Paradise Café (ZX Spectrum)

Tempo de voltar ao velhinho ZX Spectrum para um produto nacional, bastante icónico da década de 80. Toda a gente já ouviu falar de Paradise Café, nem que seja pela infame cena em que, depois de usufruirmos dos serviços providenciados por uma jovem empreendedora, se não tivermos dinheiro para os pagar, ela chama o Reinaldo, um indivíduo africano bem avantajado que nos faz pagar de outra forma. Trata-se de um lançamento envolto em mistério, já que, passados mais de 40 anos, continuamos sem saber quem foi o seu criador. Acresce ainda o facto de ter sido lançado numa altura em que a lei portuguesa não contemplava qualquer legislação sobre pirataria informática, o que fez deste, muito provavelmente, o jogo português mais pirateado de sempre. Avançando várias décadas no tempo, eis que, no ano passado, a Larvae, uma editora nacional que até então se focava exclusivamente em lançamentos musicais dentro do metal extremo e mais underground (conheço pessoalmente o seu fundador), anunciou uma reedição supostamente oficial de Paradise Café, com o intuito de celebrar os 40 anos do lançamento original. Quem é Damatta? Continuamos a não saber. O meu exemplar foi adquirido directamente ao fundador da Larvae, algures no final de Abril de 2025, por cerca de 12€, se a memória não me falha.

Jogo com caixa, edição de 40 anos.

Fui também recentemente desafiado pelos meus colegas do podcast TheGamesTome a jogar este título no âmbito da rubrica Backlog Battlers, uma espécie de clube de leitura onde nos desafiamos uns aos outros a jogar títulos dos nossos backlogs pessoais para depois os discutirmos em conjunto. Como tem sido habitual sempre que algo é jogado neste contexto, deixo abaixo um link para o episódio onde me podem ouvir a falar sobre este Paradise Café.

No que toca às mecânicas de jogo, Paradise Café é extremamente simples. Controlamos um jovem que vagueia pelas ruas da cidade, que assumo ser Lisboa, e, de forma aleatória, certas portas vão-se abrindo. De lá podem sair uma velhinha, um bandido, um polícia, a entrada para o próprio Paradise Café ou a tal menina empreendedora que nos convida a entrar para solicitar alguns dos seus serviços. Quem se encontra por detrás de cada porta é completamente aleatório. Começamos a aventura com 30 000 escudos (o equivalente a cerca de 150€ na unidade monetária actual) e o objectivo resume-se a fazer o maior número de pontos possível.

Esta re-edição inclui um ecrã título diferente e, supostamente alguns bugs corrigidos do lançamento original

Dada esta natureza aleatória, podemos ter azar logo no início e as primeiras portas que se abrem serem as do ladrão, que nos pode roubar todo o dinheiro. O ideal é, por isso, entrar no Paradise Café assim que possível. No interior começamos por consumir bebidas, mas ocasionalmente surgem certas personagens que nos fazem propostas de negócio, como comprar uma pistola por 1000 escudos, comprar ou vender droga ou, eventualmente, recomprar a carteira que nos havia sido roubada anteriormente. No entanto, se já não tivermos dinheiro por termos sido assaltados antes, não temos como pagar a nossa carteira de volta, nem sequer o consumo de bebidas do bar. Quando tentamos sair e o funcionário nos pede para pagar a conta, como não temos dinheiro, chama a polícia e acabamos presos. Este é um dos cenários de game over. A primeira coisa que queremos comprar é, então, a pistola, já que esta nos permite defender do ladrão. Ao pressionar a tecla 0 (zero), disparamos e o ladrão foge a gritar pela sua mãezinha. Estar na posse da pistola abre-nos também outras possibilidades. Sempre que passamos pela velhinha podemos pressionar a tecla A (assalto) ou V (violar), sendo que o resultado dessas acções dispensa grande explicação. Assaltar a velhinha permite-nos ganhar algum dinheiro extra, o que pode ser crucial para recomprar a carteira no Paradise Café caso não tenhamos reagido a tempo ao aparecimento do ladrão. A outra opção concede-nos mais pontos, sendo que, no final, a própria velhinha afirma até ter gostado da acção e diz que merecemos uns 100 pontos extra, o que torna toda esta situação, no mínimo, desconcertante.

Coitada da velhinha!

O outro cenário de game over ocorre quando estamos sem carteira e o polícia nos pede para mostrar os documentos. Se não tivermos a carteira na nossa posse, acabamos igualmente presos. Curiosamente, quando visitamos a menina empreendedora e não temos dinheiro para pagar a conta, o Reinaldo aparece e obriga-nos a pagar de outra forma. Podemos ficar com a honra manchada, mas isso não resulta num game over. Este é, sem dúvida, o episódio mais icónico de todo Paradise Café. Reza a lenda que terá sido inspirado num rumor bastante difundido na época: as más línguas diziam que Lena Coelho, uma das integrantes da girls band Doce, teria sido internada após relações sexuais com um certo jogador negro do Benfica. Verdade ou não, o certo é que esse jogador acabaria por ser afastado do clube depois de os boatos ganharem força.

Podemos responder que não, mas depois a personagem chama-nos de maricas.

No campo audiovisual, Paradise Café chamava à atenção pelos seus sprites grandes e relativamente bem detalhados, apesar de o design artístico, no geral, não ser nada de especial. As cenas de conteúdo adulto eram bastante gráficas e, tendo o jogo sido inicialmente comercializado de forma livre, sem qualquer controlo parental, é fácil imaginar que muitos pais, chocados com o que viam no ecrã da televisão, tenham ido reclamar às lojas de electrónica e informática. Mais tarde surgiram relançamentos com capas de cariz sexual explícito (com a playmate Penny Baker na capa) e com a indicação de venda interdita a menores, algo praticamente inédito num videojogo distribuído em Portugal. No que toca ao som, este é praticamente inexistente, limitando-se ao ruído dos disparos da pistola.

Em suma, Paradise Café é um jogo simples e repetitivo a nível mecânico. A sua aleatoriedade pode levar a um game over poucos minutos após o início, caso sejamos assaltados antes de termos oportunidade de comprar uma arma para nos defendermos. Torna-se rapidamente repetitivo, mas isso não invalida o seu estatuto icónico. É um jogo que marcou uma geração, essencialmente pelo conteúdo adulto e pela polémica que gerou. Num país profundamente conservador, sobretudo durante a década de 80, compreende-se perfeitamente porque razão Damatta terá preferido manter o anonimato, mesmo passadas várias décadas.

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Autor: cyberquake

Nascido e criado na Maia, Porto, tenho um enorme gosto pela Sega e Nintendo old-school, tendo marcado fortemente o meu percurso pelos videojogos desde o início dos anos 90. Fã de música, desde Miles Davis, até Napalm Death, embora a vertente rock/metal seja bem mais acentuada.

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