Fushigi no Umi no Nadia (Sega Mega Drive)

Tempo de voltar à Sega Mega Drive para um título muito curioso do seu catálogo, exclusivo do território japonês. Produzido pela Namco em 1991, este é um jogo baseado no anime de mesmo nome, conhecido no Ocidente por Nadia: The Secret of Blue Water. A série foi produzida pela Gainax, o mesmo estúdio que mais tarde nos trouxe o aclamado Neon Genesis Evangelion, e, ainda na primeira metade dos anos 90, foram lançadas várias adaptações do anime para videojogos, todas elas bastante distintas entre si e desenvolvidas para diferentes plataformas. A Gainax esteve por detrás dos lançamentos para computadores japoneses, enquanto outras empresas, como foi o caso da Namco, ficaram responsáveis pelas versões para consolas. O meu exemplar foi comprado no início de 2024, na loja francesa Gameswave, durante uma campanha de Inverno que decorreu nessa altura. Custou-me cerca de 30€.

Jogo com caixa, manual e papelada

Não conhecia o conceito do anime antes de ter jogado este título. O jogo leva-nos a controlar Jean, um jovem inventor francês que, em conjunto com o seu tio, se preparava para mostrar ao mundo o seu avião. A aventura começa precisamente em Paris, durante a célebre exposição que ficaria marcada pela inauguração do seu monumento mais emblemático, a Torre Eiffel. É durante esses preparativos que Jean conhece a exótica Nadia, artista de um circo que estava de passagem pela cidade. Nesse mesmo momento, Nadia vê-se perseguida por um grupo de bandidos que a tenta raptar, levando Jean a intervir prontamente para a ajudar. A fuga acaba por levá-los para fora de Paris, mas o avião despenha-se numa ilha remota a meio do oceano. É a partir daí que a trama começa a adensar-se e as influências do escritor Júlio Verne se tornam cada vez mais evidentes na narrativa.

Não é por acaso que o jogo seja ocasionalmente confundido com um RPG, pois utiliza a mesma perspectiva tradicionalmente utilizada por jogos desse género nesta geração

Estamos, portanto, perante um jogo de aventura com um grafismo e uma interface muito semelhantes aos que os JRPGs da época nos habituaram. O mundo é apresentado numa perspectiva vista de cima e existe também um sistema de menus que facilmente poderia ser confundido com o de um RPG. No entanto, de RPG o jogo não tem nada. Trata-se de um jogo de aventura puro, onde teremos de explorar cenários, falar com personagens, recolher e interagir com objectos de forma a progredir na história. O botão A serve para iniciar diálogos ou interagir com os cenários, enquanto o botão C abre um menu que nos permite utilizar itens que as nossas personagens transportam consigo, falar com os colegas de equipa ou, em alguns casos, deslocar-nos rapidamente entre áreas já visitadas.

Ocasionalmente temos direito a certas cenas com imagens mais trabalhadas, que acredito terem sido retiradas directamente do anime

É um jogo muito simples nas suas mecânicas, mas que acaba por prolongar artificialmente a sua longevidade pelas piores razões. A repetitividade de algumas tarefas e a organização bastante labiríntica de certos cenários obrigam-nos a explorá-los exaustivamente para resolver alguns puzzles. Um bom exemplo disso surge numa secção em que nos encontramos a bordo de um submarino atacado por forças inimigas. Jean, sendo um inventor com um gosto especial por mecânica, é chamado a auxiliar os engenheiros da embarcação a reparar o motor. O mecânico-chefe pede-nos então que subamos vários andares para procurar uma peça específica, apenas para nos dizer, no regresso, que afinal não era a correcta e que será necessária outra diferente. Como se isso não bastasse, esta mesma tarefa terá ainda de ser repetida mais duas vezes. Tendo em conta que o jogo não possui qualquer sistema de gravação de progresso, recorrendo apenas a passwords atribuídas em pontos específicos da história, a recta final torna-se particularmente penosa de completar numa só assentada. Ainda bem que joguei por emulação e pude recorrer aos save states!

Sinceramente até achei a narrativa bastante interessante e fiquei com vontade de ver o anime!

No que toca aos audiovisuais, estamos perante um jogo competente, mas modesto. Os cenários não são tão detalhados quanto os de outros RPGs da Mega Drive que partilham uma abordagem visual semelhante, embora se destaquem pela variedade dos locais que iremos visitar. O jogo apresenta ainda algumas sequências com animações simples, que tudo indica terem sido influenciadas pelo próprio anime em que se baseia. As músicas são agradáveis e os efeitos sonoros simples, mas eficazes, cumprindo bem o seu papel.

No fim de contas, e salvaguardando os pontos negativos já mencionados, devo dizer que gostei bastante da experiência como um todo. A narrativa revelou-se interessante e deixou-me com vontade de conhecer o anime um dia destes. Depois de saber que a Gainax reutilizou ideias e conceitos originalmente pensados para um projecto inacabado relacionado com Nadia em Neon Genesis Evangelion, essa curiosidade aumentou ainda mais. Convém também recordar que o anime recebeu várias adaptações para videojogos ao longo dos anos. Até ao momento, apenas a versão da Mega Drive e a da NES, esta última mais próxima de um RPG, receberam patches de tradução feitos por fãs. Ainda assim, estou especialmente curioso com a versão PC Engine CD, produzida pela Hudson, e espero que um dia venha também a receber um patch de tradução, já que gostei bastante do que vi.

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Autor: cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.

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