Broken Sword: The Angel of Death (PC)

Tempo de voltar à série Broken Sword, pois depois de ter jogado o seu terceiro título, Sleeping Dragon, algures no final de 2012, nunca mais me lembrei de ir atrás das suas sequelas. Felizmente, no ano passado, comprei este The Angel of Death para o PC por meros cêntimos numa CeX, pelo que chegou agora finalmente a vez de o jogar. Confesso que já muito pouco me lembrava da série, a não ser pela dinâmica muito própria do par protagonista. Apenas o primeiro jogo ainda estava bem presente na minha memória: a icónica cena no café parisiense e a forma como uma grande conspiração foi sendo revelada, enquanto duas personagens perfeitamente desconhecidas entre si iam formando um laço bastante forte, quase até romântico. Confesso também que, tendo em conta que este jogo era, tal como o seu predecessor, inteiramente em 3D, não estava com muitas esperanças, mas ainda assim decidi avançar.

Jogo com caixa, manual e papelada

Aqui voltamos a controlar o advogado norte-americano George Stobbart, que num certo dia recebe a visita de uma mulher que lhe pede ajuda. Anna Maria tem em sua posse um manuscrito medieval que acredita conter pistas sobre a localização de um valioso tesouro, pelo que recorre a George para o decifrar, visto este ser também conhecido pelas suas façanhas aventureiras. O problema? Anna Maria tem vindo a ser perseguida por uma organização mafiosa que quer recuperar esse pergaminho a todo o custo, pelo que acabamos, invariavelmente, por tropeçar numa grande conspiração. Sem querer revelar muitos mais detalhes, digamos apenas que a relação entre George e a sua cliente acaba por ter um grande destaque na narrativa. Já a sua amiga e companheira das aventuras anteriores, Nico Collard, bom… digamos apenas que surge na segunda metade da história.

O que não faltam aqui são momentos de sarcasmo que constantemente me arrancaram sorrisos da cara

Sleeping Dragon foi um jogo já pensado um pouco mais no mercado das consolas, visto as aventuras gráficas tradicionais terem entrado em declínio no início do novo milénio. A clássica mecânica point and click foi substituída por um sistema de controlo focado num comando e o jogo possuía vários segmentos de acção ou furtividade que acabaram por alienar um pouco os fãs mais acérrimos das aventuras gráficas tradicionais. Este The Angel of Death, apesar de ser o único título da saga exclusivo no PC, acaba por ter um pouco de ambos. O sistema point and click marca o seu regresso, embora seja igualmente possível controlar o movimento das personagens através das setas do teclado. O jogo possui um sistema “inteligente”, na medida em que o ícone que surge no ecrã sempre que apontamos o rato para um ponto de interesse é o que supostamente faz mais sentido: uma boca quando apontamos para uma personagem, uma mão quando apontamos para um objecto coleccionável, ou uma roldana quando estamos perante algo interactivo. Ainda assim, ao pressionar o botão direito do rato surge um balão com todas as acções disponíveis para esse ponto, caso as queiramos experimentar ou a opção atribuída por defeito não seja a mais indicada.

Apesar da interface point and click estar de volta, a movimentação pelos cenários nem sempre é a mais precisa, especialmente em situações como esta, onde é mais vantajoso usar o teclado.

Temos na mesma, ocasionalmente, alguns segmentos de furtividade, mas felizmente não são tão frustrantes quanto no título anterior. É igualmente possível sermos apanhados e George ou Nico perderem a vida, mas o jogo recarrega automaticamente um checkpoint muito próximo do ponto onde falhámos. Os puzzles não são particularmente exigentes do ponto de vista lógico, embora nem sempre sejam assim tão óbvios quanto isso. Gosto particularmente daqueles desafios mais à Indiana Jones, onde teremos de interpretar documentos antigos para progredir. Sendo este um jogo que decorre verdadeiramente dentro do novo milénio, George já possui um smartphone com o qual pode não só telefonar a outras personagens, algo que teremos inclusivamente de fazer para ultrapassar certas situações, mas também ganhar a habilidade de fazer hacking a computadores e outros equipamentos electrónicos. O hacking em si assume a forma de um interessante mini-jogo onde teremos de direccionar um feixe de energia por vários terminais até chegar ao computador final que queremos invadir ou do qual pretendemos extrair informação.

Ocasionalmente teremos alguns momentos de acção mais furtiva onde teremos de passar despercebidos por guardas

No que toca aos audiovisuais, tal como Sleeping Dragon, este Broken Sword apresenta gráficos inteiramente em 3D, algo que pessoalmente não me agrada tanto quanto os clássicos. Os cenários, apesar de variados (visitamos várias localizações em Nova Iorque, Istambul, Roma ou o Vaticano) são representados por gráficos poligonais com pouco detalhe e texturas algo simples, e o mesmo pode ser dito das personagens, ainda que estas revelem algum cuidado adicional nas expressões faciais. A simplicidade dos cenários e, sobretudo, os ângulos de câmara pré-determinados acabam muitas vezes por dificultar a identificação de pontos de interesse, atrasando desnecessariamente o progresso. Pessoalmente prefiro de longe o pixel art caprichado em detalhe e animação que o lançamento original do primeiro Broken Sword nos oferecia, assim como noutros clássicos europeus como foi o caso de Discworld.

Já no que toca ao som, a banda sonora é composta maioritariamente por temas mais calmos que contribuem de forma positiva para a atmosfera. O voice acting, felizmente, é na maioria dos casos bastante competente. Gosto particularmente da personagem de George, repleta de sarcasmo e ironia, que me foi arrancando alguns sorrisos à medida que ia interagindo com as restantes personagens. O bom humor da narrativa acaba, no entanto, por contrastar bastante com a sua recta final que, sem entrar em spoilers, me desapontou bastante. O jogo termina de forma tão abrupta que deixa uma estranha sensação de vazio, e a ausência de um epílogo que ajude a dar verdadeiro fecho à narrativa faz suspeitar que o seu desenvolvimento tenha sido apressado.

Infelizmente Nico apenas surge na segunda metade do jogo, mas ao menos temos um capítulo inteiramente jogado com ela.

Portanto devo dizer que este Broken Sword: The Angel of Death foi um jogo que me desagradou, particularmente na sua recta final. Continuo a não ser um fã destes visuais 3D quando comparados ao 2D muito bem detalhado dos primeiros dois jogos, mas o regresso do sistema point and click, mesmo com os seus problemas, foi muito bem-vindo. O sarcasmo de George foi algo que me agradou bastante à medida que ia descortinando aquele mistério, ajudando a disfarçar muitas das imperfeições que o jogo foi revelando. Mas aquele final acabou por comprometer seriamente a experiência. Não pelos acontecimentos em si, mas pela forma abrupta como tudo é encerrado, sem qualquer espaço para as coisas assentarem e sem um verdadeiro sentimento de conclusão. Acontece algo importante e dramático, as personagens trocam uma ou duas frases curtas, o ecrã escurece e entram os créditos. Sem epílogo, sem qualquer complemento que permita assimilar o que acabou de acontecer. Ainda assim, fico curioso com o último capítulo da saga, lançado originalmente entre 2013 e 2015 na forma de duas partes. Pelo menos visualmente parece-me mais apelativo, com um regresso a um 2D bem detalhado. Veremos o que The Serpent’s Curse nos terá para apresentar.

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Autor: cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.

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