Fist of the North Star: Lost Paradise (Sony Playstation 4)

Há uns anos resolvi finalmente voltar a dar atenção à série Yakuza/Like a Dragon, que nos últimos tempos tem recebido lançamentos quase a um ritmo industrial. Desde que joguei Yakuza 0 algures no início de 2023, tenho vindo a explorar o restante catálogo, rejogando os dois primeiros títulos nas versões Kiwami, explorar os lançamentos originais da PS3 nas suas versões Remastered, e não esquecendo vários dos títulos secundários que a série foi recebendo ao longo dos anos, como os Black Panther da Playstation Portable, ou o inusitado Yakuza Dead Souls da Playstation 3. Chegou agora a vez de experimentar mais um título secundário produzido pela mesma equipa, tão secundário que nem sequer pertence ao universo Yakuza/Like a Dragon, mas sim ao de um manga bastante conhecido, criado ainda na primeira metade da década de 80: Fist of the North Star. O meu exemplar foi comprado numa Worten, algures em Julho de 2020, por menos de 15€.

Jogo com caixa, autocolante e papelada diversa

Confesso que nunca li o manga nem vi o anime de Fist of the North Star, embora esteja algo familiarizado com o seu contexto. A acção decorre num mundo pós-apocalíptico e extremamente violento, onde uma série de gangues aterrorizam a população sobrevivente, que já enfrenta enormes dificuldades devido à escassez de água potável e comida. Controlamos Kenshiro, mestre da arte marcial Hokuto Shinken, que faz literalmente com que os seus oponentes expludam em poças sangrentas depois de certos “pontos de pressão” serem activados no seu corpo. A acção começa in media res, com Kenshiro a preparar-se para defrontar Shin, o seu rival, que havia raptado Yuria, a sua noiva. Esse confronto, que serve também de tutorial ao sistema de combate, faz avançar a narrativa para o arco seguinte: após derrotarmos Shin, este revela-nos que Yuria está morta. No entanto, mais tarde surge o rumor de que ela terá sido vista na cidade de Eden, uma cidade altamente fortificada onde, estranhamente, os seus habitantes vivem em relativa paz, harmonia e abundância de recursos. Parte dessa prosperidade deve-se à existência de uma colossal instalação pré-conflito que se manteve intacta. Ao longo da aventura iremos ganhar acesso a essa comunidade, conquistar a confiança dos seus governantes e ajudá-los a ultrapassar diversos conflitos que vão surgindo, tudo enquanto procuramos Yuria, que continua a ser o nosso objectivo principal.

Nunca li o manga, mas aparentemente é normal existirem humanos gigantes naquele universo

No que toca às mecânicas de jogo, considerem este título como um Yakuza clássico. Em vez de Kamurocho, temos a cidade de Eden para explorar livremente, seja para cumprir sidequests, visitar bares ou restaurantes, ou participar nos inúmeros mini-jogos opcionais. No que diz respeito ao combate, este mantém-se frenético e ainda mais violento do que em Yakuza, já que podemos desencadear uma série de habilidades especiais capazes de fazer os nossos oponentes explodirem de forma particularmente gráfica. Em vez do habitual heat, temos aqui um estado mais poderoso chamado burst, que nos dá acesso a habilidades ainda mais letais. É também nos combates que entram novamente as mecânicas de RPG. Combater faz com que ganhemos experiência e, como noutros títulos da série da mesma época, Kenshiro tem acesso a várias árvores de habilidades, cada uma focada em diferentes aspectos: corpo, que aumenta a nossa barra de vida e outros atributos; mente, que melhora a eficácia do modo burst; e skill, que desbloqueia novos golpes e técnicas. A maior parte das habilidades a desbloquear em qualquer uma destas árvores requer esferas cinzentas, atribuídas sempre que subimos de nível. Outras exigem esferas coloridas, obtidas por meios distintos, e existem ainda esferas douradas, reservadas para o final de cada capítulo da história e outros momentos chave.

Fist of the North Star possui um sistema de combate extremamente violento… e satisfatório, pelo menos assim que o começamos a dominar.

Existe ainda uma outra árvore de progressão dedicada ao destino. Esta envolve uma série de talismãs que poderemos desbloquear ao longo do jogo. Esses talismãs podem posteriormente ser refinados e evoluídos numa loja específica e equipados. Uma vez activados, recorrendo ao botão direccional correspondente, concedem efeitos temporários como aumento de ataque, defesa ou activação instantânea do modo burst, entre muitos outros. Para os evoluir necessitamos de dinheiro e materiais, o que nos leva ao sistema de crafting: A certo ponto da narrativa ganhamos a possibilidade de conduzir um buggy e explorar os desertos e ruínas em redor de Eden. É aí que podemos encontrar diversos materiais necessários para o crafting dos talismãs ou para melhorar o próprio veículo, algo essencial não só para ultrapassar obstáculos no mapa, mas também para ter sucesso no mini-jogo de corridas que surge mais tarde. Confusos? Não há problema, eu próprio também fiquei perante tantas mecânicas e subsistemas distintos. Inicialmente até achei o combate mais travado e lento do que em certos Yakuza, mas à medida que nos vamos familiarizando com todas estas camadas de sistemas, a nossa performance melhora consideravelmente.

O sistema de talismãs é interessante na medida em que nos dão diferentes habilidades se equipados.

Tal como referi acima, o que não falta aqui é conteúdo opcional. Certos mini-jogos como o casino regressam praticamente inalterados, enquanto outros apresentam particularidades adequadas ao universo do manga. No mini-jogo das tacadas de basebol, por exemplo, Kenshiro usa uma enorme viga de aço para acertar em bandidos que se deslocam na nossa direcção em motorizadas. Jogos arcade? Sim, temos OutRun, Space Harrier, Super Hang-On e uma máquina de apanhar brindes, com a diferença de que precisamos primeiro de encontrar estas máquinas perdidas algures no deserto. Eventualmente descobrimos até uma Sega Mark III com um cartucho de Fist of the North Star, lançado por cá como Black Belt, que podemos depois jogar livremente no nosso apartamento. Existe também um mini-jogo de ritmo onde Kenshiro assume o papel de terapeuta, utilizando a sua arte marcial para “curar” inimigos, obrigando-nos a pressionar uma sequência de botões ao som da música. A gestão de cabaret regressa igualmente, com algumas nuances próprias deste universo. Arenas de combate também marcam presença. Entre as novidades temos as corridas de buggy e um hilariante mini-jogo onde Kenshiro se torna barman e prepara cocktails icónicos como Duel on the Beach, Bloodstained Mary ou o meu preferido, You Are Already Drunk.

Para além de Eden, temos também um vasto deserto e ruínas adjacentes que podem ser explorados de jipe.

Todo este conteúdo extra é uma das principais razões pelas quais adoro a série Yakuza/Like a Dragon, e regra geral faço sempre questão de completar todas as sidequests e respectivos mini-jogos. Aqui, infelizmente, não consegui. A principal razão foi o enorme grinding a que o jogo nos obriga caso o queiramos completar a 100%. Uma das sidequests começa com Kenshiro a partir acidentalmente um vaso valioso pertencente a uma velhinha. Determinado a compensá-la, teremos de lhe entregar 100 milhões da moeda local, um valor absurdamente elevado. A forma mais rápida de ganhar dinheiro passa pelo mini-jogo do cabaret, mas para reunir essa quantia teria de repetir vvárias dezenas de sessões, algo para o qual sinceramente não tive paciência. Outra missão envolve vencer uma corrida de buggy contra um piloto de topo, exigindo um investimento prolongado na procura de peças raras e melhorias específicas para o veículo. Completar todas as sidequests desbloqueia não uma, mas duas batalhas opcionais contra bosses bem mais exigentes. Desta vez, porém, ficou por fazer.

Kenshiro a trabalhar como um barman é algo que não esperava mesmo ver.

No que toca aos audiovisuais, apesar de ter sido lançado poucos meses após Yakuza 6, que estreou um motor gráfico mais recente, este título utiliza ainda o motor anterior. O resultado é um certo downgrade visual, parcialmente mascarado pelo estilo mais próximo de desenho animado das personagens. Ainda assim, existem zonas que ficam claramente alguns furos abaixo daquilo que se esperaria de um título da PS4. A banda sonora é competente e eclética, com vários temas enérgicos onde, naturalmente, acabo por destacar aqueles mais orientados para o rock e recheados de guitarradas. Já no que diz respeito à narração, considero-a sólida, mas fiquei desagradado com a decisão da Sega de localizar apenas as vozes em inglês na versão ocidental. O lançamento japonês contou com actores familiares da série Yakuza, pelo que teria sido particularmente interessante ouvir essas vozes a interpretar personagens deste universo. Sendo esta uma obra de origem japonesa, teria preferido a possibilidade de optar pelo áudio original.

No fim de contas, gostei de Fist of the North Star: Lost Paradise. A adaptação consegue conjugar o universo brutal e pós-apocalíptico da obra original com a estrutura jogável mais tradicional dos Yakuza clássicos. Ainda assim, o sistema de combate apresenta uma curva de aprendizagem ligeiramente superior ao habitual, e o exagero de grinding associado à conclusão a 100% acabou por manchar um pouco a experiência. Ainda assim, foi uma boa jornada no seu conjunto. Segue-se Judgment, que planeio jogar algures nos próximos meses e que me desperta particular curiosidade pela sua vertente mais detectivesca.

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Autor: cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.

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