The Pixel Pulps Collection – Special Edition (Nintendo Switch)

Tempo de voltar à Nintendo Switch para um lançamento que, não fosse um amigo e colega do painel do podcast TheGamesTome, me teria passado completamente despercebido. Produzido por um pequeno estúdio argentino, a LCB Games, este título é na verdade uma compilação de três visual novels curtas, todas elas com um estilo visual muito retro, uma boa pixel art e narrativas centradas na temática do horror, algo que naturalmente me agrada. O meu exemplar foi comprado na loja xtralife, algures no final de Novembro do ano passado, por pouco mais de 25€.

Compilação com caixa, sleeve exterior de cartão e 3 postais

Esta compilação inclui três jogos, Mothmen 1966, Varney Lake e Bahnsen Knights. Começando pelo que é comum aos três títulos, é impossível não mencionar os seus visuais retro, assentes numa pixel art minimalista e numa paleta de cores bastante reduzida. Por várias vezes tive a sensação de estar a jogar um título de ZX Spectrum ou de DOS com gráficos em CGA, tal era a limitação cromática. Os sons seguem uma abordagem igualmente minimalista e, apesar da sua simplicidade, acabam por resultar numa atmosfera frequentemente tensa, algo particularmente bem conseguido em Mothmen 1966.

A narrativa deste Mothmen 1966 é provavelmente a mais bem conseguida desta trilogia

O primeiro jogo da compilação, Mothmen 1966, foi lançado originalmente em 2022 e trata-se de uma visual novel bastante curta e linear. Ao longo de cerca de duas horas acompanhamos um conjunto de personagens que se deparam com um fenómeno estranho: enquanto decorre uma chuva de meteoritos, começam também a surgir inúmeras criaturas bípedes, semi-humanas e animalescas. Apesar de, ocasionalmente, termos algumas decisões a tomar nos diálogos, a narrativa é maioritariamente linear, sendo pontuada aqui e ali por pequenos puzzles. Tal como referi anteriormente, a atmosfera criada é bastante eficaz e a narrativa, apesar da sua curta duração, acaba por ser igualmente bem conseguida.

Se me dissessem que a paleta de cores do Varney Lake foi inspirada nas capacidades do ZX Spectrum eu não duvidaria

O segundo título da compilação é Varney Lake, lançado em 2023. Aqui a narrativa leva-nos a controlar sobretudo um grupo de crianças que passava as férias de verão junto de um lago algures no interior norte-americano. No meio de todos os planos típicos dessa época, acabam por conhecer, quase por acidente, um vampiro, a quem decidem ajudar. A partir daí, a narrativa acompanha a forma como a relação entre esse grupo e a estranha figura vai evoluindo ao longo do verão. Continua a ser uma aventura curta, mas desta vez com alguma não linearidade, já que certas escolhas podem conduzir a finais distintos. Muitas dessas decisões passam pela participação em mini-jogos, como cartas, pesca, dados ou puzzles, cuja implementação nem sempre é a mais intuitiva. No que toca à narrativa, confesso que a achei mais fraca do que a do seu antecessor, embora tenha apreciado as ligações estabelecidas com Mothmen 1966, nomeadamente o regresso de algumas personagens.

Em Bahnsen Knights os visuais já têm tons mais avermelhados e rosa

Segue-se, por fim, Bahnsen Knights, também lançado em 2023. Neste jogo controlamos um agente infiltrado numa organização criminosa de forte extremismo religioso, com o objectivo de reunir provas suficientes que incriminem o seu líder. Ao contrário dos restantes títulos da trilogia, este é o único que não tem qualquer conotação paranormal. Ainda assim, a forma como a narrativa é construída não lhe retira tensão, sobretudo porque muitas das acções que podemos realizar aumentam o nível de suspeição que os restantes membros do grupo têm em relação à nossa personagem. Trata-se novamente de uma experiência mais linear, com um único final possível, embora existam diferentes formas de lá chegar, recorrendo a puzzles ou mini-jogos distintos. Desta vez, os mini-jogos pareceram-me menos irritantes, com a excepção do último, uma espécie de beat ’em up cujo factor aleatório no movimento dos inimigos pode causar algumas frustrações. Segmentos de acção pura integrados em interfaces point and click raramente resultam bem e aqui, infelizmente, não são excepção.

Bahnsen Knights distingue-se também ligeiramente dos títulos anteriores no plano audiovisual. Os gráficos mantêm uma pixel art interessante, embora menos minimalista, com um tom predominantemente avermelhado ao longo de toda a experiência. Os efeitos sonoros são também um pouco mais trabalhados, recuperando ainda alguns dos ruídos de fundo mais tensos presentes no primeiro jogo, algo que considero um ponto positivo.

Por outro lado, ocasionalmente teremos alguns mini-jogos que não funcionam muito bem numa interface point and click.

No final de contas, Pixel Pulps Collection acaba por ser uma colectânea interessante, sobretudo para um nicho de jogadores apreciadores de aventuras narrativas e visual novels, em particular para quem tem uma queda por este tipo de estética retro, aqui globalmente bem conseguida. São, no entanto, experiências bastante curtas e alguns dos mini-jogos obrigatórios nem sempre estão à altura do restante conjunto. Ainda assim, a LCB Games ficou no meu radar, até porque, após esta trilogia, lançou mais um título da mesma saga no final de 2024, Grizzly Man, que já se encontra na minha wishlist da Steam. Se no futuro houver direito a mais jogos e a uma nova compilação em formato físico, tanto melhor!

A Space for the Unbound (Nintendo Switch)

Tempo de voltar à Nintendo Switch para algo que já não acontecia há bastante tempo: comprar um jogo por impulso, simplesmente porque a arte, as imagens promocionais e a descrição me despertaram bastante curiosidade. E quando a uma compra por impulso se junta uma óptima surpresa pela agradável experiência de jogo, tanto melhor! O meu exemplar foi comprado novo, a um particular na Vinted, por pouco mais de 25€ no final do mês de Janeiro deste ano.

Jogo com caixa, folheto com código de descarga da banda sonora e um livro com alguns spoilers. Ainda bem que só o folheei depois de acabar o jogo!

Escrever sobre a narrativa desta obra é uma tarefa algo ingrata, pois é bastante original e corro o risco de estragar a surpresa a quem ainda a for descobrir. Digamos apenas que, nesta aventura, controlamos Atma, um jovem estudante da escola secundária algures numa zona rural da Indonésia dos anos 90. Começamos por explorar a relação de amizade entre Atma e uma jovem criança, que nitidamente vive uma situação familiar delicada. Entretanto, as coisas tomam um rumo inesperado e Atma é acordado na sala de aula pela sua namorada, Raya. Sendo ambos finalistas do ensino secundário e com um futuro incerto pela frente, decidem criar uma bucket list com tarefas que gostariam de concretizar juntos. A primeira da lista: ver um filme no cinema. No entanto, rapidamente percebemos que nem tudo é o que parece. Raya revela ter habilidades paranormais, capazes de alterar a realidade à sua volta, e Atma adquire um misterioso livro que lhe permite fazer space dives, ou seja, entrar na mente de outras pessoas para ajudá-las a ultrapassar traumas e bloqueios emocionais. Estas sequências serão fulcrais ao longo do jogo. Tudo isto, combinado com uma ameaça iminente de fim do mundo, resulta numa narrativa envolvente e surpreendente, que por vezes me fez lembrar certos tons de filmes como Donnie Darko.

Visualmente este é um jogo muito apelativo pelo seu detalhe em pixel art

A nível de mecânicas, esta é, acima de tudo, uma aventura narrativa com uma forte componente point-and-click. Iremos explorar a pequena cidade indonésia onde a acção decorre, interagir com os seus habitantes e recolher objectos que serão necessários para resolver pequenos puzzles e avançar na história. Ocasionalmente surgem segmentos de acção, como momentos de furtividade em que teremos de atravessar zonas sem sermos detectados, ou confrontos com vários quick time events. Existem ainda diversos coleccionáveis associados à bucket list de Atma e Raya: desde apanhar caricas espalhadas pela cidade a acariciar todos os animais com que nos cruzarmos.

A interface “point and click” usa um sistema de ícones que representam acções ou utilizar eventuais objectos que tenhamos no inventário

Graficamente, A Space for the Unbound impressiona desde o início. Os visuais pixel art em 2D apresentam um excelente nível de detalhe, evocando a estética das consolas de 16-bit, mas com cenários ainda mais cuidados e bonitos efeitos de parallax scrolling. A banda sonora acompanha bem a atmosfera, composta por temas calmos e melodias melancólicas que acentuam o tom intimista da narrativa. Não existe voice acting, mas esta ausência não é negativa: o texto está bem escrito e a história mantém toda a sua força emocional.

Ocasionalmente temos também algumas sequências de acção com combates com QTE.

Assim, volto a reiterar que A Space for the Unbound foi uma excelente surpresa. A sua narrativa envolvente, aliada a visuais retro muito apelativos para o meu gosto, proporcionou-me uma experiência bastante gratificante. Aparentemente, o jogo inclui várias aparições de personagens oriundas de outros títulos indie do mesmo pequeno estúdio, a Mojiken, pelo que ficarei atento às suas futuras obras.