The 11th Hour (PC)

The 11th Hour

Voltando agora para as rapidinhas no PC para mais um jogo repleto de full motion video com actores reais. The 11th Hour é mais um jogo desenvolvido pela Trilobyte e uma sequela ao já analisado anteriormente The 7th Guest. O jogo decorre mais uma vez na mansão de Henry Stauf, mas 60 anos mais tarde, com Carl Denning, repórter de um programa televisivo de crimes não resolvidos como protagonista. O jogo herda várias mecânicas do anterior, mas também tem as suas diferenças que explicarei em seguida. Ao contrário do 7th Guest, este tenho apenas na minha colecção digital do Steam, o qual comprei na última steam summer sale no mês passado por uma baixa quantia, como habitual. Edit: comprei recentemente, na vinted e ao desbarato, uma versão holandesa com um formato muito peculiar.

Jogo com caixa em formato livro, 4 discos e manual

Aprofundando um pouco mais na história, este jogo decorre já na década de 90, onde Robin Morales, produtora do programa televisivo que Carl pertence e também a sua amante está desaparecida há umas semanas. A suas últimas notícias relatam que Robin estaria a investigar uma série de assassinatos que ela suspeitaria estarem relacionados de alguma forma com a velha casa em ruínas de Henry Stauf, conhecida localmente por estar assombrada. Carl recebe em seguida de um remetente misterioso uma espécie de palmtop chamado de “gamebook” onde vê um vídeo de Robin aflita a pedir pela sua ajuda, estando aprisionada na tal casa. Começamos assim a aventura a entrar mais uma vez nos corredores ainda sinistros da mansão de Stauf.

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O que chama logo à atenão são as cutscenes com melhor qualidade de imagem. Já o acting é o mesmo de sempre.

A jogabilidade é idêntica à do jogo anterior. Este é um point and click de exploração apenas com vários puzzles e enigmas para serem resolvidos de forma a progredir na história. Tal como no jogo anterior, nem todas as divisões da casa estão abertas logo de início e outras, mesmo que estejam abertas, nada há para fazer. O jogo está dividido em várias horas, onde em cada hora temos uma série de tarefas a cumprir. Estas resumem-se a resolver alguns puzzles em várias salas, tal como no jogo anterior, ou então resolver alguns enigmas. Os puzzles são novamente na sua maioria puzzles lógicos, e alguns com um grau de dificuldade bem acima da média, embora possamos utilizar o tal gamebook para nos dar algumas dicas e eventualmente marcar o puzzle como resolvido. Os enigmas são algumas frases ditas por Stauf e temos de decifrá-las de forma a encontrar o objecto a que as mesmas se referem.

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Este puzzle…. o tempo que leva a terminar….

Mais uma vez o gamebook dá-nos algumas dicas, mas há enigmas muito rebuscados, desde mensagens encriptadas, outras cheias de anagramas, noutros enigmas temos de procurar por sinónimos e segundos-sentidos de practicamente todas as frases. Não há quase nada literal nesses enigmas, e se não fossem os hints ou mesmo soluções de walkthroughs tornavam isto muito chato. Por exemplo, o enigma “Slyness holding shipment in choppe?” indica uma guilhotina que está numa das salas… Mas pronto, cada vez que resolvemos um destes enigmas temos acesso a um pequeno clip de vídeo que conta algum background da história, nomeadamente a investigação de Robin Morales antes de ter sido aprisionada na casa. No final de cada hora, após resolvermos todos os enigmas dessa mesma hora, somos levados para um puzzle especial onde jogamos contra o próprio Henry Stauf. Esses puzzles também são bastante chatos e irão dar muitas dores de cabeça a quem não fizer batota. Mas como recompensa teremos uma cena longa de aproximadamente 10, 15 minutos que junta todas as outras pequenas cenas que vimos anteriormente numa cena mais longa, com pés e cabeça, que vai contando esse segmento da história de Robin antes de ter sido feita prisioneira na casa.

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O gamebook é o aparelho onde lemos os enigmas de stauf, vemos o mapa da casa, as cutscenes e por aí fora

Graficamente houve uma evolução notória. Os cenários prérenderizados da mansão têm um nivel de detalhe largamente superior e o mesmo pode ser dito das próprias cutscenes em FMV, agora com uma maior resolução e melhor qualidade no geral. A movimentação na primeira pessoa está também melhor animada, com as transições a serem mais suaves. De resto, como seria de esperar os próprios segmentos de filme em si são muito maus, dignos mesmo de um filme em série B. O herói Carl não tem personalidade nenhuma e ainda diz umas quantas frases que nos deixam mesmo com grande facepalm. Mas lá está, foi o que se arranjou com uma semana e pouco de filmagens. As cenas de Stauf são as melhores e é claramente o melhor actor de todo o elenco. Ao longo de toda a aventura vamos ouvindo Stauf a mandar bocas foleiras quando tentamos resolver os puzzles, e devo confessar, muitas dessas tiradas estão boas, cheias de sarcasmo como eu bem gosto. As músicas são mais uma vez variadas, tendo algumas mais tensas e várias outras com uma toada jazz que sinceramente gostei.

No fim de contas achei este jogo uns furos abaixo do 7th Guest, principalmente por muitos dos puzzles serem desinspirados, difíceis ou chatos (aquele de organizar as letras de STAUF usando um comboio de brincar foi uma valente seca…). No entanto, as cutscenes com maus actores fazem parte deste período da indústria dos videojogos e acho que deixaram o seu charme de tão más que são. Não é um jogo que recomende a menos que sejam ávidos fãs do género. Vão antes jogar os Phantasmagoria, que espero analisar aqui em breve.

The 7th Guest (PC)

7th Guest

Vamos voltar aos jogos retro mas para o PC, com uma análise ao 7th Guest. Lançado originalmente em 1993, este é um jogo produzido pela Trilobyte, tornando-se num dos maiores impulsionadores dos jogos de aventura em full motion video com a temática de terror, como os Phantasmagoria ou Gabriel Knight que lhe seguiram, apesar de aqui as coisas ainda serem naturalmente muito “cruas” e pouco elaboradas, mas a semente foi definitivamente plantada. Este jogo entrou na minha colecção há poucos meses atrás, após ter sido comprado num bundle com outros jogos na Feira da Ladra em Lisboa. Infelizmente apenas contém a caixa em jewel case com os discos e o manual embutido em livrete. A edição Big Box trás muito mais coisas, mas foi o que se arranjou e o baixo preço que lhe paguei, não posso mesmo me queixar. Mais tarde encontrei também numa feira de velharias e ao desbarato, uma big box foleira mas vazia, pelo que a juntei à colecção.

Jogo com caixa em jewel case, os dois discos e livrete/capa

A história é das coisas mais bizarras que já joguei. Inicialmente assistimos a uma cutscene sobre a vida do demente Henry Stauf, que era uma pessoa perfeitamente normal, mas devido à grande depressão sentida nos finais dos anos 20, tornou-se num sem abrigo e ladrão. Certo dia decide assaltar uma mulher e acabou por a assassinar. A partir dessa altura as coisas ficaram estranhas, pois Stauf começou a ter visões de brinquedos, construíndo-os em seguida. Os seus brinquedos acabaram por ter um enorme sucesso e Stauf ficou rico. Até que tem uma outra visão e decide construir uma mansão sinistra numa colina. Por essa altura um estranho vírus incurável afectou várias meninas que tinham bonecas do Stauf e para além disso, Stauf convida um conjunto de pessoas a passar um serão na sua casa misteriosa e é aí que a acção começa. Nós encarnamos numa misteriosa personagem simplesmente chamada de “Ego”, que tem o cliché de sofrer de amnésia e não saber como foi ali parar. Também vamos vendo alguns clips de vídeo dos anteriores convidados a chegar à casa, como se fantasmas se tratassem.

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Henry Stauf, o antagonista do jogo também tem direito ao seu próprio puzzle

A exploração da casa é toda ela feita na primeira pessoa, onde com o rato podemos clicar em vários locais no ecrã e de acordo com o tipo de ponteiro do rato que nos aparece, podemo-nos deslocar nessa direcção, ver cutscenes “dramáticas” dos restantes convidados que vão contribuindo para a história, outros eventos mais “assustadores”, ou então a resolução de puzzles. Inicialmente dispomos apenas de 2 locais que podemos visitar e à medida que vamos resolvendo mais puzzles, novos locais da casa vão sendo desbloqueados, com mais puzzles para resolver e cutscenes para assistir. Os puzzles ao contrário de muitos outros jogos de aventura point and click aqui fazem completa justiça ao seu nome, pois são mesmo puzzles lógicos (e não só) que teremos de resolver, como vários baseados em peças de xadrez, cartas, adivinhar palavras ou ordenar letras e por aí fora, ou outros bem mais “chatinhos” como um jogo de Reversi num microscópio ou mesmo seguir uma melodia de 18 notas num piano. Felizmente existe um hint book localizado na biblioteca da casa que nos vai dando algumas dicas de como resolver cada puzzle. Se o livro for consultado três vezes para um determinado puzzle, o jogo assume que o jogador completou o puzzle, mas com uma pequena penalização de não ver a cutscene que seria desbloqueada ao completá-lo normalmente.

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A baixa resolução e poucas cores não permitiram filmagens de elevada qualidade, mais uma razão para o jogo ter envelhecido mal

Graficamente é um jogo algo primitivo, apesar dos seus cenários completamente pré-renderizados e as tais cutscenes em full motion video com actores reais terem sido verdadeiramente impressionantes na época em que o jogo saiu. Hoje em dia, esses mesmos cenários pré-renderizados são bastante simples e a qualidade das filmagens também deixa a desejar, até porque o jogo corre em resoluções muito baixas para os standards actuais. Mas este é mesmo daqueles jogos em que temos forçosamente de os analisar tendo em conta o contexto temporal e para os padrões de 1993 está um produto muito bem conseguido. Os actores em si não são propriamente um elenco de luxo, o acting não é o melhor, mas sinceramente acho que isso também faz parte do charme, assim como de vez em quando até sabe bem ver uma paródia qualquer de Bollywood só para nos divertirmos. Devo dizer no entanto que gostei bastante das distorções “maléficas” que foram dando a algumas vozes de forma a torná-las mais assustadoras. A música no geral é algo atmosférica e tensa, mas infelizmente não é muito variada. De qualquer das formas não é nada que não se aguente.

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Muitos dos puzzles existentes abordam regras do Xadrez… pena que eu não as saiba!

Concluindo, acho este The 7th Guest um clássico dos jogos de aventura de PC da primeira metade da década de 90. Embora tenha envelhecido mal com todos estes anos, o que é normal em practicamente todos os jogos do género com FMV à mistura, não deixou de ser uma peça fundamental dentro do género, abrindo caminho a clássicos como os Phantasmagoria de serem produzidos. Actualmente é um jogo que se consegue arranjar com alguma facilidade no steam com boas promoções, pelo que recomendo a sua compra a todos os que ficaram curiosos com o jogo.