima nula, a sua voz é demasiado anasalada, o que para mim foi bastante irritante. Isso, aliado ao exagero no papel de “coitadinho”, acho que a Daedalic por vezes se esticou demasiado. No entanto ainda encontrei algumas personagens bem conseguidas, como o avô senil de Sadwick, ou Bando, o faz-tudo na fábrica de pérolas.
The Whispered World não reinventa a roda, e apesar de ter a sua quota-parte de puzzles ilógicos como muitas outras aventuras gráficas, acaba por cumprir bem o seu papel. A Daedalic entretanto foi evoluindo e com o passar dos tempos foi refinando cada vez mais a fórmula. Estou bastante curioso para ver como se sairá este The Whispered World 2, em primeiro lugar, para ver como vão dar continuidade à história e, caso utilizem as mesmas personagens, se o carácter de Sadwick se tornou mais maduro. Ou não.
Há uns tempos atrás tive o prazer de jogar e analisar a sequela deste jogo por intermédio da Revista PUSHSTART. O jogo chamava-se Memoria e, tal como este encontra-se incluído no universo de fantasia The Dark Eye, que teve as suas origens como um jogo de tabuleiro à lá Dungeons and Dragons, mas em solo alemão. Vindo do estúdio alemão Daedalic Entertainment, este é mais um jogo da aventura point and click tradicional, onde são bastante notórios os melhoramentos que a sua sequela ganhou. Depois de ter jogado Memoria, fiquei bastante curioso com as origens de Geron, pelo que quando a Humble Bundle anunciou um bundle semanal com jogos da Daedalic, onde este também se encontrava no pacote, não pude recusar pagar 6 dólares por um conjunto de óptimos jogos.
Tal como referi anteriormente, este jogo decorre no universo de fantasia medieval de The Dark Eye, mais precisamente com origem no reino de Andergast, onde encarnamos no jovem Geron, apanhador de pássaros de profissão e portador de maus agoiros aos olhos de todos os outros. Isto pois antes de um velho vidente ter sido queimado vivo, profetizou que Geron um dia iria trazer uma grande tragédia a Andergast, o que o deixou algo marginalizado pela sociedade ao longo dos anos. O jogo começa com Geron a tentar vencer um concurso anunciado pelo Rei de Andergast, de forma a ganhar a confiança do povo, isto numa altura em que o reino se estava a preparar para receber a Rainha do país vizinho, Nostria. Acontece que Andergast tem vindo a ser invadida de forma gradual por um conjunto de corvos sinistros. Preocupado com a situação, o mentor de Geron pede-lhe que recolha diversos ingredientes para preparar uma poção mágica de forma a livrarem-se dos corvos, poção essa que necessita de magia de uma fada. É assim que Geron conhece a sua companheira Nuri, mas entretanto coisas acontecem e a situação piora bastante, obrigando a dupla Geron e Nuri a fugir da cidade. A aventura vai então progredindo em vários locais, com o mistérios dos corvos, do velho vidente, os mundos das fadas entre outros, a serem desmistificados.
A cidade de Andergast, com vários locais para explorar
No entanto não deixa de ser curioso que apesar de o jogo ter Satinav no título, é apenas na sequela que essa personagem passa a ter um papel muito mais preponderante na história. De resto as mecânicas de jogo são as habituais num jogo de aventura point and click. Com o rato guiamos Geron ao longo e vários cenários, falando com vários NPCs para progredir na história, e interagindo com variados objectos de forma a resolver os tradicionais puzzles que este tipo de jogo apresenta. Para além do mais, Geron e Nuri possuem alguns poderes mágicos que terão um papel importante na história. Geron tem a habilidade de destruir alguns objectos, já Nuri pode reconstrui-los. Na sequela, Memoria, deram uma maior importância a esta mecânica de feitiços, incluindo mais uns quantos.
Casa de Geron e do seu mentor, que agora me está a falhar o nome.
Graficamente é um jogo bonito, com os seus cenários desenhados à mão, e personagens também bem elaboradas. Infelizmente acho que deveria mesmo ter jogado este jogo antes da sua sequela, pois apesar de Chains of Satinav estar bonito, Memoria é um jogo superior a todos os níveis: audiovisuais, história e jogabilidade. Aqui notam-se bastante algumas quebras em algumas situações, principalmente nos diálogos, onde por várias vezes acontece as personagens estarem a falar e a boca nem se mexe, como deveria acontecer normalmente. O voice acting sinceramente também não o achei tão bom como o de Memoria e o de outros jogos da Daedalic. É competente, mas falta-lhe a chama em situações mais intensas. Mas isso também é proporcionado em parte por uma história não tão épica que Memoria nos apresentou.
No mundo de The Dark Eye, os Orcs têm este aspecto mais “peludo”.
No final de contas, Chains of Satinav é um bom jogo de aventura point and click, o contexto de fantasia medieval resultou bastante bem. O meu único problema foi tê-lo jogado depois da sua sequela, Memoria, que melhorou em todas as vertentes. Caso contrário teria apreciado muito mais este jogo, mas não deixou de ter sido um tempo muito bem gasto.
Presente na revista #36 da PUSHSTART, mas também já disponível no seu site, está a minha análise a um dos mais recentes jogos da Daedalic, o Memoria, do universo The Dark Eye. Deixo aqui o parágrafo de introdução, com o link para a leitura do artigo na íntegra no site da PUSHSTART no final.
“A Daedalic Entertainment está em grande. Poucos meses depois de lançarem o mágico The Night of the Rabbit, tendo sido inclusivamente aqui analisado na PUSHSTART, voltaram à carga com este The Dark Eye: Memoria, mais um jogo de aventura do género point and click e mais uma vez apresentaram uma experiência repleta de qualidade. O jogo é uma sequela do The Dark Eye: Chains of Satinav, que por sua vez se enquadra dentro do universo fantasioso de The Dark Eye, cujas origens remontam à década de 80, como sendo um RPG de tabuleiro um pouco à imagem de Dungeons & Dragons. Esse RPG teve imenso sucesso na Alemanha, o mesmo país de origem da própria Daedalic, e desde o início dos anos 90 que tem vindo a receber várias incursões nos videojogos, também como RPGs. Lançado em 2011, Chains of Satinav foi o primeiro videojogo desse universo a ter um gameplay completamente diferente dos restantes, onde este Memoria lhe segue o exemplo.”